EuraStudy
Depois da Revolução de 1930, o romance torna-se o grande género da literatura brasileira: a seca, o engenho decadente e a migração entram na ficção com Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado, segundo os três eixos das Aprendizagens Essenciais — « os retratos da infância; os heróis sertanejos itinerantes e complexos; os microcosmos regionais » —, até que em 1956 Guimarães Rosa reinventa a língua do sertão e Clarice Lispector desloca a narrativa para o interior. A disciplina não tem Exame Final Nacional: é avaliada exclusivamente por avaliação interna, pelo que este dossiê fala sempre de « foco de avaliação ».
4 secções~23 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Reconhecer o contexto de 1930, associar cada autor ao seu microcosmo regional e nomear os três eixos das Aprendizagens Essenciais com uma obra para cada um.
nível avançado
Analisar o discurso indireto livre em «Vidas Secas» e a invenção da língua em «Grande Sertão: Veredas», sustentando com marcas textuais uma leitura comparada do romance de 30 e da viragem de 1956.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
O romance brasileiro de 1922 a 1977: as datas-marco
Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para a literatura brasileira
Um romance brasileiro dos anos 30 acompanha uma família de camponeses que abandona a terra rachada pela seca e caminha para o Sul; o narrador não comenta, apenas regista. Situa o texto no seu movimento e explica que traços do contexto o explicam.
A matéria — seca, retirada, camponeses sem terra — e o narrador que regista sem comentar situam o texto no romance de 30, a segunda fase do Modernismo brasileiro.
A crise de 1929 e a Revolução de 1930 puseram o país perante as suas fraturas; as secas e o êxodo rural dão a matéria e a personagem.
A personagem que anda é « o herói sertanejo itinerante e complexo »; a terra que a expulsa é o « microcosmo regional ».
Resultado: É um romance de 30: a seca, a retirada e o narrador documental correspondem à intenção de diagnóstico do país aberta pela crise de 1929 e pela Revolução de 1930. Ilustra dois eixos das Aprendizagens Essenciais — « os heróis sertanejos itinerantes e complexos » e « os microcosmos regionais ».
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica, em cerca de 150 palavras, por que razão a crise de 1929 e a Revolução de 1930 são indispensáveis para compreender o romance brasileiro da década de 30; termina nomeando os três eixos das Aprendizagens Essenciais e associando uma obra a cada um.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
A estrutura circular de «Vidas Secas»
Num romance narrado na terceira pessoa lê-se que a personagem olha o céu e que havia de chover, que não podia ser que não chovesse — sem verbo introdutor (« pensou », « disse ») e sem aspas. Identifica a técnica narrativa e explica o efeito que produz.
O texto está na terceira pessoa e no passado — quem narra não é a personagem —, mas a repetição insistente do desejo surge sem verbo introdutor nem aspas: a voz da personagem infiltra-se na frase do narrador.
Essa fusão de duas vozes numa só frase é o discurso indireto livre, marca dominante de «Vidas Secas» (1938).
O leitor acede ao pensamento de Fabiano — repetitivo, concreto, sem vocabulário abstrato — sem que o narrador o traduza; a pobreza da linguagem torna-se prova da opressão.
Resultado: A técnica é o discurso indireto livre: numa narrativa de terceira pessoa, a voz da personagem infiltra-se na do narrador sem verbo introdutor nem aspas. O efeito é dar acesso a uma consciência que não dispõe de palavras para se dizer, sem que o narrador lhe empreste um vocabulário que não é o seu.
Erros frequentes
Revisão ativa
Comenta um excerto de «Vidas Secas» (1938) em cerca de 200 palavras: identifica duas marcas do discurso indireto livre e explica de que modo essa técnica serve a caracterização de Fabiano como « herói sertanejo itinerante e complexo ».
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Os microcosmos regionais e os seus romancistas
Um romance de 1932 é narrado por um homem adulto que recorda a chegada, ainda menino e órfão de mãe, ao engenho do avô, e a descoberta da casa-grande, dos trabalhadores e das histórias contadas à noite. Identifica a obra e o autor e explica que eixos das Aprendizagens Essenciais ilustra.
Um romance de 1932 em que um adulto recorda a chegada ao engenho do avô é «Menino de Engenho», de José Lins do Rego: abre o ciclo da cana-de-açúcar e a voz é a de Carlos de Melo, que atravessa também «Doidinho» (1933) e «Banguê» (1934).
A infância não é episódio: é o ponto de vista de toda a narração — eixo « os retratos da infância ».
O engenho, com a casa-grande, os trabalhadores e a decadência, é um mundo fechado e completo — eixo « os microcosmos regionais ».
Resultado: É «Menino de Engenho» (1932), de José Lins do Rego, primeiro romance do ciclo da cana-de-açúcar. Ilustra dois eixos: « os retratos da infância », porque a memória de menino é o próprio ponto de vista narrativo, e « os microcosmos regionais », porque o engenho é um mundo completo — e em ruína — que dá a ver a sociedade nordestina inteira.
Erros frequentes
Revisão ativa
Compara o retrato da infância em «Menino de Engenho» (1932) e em «Capitães da Areia» (1937): a casa e a rua, a memória e a sobrevivência, o narrador que recorda e o narrador que observa. Redige cerca de 250 palavras.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
O romance de 30 e a viragem de 1946–1977
Guimarães Rosa e Clarice Lispector: duas direções da mesma viragem
Num excerto, o narrador conta a sua vida na primeira pessoa, dirigindo-se a um ouvinte que nunca responde, e usa palavras que não constam do dicionário mas que se entendem pelo contexto, além de inversões que soam a fala antiga. A que autor e a que obra pertence, e que traços do período revela?
Uma narração oral na primeira pessoa dirigida a um interlocutor silencioso é a estrutura de «Grande Sertão: Veredas» (1956), em que Riobaldo conta a sua vida a um visitante culto.
As palavras inventadas mas compreensíveis são neologismos; as inversões que soam a fala antiga cruzam arcaísmo e sintaxe recriada a partir da oralidade sertaneja.
Estes processos definem a viragem de 1956: a linguagem deixa de ser um vidro transparente sobre a realidade e passa a ser o próprio assunto — e é a língua inventada que dá ao « herói sertanejo itinerante e complexo » a interioridade que o romance documental não lhe podia dar.
Resultado: É «Grande Sertão: Veredas» (1956), de João Guimarães Rosa, narrado por Riobaldo a um interlocutor que escuta e nunca fala. Revela os traços da viragem de 1956 — neologismo, arcaísmo e sintaxe recriada a partir da oralidade sertaneja: a língua deixa de descrever o sertão e passa a ser o lugar onde o sertão existe.
Erros frequentes
Revisão ativa
Redige um ensaio expositivo-argumentativo de cerca de 300 palavras que defenda esta tese: « em 1956 o romance brasileiro não abandona o sertão do romance de 30 — transfere-o para dentro da linguagem ». Fundamenta com «Grande Sertão: Veredas» (1956) e com um texto de Clarice Lispector.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)