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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/O romance brasileiro depois de 1930
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

O romance brasileiro depois de 1930

Depois da Revolução de 1930, o romance torna-se o grande género da literatura brasileira: a seca, o engenho decadente e a migração entram na ficção com Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado, segundo os três eixos das Aprendizagens Essenciais — « os retratos da infância; os heróis sertanejos itinerantes e complexos; os microcosmos regionais » —, até que em 1956 Guimarães Rosa reinventa a língua do sertão e Clarice Lispector desloca a narrativa para o interior. A disciplina não tem Exame Final Nacional: é avaliada exclusivamente por avaliação interna, pelo que este dossiê fala sempre de « foco de avaliação ».

4 secções·~23 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0444 / 12
Perfil de exame
Situar o romance de 1930 no seu contexto histórico e socialAnalisar os « heróis sertanejos itinerantes e complexos » e os « microcosmos regionais »Reconhecer « os retratos da infância » como matéria narrativaCaracterizar a rutura de 1956: a invenção da linguagem e a sondagem interior (competências verificadas por avaliação interna — a disciplina não tem Exame Final Nacional)
Operadores:analisainterpretarelacionacomparacomentajustificacaracterizasitua

nível básico

Reconhecer o contexto de 1930, associar cada autor ao seu microcosmo regional e nomear os três eixos das Aprendizagens Essenciais com uma obra para cada um.

nível avançado

Analisar o discurso indireto livre em «Vidas Secas» e a invenção da língua em «Grande Sertão: Veredas», sustentando com marcas textuais uma leitura comparada do romance de 30 e da viragem de 1956.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. O romance brasileiro depois de 1930
    • 011930: contexto e o romance social do Nordeste○
    • 02Graciliano Ramos: a secura e os heróis sertanejos◐
    • 03Microcosmos regionais e retratos da infância: José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz◐
    • 04A rutura de 1956: Guimarães Rosa e Clarice Lispector●
§ 01

1930: contexto e o romance social do Nordeste#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-romance-1930

Pontos-chave

A década de 1930 abre-se sob o signo da crise: o colapso da bolsa de Nova Iorque em 1929 arrasta o preço do café e desmorona a economia agroexportadora brasileira. A Revolução de 1930 leva Getúlio Vargas ao poder e inaugura a centralização que culminará no Estado Novo (1937–1945), autoritário e censório. No Nordeste, as secas periódicas e a decadência dos engenhos de açúcar empurram populações inteiras para o êxodo rural — a « retirada ». É deste solo que nasce o romance de 30: uma ficção que deixa de olhar para o gabinete literário e passa a olhar para o país real (ver Fig. 1).

O romance brasileiro de 1922 a 1977: as datas-marco

O romance brasileiro de 1922 a 1977: as datas-marcoLinha do tempo de 1920 a 1980, 1922: Semana de Arte Moderna, 1926: «Manifesto Regionalista», 1930: Revolução · «O Quinze», 1933: «Casa-Grande & Senzala», 1938: «Vidas Secas», 1943: «Fogo Morto», 1956: «Grande Sertão: Veredas», 1977: «A Hora da Estrela», 1930–1945: Romance de 30, 1937–1945: Estado Novo, 1946–1977: Linguagem e interioridade19201980anoRomance de 30Estado NovoLinguagem einterioridade1922Semana de ArteModerna1926«ManifestoRegionalista»1930Revolução · «OQuinze»1933«Casa-Grande &Senzala»1938«Vidas Secas»1943«Fogo Morto»1956«Grande Sertão:Veredas»1977«A Hora daEstrela»
Fig. 1Fig. 1 — Do Modernismo de 1922 a «A Hora da Estrela» (1977): contexto e obras-marco.
A Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo em 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922 (revisão), abrira uma fase de experimentação iconoclasta. O romance de 30 herda-lhe as conquistas — sobretudo a legitimidade da língua falada no Brasil como língua literária — mas dá-lhes outra finalidade: usa a liberdade para diagnosticar o país. Acompanha-o um movimento de interpretação do Brasil: o «Manifesto Regionalista» (Recife, 1926), em defesa das culturas do Nordeste, e «Casa-Grande & Senzala» (1933), de Gilberto Freyre, que lê a formação da sociedade brasileira a partir da casa-grande e da senzala.
As Aprendizagens Essenciais leem a literatura brasileira em três eixos, que este tópico percorre um a um: « os retratos da infância », « os heróis sertanejos itinerantes e complexos » e « os microcosmos regionais ». O primeiro nomeia a infância como ponto de vista e como matéria: o menino do engenho em José Lins do Rego, os dois meninos de «Vidas Secas», os meninos de rua de «Capitães da Areia», a «Infância» de Graciliano Ramos. O segundo nomeia um tipo humano — o retirante, o vaqueiro, o jagunço —, personagem em movimento, moldada pela seca e pela violência, nunca simples. O terceiro designa um método: cada romancista constrói um mundo fechado e completo — o engenho, a rua, o povoado — que vale por um Brasil em ponto pequeno (ver Fig. 2).

Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para a literatura brasileira

Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para a literatura brasileiraTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Eixo das Aprendizagens Essenciais · O que designa · Obras deste tópico; Os retratos da infância · A criança como ponto de vista e como matéria narrativa · «Menino de Engenho» (1932); «Capitães da Areia» (1937); «Infância» (1945); Os heróis sertanejos itinerantes e complexos · O retirante, o vaqueiro e o jagunço em movimento — nunca simples · «O Quinze» (1930); «Vidas Secas» (1938); «Grande Sertão: Veredas» (1956); Os microcosmos regionais · Um mundo fechado e completo que vale por todo o país · «Fogo Morto» (1943); «Terras do Sem Fim» (1943); «O Tempo e o Vento» (1949–1962), célula destacada: O retirante, o vaqueiro e o jagunço em movimento — nunca simplesEIXO DAS APRENDIZAGENSESSENCIAISO QUE DESIGNAOBRAS DESTE TÓPICOOS RETRATOS DAINFÂNCIAA criança como ponto devista e como matérianarrativa«Menino de Engenho» (1932);«Capitães da Areia» (1937);«Infância» (1945)OS HERÓISSERTANEJOSITINERANTES ECOMPLEXOSO retirante, o vaqueiro e ojagunço em movimento — nuncasimples«O Quinze» (1930); «VidasSecas» (1938); «GrandeSertão: Veredas» (1956)OS MICROCOSMOSREGIONAISUm mundo fechado e completoque vale por todo o país«Fogo Morto» (1943); «Terrasdo Sem Fim» (1943); «O Tempoe o Vento» (1949–1962)Cada eixo com a sua definição operatória e as obras que oilustram.
Fig. 2Fig. 2 — Os três eixos das Aprendizagens Essenciais e as obras deste tópico.
Formalmente, o romance de 30 tende a uma escrita sóbria, de intenção documental, atenta ao léxico regional e desconfiada do ornamento: a linguagem quer-se transparente para que a realidade se veja. É corrente atribuir-se a abertura do ciclo a «A Bagaceira» (1928), de José Américo de Almeida — atribuição habitual da crítica, e não facto fechado. O movimento ultrapassou o Brasil: lidos em Portugal, estes romances contribuíram para o Neorrealismo português, cujo romance inaugural é habitualmente considerado «Gaibéus» (1939), de Alves Redol. Comparar o retirante nordestino e o ceifeiro ribatejano é o exercício de diversidade de vivências e de mundivisões que a disciplina pede.
Exemplo resolvido

Situar um texto no seu movimento

Um romance brasileiro dos anos 30 acompanha uma família de camponeses que abandona a terra rachada pela seca e caminha para o Sul; o narrador não comenta, apenas regista. Situa o texto no seu movimento e explica que traços do contexto o explicam.

  1. 01Reconhecer o período

    A matéria — seca, retirada, camponeses sem terra — e o narrador que regista sem comentar situam o texto no romance de 30, a segunda fase do Modernismo brasileiro.

  2. 02Ligar ao contexto

    A crise de 1929 e a Revolução de 1930 puseram o país perante as suas fraturas; as secas e o êxodo rural dão a matéria e a personagem.

  3. 03Nomear os eixos

    A personagem que anda é « o herói sertanejo itinerante e complexo »; a terra que a expulsa é o « microcosmo regional ».

Resultado: É um romance de 30: a seca, a retirada e o narrador documental correspondem à intenção de diagnóstico do país aberta pela crise de 1929 e pela Revolução de 1930. Ilustra dois eixos das Aprendizagens Essenciais — « os heróis sertanejos itinerantes e complexos » e « os microcosmos regionais ».

Foco no Exame Nacional

  • Situar o romance de 30 no seu contexto — crise de 1929, Revolução de 1930, Estado Novo (1937–1945), secas e êxodo rural: a contextualização fundamentada é o que a avaliação interna mais valoriza.
  • Nomear e explicar os três eixos das Aprendizagens Essenciais, ilustrando cada um com uma obra e uma data corretas.
  • Relacionar o romance brasileiro de 30 com o Neorrealismo português numa comparação intercultural sustentada, valorizada na apresentação oral e no trabalho de projeto.

Erros frequentes

  • Confundir a Semana de Arte Moderna (1922) com o romance de 30: separam-nos oito anos e uma mudança de programa.
  • Tratar o romance de 30 como reportagem da seca, esquecendo que é construção literária — escolha de narrador, de tempo, de elipse e de silêncio.
  • Confundir «Casa-Grande & Senzala» (1933), ensaio de Gilberto Freyre, com um romance; ou chamar « Neorrealismo » ao ciclo brasileiro, quando esse é o nome do movimento português.

Revisão ativa

Explica, em cerca de 150 palavras, por que razão a crise de 1929 e a Revolução de 1930 são indispensáveis para compreender o romance brasileiro da década de 30; termina nomeando os três eixos das Aprendizagens Essenciais e associando uma obra a cada um.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Graciliano Ramos: a secura e os heróis sertanejos#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-romance-1930

Pontos-chave

Graciliano Ramos (1892–1953) é o maior artista da prosa do romance de 30. Estreia-se com «Caetés» (1933) e publica «S. Bernardo» (1934), «Angústia» (1936) e «Vidas Secas» (1938); depois da ficção, deixa dois livros de memórias, «Infância» (1945) e «Memórias do Cárcere» (póstumo, 1953), este nascido da prisão que sofreu sob o regime de Vargas. O seu estilo é de uma secura deliberada: frases curtas, adjetivação mínima, verbos exatos, recusa do efeito. Escrever, para Graciliano, é sobretudo cortar — e essa poda é já uma posição ética, a de não embelezar aquilo que é duro.
«S. Bernardo» (1934) é narrado na primeira pessoa por Paulo Honório, proprietário que subiu do nada e se apoderou da fazenda que dá título ao livro, e que decide escrever a sua própria história. A originalidade está na coincidência entre a personagem e a voz: Paulo Honório escreve como pensa, em cláusulas curtas e quase contabilísticas, e é essa linguagem de posse e de cálculo que o denuncia. Ao tratar Madalena, a mulher com quem casa, como mais uma aquisição, destrói-a e destrói-se: o livro é a descoberta, tardia demais, da sua própria desumanização — um narrador que se acusa sem o saber.
«Vidas Secas» (1938) leva a secura ao extremo. Acompanha uma família de retirantes — Fabiano, sinhá Vitória, os dois meninos e a cadela Baleia — em capítulos autónomos, quase contos, que podem ler-se com relativa independência, e não numa intriga contínua: a forma fragmentada figura a vida descontínua e sem futuro das personagens. A narração faz-se na terceira pessoa, mas o narrador cola-se ao interior de cada figura pelo discurso indireto livre, de modo que o pensamento rudimentar de Fabiano — que não tem palavras para o que sente — chega ao leitor sem ser traduzido para uma linguagem que a personagem não possui. O livro abre com uma retirada e fecha com outra: o ciclo não se rompe, apenas recomeça (ver Fig. 3).

A estrutura circular de «Vidas Secas»

a fazenda alheiao trabalho e a humilhaçãoa seca que volta«Vidas Secas» (1938)o ciclo recomeçacapítulos autónomos · 3.ª pessoa · discurso indireto livrea retirada
Fig. 3Fig. 3 — «Vidas Secas» (1938): o livro abre com uma retirada e fecha com outra.
O problema central de «Vidas Secas» é, pois, o da palavra. Fabiano mal fala, pensa por imagens e sente-se quase um bicho: a sua tragédia não é apenas ter fome, é não dispor de linguagem para nomear a injustiça. O discurso indireto livre dá acesso a essa consciência que não sabe dizer-se sem o paternalismo do narrador que explica nem o falso realismo de lhe emprestar palavras que não tem; o célebre capítulo da morte da cadela Baleia estende a técnica ao animal. Nas memórias a secura mantém-se: «Infância» (1945) reconstitui sem nostalgia uma meninice de medo e de castigo — aqui « os retratos da infância » não dão um jardim, dão a aprendizagem da violência — e «Memórias do Cárcere» (póstumo, 1953) faz da dúvida sobre a memória parte do relato.
Exemplo resolvido

Reconhecer o discurso indireto livre

Num romance narrado na terceira pessoa lê-se que a personagem olha o céu e que havia de chover, que não podia ser que não chovesse — sem verbo introdutor (« pensou », « disse ») e sem aspas. Identifica a técnica narrativa e explica o efeito que produz.

  1. 01Observar a instância narrativa

    O texto está na terceira pessoa e no passado — quem narra não é a personagem —, mas a repetição insistente do desejo surge sem verbo introdutor nem aspas: a voz da personagem infiltra-se na frase do narrador.

  2. 02Nomear a técnica

    Essa fusão de duas vozes numa só frase é o discurso indireto livre, marca dominante de «Vidas Secas» (1938).

  3. 03Interpretar o efeito

    O leitor acede ao pensamento de Fabiano — repetitivo, concreto, sem vocabulário abstrato — sem que o narrador o traduza; a pobreza da linguagem torna-se prova da opressão.

Resultado: A técnica é o discurso indireto livre: numa narrativa de terceira pessoa, a voz da personagem infiltra-se na do narrador sem verbo introdutor nem aspas. O efeito é dar acesso a uma consciência que não dispõe de palavras para se dizer, sem que o narrador lhe empreste um vocabulário que não é o seu.

Foco no Exame Nacional

  • Analisar o discurso indireto livre em «Vidas Secas» (1938) — narrativa em terceira pessoa que acede ao interior de Fabiano — é o exercício de leitura analítica mais valorizado nesta secção.
  • Distinguir os dois regimes de narração: a primeira pessoa de Paulo Honório em «S. Bernardo» (1934) e a terceira pessoa com discurso indireto livre de «Vidas Secas» (1938).
  • Fundamentar a « secura » com marcas textuais concretas — frase curta, adjetivo raro, elipse, ausência de comentário: a afirmação sem prova no texto não conta.

Erros frequentes

  • Dizer que «Vidas Secas» é narrado por Fabiano na primeira pessoa: a narrativa é em terceira pessoa, e é o discurso indireto livre que cria a ilusão de o ouvirmos por dentro.
  • Trocar as datas e os narradores: «S. Bernardo» é de 1934 e narrado por Paulo Honório; «Vidas Secas» é de 1938 e tem narrador exterior às personagens.
  • Ler a « secura » como pobreza de escrita ou pressa — é resultado de um corte laborioso —, ou tomar «Infância» (1945) por um romance, quando é livro de memórias.

Revisão ativa

Comenta um excerto de «Vidas Secas» (1938) em cerca de 200 palavras: identifica duas marcas do discurso indireto livre e explica de que modo essa técnica serve a caracterização de Fabiano como « herói sertanejo itinerante e complexo ».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Microcosmos regionais e retratos da infância: José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-romance-1930

Pontos-chave

Rachel de Queiroz (1910–2003) abre a década com «O Quinze» (1930), romance sobre a grande seca de 1915 no Ceará, escrito quando a autora era ainda muito jovem. O livro cruza dois fios: o da família do vaqueiro Chico Bento, que perde tudo e parte na retirada rumo ao Sul, e o de Conceição, mulher culta e independente da cidade, que assiste, ajuda e pensa. Dessa dupla perspetiva nasce a força do romance: a seca é vista de dentro, no corpo dos que a sofrem, e de fora, na consciência de quem a observa e não consegue remediá-la. Rachel de Queiroz foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras (1977) e recebeu o Prémio Camões em 1993, sendo a primeira mulher galardoada com esse prémio.
José Lins do Rego (1901–1957) construiu o mais coerente dos microcosmos regionais: o engenho de açúcar, mundo fechado com a sua casa-grande, os seus trabalhadores, as histórias contadas à noite e a sua lenta decadência. O ciclo da cana-de-açúcar abre com «Menino de Engenho» (1932) e continua em «Doidinho» (1933) e «Banguê» (1934) — três livros narrados por Carlos de Melo, que vai da meninice órfã no engenho do avô ao internato e ao regresso adulto a uma propriedade em ruínas. A infância é aqui matéria e método: o narrador recorda, e a memória de menino é o instrumento que dá a ver o engenho por dentro, com a sua ternura e a sua violência inseparáveis — é o eixo « os retratos da infância » na sua forma mais desenvolvida (ver Fig. 4).

Os microcosmos regionais e os seus romancistas

Os microcosmos regionais e os seus romancistasDiagrama em árvore, 5 caminhos, Dados: O engenho — José Lins do Rego → «Fogo Morto» (1943); O sertão do Ceará — Rachel de Queiroz → «O Quinze» (1930); A retirada — Graciliano Ramos → «Vidas Secas» (1938); A Bahia — Jorge Amado → «Terras do Sem Fim» (1943); O Sul — Érico Veríssimo → «O Tempo e o Vento» (1949–1962)O engenho — José Lins do RegoO sertão do Ceará — Rachel de QueirozA retirada — Graciliano RamosA Bahia — Jorge AmadoO Sul — Érico VeríssimoOs microcosmos regionais«Fogo Morto» (1943)«O Quinze» (1930)«Vidas Secas» (1938)«Terras do Sem Fim» (1943)«O Tempo e o Vento» (1949–1962)
Fig. 4Fig. 4 — Cada romancista do ciclo constrói o seu mundo fechado e completo.
«Fogo Morto» (1943) é habitualmente considerado a obra-prima de José Lins do Rego. O título nomeia o engenho que deixou de moer — o fogo apagado da fornalha — e, com ele, todo um mundo que acabou. O romance organiza-se em partes centradas em figuras distintas — entre elas o mestre seleiro José Amaro, artesão que a ordem nova torna inútil, e o capitão Vitorino Carneiro da Cunha, fanfarrão ridicularizado e, no entanto, o único que enfrenta os poderosos. Ao repartir o livro por várias consciências, o autor mostra a decadência de dentro de cada vida que ela arruína: aqui o microcosmo regional deixa de ser cenário e torna-se método de conhecimento.
Jorge Amado (1912–2001) fez da Bahia o seu microcosmo e da voz popular a sua matéria. Na primeira fase escreve «Cacau» (1933), sobre os trabalhadores das roças, «Jubiabá» (1935) e «Mar Morto» (1936), que trazem para a literatura a cultura afro-brasileira e a religiosidade dos pescadores sem exotismo, «Capitães da Areia» (1937), sobre os meninos de rua de Salvador, e «Terras do Sem Fim» (1943), sobre a conquista violenta das terras do cacau; de «Gabriela, Cravo e Canela» (1958) a «Os Velhos Marinheiros» (1961) e «Dona Flor e Seus Dois Maridos» (1966), mantém a simpatia pelos humildes, mas o humor e a sensualidade tomam a dianteira (Prémio Camões, 1994). «Capitães da Areia» mostra a outra face do eixo da infância: ao pôr os meninos no trapiche abandonado do porto de Salvador, e não na casa-grande, faz da criança vítima social e sujeito de uma liberdade que a sociedade lhe nega. Fora do Nordeste, Érico Veríssimo (1905–1975) constrói o microcosmo do Sul em «O Tempo e o Vento» (1949–1962), ciclo em três partes — «O Continente», «O Retrato» e «O Arquipélago».
Exemplo resolvido

Identificar o microcosmo e os eixos

Um romance de 1932 é narrado por um homem adulto que recorda a chegada, ainda menino e órfão de mãe, ao engenho do avô, e a descoberta da casa-grande, dos trabalhadores e das histórias contadas à noite. Identifica a obra e o autor e explica que eixos das Aprendizagens Essenciais ilustra.

  1. 01Fixar a data e o narrador

    Um romance de 1932 em que um adulto recorda a chegada ao engenho do avô é «Menino de Engenho», de José Lins do Rego: abre o ciclo da cana-de-açúcar e a voz é a de Carlos de Melo, que atravessa também «Doidinho» (1933) e «Banguê» (1934).

  2. 02Nomear o primeiro eixo

    A infância não é episódio: é o ponto de vista de toda a narração — eixo « os retratos da infância ».

  3. 03Nomear o segundo eixo

    O engenho, com a casa-grande, os trabalhadores e a decadência, é um mundo fechado e completo — eixo « os microcosmos regionais ».

Resultado: É «Menino de Engenho» (1932), de José Lins do Rego, primeiro romance do ciclo da cana-de-açúcar. Ilustra dois eixos: « os retratos da infância », porque a memória de menino é o próprio ponto de vista narrativo, e « os microcosmos regionais », porque o engenho é um mundo completo — e em ruína — que dá a ver a sociedade nordestina inteira.

Foco no Exame Nacional

  • Associar cada autor ao seu microcosmo — o engenho (José Lins do Rego), o sertão do Ceará (Rachel de Queiroz), a Bahia (Jorge Amado), o Rio Grande do Sul (Érico Veríssimo) — com a obra e a data corretas.
  • Comparar dois retratos da infância — o menino do engenho e os meninos de rua de «Capitães da Areia» (1937) — num comentário literário fundamentado.
  • Justificar por que razão « microcosmo regional » não significa cor local: o debate valoriza quem mostra que o lugar particular serve para pensar o país inteiro.

Erros frequentes

  • Datar «O Quinze» pela seca que narra: o romance é de 1930 e a seca é a de 1915 — é essa distância que faz do livro memória e não reportagem.
  • Confundir as distinções de Rachel de Queiroz: recebeu o Prémio Camões em 1993 e foi a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, em 1977.
  • Confundir as duas fases de Jorge Amado, lendo «Gabriela, Cravo e Canela» (1958) como romance social de denúncia ou «Cacau» (1933) como comédia de costumes.

Revisão ativa

Compara o retrato da infância em «Menino de Engenho» (1932) e em «Capitães da Areia» (1937): a casa e a rua, a memória e a sobrevivência, o narrador que recorda e o narrador que observa. Redige cerca de 250 palavras.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

A rutura de 1956: Guimarães Rosa e Clarice Lispector#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-brasil-romance-1930

Pontos-chave

Por volta de meados do século, o modelo documental do romance de 30 tinha dado o que tinha a dar: a denúncia social arriscava-se a tornar-se fórmula e a transparência da linguagem, rotina. O ano de 1956 funciona como marco porque nele João Guimarães Rosa publica «Corpo de Baile» e «Grande Sertão: Veredas» — e o sertão, até aí objeto de observação, passa a ser matéria de linguagem e de interrogação metafísica. É corrente designar por « geração de 45 » a terceira fase do Modernismo brasileiro, em que se inscrevem Rosa e Clarice Lispector; a designação é útil, mas não deve fazer esquecer que a viragem se prepara antes — «Sagarana» é de 1946 e «Perto do Coração Selvagem», de Clarice, é já de 1943 (ver Fig. 5).

O romance de 30 e a viragem de 1946–1977

O romance de 30 e a viragem de 1946–1977Diagrama de Venn com 2 conjuntos, Romance de 30 (1930–1945), A viragem (1946–1977)Romance de 30 (1930–1945)A viragem (1946–1977)DenúnciadocumentalLíngua einterioridadeO sertão e apobreza
Fig. 5Fig. 5 — O que muda e o que permanece entre o romance de 30 e a viragem de 1946–1977.
João Guimarães Rosa (1908–1967), médico e diplomata, é o grande reinventor da língua portuguesa no século XX. A sua prosa combina neologismos, arcaísmos recuperados, empréstimos de outras línguas, provérbios refeitos e a sintaxe da oralidade sertaneja, num idioma que não existe fora dos seus livros e que, no entanto, soa a fala verdadeira. O título «Sagarana» (1946) demonstra o processo: cruza a saga nórdica com o sufixo tupi « -rana », que significa « à maneira de » — o livro chama-se, portanto, algo como « espécie de saga », e a palavra encena, na sua formação, o encontro de culturas que o Brasil é. Rosa escrevia « estórias » e não « histórias », distinguindo a ficção da crónica dos factos, e deixou a marca nos títulos de «Primeiras Estórias» (1962) e de «Tutaméia» (1967).
«Grande Sertão: Veredas» (1956) é narrado por Riobaldo, antigo jagunço já velho, que conta a sua vida a um interlocutor culto vindo da cidade — presença que nunca fala, mas cuja escuta molda todo o discurso. A narrativa gira em torno de duas obsessões: o pacto que Riobaldo julga ter feito com o demónio numa encruzilhada, para poder vencer, e o amor por Diadorim, companheiro de armas cuja verdadeira identidade só se revela no fim, depois da morte. A frase « o sertão é do tamanho do mundo » condensa o programa do livro: o sertão deixa de ser uma região do Brasil para se tornar o lugar sem fronteiras onde se decidem o bem e o mal — e Riobaldo é o « herói sertanejo itinerante e complexo » no seu grau máximo, homem que anda, que mata e que, sobretudo, duvida.
Clarice Lispector (1920–1977), nascida na Ucrânia e levada para o Brasil ainda bebé, faz a viragem no outro sentido: para dentro. Estreia-se muito jovem com «Perto do Coração Selvagem» (1943), que já troca a intriga documental pelo fluxo de consciência. A obra madura — «Laços de Família» (1960), «A Maçã no Escuro» (1961), «A Paixão segundo G.H.» (1964) — organiza-se em torno da epifania: um pormenor banal, como um cego a mascar pastilha elástica ou uma barata numa parede, abre uma fenda no quotidiano e obriga a personagem a ver-se; a linguagem não imita a fala, interroga-se a si mesma e faz da dificuldade de dizer o assunto do texto. Em «A Hora da Estrela» (1977), publicado no ano da sua morte, Macabéa é uma retirante nordestina perdida no Rio de Janeiro — exatamente a personagem do romance de 30 —, mas quem a conta é um narrador inventado, Rodrigo S. M., que se interroga sobre o direito de contar a vida de outrem. Por isso 1956 não é rutura contra o romance de 30, mas a sua continuação por outros meios: o mesmo Brasil, visto de dentro da linguagem e da consciência (ver Fig. 6).

Guimarães Rosa e Clarice Lispector: duas direções da mesma viragem

Guimarães Rosa e Clarice Lispector: duas direções da mesma viragemTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Aspeto · João Guimarães Rosa · Clarice Lispector; Datas · 1908–1967 · 1920–1977; Obra central · «Grande Sertão: Veredas» (1956) · «A Paixão segundo G.H.» (1964); Espaço · O sertão de Minas Gerais · A cidade e o quarto fechado; A rutura · A invenção da língua: neologismo, arcaísmo, oralidade · A sondagem do interior: fluxo de consciência, epifania; Personagem · Riobaldo, o jagunço que duvida · Macabéa, a retirante sem palavras; Herança do romance de 30 · O sertão e o jagunço, transfigurados em mito · A pobreza nordestina, vista de dentro da consciência, célula destacada: A invenção da língua: neologismo, arcaísmo, oralidadeASPETOJOÃO GUIMARÃES ROSACLARICE LISPECTORDATAS1908–19671920–1977OBRA CENTRAL«Grande Sertão: Veredas»(1956)«A Paixão segundo G.H.»(1964)ESPAÇOO sertão de Minas GeraisA cidade e o quarto fechadoA RUTURAA invenção da língua:neologismo, arcaísmo,oralidadeA sondagem do interior:fluxo de consciência,epifaniaPERSONAGEMRiobaldo, o jagunço queduvidaMacabéa, a retirante sempalavrasHERANÇA DO ROMANCEDE 30O sertão e o jagunço,transfigurados em mitoA pobreza nordestina, vistade dentro da consciênciaO que cada um herda do ciclo anterior e o que cada uminventa.
Fig. 6Fig. 6 — Duas direções da mesma viragem: para fora, na língua; para dentro, na consciência.
Exemplo resolvido

Reconhecer a invenção da língua

Num excerto, o narrador conta a sua vida na primeira pessoa, dirigindo-se a um ouvinte que nunca responde, e usa palavras que não constam do dicionário mas que se entendem pelo contexto, além de inversões que soam a fala antiga. A que autor e a que obra pertence, e que traços do período revela?

  1. 01Observar a enunciação

    Uma narração oral na primeira pessoa dirigida a um interlocutor silencioso é a estrutura de «Grande Sertão: Veredas» (1956), em que Riobaldo conta a sua vida a um visitante culto.

  2. 02Observar a matéria verbal

    As palavras inventadas mas compreensíveis são neologismos; as inversões que soam a fala antiga cruzam arcaísmo e sintaxe recriada a partir da oralidade sertaneja.

  3. 03Situar e interpretar

    Estes processos definem a viragem de 1956: a linguagem deixa de ser um vidro transparente sobre a realidade e passa a ser o próprio assunto — e é a língua inventada que dá ao « herói sertanejo itinerante e complexo » a interioridade que o romance documental não lhe podia dar.

Resultado: É «Grande Sertão: Veredas» (1956), de João Guimarães Rosa, narrado por Riobaldo a um interlocutor que escuta e nunca fala. Revela os traços da viragem de 1956 — neologismo, arcaísmo e sintaxe recriada a partir da oralidade sertaneja: a língua deixa de descrever o sertão e passa a ser o lugar onde o sertão existe.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar em que consiste a « rutura de 1956 » sem a caricaturar: continuidade da matéria (o sertão, a pobreza, a migração) e mudança do meio (a linguagem inventada, a consciência interior).
  • Analisar um excerto de Guimarães Rosa identificando processos concretos de invenção lexical e sintática — o comentário fundamentado em marcas textuais é o núcleo da avaliação interna nesta secção.
  • Caracterizar a epifania em Clarice Lispector a partir de um acontecimento banal do texto, e debater a relação entre língua e identidade a propósito da reinvenção do português por Guimarães Rosa.

Erros frequentes

  • Dizer que Guimarães Rosa « escreve em dialeto sertanejo »: a sua língua é uma invenção literária que parte da oralidade, mas que nenhum falante real fala.
  • Situar Clarice Lispector inteiramente depois de 1956: «Perto do Coração Selvagem» é de 1943, e a viragem para o interior começa aí.
  • Confundir epifania com desenlace — a revelação não resolve a intriga —, ou apresentar 1956 como abandono do Nordeste, quando «A Hora da Estrela» (1977) mostra o contrário.

Revisão ativa

Redige um ensaio expositivo-argumentativo de cerca de 300 palavras que defenda esta tese: « em 1956 o romance brasileiro não abandona o sertão do romance de 30 — transfere-o para dentro da linguagem ». Fundamenta com «Grande Sertão: Veredas» (1956) e com um texto de Clarice Lispector.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 011930: contexto e o romance social do Nordeste○
    • 02Graciliano Ramos: a secura e os heróis sertanejos◐
    • 03Microcosmos regionais e retratos da infância: José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz◐
    • 04A rutura de 1956: Guimarães Rosa e Clarice Lispector●

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Dos resumos à prática

O romance brasileiro depois de 1930

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

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Competências
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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

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