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Resumos/Literatura Portuguesa/O teatro de Gil Vicente
Resumos · Literatura PortuguesaPT · Secundário

O teatro de Gil Vicente

Gil Vicente (c. 1465–c. 1536), fundador do teatro português, escreveu para as cortes de D. Manuel I e D. João III uma vasta obra que a tradição classifica em autos e farsas. A Farsa de Inês Pereira (1523) é uma comédia de costumes de aguda sátira social, enquanto Dom Duardos representa o teatro de temática cavaleiresca. Em toda a sua obra, a comicidade serve uma crítica dos tipos e dos vícios da sociedade do seu tempo.

5 secções·~15 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 3 · Aprofundamento 1

T·0555 / 17
Perfil de exame
Situar Gil Vicente como fundador do teatro portuguêsClassificar a obra vicentina (autos, farsas, teatro cavaleiresco)Analisar a intriga e as personagens-tipo da Farsa de Inês PereiraReconhecer a sátira social e os processos cómicos
Operadores:situaclassificaanalisacaracterizainterpretajustifica

nível básico

Distinguir auto de farsa e reconhecer a sátira e o cómico na Farsa de Inês Pereira.

nível avançado

Analisar o sistema de personagens-tipo, os processos cómicos e a crítica social, comparando a farsa com o teatro cavaleiresco (Dom Duardos).

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. O teatro de Gil Vicente
    • 01Gil Vicente e o teatro vicentino○
    • 02A classificação da obra vicentina◐
    • 03A Farsa de Inês Pereira◐
    • 04Dom Duardos e o teatro cavaleiresco◐
    • 05A sátira social e a comicidade●
§ 01

Gil Vicente e o teatro vicentino#

●○○BaseLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-vicente

Pontos-chave

Gil Vicente (c. 1465 – c. 1536) é o fundador do teatro português: antes dele, não existia em Portugal um teatro literário organizado. Homem da corte, ao serviço de D. Manuel I e depois de D. João III, escreveu e encenou as suas peças para festas e cerimónias régias, entre 1502 e 1536. A sua obra — cerca de quatro dezenas de peças, em português e em castelhano — inaugura e, num só autor, leva ao auge o teatro nacional (ver Fig. 1).

A carreira de Gil Vicente

A carreira de Gil VicenteLinha do tempo de 1500 a 1540, 1502: Auto da Visitação (estreia), 1517: Auto da Barca do Inferno, 1522: Dom Duardos, 1523: Farsa de Inês Pereira, 1502–1536: Atividade dramática de Gil Vicente15001540anoAtividadedramática de Gil …1502Auto daVisitação (estr…1517Auto da Barca doInferno1522Dom Duardos1523Farsa de InêsPereira
Fig. 1Fig. 1 — A carreira dramática de Gil Vicente.
A primeira peça, o Auto da Visitação (ou Monólogo do Vaqueiro), foi representada em 1502, na câmara da rainha, para celebrar o nascimento do futuro D. João III. A partir daí, Gil Vicente produziu regularmente, ao longo de mais de três décadas, um teatro variadíssimo — religioso e profano, sério e cómico, alegórico e realista — sempre ligado às circunstâncias da corte e da vida social do seu tempo.
O teatro vicentino é ainda um teatro medieval e renascentista ao mesmo tempo: conserva a religiosidade, a alegoria e a moralidade medievais, mas abre-se já ao gosto renascentista pela matéria clássica e cavaleiresca e a uma observação viva e crítica da realidade. Combina o verso (muitas vezes a redondilha), a música e a dança, e recorre a uma linguagem rica, que vai do calão popular ao latim macarrónico e ao castelhano.
O valor de Gil Vicente está tanto na fundação de um género como na sua extraordinária capacidade de retratar a sociedade portuguesa quinhentista. Nas suas peças desfilam todas as classes e todos os tipos — fidalgos e lavradores, clérigos e alcoviteiras, mercadores e escudeiros —, observados com humor e com um agudo sentido crítico. É este cruzamento de comicidade e crítica social que faz do teatro vicentino uma obra fundamental da literatura portuguesa.
Exemplo resolvido

O lugar de Gil Vicente

Por que se afirma que Gil Vicente «funda e, ao mesmo tempo, leva ao auge» o teatro português?

  1. 01A fundação

    Antes dele não havia teatro literário organizado em Portugal; a sua obra inaugura o género.

  2. 02O auge

    Num só autor, o teatro atinge logo enorme variedade e qualidade (autos, farsas, teatro cavaleiresco).

  3. 03Concluir

    Gil Vicente é simultaneamente ponto de partida e cume do teatro português quinhentista.

Resultado: Gil Vicente funda o teatro português (não existia antes um teatro literário organizado) e, na mesma obra, leva-o ao auge, pela variedade e qualidade das suas peças.

Foco no Exame Nacional

  • Situar Gil Vicente (c. 1465–c. 1536) como fundador do teatro português.
  • Reconhecer a ligação do teatro vicentino à corte e o marco do Auto da Visitação (1502).
  • Reconhecer o cruzamento de heranças medievais e renascentistas.

Erros frequentes

  • Julgar que existia teatro literário organizado antes de Gil Vicente.
  • Reduzir o teatro vicentino a comédia, ignorando as peças religiosas e alegóricas.
  • Esquecer a ligação à corte e a função cerimonial das peças.

Revisão ativa

Explica por que motivo Gil Vicente é considerado o fundador do teatro português e qual a peça que inaugura a sua obra.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

A classificação da obra vicentina#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-vicente

Pontos-chave

A obra vicentina é muito variada, e a sua classificação não é rígida — o próprio autor usava designações como «auto», «farsa», «tragicomédia» ou «obra». A tradição crítica organiza-a, contudo, em grandes grupos que ajudam a orientar a leitura: as obras de temática religiosa e moral, as farsas, o teatro de temática cavaleiresca e novelesca, e as peças alegóricas ou de circunstância (ver Fig. 2).

A classificação da obra vicentina

A classificação da obra vicentinaDiagrama em árvore, 4 caminhos, Dados: Religioso / moral → Trilogia das Barcas; Farsas → Inês Pereira; Auto da Índia; Cavaleiresco → Dom Duardos; Amadis; Alegórico / circunstância → Auto da LusitâniaReligioso / moralFarsasCavaleirescoAlegórico / circunstânciaObra vicentinaTrilogia das BarcasInês Pereira; Auto da ÍndiaDom Duardos; AmadisAuto da Lusitânia
Fig. 2Fig. 2 — Os grandes grupos da obra de Gil Vicente.
As obras de temática religiosa e moral herdam a tradição medieval do teatro sacro e da moralidade. O exemplo maior é a Trilogia das Barcas (Auto da Barca do Inferno, do Purgatório e da Glória), em que as almas dos mortos, representando os vários estados sociais, são julgadas e embarcam para o Inferno ou para a Glória — uma sátira moral sob forma alegórica. O Auto da Alma segue o mesmo veio: dramatiza a luta pela salvação da alma humana.
As farsas são comédias de costumes, breves e realistas, que retratam com humor a vida quotidiana e os seus tipos sociais. Nelas, Gil Vicente critica pelo riso: a Farsa de Inês Pereira, o Auto da Índia, o Quem Tem Farelos? e O Velho da Horta pintam maridos e mulheres, escudeiros e alcoviteiras, velhos apaixonados e criados manhosos. É o veio mais realista e satírico do teatro vicentino.
O teatro de temática cavaleiresca e novelesca abre-se ao gosto renascentista pela matéria dos romances de cavalaria: Dom Duardos e Amadis de Gaula dramatizam histórias de amor e de aventura da tradição novelesca, com lirismo e idealização. A par destes grupos, há ainda peças alegóricas e de circunstância, como as Cortes de Júpiter ou o Auto da Lusitânia. Conhecer esta arrumação permite situar cada peça e escolher a chave de leitura adequada.
Exemplo resolvido

Classificar uma peça

Uma peça vicentina dramatiza o julgamento das almas dos mortos, que embarcam para o Inferno ou para a Glória segundo os seus pecados. A que grupo pertence?

  1. 01Reconhecer o tema

    O julgamento das almas e a alegoria da salvação são temas religiosos e morais.

  2. 02Identificar a forma

    As almas representam estados sociais numa estrutura alegórica — a Trilogia das Barcas.

  3. 03Classificar

    Pertence às obras de temática religiosa e moral.

Resultado: É uma obra de temática religiosa e moral (a Trilogia das Barcas): dramatiza, sob forma alegórica, o julgamento das almas e a sátira dos estados sociais.

Foco no Exame Nacional

  • Classificar as peças vicentinas nos grandes grupos (religioso/moral, farsa, cavaleiresco, alegórico).
  • Associar obras a cada grupo (Trilogia das Barcas; Inês Pereira; Dom Duardos).
  • Reconhecer a farsa como comédia de costumes e sátira social.

Erros frequentes

  • Aplicar a classificação como se fosse rígida e definitiva.
  • Confundir auto (frequentemente religioso/moral ou alegórico) com farsa (comédia de costumes).
  • Classificar Dom Duardos como farsa, sendo teatro cavaleiresco.

Revisão ativa

Classifica cada uma das seguintes peças no grupo adequado: Auto da Barca do Inferno, Farsa de Inês Pereira, Dom Duardos.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

A Farsa de Inês Pereira#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-vicente

Pontos-chave

A Farsa de Inês Pereira, representada em 1523, é uma das obras-primas do teatro vicentino. Segundo a tradição, Gil Vicente tê-la-á escrito para provar que sabia dramatizar um provérbio — «Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube» —, e é em torno desse dito que gira toda a intriga. Inês Pereira é uma jovem casadoira, vaidosa e ambiciosa, farta da vida modesta e do trabalho, que sonha com um casamento que a eleve socialmente.
A intriga opõe dois pretendentes. De um lado, Pero Marques, um lavrador rico mas simplório, honesto e desajeitado, que Inês despreza por rústico. Do outro, um Escudeiro (Brás da Mata), fidalgo pobre mas de fala fina e boas maneiras, por quem Inês se deixa encantar. Contra o conselho da mãe e com a ajuda da alcoviteira Lianor Vaz e dos casamenteiros, Inês casa com o Escudeiro — o «cavalo» do provérbio (ver Fig. 3).

O sistema de personagens de Inês Pereira

O sistema de personagens de Inês PereiraGrafo, Inês Pereira → Escudeiro (o «cavalo»), Inês Pereira → Pero Marques (o «asno»), Mãe → Inês Pereira, Lianor Vaz (alcoviteira) → Inês PereiraInês PereiraEscudeiro (o«cavalo»)Pero Marques(o «asno»)MãeLianor Vaz(alcoviteira)1.º casamento2.º casamentoaconselhaarranjacasamento
Fig. 3Fig. 3 — Inês Pereira entre os dois pretendentes.
O casamento revela-se um desastre: o Escudeiro, afinal, é tirano, ciumento e mesquinho, que fecha Inês em casa e a maltrata. Parte para a guerra em África, onde morre — não como herói, mas por cobardia, fugindo. Viúva, Inês aprendeu a lição: casa então com Pero Marques, o «asno» do provérbio, que agora domina e engana a seu belo prazer, chegando, no desfecho, a fazê-lo carregá-la às costas para ir ter com um ermitão (o amante). O provérbio cumpre-se.
As personagens de Inês Pereira são personagens-tipo: não indivíduos psicologicamente complexos, mas figuras que encarnam um tipo social e um comportamento — a moça ambiciosa, o fidalgo vaidoso e pobre, o lavrador simples, a alcoviteira, os casamenteiros. Através delas, Gil Vicente satiriza a sociedade do seu tempo: a ilusão da ascensão social, a vaidade da falsa nobreza, a hipocrisia dos costumes e a condição da mulher, presa entre o casamento e a falta de liberdade.
Exemplo resolvido

A lição do provérbio

Como é que o desfecho da Farsa de Inês Pereira confirma o provérbio que lhe deu origem?

  1. 01O primeiro casamento

    Inês casa com o Escudeiro, elegante mas tirano — o «cavalo» que a «derruba» (a maltrata).

  2. 02A viuvez

    O Escudeiro morre por cobardia; Inês, escaldada, muda de critério.

  3. 03O segundo casamento

    Casa com Pero Marques, simples e submisso — o «asno que a leva», que ela domina e engana.

Resultado: O desfecho confirma o provérbio: escaldada pelo «cavalo» (o Escudeiro que a derruba), Inês prefere o «asno» (Pero Marques, submisso), a quem domina — a farsa dramatiza, assim, o dito popular.

Foco no Exame Nacional

  • Reconstituir a intriga da Farsa de Inês Pereira e o provérbio que a organiza.
  • Caracterizar as personagens-tipo (Inês, Escudeiro, Pero Marques, alcoviteira).
  • Explicar a sátira social (ascensão social, falsa nobreza, condição da mulher).

Erros frequentes

  • Ver as personagens como indivíduos psicológicos, e não como tipos sociais.
  • Trocar os papéis dos pretendentes (o Escudeiro é o «cavalo»; Pero Marques, o «asno»).
  • Reduzir a farsa ao riso, ignorando a crítica social.

Revisão ativa

Explica como a Farsa de Inês Pereira dramatiza o provérbio «Mais quero asno que me leve, que cavalo que me derrube», identificando o «asno» e o «cavalo».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Dom Duardos e o teatro cavaleiresco#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-vicente

Pontos-chave

Dom Duardos representa o outro polo do teatro vicentino: o teatro de temática cavaleiresca e novelesca, escrito em castelhano e inspirado na matéria dos romances de cavalaria peninsulares. Longe do realismo satírico da farsa, é uma peça de idealização, lirismo e amor cortês, que dramatiza uma história de amor e de aventura da tradição novelesca.
A intriga é uma história de amor que vence os obstáculos sociais: Dom Duardos, príncipe de Inglaterra, apaixona-se por Flérida, filha do imperador Palmeirim de Constantinopla. Para a conquistar, disfarça-se de hortelão (jardineiro) e serve humildemente no jardim do palácio, escondendo a sua condição régia. Pela força do amor, e não do estatuto, conquista Flérida, que acaba por fugir com ele — o amor iguala e transcende as diferenças de nascimento.
O teatro cavaleiresco distingue-se da farsa em quase tudo: enquanto a farsa é breve, realista, cómica e crítica, o teatro cavaleiresco é idealizado, lírico, sério e amoroso; enquanto a farsa retrata tipos sociais do quotidiano, o teatro cavaleiresco dá vida a príncipes e princesas de um mundo novelesco. As personagens não são tipos satíricos, mas figuras idealizadas, movidas por um amor absoluto (ver Fig. 4).

Farsa e teatro cavaleiresco

Farsa e teatro cavaleirescoTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Farsa (Inês Pereira) · Cavaleiresco (Dom Duardos); Tom · Realista, cómico, satírico · Idealizado, lírico, sério; Personagens · Tipos sociais do quotidiano · Príncipes e princesas novelescos; Amor · Interesse, ilusão social · Amor absoluto, cortês; Intenção · Crítica de costumes · Exaltação do amor; Língua · Português · Castelhano, célula destacada: Amor absoluto, cortêsASPETOFARSA (INÊS PEREIRA)CAVALEIRESCO (DOMDUARDOS)TOMRealista, cómico, satíricoIdealizado, lírico, sérioPERSONAGENSTipos sociais do quotidianoPríncipes e princesasnovelescosAMORInteresse, ilusão socialAmor absoluto, cortêsINTENÇÃOCrítica de costumesExaltação do amorLÍNGUAPortuguêsCastelhanoA mesma obra vicentina une realismo satírico e idealizaçãoamorosa.
Fig. 4Fig. 4 — Dois polos do teatro vicentino: farsa e teatro cavaleiresco.
A convivência, num mesmo autor, da farsa satírica e do teatro cavaleiresco idealizante revela a amplitude do génio de Gil Vicente e o cruzamento de heranças da sua época: a observação realista e crítica, de raiz medieval e popular, e o gosto renascentista pela matéria clássica e novelesca e pelo amor idealizado. Note-se que a Educação Literária prevê estas obras em regime de leitura opcional: o estudo pode incidir sobre a Farsa de Inês Pereira, sobre o Auto da Lusitânia ou sobre Dom Duardos.
Exemplo resolvido

O sentido do disfarce

Em Dom Duardos, o príncipe disfarça-se de hortelão para conquistar Flérida. Que sentido tem este disfarce na visão do amor da peça?

  1. 01Observar o gesto

    Dom Duardos oculta a sua condição régia e serve humildemente como jardineiro.

  2. 02Interpretar

    Flérida ama-o pelo que ele é, não pelo estatuto; é o amor, e não o nascimento, que os une.

  3. 03Concluir

    O disfarce mostra que o amor cortês transcende e iguala as diferenças sociais.

Resultado: O disfarce de hortelão significa que o amor vale por si, acima da condição social: Flérida ama Dom Duardos pelo seu valor, e não pelo estatuto — a visão idealizada e cortês do amor própria do teatro cavaleiresco.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar o teatro cavaleiresco (Dom Duardos): idealização, lirismo, amor cortês.
  • Reconstituir a intriga de Dom Duardos (o disfarce de hortelão; o amor que vence a condição).
  • Contrastar a farsa (realista, satírica) com o teatro cavaleiresco (idealizado, lírico).

Erros frequentes

  • Classificar Dom Duardos como farsa.
  • Ignorar o disfarce de Dom Duardos e o sentido de que o amor transcende a condição social.
  • Esperar em Dom Duardos a comicidade e a crítica próprias da farsa.

Revisão ativa

Compara a Farsa de Inês Pereira com Dom Duardos quanto ao tom, ao tipo de personagens e à visão do amor.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

A sátira social e a comicidade#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-vicente

Pontos-chave

A sátira social é o traço mais poderoso do teatro vicentino, sobretudo nas farsas e nas obras alegóricas. Gil Vicente critica pelo riso: expõe os vícios, as hipocrisias e as vaidades da sociedade quinhentista — a ambição de subir na escala social, a falsa nobreza dos fidalgos empobrecidos, a corrupção do clero, a ganância dos mercadores, a hipocrisia dos costumes. O teatro torna-se, assim, um espelho crítico do seu tempo, tanto mais eficaz quanto faz rir (ver Fig. 5).

Os processos cómicos

Os processos cómicosTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Processo cómico · Em que consiste · Efeito; De linguagem · Trocadilhos, calão, latim macarrónico · Riso verbal; caricatura; De situação · Equívocos, enganos, reviravoltas · Riso pela cena ridícula; De personagem / caráter · Caricatura dos tipos sociais · Riso crítico do vício, célula destacada: Riso crítico do vícioPROCESSO CÓMICOEM QUE CONSISTEEFEITODE LINGUAGEMTrocadilhos, calão, latimmacarrónicoRiso verbal; caricaturaDE SITUAÇÃOEquívocos, enganos,reviravoltasRiso pela cena ridículaDE PERSONAGEM /CARÁTERCaricatura dos tipos sociaisRiso crítico do vícioO riso vicentino é sempre um instrumento de crítica.
Fig. 5Fig. 5 — Os processos cómicos ao serviço da sátira.
Esta crítica realiza-se através das personagens-tipo. Cada figura encarna um tipo social e o seu comportamento característico: o escudeiro vaidoso e pobre, a alcoviteira manhosa, o velho apaixonado e ridículo, o mercador desonesto, o clérigo mundano. Ao caricaturar o tipo, Gil Vicente critica a classe e o vício que ele representa. É por isso que reconhecer as personagens como tipos, e não como indivíduos, é essencial para captar a sátira.
A comicidade vicentina serve esta crítica e realiza-se por vários processos. O cómico de linguagem explora trocadilhos, calão, deturpações, o latim macarrónico, a mistura de línguas. O cómico de situação nasce dos equívocos, das cenas ridículas, dos enganos e reviravoltas. O cómico de personagem ou de caráter resulta da caricatura dos tipos — o fanfarrão que se revela cobarde, o velho que se julga jovem. Estes registos combinam-se para provocar o riso e, com ele, a reflexão.
A grandeza do teatro vicentino está, precisamente, nesta aliança entre o rir e o criticar. Gil Vicente não faz uma comédia gratuita: por trás do riso há sempre uma intenção moral e social. Ao mostrar, com humor, os defeitos dos homens e das instituições, convida o espetador a reconhecê-los e a julgá-los. É esta dimensão crítica, servida por uma comicidade riquíssima, que faz do teatro vicentino uma obra ao mesmo tempo divertida e profunda, e um documento inestimável da sociedade portuguesa do século XVI.
Exemplo resolvido

Rir e criticar

Numa farsa, um escudeiro pobre gaba-se de valentia e nobreza, mas revela-se cobarde e mesquinho. Que processo cómico predomina e que critica?

  1. 01Identificar o processo

    O contraste entre a pose e a realidade da personagem é cómico de personagem/caráter (caricatura do tipo).

  2. 02Reconhecer o alvo

    A personagem encarna o fidalgo empobrecido e vaidoso — a falsa nobreza.

  3. 03Ligar riso e crítica

    O riso desmascara e censura a vaidade da falsa nobreza.

Resultado: Predomina o cómico de personagem (a caricatura do escudeiro fanfarrão e cobarde), que satiriza a falsa nobreza — exemplo de como, em Gil Vicente, o riso serve sempre a crítica social.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar a sátira social como crítica pelo riso.
  • Reconhecer as personagens-tipo e a sua função crítica.
  • Distinguir os processos cómicos (linguagem, situação, personagem/caráter).

Erros frequentes

  • Ver a comicidade como fim em si mesma, sem intenção crítica.
  • Não distinguir os diferentes processos cómicos.
  • Confundir personagem-tipo (representa uma classe) com personagem individual.

Revisão ativa

Numa cena vicentina cómica, identifica o processo cómico dominante (linguagem, situação ou personagem) e a crítica social que veicula.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01Gil Vicente e o teatro vicentino○
    • 02A classificação da obra vicentina◐
    • 03A Farsa de Inês Pereira◐
    • 04Dom Duardos e o teatro cavaleiresco◐
    • 05A sátira social e a comicidade●

0/5 Lidos

Dos resumos à prática

O teatro de Gil Vicente

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos

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