EuraStudy
Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/A literatura oral (oratura): características e funcionalidade culturais
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

A literatura oral (oratura): características e funcionalidade culturais

Chama-se oratura à literatura que uma comunidade compõe, guarda e transmite pela voz — termo proposto pelo linguista ugandês Pio Zirimu, nos anos 1970, para dizer sem paradoxo aquilo a que antes se chamava « literatura oral ». Tem géneros próprios (do « misosso » ao provérbio, do mito de origem ao panegírico), uma poética própria feita de variabilidade, fórmula e performance, e funcionalidades culturais que vão da memória genealógica à educação, do enquadramento ritual à resistência sob a dominação colonial. É a matriz que sustenta os eixos angolano, guineense e timorense do programa e que regressa, refundada, na escrita de Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Mia Couto e Guimarães Rosa — num percurso avaliado exclusivamente por avaliação interna, pois a disciplina não tem Exame Final Nacional.

4 secções·~30 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2

T·0555 / 12
Perfil de exame
Definir oratura e distingui-la da literatura escrita quanto ao suporte, à fixidez, à autoria e à receçãoCaracterizar os géneros e os traços formais da literatura de transmissão oral, reconhecendo a organização interna e externa do texto oralExplicar as funcionalidades culturais da oratura nas sociedades que a praticam, incluindo a sua dimensão exemplar e morigeradoraReconhecer a presença da oralidade na literatura escrita de língua portuguesa, num percurso avaliado exclusivamente por avaliação interna — a disciplina não tem Exame Final Nacional
Operadores:analisainterpretarelacionacomparacomentajustificacaracterizasitua

nível básico

Definir oratura, nomear os seus géneros e os seus traços formais e enunciar as funcionalidades culturais que desempenha na comunidade.

nível avançado

Analisar uma versão recolhida de um texto de transmissão oral na sua lógica de performance e demonstrar, com marcas textuais, como a matriz oral é refundada numa obra escrita de língua portuguesa.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

Tamanho do texto: Padrão

Conteúdo · 4 secções▾
  1. A literatura oral (oratura): características e funcionalidade culturais
    • 01O que é a oratura: conceito, termo e géneros○
    • 02A performance oral: traços formais e mecanismos de memória◐
    • 03As funcionalidades culturais da oratura●
    • 04Da oratura à escrita: a oralidade na literatura de língua portuguesa●
§ 01

O que é a oratura: conceito, termo e géneros#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-oratura

Pontos-chave

Chama-se oratura ao conjunto das obras literárias que uma comunidade compõe, guarda e transmite pela voz, sem passar pela escrita. O termo foi proposto pelo linguista ugandês Pio Zirimu, nos anos 1970, precisamente para desfazer um paradoxo: « literatura oral » é uma expressão que se contradiz a si mesma, pois literatura vem de littera, « letra », e nomear pela letra aquilo que existe fora dela é já medir a oratura pela falta. Usa-se também, com sentido equivalente, o termo « oralitura ». A escolha do nome não é um capricho de vocabulário: dizer « oratura » é afirmar que se está perante uma arte verbal autónoma, com regras, géneros e critérios de excelência próprios, e não perante um estádio ainda imperfeito da literatura escrita.
A oratura não é uma massa indistinta de histórias antigas: é um sistema de géneros tão articulado como o da literatura escrita. Entre os géneros habitualmente distinguidos contam-se o conto e a estória, o mito de origem, a lenda, a fábula, a epopeia oral, o provérbio, a adivinha, a canção, a ladainha, a genealogia e o panegírico (ver Fig. 1). Podem agrupar-se, quanto à forma e à extensão, em géneros narrativos (conto e estória, mito de origem, lenda, fábula, epopeia oral), géneros breves ou gnómicos (provérbio, adivinha), géneros cantados e cerimoniais (canção, ladainha) e géneros memoriais e laudatórios (genealogia, panegírico). Cada grupo tem o seu registo e a sua ocasião: um provérbio cabe numa frase e serve para encerrar uma discussão; uma epopeia oral pode ocupar noites seguidas e serve para dizer quem é o povo que a escuta.

Os géneros da oratura

Os géneros da oraturaDiagrama em árvore, 11 caminhos, Dados: narrativos → conto e estória; narrativos → mito de origem; narrativos → lenda; narrativos → fábula; narrativos → epopeia oral; breves ou gnómicos → provérbio; breves ou gnómicos → adivinha; cantados e cerimoniais → canção; cantados e cerimoniais → ladainha; memoriais e laudatórios → genealogia; memoriais e laudatórios → panegíriconarrativosbreves ou gnómicoscantados e cerimoniaismemoriais e laudatóriosoraturaconto e estóriamito de origemlendafábulaepopeia oralprovérbioadivinhacançãoladainhagenealogiapanegírico
Fig. 1Fig. 1 — O sistema de géneros da oratura, agrupados pela forma e pela ocasião.
Importa não substituir os nomes que as próprias culturas usam por rótulos europeus aproximados, porque a classificação nativa é ela própria informação. Em Angola, no âmbito do kimbundu, distinguem-se « misosso » (contos), « maka » (casos ou relatos) e « jisabu » (provérbios) — três categorias que separam a ficção assumida, o caso tido por acontecido e a sentença condensada. Em Timor-Leste, os « ai-knanoik » são as narrativas tradicionais, e é a essas matrizes da oralidade e às suas « dimensões exemplares e morigeradoras » que as Aprendizagens Essenciais mandam expressamente atender. As mesmas Aprendizagens Essenciais falam, no eixo angolano, dos « mundos da literatura de transmissão oral » e, no eixo guineense, das « narrativas de transmissão oral »: o plural, nos dois casos, é deliberado.
O contraste com a literatura escrita organiza-se em planos que convém enunciar com precisão, e não numa oposição vaga entre oral e escrito (ver Fig. 2). Quanto ao suporte, a oratura vive na voz e no corpo do narrador, ao passo que a escrita vive no manuscrito e no livro. Quanto à fixidez, o texto oral não é fixo — cada performance é uma versão —, enquanto o texto impresso é idêntico em todos os exemplares. Quanto à autoria, a oratura é de autoria coletiva e circula anónima, ao passo que a literatura escrita moderna se organiza à volta do nome do autor. Quanto à receção, o texto oral é recebido em conjunto, no mesmo instante e no mesmo lugar, e o livro é lido a sós e em tempo diferido. Quanto ao tempo e ao lugar, a narração oral tem hora e sítio próprios, ao passo que o livro se abre quando se quiser.

Oratura e literatura escrita

Oratura e literatura escritaTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Plano · Oratura · Literatura escrita; Suporte · A voz e o corpo do narrador · O manuscrito e o livro; Fixidez do texto · Variável: cada performance é uma versão · Fixo: idêntico em todos os exemplares; Autoria · Coletiva; o texto circula anónimo · Individual; organiza-se no nome do autor; Receção · Coletiva, no mesmo instante e no mesmo lugar · Solitária e em tempo diferido; Tempo e lugar · A narração tem hora e sítio próprios · O livro abre-se quando se quiser; Transmissão · De boca a ouvido, entre gerações · Pela cópia e pela impressão, célula destacada: Variável: cada performance é uma versãoPLANOORATURALITERATURA ESCRITASUPORTEA voz e o corpo do narradorO manuscrito e o livroFIXIDEZ DO TEXTOVariável: cada performance éuma versãoFixo: idêntico em todos osexemplaresAUTORIAColetiva; o texto circulaanónimoIndividual; organiza-se nonome do autorRECEÇÃOColetiva, no mesmo instantee no mesmo lugarSolitária e em tempodiferidoTEMPO E LUGARA narração tem hora e sítioprópriosO livro abre-se quando sequiserTRANSMISSÃODe boca a ouvido, entregeraçõesPela cópia e pela impressãoA fixidez é o plano decisivo: sem texto fixo, não háoriginal.
Fig. 2Fig. 2 — Dois regimes da palavra literária, comparados plano a plano.
Destes contrastes não se segue nenhuma hierarquia. Oratura e escrita são dois regimes diferentes da palavra literária, e não dois degraus de uma mesma escada: a leitura anacrónica que trata o texto oral como literatura ainda não chegada ao livro é o erro mais comum e mais grave neste tópico. Acresce que os dois regimes coexistem — nas sociedades de língua portuguesa em África e em Timor-Leste, a oratura nas línguas da comunidade e a literatura escrita em português funcionam lado a lado e alimentam-se mutuamente. É essa coexistência que faz deste tópico a chave de leitura das literaturas angolana, guineense, são-tomense, moçambicana e timorense estudadas a seguir.
Exemplo resolvido

Classificar três textos de transmissão oral

Recolheram-se três textos numa mesma comunidade: (a) uma narrativa breve em que um animal esperto engana um animal forte e que termina com uma lição de prudência; (b) uma frase curta e ritmada, citada por um ancião para encerrar uma discussão sobre uma dívida; (c) um relato em que se enumeram, por ordem, os antepassados de uma família até ao fundador da aldeia. Identifica o género de cada texto e justifica a atribuição.

  1. 01Observar a forma, a extensão e a ocasião

    Os três textos diferem na extensão (uma narrativa, uma frase, uma enumeração), no registo e no momento em que são ditos. São esses três indicadores, e não a antiguidade, que orientam a atribuição de género.

  2. 02Atribuir o género a (a)

    Personagens animais, brevidade e lição final identificam a fábula, dentro do grupo dos géneros narrativos. A lição explícita é a marca decisiva: distingue-a do conto, que pode não a formular.

  3. 03Atribuir o género a (b)

    Concisão, ritmo e uso como argumento de autoridade identificam o provérbio — « jisabu », no âmbito do kimbundu —, que pertence aos géneros breves ou gnómicos.

  4. 04Atribuir o género a (c)

    A enumeração ordenada dos antepassados até ao fundador identifica a genealogia, do grupo dos géneros memoriais e laudatórios.

  5. 05Concluir sobre o sistema

    Os três textos pertencem à mesma oratura, mas a géneros, extensões e ocasiões distintos — prova de que a oratura é um sistema organizado, e não um conjunto indistinto.

Resultado: (a) é uma fábula — narrativa breve de personagens animais fechada por uma lição, dentro dos géneros narrativos; (b) é um provérbio (« jisabu », no âmbito do kimbundu) — género breve ou gnómico, citado como argumento de autoridade para encerrar o litígio; (c) é uma genealogia — género memorial e laudatório, que guarda a ordem dos antepassados e sustenta a identidade da linhagem. Os três pertencem à mesma oratura, mas a géneros, extensões e ocasiões diferentes: é o sistema de géneros, e não a simples antiguidade, que organiza a literatura de transmissão oral.

Foco no Exame Nacional

  • Definir « oratura » com o rigor do termo — quem o propôs, contra que paradoxo, com que consequência — e não como simples sinónimo de tradição popular: é a definição que abre praticamente todos os comentários pedidos neste tópico.
  • Nomear e agrupar os géneros da oratura, ilustrando cada grupo com um exemplo, é tarefa recorrente nos trabalhos escritos e nas apresentações orais da avaliação interna.
  • Traçar o contraste oratura/escrita em planos explícitos (suporte, fixidez, autoria, receção, ocasião) vale, num ensaio, muito mais do que uma oposição genérica entre o oral e o escrito.

Erros frequentes

  • Tratar a oratura como literatura menor ou como estádio anterior à escrita: é uma leitura anacrónica e hierarquizante que o próprio currículo contraria.
  • Usar « misosso », « maka » e « jisabu » como sinónimos: no âmbito do kimbundu designam, respetivamente, contos, casos ou relatos e provérbios.
  • Confundir oratura com oratória: a oratória é a arte do discurso persuasivo — a da pregação, por exemplo —, ao passo que a oratura é a literatura de transmissão oral.
  • Chamar « ai-knanoik » ao contador de histórias timorense: os « ai-knanoik » são as narrativas; quem as guarda e diz é o « lia-na'in ».

Revisão ativa

Define « oratura », explicando por que razão o termo foi criado e o que a sua criação corrige, e distingue-a da literatura escrita em, pelo menos, quatro planos. Ilustra a resposta com dois géneros de oratura e com a nomenclatura kimbundu (« misosso », « maka », « jisabu »).

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

A performance oral: traços formais e mecanismos de memória#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-oratura

Pontos-chave

O primeiro traço formal da oratura é a variabilidade: não há texto fixo. Cada performance é uma versão, e não a repetição de um original — o narrador ajusta a extensão, a ordem dos episódios, os nomes, o tom e a moral ao auditório que tem à frente, à hora e à ocasião. Daqui decorre uma consequência metodológica que convém enunciar em qualquer comentário: quando se analisa um texto de oratura, analisa-se sempre uma versão recolhida, datada e localizada, e nunca « o texto ». Falar da versão autêntica de um conto oral é um contrassenso, porque todas as versões são autênticas: a obra é o conjunto das suas realizações.
A oratura organiza-se por fórmulas. As fórmulas de abertura e de fecho delimitam o texto tal como as capas delimitam um livro: em Moçambique, « Karingana ua Karingana » é a fórmula ronga de abertura do conto, equivalente ao nosso « era uma vez », e assinala ao auditório que o mundo comum fica suspenso enquanto durar a narração — um pacto de ficção celebrado em voz alta. Foi essa fórmula que José Craveirinha tomou para título do seu livro de 1974, gesto programático de um poeta que assim inscreveu a oratura no frontispício da literatura escrita. A ela juntam-se o refrão, a repetição e o paralelismo, que as Aprendizagens Essenciais mandam reconhecer como organização interna e externa do texto oral.
Estes recursos não são ornamento: são o mecanismo pelo qual um texto longo sobrevive sem escrita. A repetição e o paralelismo dão ao narrador uma grelha rítmica sobre a qual improvisa — sabe a forma da frase seguinte antes de saber as suas palavras — e dão ao auditório pontos de reconhecimento por onde pode entrar. O refrão devolve periodicamente a palavra ao público, que canta ou responde, e converte a assistência em coautora. A memória, aqui, não é a de um indivíduo que decorou um texto, mas a de uma comunidade que reconstrói a obra a cada execução a partir de um sistema de fórmulas: é neste sentido preciso que se fala de mecanismos de memória.
A oratura só existe integralmente em performance: voz, gesto, música e resposta do público fazem parte do texto, e é neles que vivem os recursos expressivos que as Aprendizagens Essenciais mandam analisar em contexto — a entoação, a pausa, a mudança de voz para cada personagem, a onomatopeia, o olhar dirigido a um ouvinte concreto. Há, além disso, ofícios especializados, socialmente reconhecidos e longamente aprendidos: na África ocidental, incluindo a Guiné-Bissau, o « djidiu » — o griot — é o narrador-músico depositário da memória coletiva; em Timor-Leste, o « lia-na'in » é o « dono da palavra », a quem cabe guardar e dizer a tradição (ver Fig. 4). Não são contadores ocasionais, mas instituições da comunidade.

Nomenclaturas reais da oratura

Nomenclaturas reais da oraturaTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Termo · Espaço e língua · O que designa; « Karingana ua Karingana » · Moçambique — ronga · Fórmula de abertura do conto, equivalente a « era uma vez »; « misosso » · Angola — kimbundu · Os contos; « maka » · Angola — kimbundu · Os casos e os relatos; « jisabu » · Angola — kimbundu · Os provérbios; « djidiu » (griot) · África ocidental, incluindo a Guiné-Bissau · Narrador-músico depositário da memória coletiva; « lia-na'in » · Timor-Leste · O « dono da palavra », guardião da tradição; « ai-knanoik » · Timor-Leste · As narrativas tradicionais, célula destacada: Fórmula de abertura do conto, equivalente a « era uma vez »TERMOESPAÇO E LÍNGUAO QUE DESIGNA« KARINGANA UAKARINGANA »Moçambique — rongaFórmula de abertura doconto, equivalente a « erauma vez »« MISOSSO »Angola — kimbunduOs contos« MAKA »Angola — kimbunduOs casos e os relatos« JISABU »Angola — kimbunduOs provérbios« DJIDIU » (GRIOT)África ocidental, incluindoa Guiné-BissauNarrador-músico depositárioda memória coletiva« LIA-NA'IN »Timor-LesteO « dono da palavra »,guardião da tradição« AI-KNANOIK »Timor-LesteAs narrativas tradicionaisUma fórmula, três categorias de género, dois ofícios e umcorpus de narrativas.
Fig. 4Fig. 4 — As nomenclaturas reais: cada termo pertence a uma língua e a um espaço determinados.
Dois traços fecham o quadro. A autoria é coletiva e o texto circula anónimo: quem narra não é o autor, mas o depositário momentâneo de um bem comum, e a comunidade reserva-se o direito de corrigir quem narra mal. E a narração tem tempo e lugar próprios — a noite, o fim do trabalho, um momento ritual, um espaço determinado —, de modo que a ocasião faz parte da obra e narrar fora dela pode ser inadequado ou até interdito. O conjunto destes traços desenha um circuito fechado sobre si mesmo, em que o auditório de hoje é o narrador de amanhã, e é a cada volta desse circuito que a variação se introduz (ver Fig. 3).

O circuito da transmissão oral

narradordepositário da palavraperformancevoz · gesto · músicaauditórioresponde, canta, corrigememóriacomunitárianarraretéma obra é o conjuntodas suas versõesescutanova versãocada geração
Fig. 3Fig. 3 — O circuito da transmissão oral: a cada volta, uma nova versão. A seta em destaque fecha o ciclo — o auditório de hoje é o narrador de amanhã.
Exemplo resolvido

Ler a moldura formal de um conto recolhido

Uma versão recolhida de um conto abre com « Karingana ua Karingana », repete três vezes a sequência « o rapaz caminhou, o rapaz chamou, ninguém respondeu » — mudando apenas o lugar —, intercala um curto refrão cantado pelo auditório e termina com uma fórmula que devolve os ouvintes ao mundo comum. Caracteriza a organização formal do texto e explica a função de cada recurso.

  1. 01Reconhecer a organização externa

    A fórmula de abertura « Karingana ua Karingana » — fórmula ronga equivalente a « era uma vez » — e a fórmula de fecho delimitam o texto: abrem e encerram o pacto de ficção. São a moldura da performance.

  2. 02Reconhecer a organização interna

    A sequência repetida três vezes, com variação apenas do lugar, é paralelismo: a estrutura sintática mantém-se e só um elemento se altera. O refrão acrescenta-lhe um retorno periódico.

  3. 03Identificar a função mnemónica

    O paralelismo dá ao narrador uma grelha rítmica sobre a qual improvisa e permite-lhe reconstruir a narrativa sem texto fixo; a repetição ternária fixa o episódio na memória de quem escuta.

  4. 04Identificar a função performativa

    O refrão cantado devolve a palavra ao auditório, que deixa de assistir e passa a executar: a performance é integral e o público torna-se coautor.

  5. 05Ressalvar a variabilidade

    Nada disto pertence a um original: descreve-se esta versão, com o seu narrador, o seu dia e o seu auditório.

Resultado: O texto está formalmente organizado por uma moldura de fórmulas — a abertura « Karingana ua Karingana » e a fórmula de fecho —, que abre e encerra o pacto de ficção, e por um paralelismo ternário no interior, que serve ao mesmo tempo de mecanismo de memória (grelha rítmica para o narrador, ponto de fixação para o ouvinte) e de motor da performance, a que o refrão associa o auditório como coautor. Trata-se, contudo, da descrição de uma versão: sendo a variabilidade constitutiva da oratura, outra performance do mesmo conto teria outra medida e outros pormenores.

Schritt-für-Schritt Erklärung5 Schritte
  1. 1

    Comecemos pelo princípio: um texto de oratura não está guardado em lado nenhum. Não há folha, não há original, não há arquivo. O que existe é um narrador que sabe narrar e uma comunidade que sabe ouvir.

  2. 2

    A narração abre-se com uma fórmula. Em Moçambique, « Karingana ua Karingana » — a fórmula ronga que corresponde ao nosso « era uma vez ». Enquanto ela durar, o mundo comum fica suspenso: é um pacto de ficção celebrado em voz alta.

  3. 3

    Repare-se agora no que se repete. A mesma estrutura de frase volta três vezes, mudando apenas um elemento; um refrão regressa de tempos a tempos. Não é pobreza de estilo: é a máquina de memória. O paralelismo dá ao narrador a grelha sobre a qual improvisa.

  4. 4

    Por isso o público não assiste — executa. Responde, canta o refrão, corrige quem se engana. A performance é integral: a voz, o gesto, a música e a resposta fazem parte do texto, e não do seu enquadramento.

  5. 5

    E quando a narração termina, nada fica fixado. Amanhã, outro narrador dirá o mesmo conto com outra medida e outros pormenores. Cada performance é uma versão, e a obra é o conjunto das suas versões: é isto a variabilidade.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer e nomear a organização interna e externa do texto oral — fórmulas de abertura e de fecho, refrão, paralelismo — a partir de uma versão recolhida: é o exercício de análise mais pedido neste tópico.
  • Explicar a variabilidade e a sua consequência para a análise (analisa-se uma versão, não « o texto ») distingue, num comentário, a leitura informada da leitura ingénua.
  • Usar corretamente a nomenclatura dos ofícios — « djidiu »/griot, « lia-na'in » — numa apresentação oral ou num trabalho de projeto sobre a transmissão da memória.

Erros frequentes

  • Apresentar « Karingana ua Karingana » como invenção de José Craveirinha: é uma fórmula ronga de abertura do conto, anterior ao poeta, que ele adotou como título do seu livro de 1974.
  • Procurar a versão original ou autêntica de um conto oral: a variabilidade é constitutiva, e todas as versões recolhidas são legítimas.
  • Ler as repetições e os paralelismos como pobreza estilística, quando são simultaneamente o mecanismo de memória e o motor rítmico da performance.
  • Confundir o « djidiu » (griot), narrador-músico da África ocidental, com o « lia-na'in » timorense: são ofícios de espaços culturais distintos, e não traduções um do outro.

Revisão ativa

A partir de uma versão recolhida de um conto de transmissão oral, identifica a fórmula de abertura e a de fecho, assinala duas ocorrências de paralelismo e um refrão, e explica, em cada caso, a função mnemónica e a função performativa do recurso.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

As funcionalidades culturais da oratura#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-oratura

Pontos-chave

A oratura não é uma arte separada da vida prática: está encaixada nela. Onde a literatura escrita moderna tende a reivindicar autonomia estética — o livro que vale por si —, o texto oral desempenha, num mesmo ato, várias tarefas sociais: informa, ensina, obriga, une, celebra, diverte e resiste. É isto que se quer dizer com funcionalidade cultural, e é por esta razão que as Aprendizagens Essenciais falam, a propósito de Timor-Leste, de matrizes da oralidade e das suas « dimensões exemplares e morigeradoras ». Distinguem-se habitualmente sete funcionalidades, que raramente ocorrem isoladas (ver Fig. 5).

As sete funcionalidades culturais da oratura

As sete funcionalidades culturais da oraturaroda segmentada, 7 segmentos, Dados: oratura, memória, educação, norma, coesão, ritual, lúdica, resistênciamemóriaarquivo e genealogiaeducaçãoexemplar e morigeradoranormaética e jurídicacoesãoidentidade comunitáriaritualdo nascimento à mortelúdicaprazer e belezaresistênciasob o colonialismooratura
Fig. 5Fig. 5 — As sete funcionalidades culturais da oratura; raramente ocorrem isoladas.
A primeira é a memória: a oratura é o arquivo histórico e genealógico da comunidade. As genealogias guardam a ordem das linhagens, os panegíricos guardam os feitos, os mitos de origem guardam a explicação do mundo e do lugar que nele se ocupa. Este arquivo tem, porém, uma particularidade decisiva — é feito de pessoas e, por isso, é mortal: daí a máxima atribuída ao escritor maliano Amadou Hampâté Bâ, « em África, um ancião que morre é uma biblioteca que arde ». Compreende-se assim que a ficção escrita moderna vá buscar à oratura a matéria com que corrige a História oficial, como faz Ungulani Ba Ka Khosa em « Ualalapi » (1987), a propósito de Ngungunhane, o último imperador de Gaza, derrotado e capturado em 1895.
Seguem-se três funcionalidades que operam sobre o comportamento. A educação e a socialização fazem-se pela narrativa exemplar: o conto e a fábula mostram o que sucede a quem transgride, e é esta a dimensão exemplar e morigeradora a que o currículo se refere — morigerar é, precisamente, corrigir os costumes. A transmissão da norma ética e jurídica cabe sobretudo ao provérbio: nas culturas de matriz oral, o provérbio — o « jisabu », no âmbito do kimbundu — pode ser citado numa disputa como argumento de autoridade, porque condensa numa fórmula memorável uma regra que todos reconhecem. E a coesão e a identidade comunitárias resultam do próprio ato de narrar em conjunto: quem partilha as mesmas estórias e as mesmas fórmulas de abertura reconhece-se como um « nós ».
A quinta funcionalidade é o enquadramento ritual: há palavras para o nascimento, para a iniciação, para o casamento e para a morte, e é a palavra dita no momento certo que marca a passagem de um estado para outro. O texto não se lê — executa-se na ocasião que lhe pertence, e fora dela perde eficácia; é dessa poesia dos ritos de vida, de amor e de morte que se alimenta Ana Paula Tavares em « Ritos de Passagem » (1985). A sexta é a função lúdica e estética, que nunca deve ser esquecida: a adivinha é um jogo, a narração é uma competição de virtuosismo, e o auditório julga o narrador pela beleza e pela graça com que narra, e não apenas pela lição que dele se tira. A oratura é, antes de mais, arte.
A sétima funcionalidade é histórica e é a que mais pesa na leitura das literaturas de língua portuguesa: sob a dominação colonial, quando a escola, a imprensa e a administração falavam a língua do colonizador, a oratura nas línguas da comunidade foi o lugar onde a memória, os valores e a visão do mundo continuaram a transmitir-se fora do controlo colonial. É neste sentido que se compreende a formulação de Amílcar Cabral (1924–1973), fundador do PAIGC e teórico da resistência cultural: « a luta de libertação é um ato de cultura ». Um fenómeno vizinho, ainda que de origem diferente, é o teatro popular de São Tomé e Príncipe — o « tchiloli », o « Auto de Floripes », a « Danço Congo » —, que é literatura em performance: texto europeu, apropriação africana, função comunitária (ver Fig. 6).

Funcionalidade e género

Funcionalidade e géneroTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Funcionalidade · O que faz na comunidade · Género que a serve por excelência; Memória e arquivo · Guarda a linhagem, os feitos e a origem · Genealogia, panegírico, mito de origem; Educação e socialização · Ensina pelo exemplo — dimensão exemplar e morigeradora · Conto e estória, fábula; Norma ética e jurídica · Condensa a regra e é citada como argumento · Provérbio (« jisabu »); Coesão e identidade · Faz de quem escuta em conjunto um « nós » · Mito de origem, epopeia oral; Enquadramento ritual · Marca a passagem: nascimento, iniciação, casamento, morte · Canção, ladainha; Função lúdica e estética · Dá prazer e mede a arte de quem narra · Adivinha; Resistência cultural · Transmite a memória fora do controlo colonial · Todos, na língua da comunidade, célula destacada: Todos, na língua da comunidadeFUNCIONALIDADEO QUE FAZ NACOMUNIDADEGÉNERO QUE A SERVE POREXCELÊNCIAMEMÓRIA E ARQUIVOGuarda a linhagem, os feitose a origemGenealogia, panegírico, mitode origemEDUCAÇÃO ESOCIALIZAÇÃOEnsina pelo exemplo —dimensão exemplar emorigeradoraConto e estória, fábulaNORMA ÉTICA EJURÍDICACondensa a regra e é citadacomo argumentoProvérbio (« jisabu »)COESÃO EIDENTIDADEFaz de quem escuta emconjunto um « nós »Mito de origem, epopeia oralENQUADRAMENTORITUALMarca a passagem:nascimento, iniciação,casamento, morteCanção, ladainhaFUNÇÃO LÚDICA EESTÉTICADá prazer e mede a arte dequem narraAdivinhaRESISTÊNCIACULTURALTransmite a memória fora docontrolo colonialTodos, na língua dacomunidadeA resistência não tem género próprio: faz-se com todos, nalíngua da comunidade.
Fig. 6Fig. 6 — Cada funcionalidade encontra o seu género de eleição.
Exemplo resolvido

Ler as funcionalidades de um provérbio em uso

Numa aldeia, uma disputa sobre o uso de um poço é encerrada quando um ancião cita um provérbio breve e ritmado sobre a água que a todos pertence; a assembleia aceita a sentença e a discussão termina. Que funcionalidades culturais da oratura estão em ação e que traços formais as tornam possíveis?

  1. 01Identificar o género

    A brevidade, o ritmo e o uso numa disputa identificam o provérbio — « jisabu », no âmbito do kimbundu —, género breve ou gnómico da oratura.

  2. 02Reconhecer a norma ética e jurídica

    O provérbio não é citado a título ilustrativo: é citado como argumento de autoridade e encerra o litígio, com peso próximo do de uma regra reconhecida.

  3. 03Reconhecer a memória e a coesão

    Que toda a assembleia o reconheça prova que a fórmula é património comum; e reconhecê-la em conjunto constitui os presentes como um « nós ».

  4. 04Reconhecer a educação

    Para quem não conhecia a regra, o caso concreto ensina-a: é a dimensão exemplar e morigeradora em ato.

  5. 05Explicar os traços formais que o permitem

    A concisão, o ritmo e a construção paralelística fazem do provérbio uma forma memorável e citável — é a condensação formal que lhe dá autoridade.

Resultado: Estão em ação, num mesmo ato, quatro funcionalidades: a transmissão da norma ética e jurídica (o provérbio é citado como argumento de autoridade e encerra o litígio), a memória (a fórmula é património comum reconhecido por todos), a coesão e a identidade comunitárias (reconhecê-la e aceitá-la constitui a assembleia como um « nós ») e a educação (quem desconhecia a regra aprende-a no caso concreto, na sua dimensão exemplar e morigeradora). Tornam-nas possíveis os traços formais do género breve — a concisão, o ritmo e o paralelismo —, que fazem do provérbio uma forma memorável e citável: é a condensação formal que lhe dá autoridade.

Foco no Exame Nacional

  • Enunciar e ilustrar as sete funcionalidades culturais, mostrando que um mesmo texto desempenha várias em simultâneo, é o núcleo dos ensaios expositivo-argumentativos e das apresentações orais que a avaliação interna propõe neste tópico.
  • Explicar a dimensão exemplar e morigeradora com o vocabulário do currículo e com um exemplo de género concreto — conto, fábula ou provérbio.
  • Fundamentar a função de resistência cultural com o argumento histórico correto — a língua da escola e da administração contra a língua da comunidade — e não com afirmações genéricas sobre a identidade.
  • Sustentar a comparação intercultural (Angola, Guiné-Bissau, Timor-Leste) em funcionalidades comuns e em nomenclaturas próprias, que é o tipo de trabalho de projeto valorizado nesta disciplina.

Erros frequentes

  • Reduzir a oratura à sua função educativa ou moral, esquecendo as funções de arquivo, de norma, de coesão, de ritual, de prazer estético e de resistência.
  • Apresentar « em África, um ancião que morre é uma biblioteca que arde » como citação documentada e datada: trata-se de uma máxima atribuída ao escritor maliano Amadou Hampâté Bâ.
  • Tratar o « tchiloli » são-tomense como oratura: é teatro popular em performance, que parte de um texto europeu apropriado e recriado pela comunidade — fenómeno vizinho, mas de origem diferente.
  • Chamar « folclore » ao conjunto, esvaziando de seriedade jurídica, histórica e política funções que a comunidade leva muito a sério.

Revisão ativa

Escolhe um género da oratura (por exemplo, o provérbio, o mito de origem ou a genealogia) e explica, num texto expositivo-argumentativo, três funcionalidades culturais que ele desempenha em simultâneo, justificando cada uma com traços formais do género e com a ocasião em que é dito.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Da oratura à escrita: a oralidade na literatura de língua portuguesa#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-oratura

Pontos-chave

A passagem da oratura à letra faz-se por duas operações que importa não confundir. A primeira é a recolha e transcrição: alguém assiste a uma performance, fixa-a por escrito e publica-a — a obra ganha permanência e perde a performance, isto é, a voz, o gesto, a música, a resposta do público e a variabilidade. A segunda é a refundação literária: um escritor não transcreve nada, mas constrói uma obra escrita cujo funcionamento reproduz, na página, os efeitos do texto oral — inventa, para a escrita, um equivalente da voz. São operações de natureza diferente, com resultados diferentes, e um bom comentário começa por distingui-las (ver Fig. 7).

As duas operações: recolha e refundação

As duas operações: recolha e refundaçãoGrafo, oratura em performance → recolha e transcrição, oratura em performance → refundação literária, recolha e transcrição → coletânea fixada, refundação literária → obra de matriz oral, coletânea fixada → Cordeiro da Matta, 1891, obra de matriz oral → Luandino, Mia Couto, Rosaoratura emperformancerecolha etranscriçãorefundaçãoliteráriacoletâneafixadaobra dematriz oralCordeiro daMatta, 1891Luandino, MiaCouto, Rosa
Fig. 7Fig. 7 — Dois caminhos da oratura para a letra: num, ela é o objeto; no outro, é o modelo.
A recolha tem, nas literaturas de língua portuguesa, uma história antiga. Joaquim Dias Cordeiro da Matta (1857–1894), autor de « Delírios » (1887), recolheu e publicou provérbios angolanos em « Filosofia Popular em Provérbios Angolenses » (1891): um exemplo precoce da passagem da oratura à letra, feito por um letrado da própria terra (ver Fig. 8). Mais perto de nós, na Guiné-Bissau, Odete Semedo (n. 1959) — autora de « Entre o Ser e o Amar » (1996) — dedicou-se à recolha de narrativas orais em crioulo e em português, exatamente aquilo a que as Aprendizagens Essenciais chamam modalidades de preservação das memórias coletivas. Convém sublinhar que uma transcrição nunca é neutra: escolher a versão, a ortografia e a tradução é já interpretar, e a coletânea é, ao mesmo tempo, documento e leitura.

Marcos da passagem da oratura à letra

Marcos da passagem da oratura à letraLinha do tempo de 1880 a 2000, 1891: Provérbios Angolenses, 1946: Sagarana, 1956: Grande Sertão: Veredas, 1963: Luuanda, 1974: Karingana ua Karingana, 1986: Vozes Anoitecidas, 1994: Estórias Abensonhadas18802000ano1891ProvérbiosAngolenses1946Sagarana1956Grande Sertão:Veredas1963Luuanda1974Karingana uaKaringana1986VozesAnoitecidas1994EstóriasAbensonhadas
Fig. 8Fig. 8 — Da recolha de 1891 à refundação literária do século XX.
A refundação é a operação literariamente mais ambiciosa e é ela que explica a estranheza produtiva de algumas das maiores obras escritas em português. José Luandino Vieira (n. 1935), em « Luuanda » (1963, escrito na prisão), faz do musseque um mundo e escreve numa sintaxe e num léxico híbridos de português e kimbundu; e o próprio termo com que designa os seus textos — « estória », e não « história » — reivindica a filiação oral. Uanhenga Xitu, em « Mestre Tamoda », constrói um narrador que fala como quem conta, interrompendo-se para comentar. Mia Couto (n. 1955) prolonga o gesto em « Vozes Anoitecidas » (1986) e em « Estórias Abensonhadas » (1994), cujo título faz da estória e da invenção lexical o programa do livro: as palavras compostas e os provérbios reinventados dão à frase portuguesa um ritmo que vem da fala.
O mesmo movimento existe no Brasil: João Guimarães Rosa (1908–1967), em « Sagarana » (1946) e sobretudo em « Grande Sertão: Veredas » (1956), põe Riobaldo a falar a um interlocutor que nunca responde, de modo que o romance inteiro funciona como uma performance oral transposta para a página — com digressões, apelos ao ouvinte, sentenças de sabedoria sertaneja e uma língua reinventada. Para reconhecer a matriz oral num texto escrito, vale a pena percorrer uma lista de marcas: um narrador que se dirige a um « tu » ou a um auditório; fórmulas e refrães; repetição e paralelismo; provérbios embutidos no discurso; léxico das línguas nacionais integrado sem glossário; sintaxe da fala; a escolha do termo « estória »; digressão e comentário moral (ver Fig. 9). Uma marca isolada não basta: é o sistema que conta.

Marcas da matriz oral na página

Marcas da matriz oral na páginaTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Marca · Como se manifesta na página · Exemplo; Narrador que interpela · Dirige-se a um « tu » ou a um ouvinte silencioso · Riobaldo, em « Grande Sertão: Veredas » (1956); A « estória » · O termo reivindica a filiação na narrativa oral · « Estórias Abensonhadas » (1994), de Mia Couto; Léxico híbrido · Palavras das línguas nacionais integradas sem glossário · « Luuanda » (1963), de Luandino Vieira; Provérbio embutido · A sentença entra no discurso do narrador · Mia Couto; Guimarães Rosa; Repetição e paralelismo · A frase reproduz a grelha rítmica da fala · « Sagarana » (1946), de Guimarães Rosa; Digressão e comentário · O narrador interrompe-se para julgar o que conta · « Mestre Tamoda », de Uanhenga Xitu, célula destacada: O termo reivindica a filiação na narrativa oralMARCACOMO SE MANIFESTA NAPÁGINAEXEMPLONARRADOR QUEINTERPELADirige-se a um « tu » ou aum ouvinte silenciosoRiobaldo, em « GrandeSertão: Veredas » (1956)A « ESTÓRIA »O termo reivindica afiliação na narrativa oral« Estórias Abensonhadas »(1994), de Mia CoutoLÉXICO HÍBRIDOPalavras das línguasnacionais integradas semglossário« Luuanda » (1963), deLuandino VieiraPROVÉRBIO EMBUTIDOA sentença entra no discursodo narradorMia Couto; Guimarães RosaREPETIÇÃO EPARALELISMOA frase reproduz a grelharítmica da fala« Sagarana » (1946), deGuimarães RosaDIGRESSÃO ECOMENTÁRIOO narrador interrompe-separa julgar o que conta« Mestre Tamoda », deUanhenga XituUma marca isolada não prova nada: é o sistema de marcas queidentifica a matriz oral.
Fig. 9Fig. 9 — Uma grelha de leitura: seis marcas pelas quais a matriz oral se reconhece num texto escrito.
É por tudo isto que este tópico é a chave de leitura de quanto se segue. Ao reconhecer na oratura uma literatura com géneros, poética e funções próprias, deixa-se de ler as literaturas angolana, guineense e timorense como versões tardias da literatura portuguesa e passa-se a lê-las como literaturas de fundação própria, que escolheram escrever em português sem renunciarem à sua matriz. É também assim que se cumpre o que as Aprendizagens Essenciais pedem: refletir sobre a língua portuguesa na sua diversidade e nas suas relações com as outras línguas, valorizar a diversidade cultural, de vivências e de mundivisões presentes nos textos, e reconhecer os contributos da língua portuguesa para a reflexão e a ação culturais.
Exemplo resolvido

Distinguir recolha de refundação

Chegam às tuas mãos dois volumes. O primeiro reúne quinhentos provérbios de uma região, cada um seguido da tradução e de uma nota sobre a ocasião em que se usa. O segundo é um romance cujo narrador interpela um ouvinte silencioso, mistura no português palavras de uma língua nacional sem as explicar, embute provérbios no discurso e chama « estórias » aos seus capítulos. Classifica cada volume quanto ao modo como se relaciona com a oratura e justifica com as marcas apresentadas.

  1. 01Observar o primeiro volume

    Reúne textos orais fixados por escrito, traduzidos e anotados quanto à ocasião de uso: o objeto do livro é a própria oratura, tratada como documento.

  2. 02Nomear a primeira operação

    É recolha e transcrição — a operação de Cordeiro da Matta em « Filosofia Popular em Provérbios Angolenses » (1891) ou das recolhas de narrativas orais de Odete Semedo. Ganha-se permanência e perde-se a performance.

  3. 03Observar o segundo volume

    Não fixa nenhum texto oral preexistente: o narrador interpela um ouvinte, o léxico é híbrido e sem glossário, os provérbios estão embutidos e o termo « estória » reivindica a filiação oral.

  4. 04Nomear a segunda operação

    É refundação literária — a operação de Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Mia Couto ou Guimarães Rosa: inventa-se, na escrita, um equivalente dos efeitos da voz.

  5. 05Fundamentar a distinção

    No primeiro caso a oratura é o objeto; no segundo, é o modelo. Um volume é documento; o outro é obra de invenção com matriz oral.

Resultado: O primeiro volume é uma recolha e transcrição: a oratura é aí o objeto, fixado, traduzido e anotado — a operação de Cordeiro da Matta em « Filosofia Popular em Provérbios Angolenses » (1891) ou das recolhas de narrativas orais de Odete Semedo; ganha permanência e perde performance e variabilidade. O segundo é uma refundação literária: a oratura é aí o modelo, e as marcas apresentadas — o narrador que interpela um ouvinte silencioso, o léxico híbrido sem glossário, os provérbios embutidos, a « estória » — são invenções da escrita que reproduzem na página os efeitos da voz, como em « Luuanda » (1963) ou em « Grande Sertão: Veredas » (1956). Documento, num caso; obra de matriz oral, no outro.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir recolha/transcrição de refundação literária, com um exemplo de cada, é o ponto que separa o ensaio fundamentado do ensaio vago neste tópico.
  • Demonstrar, com marcas textuais concretas — narrador que interpela, « estória », léxico híbrido, provérbio embutido, paralelismo —, que uma obra escrita se funda na oralidade, em vez de simplesmente o afirmar.
  • Comparar interculturalmente dois autores de espaços diferentes (por exemplo, José Luandino Vieira e João Guimarães Rosa) quanto ao modo como refundam a escrita na oralidade: é o tipo de trabalho comparativo que a avaliação interna desta disciplina valoriza.
  • Comentar criticamente uma coletânea de narrativas recolhidas, reconhecendo que a transcrição é também interpretação.

Erros frequentes

  • Dizer que Luandino Vieira, Mia Couto ou Guimarães Rosa transcrevem oratura: não transcrevem — refundam, inventando na escrita um equivalente dos efeitos da oralidade.
  • Chamar erros ou incorreções às construções híbridas destes autores: são opções literárias deliberadas, que integram o léxico e a sintaxe das línguas em presença.
  • Confundir « estória » com um erro ortográfico de « história »: em Luandino Vieira e em Mia Couto, a forma é uma escolha que reivindica a filiação na narrativa oral.
  • Atribuir a Cordeiro da Matta a autoria dos provérbios que publicou em 1891: recolheu-os e publicou-os, mas a autoria é coletiva — é esse, aliás, o traço distintivo da oratura.

Revisão ativa

Compara um excerto de « Luuanda », de José Luandino Vieira, com um excerto de « Grande Sertão: Veredas », de João Guimarães Rosa, e mostra, com marcas textuais, de que modo cada um refunda a escrita na oralidade. Conclui sobre o que os aproxima e sobre o que os distingue.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O que é a oratura: conceito, termo e géneros○
    • 02A performance oral: traços formais e mecanismos de memória◐
    • 03As funcionalidades culturais da oratura●
    • 04Da oratura à escrita: a oralidade na literatura de língua portuguesa●

0/4 Lidos

Dos resumos à prática

A literatura oral (oratura): características e funcionalidade culturais

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~30
min
4
Competências
Praticar

Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

Tópico anterior

O romance brasileiro depois de 1930

Tópico seguinte

A literatura colonial: fronteiras e diferenças

EuraStudy·Resumos T·05·MMXXVI

Continua com o tópico seguinte: o teu percurso é mantido.