EuraStudy
Depois da independência política de 1822, o Brasil quis dar-se também uma literatura própria: o Romantismo é esse projeto deliberado de nacionalização, que faz da natureza tropical e do índio o mito de fundação, atravessa as três gerações da poesia e ergue, com José de Alencar, o romance de fundação. O percurso fecha-se com Machado de Assis, que em 1873 recusa o localismo pitoresco e propõe « um certo sentimento íntimo » como critério de brasilidade. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional.
4 secções~26 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Reconhecer o projeto de nacionalização, as três gerações românticas e as obras maiores de Gonçalves Dias, Castro Alves e José de Alencar.
nível avançado
Analisar criticamente o indianismo como mito de fundação e discutir a tese do « instinto de nacionalidade » de Machado de Assis.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Da Independência à Academia: o arco do século XIX brasileiro
A transposição do modelo romântico europeu
Um manual afirma que « a literatura brasileira tornou-se independente em 1822 ». Comenta a afirmação, corrigindo-a e justificando a data que a crítica prefere.
A 7 de setembro de 1822 proclama-se a independência política: nasce um Estado, não uma literatura.
Depois de 1822, as formas e os critérios de gosto continuaram a ser europeus; não havia ainda uma tradição a que os autores brasileiros pudessem referir-se como sua.
Só em 1836, com «Suspiros Poéticos e Saudades» e a revista «Niterói», surge um programa explícito — « tudo pelo Brasil e para o Brasil ».
A independência literária não é um acontecimento, mas um projeto: exige matéria própria, língua própria e público próprio.
Resultado: A afirmação é imprecisa: 1822 é a data da independência política. A independência literária data-se habitualmente de 1836, ano de «Suspiros Poéticos e Saudades» e da revista «Niterói», cuja divisa enuncia pela primeira vez o programa de nacionalização — que não é um acontecimento, mas um projeto de longa duração.
A 7 de setembro de 1822 o Brasil torna-se independente de Portugal. Politicamente é um país novo; literariamente, continua a escrever segundo os modelos de Lisboa e de Paris.
O gesto inaugural data-se habitualmente de 1836: Gonçalves de Magalhães publica «Suspiros Poéticos e Saudades», impresso em Paris, e lança a revista «Niterói», cuja divisa diz tudo — « tudo pelo Brasil e para o Brasil ».
O programa assenta em três pilares: a natureza tropical como marca identitária, o índio como antepassado mítico e a língua como questão nacional. Onde o europeu tinha a Idade Média e o cavaleiro, o Brasil põe o mundo indígena e o guerreiro.
Guarda a data e guarda o paradoxo: a literatura nacional brasileira começa impressa em Paris e com formas europeias. É desse paradoxo que nascerá, em 1873, a crítica de Machado de Assis.
Erros frequentes
Revisão ativa
Num parágrafo de cerca de 150 palavras, explica por que razão a crítica situa em 1836, e não em 1822, o início do Romantismo brasileiro, referindo «Suspiros Poéticos e Saudades», a revista «Niterói» e a sua divisa.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
As três gerações da poesia romântica brasileira
Cronologia da poesia romântica brasileira
Um poema em versos amplos abre com uma apóstrofe ao mar e a Deus, repete o mesmo arranque de verso em estrofes seguidas e opõe a luz do alto-mar à escuridão de um porão cheio de cativos. A que geração pertence? Justifica com marcas textuais e identifica a obra e o autor evocados.
O porão com cativos e a denúncia da escravatura situam o poema na matéria abolicionista — não no indianismo da primeira geração nem no intimismo da segunda.
A apóstrofe ao mar e a Deus, o verso amplo e a repetição anafórica produzem um discurso oratório, feito para ser dito perante um auditório.
A antítese entre a luz do mar e a escuridão do porão converte o contraste visual em contraste moral; a hipérbole eleva o caso a crime contra a humanidade inteira.
Este feixe de marcas define o condoreirismo, geração formada sob o signo de Victor Hugo.
Resultado: O poema pertence à terceira geração romântica, a condoreira: o tema abolicionista, a apóstrofe ao mar e a Deus, a anáfora que martela o arranque das estrofes e a antítese entre a luz e o porão são as suas marcas próprias, todas ao serviço de converter a descrição em acusação. O exercício evoca «O Navio Negreiro», de Castro Alves, escrito em 1868 e recolhido postumamente em «Os Escravos» (1883).
Erros frequentes
Revisão ativa
Constrói um quadro comparativo das três gerações românticas (olhar dominante, tom, temas, autor maior, obra-chave, recursos) e redige depois um parágrafo que explique como cada geração se relaciona — por adesão ou por afastamento — com o projeto de nacionalização.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Os três ciclos do romance de José de Alencar
A alegoria de fundação de «Iracema»
Um romance de 1865, apresentado como lenda do Ceará, narra em prosa poética o amor entre um guerreiro português e uma jovem indígena, do qual nasce um filho a quem a narrativa chama « o filho do sofrimento ». Identifica a obra e explica por que razão a crítica lê nela um mito de fundação da nacionalidade.
A data de 1865, a designação de lenda do Ceará e a prosa poética identificam «Iracema», de José de Alencar.
Iracema é anagrama de América: o nome inscreve no próprio texto a intenção alegórica — a jovem indígena figura o continente.
Martim e Iracema representam os dois termos do encontro colonial, e a sua união é apresentada como amor mútuo, não como conquista.
Moacir, « o filho do sofrimento », é o primeiro nascido desse encontro: o povo brasileiro é dado como fruto de uma origem mestiça, dolorosa e fundadora.
A leitura crítica acrescenta que esta genealogia converte em idílio um processo de conquista e de trabalho escravo, e que o desaparecimento de Iracema naturaliza o apagamento do elemento indígena.
Resultado: A obra é «Iracema» (1865), de José de Alencar. Lê-se como mito de fundação porque o anagrama Iracema/América inscreve a alegoria no próprio texto, porque a união de Martim e Iracema figura o encontro entre a Europa e a América, e porque de Moacir, « o filho do sofrimento », nasce simbolicamente o povo brasileiro. A crítica sublinha, contudo, que este idílio de origem apaga a violência efetiva da colonização.
Erros frequentes
Revisão ativa
Elabora um quadro dos três ciclos do romance de Alencar (espaço, época, tipo humano dominante, obras com data) e redige depois um parágrafo de cerca de 180 palavras que explique de que modo cada ciclo serve o projeto de nacionalização.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Dois critérios de brasilidade
Do Romantismo ao Realismo: o que muda
Dois romances brasileiros do século XIX: o primeiro passa-se na floresta, tem um índio por herói e um vocabulário cheio de nomes de origem tupi; o segundo passa-se num salão do Rio, é narrado por um defunto irónico e não nomeia uma única árvore. Qual dos dois é mais brasileiro segundo o critério de Machado de Assis? Justifica.
O primeiro romance corresponde ao critério romântico: a nacionalidade provada pelo tema local — o índio, a floresta, o léxico indígena.
No ensaio de 1873, Machado sustenta que a nacionalidade não está no assunto, mas em « um certo sentimento íntimo » que faz do escritor um homem do seu tempo e do seu país.
O salão do Rio, o narrador irónico e a análise do egoísmo de uma classe senhorial exprimem, sem o declarar, a sociedade brasileira do século XIX.
O critério não exclui o tema local — recusa apenas que ele baste: um romance indianista pode ser brasileiro, mas não o é por ser indianista.
Resultado: Segundo o critério de 1873, o segundo romance é o mais brasileiro: a nacionalidade não se mede pelo cenário nem pelo léxico, mas por « um certo sentimento íntimo » — um modo de ver que faz do autor um homem do seu tempo e do seu país, e que aqui se manifesta na análise irónica de uma sociedade senhorial concreta. O primeiro não fica por isso excluído: o que Machado recusa é que o índio e a floresta bastem como prova de brasilidade.
Erros frequentes
Revisão ativa
Redige um ensaio expositivo-argumentativo de cerca de 300 palavras em que expliques a tese do « instinto de nacionalidade » (1873) e mostres, com dois exemplos concretos, de que modo «Memórias Póstumas de Brás Cubas» (1881) a realiza melhor do que o indianismo romântico.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE)) · Literaturas de Língua Portuguesa — página curricular da disciplina (12.º ano) (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes