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Antes das literaturas nacionais africanas houve uma literatura colonial: escrita por autores europeus, para um público metropolitano, tomando a colónia como cenário exótico e o africano como paisagem, tipo ou objeto — nunca como sujeito. Aprende-se aqui a traçar a fronteira entre uma coisa e outra, discutindo os três critérios que a crítica propõe — a origem do autor, o tema e a intenção —, a percorrer os precursores e os textos de transição de Angola, de Moçambique e de Cabo Verde, e a explicar a viragem operada pela negritude, pela Casa dos Estudantes do Império e pelas revistas fundadoras. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional, pelo que cada secção traz um « foco de avaliação ».
4 secções~31 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Distinguir literatura colonial de literatura africana de língua portuguesa pelas três perguntas — quem fala, de onde fala, para quem fala — e situar os precursores de cada território.
nível avançado
Aplicar e discutir os três critérios de fronteira em casos difíceis, fundamentando a leitura em marcas textuais e nos estudos de Manuel Ferreira, Pires Laranjeira, Russell G. Hamilton e Francisco Noa.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Literatura colonial e literatura africana de língua portuguesa
Quem fala, de onde fala, para quem fala
Num excerto, o narrador descreve o nascer do dia sobre a savana, o calor que já pesa e os tambores ao longe; detém-se a explicar ao leitor o que significa a cerimónia que os tambores anunciam e refere « os indígenas » que atravessam o caminho do administrador, sem que nenhum deles tenha nome ou fale. Classifica o texto e justifica com três marcas.
O narrador explica ao leitor o sentido da cerimónia: quem explica não partilha o costume, observa-o. A posição é a de fora, a de quem chega — primeira marca.
A explicação pressupõe um leitor que desconhece a terra, e a acumulação de calor, tambores e savana serve-lhe o exótico que ele procura: o destinatário é metropolitano — segunda marca.
« Os indígenas » aparecem no plural e em bloco, sem nome, sem voz e a atravessar o caminho de outrem: são paisagem e não sujeitos — terceira marca, a decisiva.
O cenário africano não decide nada: é o cenário de toda a literatura colonial. Decide o ponto de vista.
Resultado: É literatura colonial. Fala um narrador europeu, que olha de fora — explica os costumes em vez de os partilhar —, para um público metropolitano, a quem serve o exotismo do calor, dos tambores e da savana; e nesse quadro os africanos surgem em bloco, sem nome e sem voz, como paisagem do caminho do administrador, isto é, como objeto do olhar e não como sujeitos. O cenário africano, só por si, não classificaria o texto.
Erros frequentes
Revisão ativa
A partir de um excerto de ambiente africano, responde às três perguntas — quem fala, de onde fala e para quem fala — e classifica-o, justificando a resposta com três marcas textuais concretas.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Os três critérios de fronteira
Os estudos de referência do debate
Um poeta nasceu na colónia, numa família vinda da metrópole, e publica em Lisboa poemas de cenário africano em que os trabalhadores da terra têm nome, voz e razão e em que o trabalho forçado é denunciado. Aplica os três critérios de fronteira e decide, dizendo qual deles é decisivo e que reserva deves formular.
Nasceu na terra, mas numa família metropolitana: o critério fica dividido e não decide. É precisamente o caso que mostra a sua fragilidade.
O cenário é africano — mas isso é comum a toda a literatura colonial, pelo que o critério não distingue nada. Também não decide.
Os trabalhadores têm nome, voz e razão: o africano é sujeito, não objeto. A denúncia do trabalho forçado indica um projeto que se opõe à ordem colonial. Este critério decide.
Publicar em Lisboa é um dado do circuito editorial da época — a censura e a escassez de editoras nos territórios explicam-no —, e não um dado do projeto: não inverte a conclusão.
A decisão assenta na leitura de uma intenção, e a intenção é interpretada por quem lê: a classificação é sustentável, não é definitiva.
Resultado: Pelo critério intencional — o decisivo neste caso — o texto integra-se na literatura africana de língua portuguesa: o africano é sujeito, o destinatário e o projeto opõem-se à ordem colonial e a denúncia dirige-se contra ela. Os outros dois critérios não decidem: o da origem fica dividido e o temático é cumprido também pela literatura colonial. A reserva a formular é que a decisão depende da interpretação de uma intenção, matéria em que a crítica diverge — a fronteira discute-se, não se decreta.
Erros frequentes
Revisão ativa
Sistematiza, em texto expositivo-argumentativo, as diferenças e as semelhanças entre a literatura colonial e a literatura africana de língua portuguesa, aplicando os três critérios de fronteira e tomando posição fundamentada sobre qual deles consideras decisivo.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Dos precursores à viragem: 1849–1936
Os precursores, território a território
Cordeiro da Matta publica «Delírios» em 1887 e, quatro anos depois, «Filosofia Popular em Provérbios Angolenses» (1891). Explica por que razão a crítica vê nesta sequência um caso exemplar de texto de transição.
«Delírios» (1887) é poesia na forma herdada da metrópole: o modelo literário e o critério de valor vêm ainda de fora.
«Filosofia Popular em Provérbios Angolenses» (1891) recolhe o património proverbial angolano: a matéria passa a ser a da terra, e a fonte deixa de ser o cânone importado para ser a tradição oral local.
Chamar « filosofia popular » ao saber proverbial é atribuir-lhe dignidade de pensamento: o título é uma tese sobre o valor da cultura angolana, e não uma simples recolha.
Não há ainda projeto de literatura nacional nem público africano constituído: falta o terceiro elemento, o do projeto identitário assumido.
Forma herdada e matéria própria coexistem na obra do mesmo autor, com quatro anos de intervalo — e é precisamente essa coexistência que define a transição.
Resultado: Porque, na obra do mesmo autor e em quatro anos, o centro de gravidade do valor se desloca da metrópole para a terra: de «Delírios» (1887), poesia na forma importada, para «Filosofia Popular em Provérbios Angolenses» (1891), que faz da tradição oral angolana uma fonte de pensamento — e cujo título é já uma tese. Coexistem, assim, forma herdada e matéria própria, sem que exista ainda um projeto de literatura nacional: é a definição de texto de transição.
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica, em texto seguido, por que razão «Voz de Angola Clamando no Deserto» (1901) é considerado um texto de transição e ainda não uma literatura nacional angolana, e compara-o com «Espontaneidades da Minha Alma» (1849) quanto ao público visado e à intenção.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Da viragem às independências: 1936–1975
A rede da Casa dos Estudantes do Império
Explica por que razão a antologia «Poesia Negra de Expressão Portuguesa» (1953) é um documento-chave da viragem para as literaturas nacionais africanas e mostra o que o seu próprio título antecipa do debate sobre a designação destas literaturas.
Foi organizada por Francisco José Tenreiro e por Mário Pinto de Andrade, ambos do círculo da Casa dos Estudantes do Império: não é um acaso editorial, é o produto de uma rede.
Reúne, sob uma designação comum, poetas dispersos por vários territórios: constitui o movimento no ato de o antologiar e transforma casos isolados em corrente reconhecível.
A fórmula importa a negritude de Césaire e de Senghor para a língua portuguesa: o que era estigma passa a valor afirmado, e o africano passa de objeto do poema a sujeito e autor dele.
É a fórmula que a crítica viria a contestar, por sugerir dependência cultural; ganharia terreno « de língua portuguesa », que nomeia apenas o instrumento.
A designação comum é um passo indispensável e, ao mesmo tempo, provisório: dela sairia a separação em literaturas nacionais distintas, uma por cada território.
Resultado: É documento-chave porque, organizada por Francisco José Tenreiro e por Mário Pinto de Andrade a partir do círculo da Casa dos Estudantes do Império, reúne pela primeira vez sob uma designação comum poetas de vários territórios, constituindo-os em movimento e fazendo do africano o sujeito e o autor do poema, e não o seu objeto. Quanto ao título, ele antecipa todo o debate da designação: « Poesia Negra » traz a negritude para a língua portuguesa e « de Expressão Portuguesa » é precisamente a fórmula que a crítica viria a substituir por « de língua portuguesa », por aquela sugerir uma dependência cultural que esta não sugere.
Erros frequentes
Revisão ativa
Traça, em texto expositivo-argumentativo, o percurso que vai dos precursores do século XIX às literaturas nacionais africanas, explicando o contributo de «Claridade» (1936), da negritude, da Casa dos Estudantes do Império e da antologia de 1953, e conclui indicando qual dos três critérios de fronteira melhor descreve essa passagem.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)