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Chama-se oratura à literatura que uma comunidade compõe, guarda e transmite pela voz — termo proposto pelo linguista ugandês Pio Zirimu, nos anos 1970, para dizer sem paradoxo aquilo a que antes se chamava « literatura oral ». Tem géneros próprios (do « misosso » ao provérbio, do mito de origem ao panegírico), uma poética própria feita de variabilidade, fórmula e performance, e funcionalidades culturais que vão da memória genealógica à educação, do enquadramento ritual à resistência sob a dominação colonial. É a matriz que sustenta os eixos angolano, guineense e timorense do programa e que regressa, refundada, na escrita de Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Mia Couto e Guimarães Rosa — num percurso avaliado exclusivamente por avaliação interna, pois a disciplina não tem Exame Final Nacional.
4 secções~30 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2
nível básico
Definir oratura, nomear os seus géneros e os seus traços formais e enunciar as funcionalidades culturais que desempenha na comunidade.
nível avançado
Analisar uma versão recolhida de um texto de transmissão oral na sua lógica de performance e demonstrar, com marcas textuais, como a matriz oral é refundada numa obra escrita de língua portuguesa.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Os géneros da oratura
Oratura e literatura escrita
Recolheram-se três textos numa mesma comunidade: (a) uma narrativa breve em que um animal esperto engana um animal forte e que termina com uma lição de prudência; (b) uma frase curta e ritmada, citada por um ancião para encerrar uma discussão sobre uma dívida; (c) um relato em que se enumeram, por ordem, os antepassados de uma família até ao fundador da aldeia. Identifica o género de cada texto e justifica a atribuição.
Os três textos diferem na extensão (uma narrativa, uma frase, uma enumeração), no registo e no momento em que são ditos. São esses três indicadores, e não a antiguidade, que orientam a atribuição de género.
Personagens animais, brevidade e lição final identificam a fábula, dentro do grupo dos géneros narrativos. A lição explícita é a marca decisiva: distingue-a do conto, que pode não a formular.
Concisão, ritmo e uso como argumento de autoridade identificam o provérbio — « jisabu », no âmbito do kimbundu —, que pertence aos géneros breves ou gnómicos.
A enumeração ordenada dos antepassados até ao fundador identifica a genealogia, do grupo dos géneros memoriais e laudatórios.
Os três textos pertencem à mesma oratura, mas a géneros, extensões e ocasiões distintos — prova de que a oratura é um sistema organizado, e não um conjunto indistinto.
Resultado: (a) é uma fábula — narrativa breve de personagens animais fechada por uma lição, dentro dos géneros narrativos; (b) é um provérbio (« jisabu », no âmbito do kimbundu) — género breve ou gnómico, citado como argumento de autoridade para encerrar o litígio; (c) é uma genealogia — género memorial e laudatório, que guarda a ordem dos antepassados e sustenta a identidade da linhagem. Os três pertencem à mesma oratura, mas a géneros, extensões e ocasiões diferentes: é o sistema de géneros, e não a simples antiguidade, que organiza a literatura de transmissão oral.
Erros frequentes
Revisão ativa
Define « oratura », explicando por que razão o termo foi criado e o que a sua criação corrige, e distingue-a da literatura escrita em, pelo menos, quatro planos. Ilustra a resposta com dois géneros de oratura e com a nomenclatura kimbundu (« misosso », « maka », « jisabu »).
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Nomenclaturas reais da oratura
O circuito da transmissão oral
Uma versão recolhida de um conto abre com « Karingana ua Karingana », repete três vezes a sequência « o rapaz caminhou, o rapaz chamou, ninguém respondeu » — mudando apenas o lugar —, intercala um curto refrão cantado pelo auditório e termina com uma fórmula que devolve os ouvintes ao mundo comum. Caracteriza a organização formal do texto e explica a função de cada recurso.
A fórmula de abertura « Karingana ua Karingana » — fórmula ronga equivalente a « era uma vez » — e a fórmula de fecho delimitam o texto: abrem e encerram o pacto de ficção. São a moldura da performance.
A sequência repetida três vezes, com variação apenas do lugar, é paralelismo: a estrutura sintática mantém-se e só um elemento se altera. O refrão acrescenta-lhe um retorno periódico.
O paralelismo dá ao narrador uma grelha rítmica sobre a qual improvisa e permite-lhe reconstruir a narrativa sem texto fixo; a repetição ternária fixa o episódio na memória de quem escuta.
O refrão cantado devolve a palavra ao auditório, que deixa de assistir e passa a executar: a performance é integral e o público torna-se coautor.
Nada disto pertence a um original: descreve-se esta versão, com o seu narrador, o seu dia e o seu auditório.
Resultado: O texto está formalmente organizado por uma moldura de fórmulas — a abertura « Karingana ua Karingana » e a fórmula de fecho —, que abre e encerra o pacto de ficção, e por um paralelismo ternário no interior, que serve ao mesmo tempo de mecanismo de memória (grelha rítmica para o narrador, ponto de fixação para o ouvinte) e de motor da performance, a que o refrão associa o auditório como coautor. Trata-se, contudo, da descrição de uma versão: sendo a variabilidade constitutiva da oratura, outra performance do mesmo conto teria outra medida e outros pormenores.
Comecemos pelo princípio: um texto de oratura não está guardado em lado nenhum. Não há folha, não há original, não há arquivo. O que existe é um narrador que sabe narrar e uma comunidade que sabe ouvir.
A narração abre-se com uma fórmula. Em Moçambique, « Karingana ua Karingana » — a fórmula ronga que corresponde ao nosso « era uma vez ». Enquanto ela durar, o mundo comum fica suspenso: é um pacto de ficção celebrado em voz alta.
Repare-se agora no que se repete. A mesma estrutura de frase volta três vezes, mudando apenas um elemento; um refrão regressa de tempos a tempos. Não é pobreza de estilo: é a máquina de memória. O paralelismo dá ao narrador a grelha sobre a qual improvisa.
Por isso o público não assiste — executa. Responde, canta o refrão, corrige quem se engana. A performance é integral: a voz, o gesto, a música e a resposta fazem parte do texto, e não do seu enquadramento.
E quando a narração termina, nada fica fixado. Amanhã, outro narrador dirá o mesmo conto com outra medida e outros pormenores. Cada performance é uma versão, e a obra é o conjunto das suas versões: é isto a variabilidade.
Erros frequentes
Revisão ativa
A partir de uma versão recolhida de um conto de transmissão oral, identifica a fórmula de abertura e a de fecho, assinala duas ocorrências de paralelismo e um refrão, e explica, em cada caso, a função mnemónica e a função performativa do recurso.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
As sete funcionalidades culturais da oratura
Funcionalidade e género
Numa aldeia, uma disputa sobre o uso de um poço é encerrada quando um ancião cita um provérbio breve e ritmado sobre a água que a todos pertence; a assembleia aceita a sentença e a discussão termina. Que funcionalidades culturais da oratura estão em ação e que traços formais as tornam possíveis?
A brevidade, o ritmo e o uso numa disputa identificam o provérbio — « jisabu », no âmbito do kimbundu —, género breve ou gnómico da oratura.
O provérbio não é citado a título ilustrativo: é citado como argumento de autoridade e encerra o litígio, com peso próximo do de uma regra reconhecida.
Que toda a assembleia o reconheça prova que a fórmula é património comum; e reconhecê-la em conjunto constitui os presentes como um « nós ».
Para quem não conhecia a regra, o caso concreto ensina-a: é a dimensão exemplar e morigeradora em ato.
A concisão, o ritmo e a construção paralelística fazem do provérbio uma forma memorável e citável — é a condensação formal que lhe dá autoridade.
Resultado: Estão em ação, num mesmo ato, quatro funcionalidades: a transmissão da norma ética e jurídica (o provérbio é citado como argumento de autoridade e encerra o litígio), a memória (a fórmula é património comum reconhecido por todos), a coesão e a identidade comunitárias (reconhecê-la e aceitá-la constitui a assembleia como um « nós ») e a educação (quem desconhecia a regra aprende-a no caso concreto, na sua dimensão exemplar e morigeradora). Tornam-nas possíveis os traços formais do género breve — a concisão, o ritmo e o paralelismo —, que fazem do provérbio uma forma memorável e citável: é a condensação formal que lhe dá autoridade.
Erros frequentes
Revisão ativa
Escolhe um género da oratura (por exemplo, o provérbio, o mito de origem ou a genealogia) e explica, num texto expositivo-argumentativo, três funcionalidades culturais que ele desempenha em simultâneo, justificando cada uma com traços formais do género e com a ocasião em que é dito.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
As duas operações: recolha e refundação
Marcos da passagem da oratura à letra
Marcas da matriz oral na página
Chegam às tuas mãos dois volumes. O primeiro reúne quinhentos provérbios de uma região, cada um seguido da tradução e de uma nota sobre a ocasião em que se usa. O segundo é um romance cujo narrador interpela um ouvinte silencioso, mistura no português palavras de uma língua nacional sem as explicar, embute provérbios no discurso e chama « estórias » aos seus capítulos. Classifica cada volume quanto ao modo como se relaciona com a oratura e justifica com as marcas apresentadas.
Reúne textos orais fixados por escrito, traduzidos e anotados quanto à ocasião de uso: o objeto do livro é a própria oratura, tratada como documento.
É recolha e transcrição — a operação de Cordeiro da Matta em « Filosofia Popular em Provérbios Angolenses » (1891) ou das recolhas de narrativas orais de Odete Semedo. Ganha-se permanência e perde-se a performance.
Não fixa nenhum texto oral preexistente: o narrador interpela um ouvinte, o léxico é híbrido e sem glossário, os provérbios estão embutidos e o termo « estória » reivindica a filiação oral.
É refundação literária — a operação de Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Mia Couto ou Guimarães Rosa: inventa-se, na escrita, um equivalente dos efeitos da voz.
No primeiro caso a oratura é o objeto; no segundo, é o modelo. Um volume é documento; o outro é obra de invenção com matriz oral.
Resultado: O primeiro volume é uma recolha e transcrição: a oratura é aí o objeto, fixado, traduzido e anotado — a operação de Cordeiro da Matta em « Filosofia Popular em Provérbios Angolenses » (1891) ou das recolhas de narrativas orais de Odete Semedo; ganha permanência e perde performance e variabilidade. O segundo é uma refundação literária: a oratura é aí o modelo, e as marcas apresentadas — o narrador que interpela um ouvinte silencioso, o léxico híbrido sem glossário, os provérbios embutidos, a « estória » — são invenções da escrita que reproduzem na página os efeitos da voz, como em « Luuanda » (1963) ou em « Grande Sertão: Veredas » (1956). Documento, num caso; obra de matriz oral, no outro.
Erros frequentes
Revisão ativa
Compara um excerto de « Luuanda », de José Luandino Vieira, com um excerto de « Grande Sertão: Veredas », de João Guimarães Rosa, e mostra, com marcas textuais, de que modo cada um refunda a escrita na oralidade. Conclui sobre o que os aproxima e sobre o que os distingue.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)