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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Manifestações literárias no período colonial (Brasil)
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Manifestações literárias no período colonial (Brasil)

Do desembarque de 1500 à independência de 1822, o Brasil não tem ainda literatura autónoma, mas manifestações literárias em quatro momentos: a literatura de informação dos cronistas quinhentistas, a catequese dos jesuítas, o Barroco de Gregório de Matos e da oratória do Padre António Vieira, e o Arcadismo mineiro, onde desponta a consciência pré-nacional que a Inconfidência de 1789 torna política. Aprende-se aqui a ler estes textos no seu contexto, distinguindo o olhar do colonizador do olhar já nativista. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional, pelo que cada secção traz um « foco de avaliação ».

4 secções·~23 min de leitura·4 competências·Nível Base 2 · Padrão 1 · Aprofundamento 1

T·0111 / 12
Perfil de exame
Realizar leitura crítica e autónoma de textos do período colonial brasileiroReconhecer temas, ideias principais e pontos de vista, distinguindo o olhar do colonizador do olhar já nativistaCompreender a utilização de recursos expressivos (antítese, hipérbole, metáfora, jogo conceptista) na construção do sentidoContextualizar obras atendendo ao paradigma nacional brasileiro em formação — numa disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional
Operadores:situacaracterizaanalisainterpretarelacionacomparacomentajustifica

nível básico

Reconhecer os quatro momentos do período colonial brasileiro e situar cada autor e cada obra no seu momento.

nível avançado

Comentar textos do período com apoio em marcas textuais e comparar Barroco e Arcadismo quanto à visão do mundo, ao estilo e à imagem da terra e do índio.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Manifestações literárias no período colonial (Brasil)
    • 01A literatura de informação: as primeiras visões do Brasil○
    • 02Os jesuítas e a literatura de catequese: Anchieta○
    • 03O Barroco: Gregório de Matos e a oratória de Vieira◐
    • 04O Arcadismo mineiro e o despertar pré-nacional●
§ 01

A literatura de informação: as primeiras visões do Brasil#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-periodo-colonial

Pontos-chave

Os três séculos entre o desembarque português, em 1500, e a independência, em 1822, não produzem no Brasil uma literatura autónoma, mas manifestações literárias: textos isolados, escritos quase sempre por portugueses, em formas importadas da metrópole e para leitores europeus. Por isso a crítica reserva a expressão « sistema literário » para o que só se constitui muito mais tarde. A primeira operação que a disciplina exige é contextualizar: perante cada texto, perguntar quem escreve, para quem e com que finalidade. O período organiza-se em quatro momentos — informação, catequese, Barroco, Arcadismo (ver Fig. 1).

Os quatro momentos do período colonial brasileiro

Os quatro momentos do período colonial brasileiroLinha do tempo de 1500 a 1800, 1500: Carta de Caminha, 1549: Chegada dos jesuítas, 1587: Soares de Sousa, 1654: Sermão aos Peixes, 1789: Inconfidência Mineira, 1500–1600: Literatura de informação, 1549–1597: Catequese jesuítica, 1600–1768: Barroco, 1768–1800: Arcadismo15001800anoLiteratura deinformaçãoCatequesejesuíticaBarrocoArcadismo1500Carta de Caminha1549Chegada dosjesuítas1587Soares de Sousa1654Sermão aosPeixes1789InconfidênciaMineira
Fig. 1Fig. 1 — Os quatro momentos das manifestações literárias no Brasil colonial (1500–1800).
A « Carta a el-rei D. Manuel I », de Pero Vaz de Caminha, escrita em Porto Seguro a 1 de maio de 1500 e conhecida como a carta do achamento, é o documento inaugural. Caminha escreve como escrivão: data o texto, dirige-o ao rei, usa o topos da modéstia e narra o avistamento da terra, os primeiros contactos e a primeira missa. Descreve os habitantes e sobretudo a terra — água abundante, solo fértil, a promessa de que tudo o que ali se plantasse havia de dar — e remata dizendo que o maior proveito será a salvação daquela gente. Decisiva é a dupla data: ficou inédita no arquivo régio e só foi publicada em 1817, pelo que não fundou tradição no seu tempo.
Ao longo do século XVI a escrita sobre o Brasil torna-se sistemática. Pero de Magalhães Gândavo publica a « História da Província de Santa Cruz » (1576) e deixa o « Tratado da Terra do Brasil »; Gabriel Soares de Sousa compõe o « Tratado Descritivo do Brasil » (1587), o mais completo inventário do século — costa, rios, portos, solos, plantas, animais, povos, engenhos. São textos de finalidade prática: informar a Coroa, atrair colonos, orientar a exploração. A sua literariedade não é intencional; nasce do esforço de nomear o desconhecido, que obriga à comparação, à hipérbole e ao maravilhoso.
Três conceitos organizam a leitura destes textos. O ufanismo é a exaltação da fertilidade da terra, feita de fora e por interesse: a terra é riqueza a explorar e o elogio funciona como propaganda. O exotismo é o efeito de estranheza que a novidade produz no leitor europeu e explica o procedimento dominante — a descrição por analogia, em que o novo é medido pela medida do velho. O nativismo é coisa diferente e muito posterior: o sentimento de pertença à terra, que só no século XVIII se tornará político. Os naturais aparecem apenas como objeto de descrição, sem voz própria (ver Fig. 6): Gândavo chega a construir sobre a ausência das letras F, L e R na sua língua a ideia de que lhes faltariam a fé, a lei e o rei.
Exemplo resolvido

Identificar a literatura de informação

Um texto do século XVI, de um funcionário régio, descreve a fertilidade da terra, compara as árvores e as aves às da Europa e conclui que o maior proveito a tirar dela será a conversão dos habitantes. Que tipo de texto é, qual o destinatário e que « olhar » o organiza?

  1. 01Observar a finalidade

    Descreve e inventaria com minúcia, sem intenção estética: a finalidade é informar quem decide. É literatura de informação.

  2. 02Identificar o destinatário

    Escreve para a Coroa e, através dela, para o leitor europeu — daí a datação, o endereçamento e o tom de relato de serviço.

  3. 03Ler as marcas do olhar

    A comparação com a Europa é descrição por analogia; o elogio da fertilidade é ufanismo; e apresentar a conversão como o maior proveito faz dos naturais objeto, e não sujeito, do discurso.

Resultado: É literatura de informação, dirigida à Coroa e ao leitor europeu; o olhar que a organiza é o do colonizador — descreve por analogia com a Europa, exalta a terra por interesse (ufanismo) e trata os habitantes como objeto de descrição e de conversão, sem traço de nativismo.

Foco no Exame Nacional

  • Identificar um texto como literatura de informação a partir de marcas concretas: finalidade documental, destinatário europeu, descrição por analogia.
  • Distinguir ufanismo (exaltação interessada da terra, feita de fora) de nativismo (sentimento de pertença, muito posterior).
  • Situar a « Carta » de Caminha na sua dupla data — escrita em 1500, publicada em 1817 — e retirar daí a consequência histórico-literária.

Erros frequentes

  • Tratar a « Carta » de Caminha como « o primeiro texto da literatura brasileira »: é um documento oficial português, desconhecido do público até 1817.
  • Confundir ufanismo com nativismo: o primeiro exalta a terra do ponto de vista de quem a quer explorar; o segundo pressupõe já pertença.
  • Trocar os títulos quinhentistas: a « História da Província de Santa Cruz » (1576) é de Gândavo; o « Tratado Descritivo do Brasil » (1587), de Gabriel Soares de Sousa.

Revisão ativa

Comenta um excerto de um cronista quinhentista sobre o Brasil (150 a 200 palavras): identifica o género, o destinatário, duas marcas do olhar do colonizador e um traço de ufanismo, apoiando cada afirmação no texto.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Os jesuítas e a literatura de catequese: Anchieta#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-periodo-colonial

Pontos-chave

Em 1549 chegam ao Brasil, com o primeiro governador-geral, os primeiros membros da Companhia de Jesus, no espírito da Contrarreforma: reconquistar almas pela pregação e pela escola. Fundam colégios, organizam aldeamentos e criam, na prática, o primeiro sistema de ensino da colónia. O Padre Manuel da Nóbrega, que dirige a primeira missão, escreve o « Diálogo sobre a Conversão do Gentio », texto em forma de diálogo — forma de raiz renascentista — em que dois interlocutores discutem se o gentio é capaz de receber a fé e por que meios se deve convertê-lo. A pergunta não é retórica: dela dependia todo o método da missão.
O Padre José de Anchieta (1534–1597), a quem a tradição chama o Apóstolo do Brasil, é a figura maior desta produção. Passou no Brasil quase toda a vida adulta e escreveu em quatro línguas — português, castelhano, latim e tupi —, muitas vezes dentro da mesma obra. Compôs a primeira gramática do tupi, a « Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil », fixando por escrito uma língua que não tinha escrita, e deixou o poema latino « De Beata Virgine Dei Matre Maria », que a tradição diz ter sido composto na areia da praia durante o cativeiro entre os Tamoios. Esteve ainda na origem do colégio de Piratininga, de onde havia de crescer São Paulo.
O teatro de catequese é a sua invenção pedagógica mais eficaz. Os autos representavam-se ao ar livre, nas aldeias e em dias de festa, diante de um público que incluía os índios — e que muitas vezes também os representava. São peças alegóricas de matriz medieval, à maneira do teatro de vícios e virtudes de Gil Vicente: anjos e diabos disputam as almas e a fé vence sempre. O plurilinguismo é a chave — tupi para quem se quer converter, português e castelhano para os colonos, latim para a liturgia. No « Auto de São Lourenço », os diabos têm nomes indígenas e personificam os costumes que a missão combatia, e a vitória do santo é a da doutrina sobre esses costumes.
Daqui decorre a dupla função que a aprendizagem essencial pede que se saiba explicar (ver Fig. 2). Do lado religioso, esta escrita é instrumento de conversão e, por isso mesmo, de colonização: propõe-se substituir uma cultura religiosa inteira e é indissociável do enquadramento dos índios em aldeamentos. Do lado cultural, produziu a primeira gramática e os primeiros vocabulários do tupi, o primeiro teatro, as primeiras escolas e os primeiros registos de línguas e costumes indígenas — de tal modo que boa parte do que hoje sabemos do mundo tupi sobrevive, paradoxalmente, no arquivo de quem se propunha substituí-lo. Ler bem estes textos é sustentar as duas coisas ao mesmo tempo.

A dupla função da literatura de catequese

A dupla função da literatura de catequeseDiagrama em árvore, 4 caminhos, Dados: Função religiosa → Autos e teatro de doutrina; Função religiosa → Poesia devota (latim, tupi); Função cultural → Gramática e registo do tupi; Função cultural → Colégios: a primeira escolaFunção religiosaFunção culturalLiteratura de catequeseAutos e teatro de doutrinaPoesia devota (latim, tupi)Gramática e registo do tupiColégios: a primeira escola
Fig. 2Fig. 2 — A dupla função da catequese: religiosa por intenção, cultural por consequência.
Exemplo resolvido

Ler um auto de catequese

Numa peça representada ao ar livre numa aldeia, diabos com nomes indígenas incitam, em tupi, a costumes que a missão combatia; um santo e um anjo, que falam também português, vencem-nos diante de um público de índios e colonos. Identifica o tipo de texto, o autor a que se associa e a estratégia que o organiza.

  1. 01Situar o texto

    Representação na aldeia, personagens alegóricas e desenlace doutrinal: é teatro de catequese, género que se associa ao Padre José de Anchieta (1534–1597).

  2. 02Observar a matriz

    Diabos, santo e anjo em luta pelas almas são herança do teatro alegórico medieval de vícios e virtudes, à maneira de Gil Vicente.

  3. 03Analisar a língua e os vícios

    O tupi serve quem se quer converter e o português os colonos; e os vícios não são genéricos: são os costumes que a missão combatia, vencidos em cena diante de quem os praticava.

Resultado: É um auto de catequese, género associado a Anchieta. A estratégia é dupla: aproveita a alegoria medieval de vícios e virtudes para ensinar doutrina pelo espetáculo e serve-se do plurilinguismo — tupi para os índios, português para os colonos — para falar a cada auditório na sua língua. Nisto se cumprem as duas funções: converter e, ao mesmo tempo, registar e difundir o tupi.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar, com exemplos, a dupla função (religiosa e cultural) da literatura de catequese: é a formulação literal da aprendizagem essencial e o núcleo do que a avaliação interna pede.
  • Reconhecer os traços do teatro de catequese num excerto: plurilinguismo, alegoria de vícios e virtudes, matriz medieval e adaptação ao público a converter.
  • Sustentar um juízo equilibrado sobre a missão, distinguindo o que ela destruiu do que ela conservou — a leitura fundamentada que os ensaios e os debates valorizam.

Erros frequentes

  • Atribuir a Anchieta o « Diálogo sobre a Conversão do Gentio », que é do Padre Manuel da Nóbrega.
  • Descrever os autos como teatro de entretenimento ou « popular brasileiro »: são instrumentos de doutrina, escritos e dirigidos pela missão.
  • Tratar o tupi como pormenor curioso: o plurilinguismo é a estratégia central da catequese e a origem do seu principal legado cultural.

Revisão ativa

Explica, num parágrafo fundamentado (120 a 150 palavras), em que consiste a « dupla função » da literatura de catequese, com apoio no teatro de Anchieta e na fixação escrita do tupi; termina indicando um limite dessa função cultural.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

O Barroco: Gregório de Matos e a oratória de Vieira#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-periodo-colonial

Pontos-chave

O Barroco não é primeiro um conjunto de recursos, mas uma visão do mundo em crise: nasce do choque entre a mundividência teocêntrica medieval e a antropocêntrica do Renascimento, e é reforçado pela Contrarreforma, que devolve à Igreja o púlpito como instrumento de reconquista das almas. O homem barroco vive dividido entre o corpo e a alma, o prazer e a culpa, o efémero e o eterno. Daí as marcas formais a reconhecer: a antítese e o paradoxo, que põem os contrários no mesmo enquadramento; a hipérbole, que amplifica; a metáfora sensorial, que dá corpo à ideia. A periodização escolar baliza o Barroco brasileiro entre o início do século XVII e 1768.
Dentro do Barroco distinguem-se dois estilos que convém não confundir (ver Fig. 3). O cultismo — também dito gongorismo, por referência a Góngora — é o jogo de palavras: imagem sensorial, sonoridade, sintaxe invertida, vocabulário raro, ornamento. O conceptismo é o jogo de ideias: definição, distinção, raciocínio encadeado, subtileza argumentativa quase silogística. A poesia tende para o cultismo e a oratória sagrada para o conceptismo, mas os dois convivem e o mesmo autor pode servir-se de ambos. Ao comentar um texto, o que decide a classificação não é a etiqueta, é a marca: onde está o efeito — na palavra ou no pensamento?

Cultismo e conceptismo

Cultismo e conceptismoTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Aspeto · Cultismo (gongorismo) · Conceptismo; Jogo dominante · Jogo de palavras · Jogo de ideias; Recursos · Metáfora sensorial, sonoridade, hipérbole · Definição, distinção, raciocínio encadeado; Sintaxe · Invertida, ornamental, vocabulário raro · Ordenada ao serviço do argumento; Efeito procurado · Deslumbrar os sentidos · Convencer o entendimento; Género onde predomina · Poesia lírica e satírica · Oratória sagrada, o sermão; Exemplo no Brasil colonial · Gregório de Matos · Padre António Vieira, célula destacada: Jogo de ideiasASPETOCULTISMO (GONGORISMO)CONCEPTISMOJOGO DOMINANTEJogo de palavrasJogo de ideiasRECURSOSMetáfora sensorial,sonoridade, hipérboleDefinição, distinção,raciocínio encadeadoSINTAXEInvertida, ornamental,vocabulário raroOrdenada ao serviço doargumentoEFEITO PROCURADODeslumbrar os sentidosConvencer o entendimentoGÉNERO ONDEPREDOMINAPoesia lírica e satíricaOratória sagrada, o sermãoEXEMPLO NO BRASILCOLONIALGregório de MatosPadre António VieiraO que decide a classificação é a marca textual, não aetiqueta.
Fig. 3Fig. 3 — Os dois estilos do Barroco: o jogo de palavras e o jogo de ideias.
Gregório de Matos (1636–1696) nasceu em Salvador da Baía, formou-se em Direito em Coimbra e regressou à Baía, cuja sociedade dissecou em verso: governadores, eclesiásticos, comerciantes, a fidalguia ostentosa de uma colónia que vivia do açúcar e da escravatura — veia que lhe valeu o cognome de « Boca do Inferno ». Reduzi-lo à sátira é erro: tem também lírica amorosa, poesia erótica e poesia religiosa em que o pecador apela à misericórdia divina alegando que quanto maior é a culpa maior é a glória de quem perdoa, argumento tipicamente conceptista. Desterrado para Angola e depois autorizado a voltar, morreu no Recife. Não publicou livro em vida: a poesia circulou em códices manuscritos e só no século XIX foi impressa, o que explica que a crítica moderna discuta a autoria de muitos textos que os códices lhe atribuem.
O Padre António Vieira (1608–1697) é um jesuíta português: nasceu em Lisboa, foi ainda criança para a Baía e ali entrou na Companhia de Jesus; pregador da corte de D. João IV, missionário no Maranhão e no Pará e defensor dos índios contra a escravização pelos colonos, veio a morrer na Baía. É património partilhado por Portugal e pelo Brasil: apresentá-lo sem mais como escritor brasileiro é impreciso, e ignorar-lhe a experiência brasileira é empobrecedor. No « Sermão de Santo António aos Peixes », pregado em São Luís do Maranhão, em 1654, depois de conflito áspero com os colonos a propósito da escravização dos índios, toma a tradição do santo que, não sendo ouvido pelos homens, pregou aos peixes, e constrói uma alegoria sustentada: os peixes são os homens do Maranhão (ver Fig. 4). Louva-os primeiro e repreende-os depois, fazendo de cada espécie a figura de um vício — os roncadores, os pegadores colados aos poderosos, os voadores, o polvo que muda de cor —, e a denúncia central é a lei segundo a qual os grandes comem os pequenos. O « Sermão da Sexagésima », de 1655, é um sermão sobre os sermões: a partir da parábola do semeador, pergunta por que razão a palavra de Deus dá tão pouco fruto e responde com uma poética da pregação — clareza, ordem, unidade, eficácia — contra o estilo culto dos rivais; a ironia é que essa defesa da clareza é ela própria conceptista.

A arquitetura alegórica do Sermão de Santo António aos Peixes

Vieira prega em São Luís do Maranhão, 1654 o sermão dirige-se aos peixes o alvo real: os homens do Maranhão alegoria a arquitetura do sermão 1 · louvor — as virtudes dos peixes 2 · repreensão — cada espécie figura um vício dos homens
Fig. 4Fig. 4 — Falando aos peixes, o pregador atinge os homens: a alegoria do sermão de 1654.
Exemplo resolvido

Cultismo ou conceptismo?

Um texto encadeia definições e distinções e leva o ouvinte, por etapas, a uma conclusão incómoda; outro acumula metáforas sensoriais, aliterações e sintaxe invertida em torno da beleza que se desfaz. Identifica o estilo dominante em cada um, o género a que pertencem e o que têm em comum.

  1. 01Analisar o primeiro texto

    Definir, distinguir e encadear etapas é jogo de ideias: o efeito está no pensamento. É conceptismo, próprio da oratória sagrada, em que Vieira é o mestre.

  2. 02Analisar o segundo texto

    Metáfora sensorial, aliteração e hipérbato põem o efeito na palavra e na sonoridade: é cultismo, ou gongorismo, próprio da poesia lírica, veia de Gregório de Matos.

  3. 03Encontrar a raiz comum

    O tema do segundo — a beleza que se desfaz — e o desconforto a que chega o primeiro dizem a mesma tensão barroca entre o efémero e o eterno.

Resultado: O primeiro é conceptista e pertence à oratória sagrada, o género de Vieira; o segundo é cultista (gongórico) e pertence à poesia lírica, veia de Gregório de Matos. Ambos exprimem a mesma visão do mundo barroca — a tensão entre o efémero e o eterno —, num caso pelo jogo de ideias, no outro pelo jogo de palavras.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir cultismo de conceptismo perante um excerto, apontando as marcas concretas — jogo de palavras contra jogo de ideias — e não apenas colando a etiqueta.
  • Analisar a alegoria do « Sermão de Santo António aos Peixes »: o termo figurado (os peixes), o termo real (os homens do Maranhão) e a função crítica do desvio.
  • Situar o Padre António Vieira como jesuíta português que viveu e pregou no Brasil — património partilhado — e ler a antítese e a hipérbole de Gregório de Matos como formas da tensão barroca, não como ornamento.

Erros frequentes

  • Trocar cultismo e conceptismo: o cultismo é o jogo de palavras, à maneira de Góngora; o conceptismo é o jogo de ideias, próprio do sermão.
  • Apresentar o Padre António Vieira, sem mais, como escritor brasileiro: é um jesuíta português que viveu e pregou no Brasil — o « Sermão de Santo António aos Peixes » é de 1654 e o « Sermão da Sexagésima », de 1655.
  • Dizer que Gregório de Matos publicou a obra em livro (circulou em códices manuscritos, e a autoria de muitos textos é discutida) ou reduzi-lo à sátira, esquecendo a lírica, a erótica e a religiosa.

Revisão ativa

Comenta a alegoria do « Sermão de Santo António aos Peixes » (200 a 250 palavras): a situação em que Vieira o pregou, a correspondência entre peixes e homens, a função do louvor que precede a repreensão e o efeito crítico do dispositivo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

O Arcadismo mineiro e o despertar pré-nacional#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-periodo-colonial

Pontos-chave

O século XVIII troca a tensão barroca pela confiança iluminista na razão, na natureza e na simplicidade. As academias árcades europeias — entre elas a Arcádia Lusitana, em Portugal — adotam como divisa o lema « inutilia truncat »: corta-se o inútil, o ornamento supérfluo que o Barroco multiplicara. No Brasil, o ouro faz de Vila Rica, em Minas Gerais, o centro cultural da colónia, e a periodização escolar fixa o começo do Arcadismo brasileiro em 1768, ano das « Obras » de Cláudio Manuel da Costa (ver Fig. 5).

Barroco e Arcadismo

Barroco e ArcadismoTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Aspeto · Barroco (séc. XVII) · Arcadismo (a partir de 1768); Visão do mundo · Tensão entre o terreno e o eterno · Confiança na razão e na natureza; Atitude · Dúvida, culpa, fusão de contrários · Equilíbrio, medida, contentamento; Estilo · Excesso e ornamento; cultismo e conceptismo · Clareza e simplicidade; « inutilia truncat »; Recursos · Antítese, paradoxo, hipérbole · Locus amoenus, carpe diem, fingimento; Cenário · A cidade colonial, o púlpito · O campo ameno, a fonte, o rebanho; Formas · Soneto, sátira, sermão · Soneto, lira, epopeia; Autores · Gregório de Matos, Padre António Vieira · Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga, Durão, célula destacada: Clareza e simplicidade; « inutilia truncat »ASPETOBARROCO (SÉC. XVII)ARCADISMO (A PARTIR DE1768)VISÃO DO MUNDOTensão entre o terreno e oeternoConfiança na razão e nanaturezaATITUDEDúvida, culpa, fusão decontráriosEquilíbrio, medida,contentamentoESTILOExcesso e ornamento;cultismo e conceptismoClareza e simplicidade; «inutilia truncat »RECURSOSAntítese, paradoxo,hipérboleLocus amoenus, carpe diem,fingimentoCENÁRIOA cidade colonial, o púlpitoO campo ameno, a fonte, orebanhoFORMASSoneto, sátira, sermãoSoneto, lira, epopeiaAUTORESGregório de Matos, PadreAntónio VieiraCláudio Manuel da Costa,Gonzaga, DurãoDo excesso barroco à medida árcade.
Fig. 5Fig. 5 — Barroco e Arcadismo: duas visões do mundo, dois estilos.
As convenções reconhecem-se de imediato. A primeira é o fingimento poético: o poeta assume um pseudónimo pastoril e a máscara do pastor — Cláudio Manuel da Costa assina Glauceste Satúrnio, Tomás Antônio Gonzaga é Dirceu e à amada chama Marília. Seguem-se o « locus amoenus », o lugar ameno de fonte, sombra e rebanho, o « fugere urbem », a fuga da cidade corrompida, e a « aurea mediocritas », o contentamento com pouco; e o « carpe diem », o convite a colher o dia porque a beleza e o tempo passam. A linguagem quer-se clara e o verso regular; o soneto e a lira são as formas prediletas.
Nos líricos, a convenção importada entra em atrito produtivo com a terra. Cláudio Manuel da Costa escreve, nas « Obras » (1768), sonetos de fatura clássica em que ainda se sente o peso do Barroco — e uma fissura nova: o cenário árcade convencional choca com a paisagem real de Minas, áspera e cavada pela mineração, e é nesse desajuste que a crítica lê o primeiro sinal de uma poesia atenta ao lugar. Tomás Antônio Gonzaga, nascido no Porto e magistrado em Vila Rica, escreve « Marília de Dirceu » (1792), o livro de poemas de amor mais lido do período, em que o pastor Dirceu canta a Marília a vida simples que lhe promete; a segunda parte, que a tradição associa aos anos de prisão e desterro, escurece o tom, e a convenção pastoril passa a dizer uma perda real.
As duas epopeias do período põem o índio e a terra no centro do poema, por caminhos opostos. « O Uraguai » (1769), de José Basílio da Gama, em cinco cantos e decassílabos brancos — sem a rima nem a estrofe da epopeia camoniana —, narra a campanha luso-espanhola contra as missões guaraníticas; é anti-jesuítica e pombalina, mas dá aos índios, e sobretudo a Lindoia, cuja morte é o passo mais célebre do poema, uma dignidade que a crítica aponta como anúncio do indianismo romântico. « Caramuru » (1781), de Frei José de Santa Rita Durão, em dez cantos de oitava rima e à maneira camoniana, conta a história do náufrago Diogo Álvares, o Caramuru, e de Paraguaçu, e a fundação da Baía: obra católica e colonial, que integra o índio na ordem cristã pelo batismo e pelo casamento. Opostas na forma e na ideologia, ambas tornam a terra e os seus habitantes matéria de poema maior (ver Fig. 6).

Os três olhares sobre o índio

Os três olhares sobre o índioGrafo, O índio → Objeto de descrição, O índio → Alma a converter, O índio → Herói em formação, Objeto de descrição → Cartas e tratados, Alma a converter → Autos de catequese, Herói em formação → Uraguai · CaramuruO índioObjeto dedescriçãoAlma aconverterHerói emformaçãoCartas etratadosAutos decatequeseUraguai ·Caramuru
Fig. 6Fig. 6 — Os três olhares sobre o índio ao longo do período colonial.
É neste momento que o nativismo se torna político. A Inconfidência Mineira (1789), conjura de Vila Rica contra a pressão fiscal da Coroa, envolveu os poetas árcades: Cláudio Manuel da Costa foi preso e morreu na prisão nesse mesmo ano — a versão oficial do suicídio é discutida — e Gonzaga foi desterrado para Moçambique, onde viveu o resto da vida, destino que nesta disciplina vale a pena reter, porque liga a poesia mineira ao espaço do Índico. Convém, porém, a medida exata: o Arcadismo mineiro ainda não é literatura nacional — escreve-se em formas metropolitanas, publica-se em Lisboa e os autores são súbditos portugueses. O que nele desponta é o nativismo, e é esse despertar que o Romantismo, depois da independência de 1822, transformará em programa.
Exemplo resolvido

Reconhecer o Arcadismo — e a sua fissura

Um poema é assinado por um pastor de nome greco-latino, convida a amada a colher o dia porque a beleza passa e elogia a vida simples do campo contra a cidade; mas o campo que descreve tem serras ásperas e vestígios de mineração. Identifica a escola, as convenções presentes e o que revela o atrito entre a convenção e a paisagem.

  1. 01Nomear a escola

    Pseudónimo pastoril, elogio da vida simples e clareza de linguagem são marcas do Arcadismo, que a periodização escolar faz começar, no Brasil, em 1768.

  2. 02Listar as convenções

    O nome de pastor é o fingimento poético; o convite a colher o dia é o « carpe diem »; a preferência pelo campo é o « fugere urbem », associado à « aurea mediocritas ».

  3. 03Observar o desvio

    O « locus amoenus » pede fonte, sombra e prado; serras ásperas e mineração são a paisagem real de Minas Gerais, não o cenário herdado.

  4. 04Medir o alcance

    A convenção racha e por essa racha entra o lugar concreto — mas é nativismo incipiente, não nacionalismo: o autor continua a escrever em formas metropolitanas.

Resultado: O poema é árcade: o pseudónimo pastoril (fingimento poético), o « carpe diem » e o « fugere urbem » identificam-no sem dúvida. O atrito entre o « locus amoenus » convencional e a paisagem mineira, áspera e cavada pela mineração, revela que o modelo importado já não serve à terra descrita — nativismo incipiente, atento ao lugar, que não deve confundir-se com um nacionalismo literário ainda inexistente.

Foco no Exame Nacional

  • Identificar as convenções árcades num poema — pseudónimo pastoril, « locus amoenus », « fugere urbem », « carpe diem » — e mostrar o que fazem ao sentido: não basta nomeá-las.
  • Distinguir « O Uraguai » de « Caramuru » pelo autor, pela data, pela forma métrica e pela filiação ideológica.
  • Explicar a diferença entre o nativismo árcade e o nacionalismo literário posterior à independência, e comparar Barroco e Arcadismo quanto à visão do mundo, ao estilo e ao cenário: a leitura anacrónica é o erro que mais penaliza um ensaio.

Erros frequentes

  • Trocar « O Uraguai » (Basílio da Gama, 1769, cinco cantos em decassílabos brancos, anti-jesuítico) com « Caramuru » (Santa Rita Durão, 1781, dez cantos em oitava rima, à maneira camoniana).
  • Confundir os pseudónimos árcades: Glauceste Satúrnio é Cláudio Manuel da Costa; Dirceu é Tomás Antônio Gonzaga, e Marília é a amada cantada nas suas liras.
  • Datar « Marília de Dirceu » de 1789 (a primeira parte é de 1792), chamar « literatura nacional » ao Arcadismo mineiro ou confundir a Inconfidência (1789) com a independência do Brasil (1822).

Revisão ativa

Compara « O Uraguai » e « Caramuru » num texto expositivo-argumentativo (250 a 300 palavras): autor, data, forma métrica, filiação ideológica e imagem do índio; conclui explicando por que razão ambas são consideradas anúncios do indianismo romântico.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01A literatura de informação: as primeiras visões do Brasil○
    • 02Os jesuítas e a literatura de catequese: Anchieta○
    • 03O Barroco: Gregório de Matos e a oratória de Vieira◐
    • 04O Arcadismo mineiro e o despertar pré-nacional●

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Dos resumos à prática

Manifestações literárias no período colonial (Brasil)

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Competências
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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

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Romantismo e busca de nacionalização da literatura brasileira

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