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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Modernismo brasileiro: revolução e pluralidade de experiências poéticas
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Modernismo brasileiro: revolução e pluralidade de experiências poéticas

O Modernismo brasileiro faz da rutura um ato de refundação: a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, leva ao palco o verso livre, o humor, a montagem e a defesa da « fala brasileira » como matéria literária. Dos manifestos de Oswald de Andrade — o da poesia «Pau-Brasil» (1924) e o «Antropófago» (1928) — à rapsódia «Macunaíma» (1928) de Mário de Andrade, e daí à pluralidade de experiências poéticas de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e João Cabral de Melo Neto, desenha-se um dos capítulos mais ricos da literatura em língua portuguesa. Literaturas de Língua Portuguesa é uma disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional: o que se avalia é a leitura analítica do texto, o comentário literário fundamentado e o ensaio expositivo-argumentativo.

4 secções·~22 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0333 / 12
Perfil de exame
Situar a Semana de Arte Moderna de 1922 e caracterizar a rutura modernistaDistinguir os manifestos e os grupos do primeiro ModernismoCaracterizar o projeto de Mário e de Oswald de AndradeComparar as diferentes experiências poéticas modernistas e pós-modernistas — competência aferida apenas por avaliação interna, uma vez que a disciplina não tem Exame Final Nacional
Operadores:situacaracterizaanalisainterpretarelacionacomparacomentajustifica

nível básico

Reconhecer a Semana de 1922, os manifestos principais e os grandes nomes do Modernismo brasileiro, associando a cada autor uma obra e a sua data.

nível avançado

Comparar poéticas modernistas a partir de marcas textuais concretas — do poema-piada de 1922 ao rigor construtivo de João Cabral — e discutir a antropofagia como programa cultural.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Modernismo brasileiro: revolução e pluralidade de experiências poéticas
    • 011922: a Semana de Arte Moderna e a rutura○
    • 02Manifestos e grupos: Pau-Brasil, Antropofagia, Verde-Amarelismo◐
    • 03Mário e Oswald de Andrade: o projeto modernista◐
    • 04A pluralidade das experiências poéticas: Bandeira, Drummond, Cecília, João Cabral●
§ 01

1922: a Semana de Arte Moderna e a rutura#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-modernismo

Pontos-chave

No início do século XX, São Paulo enriquecera com o café e industrializava-se, mas a literatura consagrada continuava presa ao Parnasianismo — o culto da métrica impecável, da rima rara e de um vocabulário « nobre ». O escândalo fundador é anterior a 1922: em 1917, Anita Malfatti expôs em São Paulo telas de feição moderna e Monteiro Lobato respondeu-lhe com o artigo hostil « Paranoia ou Mistificação? ». O ataque produziu o efeito contrário ao pretendido — reuniu em torno da pintora jovens escritores, entre eles Mário de Andrade e Oswald de Andrade — e deixou uma lição de método: o Modernismo brasileiro é, desde a origem, interartístico (ver Fig. 1).

Cronologia do Modernismo brasileiro (1917–1956)

Cronologia do Modernismo brasileiro (1917–1956)Linha do tempo de 1915 a 1960, 1917: Exposição de Anita Malfatti, 1922: Semana de Arte Moderna, 1924: Manifesto Pau-Brasil, 1928: Antropofagia · «Macunaíma», 1930: «Libertinagem» · «Alguma Poesia», 1945: «A Rosa do Povo» · «O Engenheiro», 1955: «Morte e Vida Severina», 1956: Grupo Noigandres, 1922–1930: 1.ª fase (heroica), 1930–1945: 2.ª fase, 1945–1960: Geração de 45 e Concretismo19151960ano1.ª fase (heroica)2.ª faseGeração de 45 eConcretismo1917Exposição deAnita Malfatti1922Semana de ArteModerna1924ManifestoPau-Brasil1928Antropofagia ·«Macunaíma»1930«Libertinagem» ·«Alguma Poesia»1945«A Rosa do Povo»· «O Engenheiro»1955«Morte e VidaSeverina»1956Grupo Noigandres
Fig. 1Fig. 1 — Do escândalo de 1917 ao Concretismo de 1956: os marcos do Modernismo brasileiro.
A Semana de Arte Moderna realizou-se no Teatro Municipal de São Paulo, em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 — três sessões de conferências, leituras de poemas, concertos e uma exposição de artes plásticas. Participaram Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Graça Aranha; Heitor Villa-Lobos assegurou a música, e Anita Malfatti e Di Cavalcanti as artes plásticas. O público reagiu com vaias, e é do escândalo que vem a força simbólica do acontecimento: a Semana não apresentou obras-primas, apresentou um estado de espírito. A data não é inocente — 1922 é o ano do centenário da Independência, e a crítica lê o gesto como reivindicação de uma segunda independência, agora estética.
O que muda, tecnicamente? Cai a obrigação do verso metrificado e rimado e entra o verso livre; cai o vocabulário « poético » e entram a rua, a máquina, o anúncio, a piada — nasce o poema-piada, breve, epigramático, de remate cómico; cai a continuidade discursiva e entra a montagem, justaposição de fragmentos à maneira do corte cinematográfico. E cai a norma lusitana como modelo único de correção: os modernistas defendem a « fala brasileira », língua literária que aceite a sintaxe, o léxico e a colocação pronominal do português falado no Brasil. A aliança com as outras artes prolonga o mesmo gesto: Villa-Lobos incorporava ritmos populares na música erudita, e Malfatti e Di Cavalcanti deformavam a figura como os poetas deformavam a sintaxe.
A história literária divide o Modernismo brasileiro em três momentos, convenção didática e não fronteira rígida (ver Fig. 2). A primeira fase, dita heroica (1922–1930), é destrutiva e polémica: vive de manifestos, de revistas efémeras e de experiências radicais. A segunda (1930–1945) é construtiva: dá a grande poesia de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima e Murilo Mendes, a par do romance social do Nordeste. A terceira, a partir de 1945, reage contra a facilidade coloquial herdada de 1922 e reclama disciplina — é a Geração de 45, de João Cabral de Melo Neto, a que se seguirá o Concretismo do grupo Noigandres.

As três fases do Modernismo brasileiro

As três fases do Modernismo brasileiroTabela com 4 colunas e 3 linhas, Dados: Fase · Anos · Atitude e forma dominantes · Autores de referência; 1.ª fase (heroica) · 1922–1930 · Destruir e provocar: manifesto, verso livre, poema-piada, paródia · Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira; 2.ª fase · 1930–1945 · Construir: poesia madura, consciência social e metafísica · Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Murilo Mendes; 3.ª fase (Geração de 45 e depois) · 1945–1960 · Disciplinar: rigor construtivo, anti-lirismo, poema-objeto · João Cabral de Melo Neto, grupo Noigandres, célula destacada: Destruir e provocar: manifesto, verso livre, poema-piada, paródiaFASEANOSATITUDE E FORMADOMINANTESAUTORES DE REFERÊNCIA1.ª FASE (HEROICA)1922–1930Destruir e provocar:manifesto, verso livre,poema-piada, paródiaMário de Andrade, Oswald deAndrade, Manuel Bandeira2.ª FASE1930–1945Construir: poesia madura,consciência social emetafísicaCarlos Drummond de Andrade,Cecília Meireles, Jorge deLima, Murilo Mendes3.ª FASE (GERAÇÃODE 45 E DEPOIS)1945–1960Disciplinar: rigorconstrutivo, anti-lirismo,poema-objetoJoão Cabral de Melo Neto,grupo Noigandres
Fig. 2Fig. 2 — As três fases do Modernismo brasileiro: anos, atitude, forma e autores.
Exemplo resolvido

Ler um gesto inaugural

Um estudante afirma que « o Modernismo brasileiro começou em 1922, com a Semana de Arte Moderna ». Avalia a afirmação, corrigindo o que for necessário e justificando com dois factos anteriores a 1922.

  1. 01Reconhecer o que é exato

    1922 é a data-marco: a Semana realizou-se no Teatro Municipal de São Paulo, em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922.

  2. 02Identificar o que a afirmação omite

    A rutura já estava em curso: a exposição de Anita Malfatti (1917) e o artigo « Paranoia ou Mistificação? », de Monteiro Lobato, do mesmo ano, tinham dado à jovem geração uma causa comum.

  3. 03Reformular com rigor

    A Semana não criou o Modernismo: deu-lhe palco, escândalo e nome, reunindo num só programa a literatura, a pintura e a música.

  4. 04Fundamentar o sentido do gesto

    A coincidência com o centenário da Independência inscreve-a numa reivindicação de independência também estética — leitura corrente da crítica.

Resultado: A afirmação é apenas parcialmente exata. 1922 é a data-marco, e a Semana decorreu no Teatro Municipal de São Paulo em 13, 15 e 17 de fevereiro; mas o Modernismo não começou aí. A exposição de Anita Malfatti (1917) e o artigo « Paranoia ou Mistificação? », de Monteiro Lobato (1917), mostram que a rutura já fermentava: a Semana foi a sua declaração pública, tornada simbólica pela coincidência com o centenário da Independência.

Foco no Exame Nacional

  • Fixar os dados da Semana — Teatro Municipal de São Paulo, 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 — e o valor simbólico do centenário da Independência.
  • Descrever a rutura em termos técnicos (verso livre, poema-piada, montagem, « fala brasileira ») e não em fórmulas vagas: a avaliação interna valoriza a marca textual concreta.
  • Situar um autor e uma obra datada em cada uma das três fases.

Erros frequentes

  • Datar a Semana de 1920 ou de 1924, ou situá-la no Rio de Janeiro.
  • Afirmar que a Semana « criou » o Modernismo: a exposição de Anita Malfatti e o artigo de Monteiro Lobato são de 1917 — a Semana deu-lhes palco e escândalo.
  • Confundir o Modernismo brasileiro (1922) com o Modernismo português de «Orpheu» (1915).

Revisão ativa

Explica, em cerca de quinze linhas, por que razão a Semana de Arte Moderna de 1922 é um marco de rutura, referindo o contexto do centenário da Independência, dois participantes de áreas artísticas diferentes e duas consequências para a linguagem poética.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Manifestos e grupos: Pau-Brasil, Antropofagia, Verde-Amarelismo#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-modernismo

Pontos-chave

A primeira fase pensa por manifestos. O manifesto é um género de fronteira — meio programa, meio poema —, curto, agressivo, aforístico e assistemático: argumenta por imagens e palavras de ordem, não por demonstração. Lê-se como texto literário, atendendo aos seus recursos: o aforismo, o paradoxo, o trocadilho, a elipse e a paródia de discursos alheios. A par deles vivem revistas de existência curta: «Klaxon» (1922–1923), o primeiro órgão modernista, cujo nome — a buzina do automóvel — declara a adesão à cidade e à máquina, e a «Revista de Antropofagia» (1928–1929), onde a segunda vaga de provocações se organiza (ver Fig. 3).

Manifestos, revistas e grupos do primeiro Modernismo

Manifestos, revistas e grupos do primeiro ModernismoGrafo, Semana de 1922 → «Klaxon» (1922–1923), Semana de 1922 → Manifesto Pau-Brasil (1924), Semana de 1922 → Manifesto Nhengaçu Verde-Amarelo (1929), Manifesto Pau-Brasil (1924) → Manifesto Antropófago (1928), Manifesto Antropófago (1928) → «Revista de Antropofagia», Manifesto Pau-Brasil (1924) → Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago (1928) → Oswald de Andrade, Manifesto Nhengaçu Verde-Amarelo (1929) → Grupo Anta, Grupo Anta → Plínio Salgado, Grupo Anta → Menotti del Picchia, Grupo Anta → Cassiano RicardoSemana de 1922«Klaxon»(1922–1923)Manifesto Pau-Brasil (1924)ManifestoNhengaçu Verde-Amarelo (1929)ManifestoAntropófago(1928)Grupo Anta«Revista deAntropofagia»Oswald deAndradePlínio SalgadoMenotti delPicchiaCassiano Ricardo
Fig. 3Fig. 3 — Do movimento de 1922 saem duas linhas de nacionalismo: a antropofágica e a verde-amarela.
O «Manifesto da Poesia Pau-Brasil», publicado por Oswald de Andrade em 1924, toma o nome do primeiro produto de exportação da colónia e propõe, com o mesmo humor, uma poesia de exportação: em vez de imitar a Europa para lhe agradar, escrever um Brasil suficientemente brasileiro para interessar o mundo. O programa é de síntese e de invenção — o poema breve como um instantâneo, a surpresa, o corte, a recusa da eloquência — e reconcilia o que a tradição separava: a floresta e a escola, o erudito e o popular. Em «Pau Brasil» (1925), livro de poemas, Oswald aplica-o: textos mínimos, montagem, humor e o reaproveitamento, em recorte de verso, da prosa dos cronistas do descobrimento.
O «Manifesto Antropófago», de Oswald de Andrade, sai em 1928, no primeiro número da «Revista de Antropofagia». A sua metáfora é o rito antropofágico atribuído aos Tupi, que devorariam o inimigo valente para lhe absorver a força: a relação com a cultura estrangeira deixa de se pôr entre imitar e recusar e passa a pôr-se como deglutição crítica — devora-se o que vem de fora, digere-se e devolve-se transformado em coisa própria. « Tupi or not tupi, that is the question » é a tese em miniatura, porque o trocadilho devora o mais canónico dos versos ingleses e o restitui brasileiro; « Só a Antropofagia nos une » eleva o princípio a fundamento nacional, e não apenas estético (ver Fig. 4).

O circuito antropofágico

vanguardas europeiasfuturismo, cubismomatriz ameríndiao rito antropofágicodeglutiçãocríticacultura brasileira novanem imitação nem recusa
Fig. 4Fig. 4 — A antropofagia de Oswald de Andrade: nem imitar nem recusar — devorar, digerir e devolver transformado.
Nem todo o nacionalismo modernista tomou este rumo. O «Manifesto Nhengaçu Verde-Amarelo», de 1929, exprime a posição do grupo Anta — Plínio Salgado, Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo —, que também invoca a matriz indígena, mas para fins opostos: onde os antropófagos veem no índio o devorador irreverente, os verde-amarelos veem a anta, o animal que abre caminho na mata, símbolo de uma brasilidade concebida como fusão harmoniosa e obediência à tradição. É um nacionalismo ufanista e conservador, avesso à ironia, e a sua deriva política tornar-se-ia explícita: Plínio Salgado seria o fundador do integralismo brasileiro (ver Fig. 3).
Exemplo resolvido

Ler um slogan como argumento

Explica de que modo a frase « Tupi or not tupi, that is the question », do «Manifesto Antropófago» (1928), resume o programa antropofágico. Identifica o procedimento utilizado e o seu sentido.

  1. 01Identificar a matéria devorada

    A frase parte do verso mais célebre do teatro inglês: a matéria-prima é o próprio cânone europeu.

  2. 02Observar o procedimento

    Oswald substitui uma palavra por outra de sonoridade quase idêntica, num trocadilho bilingue que conserva a forma do original e lhe troca o conteúdo.

  3. 03Interpretar

    O verso deixa de interrogar a existência individual e passa a interrogar a identidade cultural: assumir ou recusar a matriz indígena como fundamento.

  4. 04Relacionar com o programa

    O procedimento é já a tese: o manifesto não descreve a antropofagia, pratica-a.

Resultado: A frase resume o manifesto porque o executa. Ao devorar o verso mais canónico da cultura europeia e ao devolvê-lo alterado por um trocadilho — a existência individual convertida em questão de identidade nacional —, Oswald de Andrade demonstra, no próprio ato de escrita, que a antropofagia não é imitação nem recusa da herança estrangeira, mas deglutição crítica de que resulta uma cultura própria.

Foco no Exame Nacional

  • Atribuir corretamente cada texto: «Manifesto da Poesia Pau-Brasil» (Oswald de Andrade, 1924), «Manifesto Antropófago» (Oswald de Andrade, 1928) e «Manifesto Nhengaçu Verde-Amarelo» (1929, grupo Anta).
  • Explicar a deglutição crítica sem a reduzir a « comer o estrangeiro »: ela transforma o que devora e produz cultura nova.
  • Distinguir os dois nacionalismos — o crítico e irónico dos antropófagos, o ufanista e conservador dos verde-amarelos —, matéria típica do debate e do ensaio argumentativo.

Erros frequentes

  • Atribuir o «Manifesto Antropófago» a Mário de Andrade: é de Oswald (1928); a Mário pertencem o « Prefácio Interessantíssimo » (1922) e «A Escrava que não é Isaura» (1925).
  • Trocar as revistas, ou confundir «Pau Brasil» (1925), livro de poemas, com o «Manifesto da Poesia Pau-Brasil» (1924), texto programático.
  • Supor que antropófagos e verde-amarelos defendiam o mesmo por ambos invocarem o índio.

Revisão ativa

Compara, em texto expositivo de cerca de vinte linhas, o nacionalismo do «Manifesto Antropófago» (1928) com o do «Manifesto Nhengaçu Verde-Amarelo» (1929), mostrando como ambos invocam a matriz indígena para fins opostos.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Mário e Oswald de Andrade: o projeto modernista#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-modernismo

Pontos-chave

Mário de Andrade (1893–1945) é a figura central do primeiro Modernismo: poeta, romancista, ensaísta e investigador do folclore e da música brasileira. «Paulicéia Desvairada» (1922) é o primeiro grande livro de poemas modernista: « Paulicéia » é São Paulo, e a cidade aparece aí desvairada — multidão, trânsito, dinheiro, ruído —, dita em verso livre e por sobreposição de vozes e de planos. Abre-o o « Prefácio Interessantíssimo », manifesto teórico em forma irónica, que explica e goza ao mesmo tempo a nova poesia, propondo uma escrita feita de simultaneidade, à maneira da polifonia musical — comparação natural num autor que era também musicólogo. Da mesma obra faz parte a « Ode ao Burguês », sátira feroz ao burguês paulistano (ver Fig. 5).

Mário e Oswald de Andrade: dois projetos

Mário e Oswald de Andrade: dois projetosTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Aspeto · Mário de Andrade (1893–1945) · Oswald de Andrade (1890–1954); Gesto dominante · Construir, investigar, arquivar · Cortar, provocar, sintetizar; Poesia · «Paulicéia Desvairada» (1922) · «Pau Brasil» (1925); Prosa · «Amar, Verbo Intransitivo» (1927); «Macunaíma» (1928) · «João Miramar» (1924); «Serafim Ponte Grande» (1933); Textos teóricos · « Prefácio Interessantíssimo » (1922); «A Escrava que não é Isaura» (1925) · Manifestos «Pau-Brasil» (1924) e «Antropófago» (1928); Forma · Rapsódia: episódios cosidos, fala popular · Montagem: capítulos curtos, elipse, humor; Matriz nacional · Pesquisa do folclore e da música · Deglutição crítica do que vem de fora, célula destacada: Construir, investigar, arquivarASPETOMÁRIO DE ANDRADE(1893–1945)OSWALD DE ANDRADE(1890–1954)GESTO DOMINANTEConstruir, investigar,arquivarCortar, provocar, sintetizarPOESIA«Paulicéia Desvairada»(1922)«Pau Brasil» (1925)PROSA«Amar, Verbo Intransitivo»(1927); «Macunaíma» (1928)«João Miramar» (1924);«Serafim Ponte Grande»(1933)TEXTOS TEÓRICOS« Prefácio Interessantíssimo» (1922); «A Escrava que nãoé Isaura» (1925)Manifestos «Pau-Brasil»(1924) e «Antropófago»(1928)FORMARapsódia: episódios cosidos,fala popularMontagem: capítulos curtos,elipse, humorMATRIZ NACIONALPesquisa do folclore e damúsicaDeglutição crítica do quevem de fora
Fig. 5Fig. 5 — Dois temperamentos do primeiro Modernismo: o que constrói e o que corta.
«Macunaíma, o herói sem nenhum caráter» (1928) é a obra-síntese do projeto. Mário não lhe chama romance, mas rapsódia: como o rapsodo cosia cantos alheios num só canto, o livro cose episódios, lendas e modos de dizer recolhidos em fontes etnográficas e na tradição oral, numa forma deliberadamente solta. O herói nasce na floresta amazónica, perde a muiraquitã, desce à São Paulo moderna para a recuperar, regressa ao mundo de origem e sobe por fim ao céu, convertido em constelação. O subtítulo é a chave interpretativa: « sem nenhum caráter » vale como falta de firmeza moral e como ausência de caráter fixo, isto é, de identidade única — e é essa hipótese sobre o Brasil que o livro põe em jogo.
A língua de «Macunaíma» é o laboratório da « fala brasileira »: mistura registos, incorpora regionalismos de proveniências diversas — para que o herói não pertença a nenhuma região — e adota a sintaxe e a colocação pronominal do português falado no Brasil. Mário recolheu e estudou o folclore e a música do país, convencido de que uma cultura nacional se constrói com pesquisa e não por decreto; ao mesmo projeto pertencem o ensaio «A Escrava que não é Isaura» (1925) e o romance «Amar, Verbo Intransitivo» (1927). Oswald de Andrade (1890–1954) é o polo contrário: em «Memórias Sentimentais de João Miramar» (1924) e «Serafim Ponte Grande» (1933) faz da prosa uma montagem — capítulos brevíssimos, elipse, corte cinematográfico, paródia dos discursos sociais. Onde Mário acumula, Oswald corta.
Convém fixar os quatro procedimentos que a disciplina destaca e saber onde os apanhar. A paródia: Oswald reaproveita a prosa dos cronistas coloniais e desmonta os discursos da respeitabilidade. A ironia: a « Ode ao Burguês » faz o elogio pelo avesso, e o « Prefácio Interessantíssimo » teoriza rindo-se de si próprio. A montagem: os capítulos-fragmento de «João Miramar», a simultaneidade de planos de «Paulicéia Desvairada». O coloquialismo: a fala popular de «Macunaíma», o léxico e a sintaxe do quotidiano no lugar da dicção nobre. Num comentário literário, nomear o procedimento e mostrar onde ocorre vale mais do que qualquer adjetivo.
Exemplo resolvido

Reconhecer o procedimento num excerto

Num livro de 1924, os capítulos têm poucas linhas, cortam-se sem transição, saltam de uma cena mundana para um anúncio e daí para uma frase feita, e o narrador nunca explica o que ficou por dizer. Que procedimento domina, a que autor e a que obra corresponde, e que efeito de sentido produz?

  1. 01Observar a forma

    Capítulos brevíssimos, cortes sem transição e ausência de explicação são marcas de descontinuidade deliberada, não de defeito de composição.

  2. 02Nomear o procedimento

    Trata-se da montagem: fragmentos justapostos, à maneira do corte cinematográfico, em lugar de narrativa contínua.

  3. 03Atribuir

    A data de 1924 e a prosa em montagem apontam para «Memórias Sentimentais de João Miramar», de Oswald de Andrade.

  4. 04Interpretar o efeito

    A justaposição de registos incompatíveis produz humor e crítica: o retrato da burguesia faz-se pela colagem dos seus próprios lugares-comuns.

Resultado: Domina a montagem, e o texto é «Memórias Sentimentais de João Miramar» (1924), de Oswald de Andrade. Ao justapor fragmentos heterogéneos sem transição nem comentário, obriga o leitor a estabelecer ele próprio as relações e produz, pela colagem dos lugares-comuns da burguesia retratada, um efeito simultaneamente cómico e crítico.

Foco no Exame Nacional

  • Não confundir as autorias: «Paulicéia Desvairada» (1922) e «Macunaíma» (1928) são de Mário; «João Miramar» (1924), «Pau Brasil» (1925) e «Serafim Ponte Grande» (1933) são de Oswald.
  • Justificar por que «Macunaíma» é rapsódia e não romance, a partir da forma episódica e da cosedura de materiais alheios.
  • Reconhecer num excerto a paródia, a ironia, a montagem e o coloquialismo, e explicar o efeito de sentido de cada um; a « fala brasileira » é uma posição sobre a língua, não um descuido.

Erros frequentes

  • Confundir Mário com Oswald de Andrade: não eram parentes, e os projetos são distintos.
  • Chamar romance a «Macunaíma»: o autor chamou-lhe rapsódia, e a designação descreve o modo de composição.
  • Ler « o herói sem nenhum caráter » apenas como insulto moral, ignorando a ausência de caráter fixo, isto é, de identidade única.

Revisão ativa

Justifica, em cerca de quinze linhas, a designação de « rapsódia » dada por Mário de Andrade a «Macunaíma» (1928), explicando o que ela diz sobre a forma do livro e sobre o seu projeto de língua literária.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

A pluralidade das experiências poéticas: Bandeira, Drummond, Cecília, João Cabral#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-modernismo

Pontos-chave

Manuel Bandeira (1886–1968) é a ponte entre o antes e o depois. Começou em registo pós-simbolista, com «A Cinza das Horas» (1917), e em «Carnaval» (1919) já incluía « Os Sapos », sátira ao culto parnasiano da rima e da métrica, poema que se tornaria um dos emblemas da polémica de 1922. A consagração modernista chega com «Libertinagem» (1930): « Poética » é uma declaração de guerra ao lirismo obediente e bem-comportado, e « Vou-me embora pra Pasárgada » inventa um reino imaginário onde tudo é permitido — a evasão de quem viveu constrangido pela doença, dita com uma leveza que torna a fuga ainda mais comovente. Bandeira mostrou que o verso livre podia ser terno, e não apenas escandaloso.
« Evocação do Recife », também de «Libertinagem» (1930), realiza um dos eixos que o currículo destaca na literatura brasileira — os retratos da infância. O poema reconstitui a cidade da meninice pelos nomes: as ruas, as casas, os jogos, as vozes; e opõe a língua aprendida nos livros e na gramática à fala viva do povo, reconhecendo nesta a língua verdadeira. A infância não é aí assunto sentimental, mas matéria poética e argumento linguístico: é no tempo anterior à gramática que o poeta situa a língua que quer escrever. A memória pessoal e o programa da « fala brasileira » coincidem, assim, num só poema.
Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) é a maior voz da segunda fase. «Alguma Poesia» (1930) abre com o « Poema de Sete Faces », que instala a figura do « gauche » — o desajustado, cuja ironia é a forma de habitar um mundo com que não coincide; antes disso, « No meio do caminho » saíra na «Revista de Antropofagia», em 1928, e escandalizara pela repetição obstinada de uma frase banal. Depois, a obra alarga-se: «Sentimento do Mundo» (1940) abre o eu ao mundo e à guerra, «A Rosa do Povo» (1945) é o auge da poesia participante e «Claro Enigma» (1951) volta-se para uma dicção mais densa e quase clássica.
A segunda fase é plural. Cecília Meireles traz em «Viagem» (1939) uma poesia musical e fluida, atenta ao tempo e à transitoriedade, e em «Romanceiro da Inconfidência» (1953) adota a forma tradicional do romance, de origem popular, para dizer a memória da Inconfidência Mineira. Jorge de Lima, em «A Túnica Inconsútil» (1938), escreve uma poesia de inspiração religiosa e amplitude cósmica, e Murilo Mendes cruza esse imaginário com uma liberdade de imagem próxima do Surrealismo. Vinicius de Moraes (1913–1980) atravessa a fronteira das artes: «Orfeu da Conceição» (1956) leva o mito de Orfeu para o morro carioca, e da colaboração com músicos aí iniciada viria a nascer a Bossa Nova.
A Geração de 45 reage contra a facilidade coloquial e a efusão sentimental herdadas de 1922 e reclama construção e disciplina. A sua maior voz é João Cabral de Melo Neto (1920–1999): «O Engenheiro» (1945) dá-lhe o emblema — o poeta constrói o poema como se ergue um edifício, contra a inspiração e o derrame lírico; «O Cão sem Plumas» (1950) toma como matéria o rio Capibaribe e a miséria que o acompanha; «Morte e Vida Severina» (1955), auto de Natal pernambucano, acompanha o retirante Severino na descida do sertão até ao Recife, em verso curto de sete sílabas, a medida do romanceiro popular; «A Educação pela Pedra» (1966) explicita a estética: aprender da pedra a dureza, a secura e a resistência ao lirismo fácil. Recebeu o Prémio Camões em 1990. Depois dele, o Concretismo afirma-se publicamente em 1956, com o grupo Noigandres — Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari —, e propõe o poema como objeto visual, em que a página se torna espaço e a disposição gráfica passa a significar. Do poema-piada de 1922 ao poema-objeto de 1956, é essa pluralidade — e não uma doutrina única — a verdadeira herança da rutura (ver Fig. 6).

Três poéticas em confronto: Bandeira, Drummond e João Cabral

Três poéticas em confronto: Bandeira, Drummond e João CabralTabela com 4 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Manuel Bandeira · Carlos Drummond de Andrade · João Cabral de Melo Neto; Verso · Livre, próximo do fôlego da fala · Livre, de dicção seca e cortante · Medido e construído; recusa do derrame; O eu · Confidencial, terno, autobiográfico · Irónico e « gauche »: em desacordo com o mundo · Impessoal: o poema como objeto, não confissão; Léxico · Coloquial; nomes de ruas e de gente · Comum, mas tenso; a palavra pesada de história · Concreto e mineral: pedra, faca, rio, seca; Temas · Infância, memória, doença, evasão · O desajuste, a cidade, a guerra, o povo · O Nordeste, a miséria, o trabalho, a escrita; Obra de referência · «Libertinagem» (1930) · «A Rosa do Povo» (1945) · «A Educação pela Pedra» (1966), célula destacada: «A Educação pela Pedra» (1966)ASPETOMANUEL BANDEIRACARLOS DRUMMOND DEANDRADEJOÃO CABRAL DE MELONETOVERSOLivre, próximo do fôlego dafalaLivre, de dicção seca ecortanteMedido e construído; recusado derrameO EUConfidencial, terno,autobiográficoIrónico e « gauche »: emdesacordo com o mundoImpessoal: o poema comoobjeto, não confissãoLÉXICOColoquial; nomes de ruas ede genteComum, mas tenso; a palavrapesada de históriaConcreto e mineral: pedra,faca, rio, secaTEMASInfância, memória, doença,evasãoO desajuste, a cidade, aguerra, o povoO Nordeste, a miséria, otrabalho, a escritaOBRA DE REFERÊNCIA«Libertinagem» (1930)«A Rosa do Povo» (1945)«A Educação pela Pedra»(1966)
Fig. 6Fig. 6 — Três poéticas em confronto: do verso livre e coloquial ao rigor construtivo.
Exemplo resolvido

Atribuir uma poética a partir do texto

Um poema, em versos curtos e medidos, descreve uma pedra: a sua dureza, a sua economia, a lição de resistência que dá a quem escreve. Não há confidência nem exclamação, e o eu quase não aparece. A que poeta e a que linha do Modernismo brasileiro pertence? Justifica com três marcas textuais.

  1. 01Observar a medida do verso

    O verso curto e medido, e não o verso livre solto, indica uma poética de construção e de contenção.

  2. 02Observar o tratamento do eu

    A ausência de confidência e de exclamação, com o eu quase apagado, afasta o texto da linha coloquial e sentimental de 1922.

  3. 03Observar o léxico e a matéria

    A pedra tomada como objeto e como lição de escrita pertence a um campo lexical concreto e mineral, e faz da arte poética matéria do próprio poema.

  4. 04Atribuir e situar

    As três marcas convergem em João Cabral de Melo Neto; o motivo da pedra como mestra remete para «A Educação pela Pedra» (1966), e o autor pertence à Geração de 45.

Resultado: O poema é de João Cabral de Melo Neto e inscreve-se na Geração de 45, que reclama rigor contra a efusão de 1922. Justificam-no três marcas: o verso curto e medido (construção, não improviso); o apagamento do eu (o poema como objeto e não como confissão); e o léxico concreto e mineral, em que a pedra funciona como mestra de escrita — motivo que dá título a «A Educação pela Pedra» (1966).

Foco no Exame Nacional

  • Associar cada poeta às suas obras e datas — «Libertinagem» (1930), «Alguma Poesia» (1930), «A Rosa do Povo» (1945), «Viagem» (1939), «Romanceiro da Inconfidência» (1953), «Morte e Vida Severina» (1955) — é a base de qualquer comparação.
  • Comparar duas poéticas a partir do texto: que faz o poema com a medida do verso? que lugar dá à fala comum? que relação estabelece com o eu — expõe-o, ironiza-o ou apaga-o?
  • Reconhecer em « Evocação do Recife » o eixo dos retratos da infância, e relacionar a literatura com outras artes (a canção em Vinicius, a página visual do Concretismo), aprendizagem do domínio da Escrita.

Erros frequentes

  • Confundir os dois Andrades com o terceiro: Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) não tem parentesco nem grupo comum com Mário e Oswald.
  • Dar « No meio do caminho » como poema de «Alguma Poesia» (1930): saíra antes, na «Revista de Antropofagia», em 1928.
  • Chamar « modernista de 1922 » a João Cabral: pertence à Geração de 45, que reage contra a facilidade coloquial da primeira fase — tal como, depois dele, o Concretismo.

Revisão ativa

Compara, em ensaio de cerca de vinte e cinco linhas, a poética de Manuel Bandeira em «Libertinagem» (1930) com a de João Cabral de Melo Neto em «A Educação pela Pedra» (1966), quanto à medida do verso, ao lugar da fala comum e ao tratamento do eu.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 011922: a Semana de Arte Moderna e a rutura○
    • 02Manifestos e grupos: Pau-Brasil, Antropofagia, Verde-Amarelismo◐
    • 03Mário e Oswald de Andrade: o projeto modernista◐
    • 04A pluralidade das experiências poéticas: Bandeira, Drummond, Cecília, João Cabral●

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Dos resumos à prática

Modernismo brasileiro: revolução e pluralidade de experiências poéticas

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

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