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Resumos/Literatura Portuguesa/Do Renascimento ao Pré-Romantismo: Camões lírico
Resumos · Literatura PortuguesaPT · Secundário

Do Renascimento ao Pré-Romantismo: Camões lírico

No século XVI, o Renascimento e o Humanismo renovam a literatura portuguesa: Sá de Miranda importa de Itália as formas «novas» e o petrarquismo. Camões (c. 1524–1580) leva a lírica ao seu auge, cultivando a par a medida velha (redondilhas) e a medida nova (soneto, canção). Os seus grandes temas — o amor neoplatónico, a mudança e o desconcerto do mundo — fazem da sua poesia uma meditação sobre o amor e a condição humana.

5 secções·~16 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 2

T·0444 / 17
Perfil de exame
Contextualizar o Renascimento e o Humanismo em PortugalDistinguir a medida velha (redondilha) da medida nova (formas italianizantes)Analisar os temas da lírica camoniana: amor neoplatónico, mudança, desconcertoAnalisar a forma do soneto e os recursos expressivos
Operadores:contextualizadistingueanalisainterpretarelacionajustifica

nível básico

Distinguir redondilha de soneto e reconhecer os temas do amor, da mudança e do desconcerto em poemas representativos.

nível avançado

Analisar o neoplatonismo amoroso e a construção do soneto (antítese, paradoxo, volta, chave de ouro) com rigor formal, no quadro do petrarquismo.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. Do Renascimento ao Pré-Romantismo: Camões lírico
    • 01O Renascimento e o Humanismo em Portugal○
    • 02Medida velha e medida nova◐
    • 03O amor e o neoplatonismo◐
    • 04A mudança e o desconcerto do mundo●
    • 05A forma do soneto e os recursos expressivos●
§ 01

O Renascimento e o Humanismo em Portugal#

●○○BaseLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-camoes-lirica

Pontos-chave

O Renascimento é o vasto movimento cultural que, a partir da Itália dos séculos XV e XVI, redescobre e reabilita a Antiguidade clássica (greco-latina), colocando o Homem — a sua razão, a sua dignidade, a sua obra — no centro das preocupações. A este ideal de valorização do humano dá-se o nome de Humanismo. Em Portugal, o Renascimento coincide com a época dos Descobrimentos e a expansão marítima, que alargam o mundo conhecido e alimentam uma extraordinária confiança nas capacidades humanas. É neste clima que floresce a grande literatura quinhentista, de que Camões é o cume (ver Fig. 1).

O Renascimento e Camões

O Renascimento e CamõesLinha do tempo de 1500 a 1600, 1526: Sá de Miranda importa as formas italianas, 1572: Os Lusíadas, 1595: Rimas (edição póstuma), 1500–1580: Renascimento em Portugal, 1524–1580: Vida de Camões15001600anoRenascimento emPortugalVida de Camões1526Sá de Mirandaimporta as form…1572Os Lusíadas1595Rimas (ediçãopóstuma)
Fig. 1Fig. 1 — Do Renascimento à lírica de Camões.
Na poesia, a novidade renascentista chega pela mão de Francisco de Sá de Miranda, que, regressado de Itália por volta de 1526, importa as formas e a estética italianas: o verso decassílabo, o soneto, a canção, a ode, a elegia, a écloga — e, com elas, o petrarquismo. A poesia portuguesa passa a conviver, assim, duas tradições: a «medida velha», de raiz peninsular e verso curto, e a «medida nova», italiana e de verso longo. Sá de Miranda é o introdutor; Camões, o poeta que leva a nova estética à perfeição.
O petrarquismo — a influência do Canzoniere de Petrarca — traz um modo de sentir e de dizer o amor: a idealização da mulher amada, o amor como sofrimento nobre, a definição do sentimento por antíteses e paradoxos, a introspeção. A ele associa-se, no plano das ideias, o neoplatonismo, a conceção filosófica (retomada de Platão através de Marsílio Ficino) segundo a qual a beleza sensível é o primeiro degrau de uma ascensão à beleza ideal e divina. Petrarquismo e neoplatonismo são as duas chaves da lírica amorosa renascentista.
O ideal estético do Renascimento é o classicismo: a imitação dos autores antigos, a busca do equilíbrio, da harmonia e da «medida», a valorização da forma trabalhada. O poeta renascentista é um homem culto, que domina a mitologia, a filosofia e a retórica clássicas, e que faz da sua arte um exercício de rigor. Camões reúne em si estas heranças — a peninsular e a italiana, o petrarquismo e o neoplatonismo, a cultura clássica e a experiência vivida — e transforma-as numa das mais altas poesias líricas da Europa.
Exemplo resolvido

Reconhecer o contexto renascentista

Um poema quinhentista, escrito em decassílabos, define o amor por antíteses e idealiza a amada. Que heranças renascentistas revela?

  1. 01A forma

    O decassílabo e a fatura culta remetem para a medida nova, importada de Itália por Sá de Miranda.

  2. 02O modo de dizer o amor

    A definição por antíteses e a idealização da amada são marcas do petrarquismo.

  3. 03Concluir

    O poema revela a estética renascentista (medida nova + petrarquismo), no quadro do classicismo.

Resultado: O poema revela as heranças do Renascimento: a medida nova (decassílabo, de origem italiana) e o petrarquismo (amor idealizado, definido por antíteses), ambos ao serviço do ideal classicista.

Foco no Exame Nacional

  • Definir Renascimento e Humanismo e situá-los no séc. XVI português.
  • Reconhecer o papel de Sá de Miranda na introdução das formas italianas e do petrarquismo.
  • Relacionar petrarquismo, neoplatonismo e classicismo.

Erros frequentes

  • Confundir Renascimento (movimento cultural) com Humanismo (a sua vertente de valorização do humano).
  • Atribuir a introdução da medida nova a Camões, e não a Sá de Miranda.
  • Ignorar a herança clássica (classicismo) subjacente à lírica quinhentista.

Revisão ativa

Explica o contributo de Sá de Miranda para a renovação da poesia portuguesa e o que significam petrarquismo e neoplatonismo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Medida velha e medida nova#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-camoes-lirica

Pontos-chave

A lírica de Camões chegou-nos dispersa e só foi reunida postumamente nas Rimas (1.ª edição em 1595), pelo que a fixação e a autoria de muitos poemas continuam em estudo. Nela convivem duas tradições métricas: a medida velha, de raiz peninsular e tradicional, e a medida nova, importada de Itália. Dominar esta distinção é o ponto de partida para ler a sua poesia, porque a cada medida correspondem formas, tons e sensibilidades diferentes (ver Fig. 2).

Medida velha e medida nova

Medida velha e medida novaTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Medida velha · Medida nova; Verso · Redondilha (5 ou 7 sílabas) · Decassílabo (10 sílabas); Origem · Peninsular, tradicional · Italiana, renascentista; Estrutura · Mote e voltas (glosa) · Formas fixas (soneto…); Formas · Cantiga, vilancete, esparsa · Soneto, canção, ode, elegia; Tom · Leve, popular, engenhoso · Grave, culto, reflexivo, célula destacada: Decassílabo (10 sílabas)ASPETOMEDIDA VELHAMEDIDA NOVAVERSORedondilha (5 ou 7 sílabas)Decassílabo (10 sílabas)ORIGEMPeninsular, tradicionalItaliana, renascentistaESTRUTURAMote e voltas (glosa)Formas fixas (soneto…)FORMASCantiga, vilancete, esparsaSoneto, canção, ode, elegiaTOMLeve, popular, engenhosoGrave, culto, reflexivoCamões domina e cultiva ambas as medidas.
Fig. 2Fig. 2 — As duas tradições métricas da lírica camoniana.
A medida velha usa o verso curto — sobretudo a redondilha maior (sete sílabas) e a redondilha menor (cinco sílabas) —, herança da tradição peninsular e do Cancioneiro Geral. Organiza-se frequentemente em torno de um mote (verso ou versos iniciais que enunciam um tema) seguido de voltas ou glosas (estrofes que o desenvolvem e comentam). O tom é mais leve, popular e engenhoso; nela Camões trata, com graça e agudeza, temas amorosos e reflexivos — como nas redondilhas «Sôbolos rios que vão» ou «Descalça vai para a fonte».
A medida nova adota o verso longo — o decassílabo — e as formas italianizantes que Sá de Miranda introduzira: o soneto, a canção, a ode, a elegia, a écloga. É a métrica do Renascimento e do petrarquismo, mais culta, grave e trabalhada. Nela Camões atinge o auge da sua poesia reflexiva e amorosa, sobretudo no soneto, forma que leva à perfeição. A medida nova pede uma leitura atenta à arquitetura do poema e à densidade do pensamento.
As duas medidas não são apenas uma questão de contagem de sílabas: correspondem a dois registos e a duas sensibilidades. A medida velha é nacional, tradicional, espontânea; a medida nova é europeia, renascentista, elaborada e filosófica. Camões é, precisamente, o poeta que domina ambas e nelas verte a mesma inquietação — o amor, a saudade, a mudança. Reconhecer, num poema, a medida que emprega, e os efeitos que dela retira, é uma competência básica da análise da sua lírica.
Exemplo resolvido

Identificar a medida de um poema

Um poema de Camões abre com dois versos de sete sílabas que enunciam um tema amoroso, seguidos de estrofes que o desenvolvem. Que medida e que estrutura reconheces?

  1. 01Contar as sílabas

    Versos de sete sílabas indicam a redondilha maior — logo, medida velha.

  2. 02Observar a estrutura

    Dois versos iniciais que enunciam o tema (o mote), seguidos de estrofes que os glosam (as voltas).

  3. 03Concluir

    É poesia em medida velha, com estrutura de mote e voltas, própria da tradição peninsular.

Resultado: Trata-se de poesia em medida velha (redondilha maior, sete sílabas), organizada em mote e voltas — a tradição nacional que Camões cultiva a par da medida nova italianizante.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir medida velha (redondilha, verso curto) de medida nova (decassílabo, formas italianas).
  • Identificar a estrutura mote-volta na medida velha.
  • Relacionar a medida nova com o petrarquismo introduzido por Sá de Miranda.

Erros frequentes

  • Confundir redondilha (5 ou 7 sílabas) com decassílabo.
  • Pensar que a medida velha é «menor» ou menos valiosa do que a nova.
  • Ignorar a estrutura mote-glosa própria da poesia em medida velha.

Revisão ativa

Perante um poema em redondilha e um soneto de Camões, identifica a medida de cada um e um traço formal que a caracterize.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

O amor e o neoplatonismo#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-camoes-lirica

Pontos-chave

O amor é o tema maior da lírica camoniana, concebido segundo o ideal neoplatónico que o Renascimento herdara de Platão através de Marsílio Ficino. Neste ideal, a beleza física da amada é apenas o primeiro degrau de uma ascensão: o amor verdadeiro parte da contemplação da beleza sensível e eleva-se à beleza da alma e, por fim, à beleza ideal e divina, de que a beleza terrena é reflexo. Amar é, assim, um caminho de elevação espiritual (ver Fig. 3).

A ascensão neoplatónica do amor

A ascensão neoplatónica do amorpirâmide, 3 níveis, Dados: Beleza física (sensível), Beleza da alma, Beleza ideal / divinaBeleza física (sensível)Beleza da almaBeleza ideal / divinaO amor parte do sensível e ascende ao ideal.
Fig. 3Fig. 3 — O amor como elevação: da beleza sensível à beleza ideal.
O soneto «Transforma-se o amador na cousa amada» é a formulação lírica desta doutrina. Nele, Camões afirma que, pela força do desejo, o amante se transforma no objeto amado — vê-lo é já desejá-lo, e a alma do amante passa a viver na amada. O poema expõe a teoria neoplatónica da fusão amorosa: o amor não é posse física, mas identificação espiritual, transformação do amante naquilo que ama. É a face idealizada e ascendente do amor camoniano.
A par desta idealização, Camões exprime a experiência dolorosa e contraditória do amor real. O célebre soneto «Amor é fogo que arde sem se ver» define o amor por uma cadeia de antíteses e paradoxos: é «ferida que dói e não se sente», «contentamento descontente», «servir a quem vence, o vencedor». Estas contradições captam a natureza dividida do sentimento — prazer e dor, liberdade e servidão —, herança petrarquista da coincidência dos opostos. O amor é, ao mesmo tempo, elevação e sofrimento.
A amada camoniana é, muitas vezes, uma figura ideal, perdida ou inatingível, cuja contemplação alimenta simultaneamente a aspiração ao absoluto e o sofrimento da ausência. Nos sonetos de saudade e de perda — como «Alma minha gentil, que te partiste» —, o amor sobrevive à própria morte da amada, aspirando ao reencontro num plano superior. Assim, a lírica amorosa de Camões oscila entre o ideal neoplatónico de elevação e a experiência concreta da coita, da ausência e da perda — e é dessa tensão que retira a sua profundidade.
Exemplo resolvido

As antíteses de «Amor é fogo»

Explica como o soneto «Amor é fogo que arde sem se ver» define o amor e que recurso domina essa definição.

  1. 01Identificar o recurso

    O poema acumula antíteses e paradoxos: «fogo que arde sem se ver», «ferida que dói e não se sente», «contentamento descontente».

  2. 02Interpretar o sentido

    Cada paradoxo capta uma contradição real do amor: prazer e dor, presença e ausência, liberdade e servidão.

  3. 03Relacionar com a tradição

    Esta definição por contrários é herança petrarquista (a coincidência dos opostos), que exprime a natureza dividida do sentimento.

Resultado: O soneto define o amor por uma cadeia de antíteses e paradoxos que exprimem a sua natureza contraditória, segundo a tradição petrarquista da coincidência dos opostos.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar a conceção neoplatónica do amor (da beleza sensível à beleza ideal/divina).
  • Interpretar «Transforma-se o amador na cousa amada» como formulação neoplatónica.
  • Analisar a definição do amor por antíteses em «Amor é fogo» (petrarquismo).

Erros frequentes

  • Reduzir o amor camoniano ao desejo físico, ignorando a elevação neoplatónica.
  • Ler as antíteses de «Amor é fogo» como contradições do poeta, e não como definição do amor.
  • Confundir a amada ideal com uma mulher concreta e individualizada.

Revisão ativa

Analisa um soneto amoroso de Camões, mostrando como nele se articula o ideal neoplatónico com a experiência do sofrimento amoroso.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

A mudança e o desconcerto do mundo#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-camoes-lirica

Pontos-chave

A par do amor, a mudança é um dos grandes temas da reflexão camoniana. O soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» exprime a consciência aguda da mutabilidade universal: tudo se transforma continuamente — o tempo, os desejos, o ser, a confiança —, e a única constante é a própria mudança. Esta perceção, de raiz clássica e renascentista, gera no poeta uma sensação de instabilidade e de perda, mas também de espanto perante o fluir das coisas (ver Fig. 4).

Temas da lírica camoniana

Temas da lírica camonianaTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Tema · Poema representativo · Ideia central; Amor neoplatónico · «Transforma-se o amador…» · Fusão espiritual com a amada; Amor / paradoxo · «Amor é fogo que arde…» · Contradição do sentimento; Saudade / perda · «Alma minha gentil…» · O amor para além da morte; Mudança · «Mudam-se os tempos…» · Mutabilidade universal; Desconcerto do mundo · Redondilhas «Ao desconcerto…» · Injustiça e desordem do mundo, célula destacada: Injustiça e desordem do mundoTEMAPOEMA REPRESENTATIVOIDEIA CENTRALAMOR NEOPLATÓNICO«Transforma-se o amador…»Fusão espiritual com a amadaAMOR / PARADOXO«Amor é fogo que arde…»Contradição do sentimentoSAUDADE / PERDA«Alma minha gentil…»O amor para além da morteMUDANÇA«Mudam-se os tempos…»Mutabilidade universalDESCONCERTO DOMUNDORedondilhas «Aodesconcerto…»Injustiça e desordem domundoDo amor à interrogação existencial sobre a ordem do mundo.
Fig. 4Fig. 4 — Amor, mudança e desconcerto: os grandes temas e os seus poemas.
O poema leva a reflexão a um paradoxo final: a mudança é tão radical que «muda-se já não como soía» — isto é, mudou até a própria maneira de mudar. E, no verso derradeiro, a novidade constante das mudanças torna-se, ela mesma, motivo de espanto e quase a única certeza. Camões transforma assim um lugar-comum filosófico numa meditação lírica original sobre a condição transitória de tudo o que existe.
Do sentimento da mudança nasce o tema do desconcerto do mundo: a perceção de que a ordem do mundo é injusta e absurda, de que o bem sofre e o mal prospera. É o tema das redondilhas «Ao desconcerto do mundo», onde o poeta constata: «Os bons vi sempre passar / no mundo graves tormentos; / e, para mais me espantar, / os maus vi sempre nadar / em mar de contentamentos.» A injustiça é de tal ordem que o próprio poeta conclui, ironicamente, que, para viver no mundo, terá de se fazer também «mau».
O desconcerto do mundo tem uma dimensão autobiográfica e nacional. Camões projeta nele a sua experiência de injustiça, de pobreza, de exílio e de naufrágio, e antecipa a visão crítica que percorre também Os Lusíadas (o desconcerto entre o mérito dos heróis e a ingratidão da pátria). A meditação sobre a mudança e o desconcerto liga, assim, a lírica camoniana a uma inquietação existencial que ultrapassa o amor e interroga o sentido da vida e a justiça da ordem do mundo.
Exemplo resolvido

O paradoxo da mudança

Como é que «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» conclui a sua meditação sobre a mudança?

  1. 01Seguir a progressão

    O poema constata que tudo muda: os tempos, as vontades, o ser, a confiança — nada permanece.

  2. 02Chegar ao paradoxo

    A reflexão radicaliza-se: mudou até a própria maneira de mudar («já não como soía»).

  3. 03Interpretar o fecho

    A única certeza é a mudança contínua; a sua novidade constante é, ela mesma, motivo de espanto.

Resultado: O soneto progride da constatação de que tudo muda até ao paradoxo de que muda a própria maneira de mudar, concluindo que a única constante — e a única certeza — é a mudança perpétua.

Foco no Exame Nacional

  • Interpretar «Mudam-se os tempos» como meditação sobre a mutabilidade universal.
  • Explicar o paradoxo final do soneto (muda até a maneira de mudar).
  • Definir o desconcerto do mundo e relacioná-lo com a experiência do poeta.

Erros frequentes

  • Reduzir «Mudam-se os tempos» a um poema sobre a passagem do tempo, sem o paradoxo final.
  • Confundir a mudança (mutabilidade) com o desconcerto (injustiça da ordem do mundo).
  • Ignorar a ligação entre a reflexão lírica e a experiência biográfica do poeta.

Revisão ativa

Analisa o soneto «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», explicando a progressão da reflexão sobre a mudança até ao paradoxo final.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

A forma do soneto e os recursos expressivos#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo2-camoes-lirica

Pontos-chave

O soneto é a forma em que Camões atinge a perfeição da medida nova. É um poema de catorze versos decassílabos, organizados em duas quadras e dois tercetos, com esquema rimático fixo (frequentemente ABBA ABBA nas quadras e CDC DCD, ou CDE CDE, nos tercetos). Esta arquitetura fechada e equilibrada, de origem italiana e petrarquista, impõe ao poeta uma disciplina que ele converte em densidade e concentração de sentido (ver Fig. 5).

A estrutura do soneto

A estrutura do sonetoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Parte · Versos · Função / rima; 1.ª quadra · 1-4 · Expõe a situação / ABBA; 2.ª quadra · 5-8 · Desenvolve / ABBA; 1.º terceto · 9-11 · Aplica ou inverte (volta) / CDC; 2.º terceto · 12-14 · Síntese; chave de ouro / DCD, célula destacada: Síntese; chave de ouro / DCDPARTEVERSOSFUNÇÃO / RIMA1.ª QUADRA1-4Expõe a situação / ABBA2.ª QUADRA5-8Desenvolve / ABBA1.º TERCETO9-11Aplica ou inverte (volta) /CDC2.º TERCETO12-14Síntese; chave de ouro / DCD14 decassílabos; a chave de ouro (v. 14) fecha e ilumina opoema.
Fig. 5Fig. 5 — A arquitetura do soneto: da exposição nas quadras à chave de ouro.
A estrutura do soneto não é só métrica: é lógica e semântica. As quadras costumam expor uma situação, uma tese ou uma imagem; os tercetos desenvolvem, aplicam ou invertem essa exposição, muitas vezes com uma «volta» — uma mudança de perspetiva ou de argumento. O último verso, a «chave de ouro», encerra frequentemente uma síntese, um paradoxo ou uma pointe que ilumina retrospetivamente todo o poema. Ler um soneto é, por isso, seguir este movimento de argumentação condensada.
Camões mobiliza um vasto repertório de recursos expressivos ao serviço do sentido. A antítese e o paradoxo opõem termos para captar contradições; a metáfora e a comparação constroem imagens do amor e da alma; a hipérbole intensifica o sentimento; a anáfora e a enumeração criam ritmo e amplificação; o hipérbato altera a ordem das palavras para efeitos de ênfase e de musicalidade. Estes recursos nunca são ornamento gratuito: servem a expressão do tema.
A análise de um soneto camoniano deve, por isso, articular a forma e o conteúdo: reconhecer o esquema métrico e rimático, seguir a progressão lógica das quadras aos tercetos, localizar a volta e a chave de ouro, e identificar os recursos que sustentam o tema. É nesta unidade entre a perfeição formal e a profundidade da reflexão que reside a grandeza da lírica camoniana, que fez do soneto um instrumento de meditação sobre o amor, a mudança e a condição humana.
Exemplo resolvido

Seguir a estrutura de um soneto

Perante um soneto cujas quadras descrevem o sofrimento do amante e cujos tercetos concluem que esse sofrimento é doce, descreve o seu movimento e nomeia o recurso final.

  1. 01Analisar as quadras

    As duas quadras expõem a situação: o sofrimento amoroso do sujeito poético.

  2. 02Analisar os tercetos

    Os tercetos operam uma volta: o sofrimento revela-se doce e desejado — inversão da perspetiva inicial.

  3. 03Identificar a chave de ouro

    O último verso condensa o paradoxo (sofrer é doce), constituindo a chave de ouro que ilumina o poema.

Resultado: O soneto expõe o sofrimento nas quadras e inverte-o nos tercetos (a volta), fechando com uma chave de ouro paradoxal — o movimento típico da argumentação condensada do soneto camoniano.

Foco no Exame Nacional

  • Descrever a forma do soneto (14 decassílabos, 2 quadras + 2 tercetos, esquema rimático).
  • Reconhecer a progressão lógica quadras-tercetos, a volta e a chave de ouro.
  • Identificar e interpretar recursos expressivos, articulando forma e conteúdo.

Erros frequentes

  • Contar mal os versos ou as sílabas, confundindo o soneto com outra forma.
  • Analisar os recursos como ornamento, sem os relacionar com o sentido.
  • Ignorar a «volta» e a progressão lógica entre quadras e tercetos.

Revisão ativa

Analisa a estrutura de um soneto de Camões, identificando o esquema rimático, a progressão das quadras aos tercetos, a chave de ouro e dois recursos ao serviço do tema.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01O Renascimento e o Humanismo em Portugal○
    • 02Medida velha e medida nova◐
    • 03O amor e o neoplatonismo◐
    • 04A mudança e o desconcerto do mundo●
    • 05A forma do soneto e os recursos expressivos●

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Dos resumos à prática

Do Renascimento ao Pré-Romantismo: Camões lírico

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Fontes

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