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A literatura angolana em língua portuguesa começa a escrever-se na Luanda oitocentista — «Espontaneidades da Minha Alma» (1849), de José da Silva Maia Ferreira — e ganha projeto próprio com a revista «Mensagem» (Luanda, 1951–1952) e a palavra de ordem « Vamos Descobrir Angola! ». De José Luandino Vieira, que em «Luuanda» (1963) faz do musseque um mundo e cruza o português com o kimbundu, a Pepetela, que narra a nação da utopia ao desencanto, e às vozes contemporâneas de Ana Paula Tavares, Manuel Rui, Ondjaki e José Eduardo Agualusa, o percurso organiza-se pelos três eixos das Aprendizagens Essenciais para Angola: « as periferias urbanas, suas metamorfoses e lições de resistência », « os mundos da literatura de transmissão oral » e « os rituais de vida, amor e morte e a sua dimensão exemplar ». Literaturas de Língua Portuguesa é uma disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional: o que se avalia é a leitura analítica do texto, o comentário literário fundamentado e o ensaio expositivo-argumentativo.
4 secções~34 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Reconhecer os marcos da literatura angolana — 1849, «Mensagem» (1951–1952), «Luuanda» (1963), a independência de 1975 — e associar a cada autor uma obra e a sua data.
nível avançado
Analisar, a partir de marcas textuais concretas, a hibridação do português com o kimbundu e a matriz oral da « estória », e discutir o arco que vai da utopia da luta ao desencanto e à sátira.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
A literatura angolana de 1849 a 2012
As gerações da literatura angolana
Um poema desta geração dá voz ao trabalhador de uma grande roça de café, repete a pergunta sobre a quem pertence o café que ele colhe e apoia-se no ritmo do canto de trabalho. Identifica o poema e o autor e explica em que sentido ele realiza o programa « Vamos Descobrir Angola! ».
A roça, o trabalho contratado e a denúncia direta situam o poema na geração de «Mensagem», em Luanda, no início dos anos 50.
O poema que dá voz ao monangamba — o trabalhador contratado — e pergunta de quem é o café é « Monangamba », de António Jacinto.
A repetição e o paralelismo vêm do canto de trabalho; o léxico é o da terra e do sistema de contrato; a voz não fala sobre o trabalhador, fala com a sua boca.
A pergunta pela propriedade do café desloca o poema da descrição para a acusação: quem trabalha não é quem colhe o fruto.
A « descoberta » é dupla — descobre-se um tema que a literatura colonial não via e descobre-se uma forma, a do canto oral, que passa a organizar o poema.
Resultado: O poema é « Monangamba », de António Jacinto (1924–1991). Realiza o programa « Vamos Descobrir Angola! » em dois planos ao mesmo tempo: no tema, porque traz para o centro o trabalhador contratado e a exploração das roças, que a literatura colonial mantinha invisíveis; e na forma, porque toma do canto de trabalho a repetição e o paralelismo, fazendo da matéria oral a própria arquitetura do texto.
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica o que significa, para a literatura angolana, a palavra de ordem « Vamos Descobrir Angola! », associada à revista «Mensagem» (1951–1952). Fundamenta a resposta com dois poetas da geração e indica as mudanças de tema e de forma que introduzem.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
O musseque como espaço literário
As camadas da hibridação em Luandino Vieira
Num conto, duas vizinhas de um bairro de areia de Luanda discutem a quem pertence um ovo posto por uma galinha; a disputa arrasta toda a vizinhança, o narrador interpela quem lê como se falasse a um ouvinte e mistura no português palavras e construções do kimbundu. Identifica a obra e o autor e explica que sentido tem a forma escolhida.
O bairro de areia de Luanda é o musseque; o caso mínimo tratado como assunto de todos é a matéria própria destas narrativas.
Trata-se de « A estória da galinha e do ovo », uma das três narrativas de «Luuanda» (1963), de José Luandino Vieira.
O narrador dirige-se a um ouvinte, digressiona e dá ao caso valor de exemplo: são marcas do conto oral, assinaladas pela própria escolha da palavra « estória ».
Léxico e construções do kimbundu entram sem glosa nem itálico e a sintaxe segue a fala de Luanda: a norma escrita da metrópole deixa de ser a medida do texto.
A disputa por um ovo põe a descoberto as hierarquias internas do bairro e a violência do sistema que o cerca; o caso mínimo vale por todos.
Forma e política coincidem: escrever a periferia na sua própria língua é, em si, o gesto de resistência.
Resultado: O texto é « A estória da galinha e do ovo », de «Luuanda» (1963), de José Luandino Vieira. A forma escolhida — a « estória » de matriz oral, com um narrador que interpela o ouvinte, e um português reorganizado pelo léxico e pela sintaxe do kimbundu — faz do musseque um mundo dotado de língua própria e transforma um caso mínimo em exemplo do sistema que o cerca: aqui, a língua é a forma da resistência.
Luanda, meados do século XX. À volta da cidade de cimento cresce o musseque, o bairro de areia onde vive a maior parte da população. É esse bairro que José Luandino Vieira decide escrever.
Em 1963 publica «Luuanda», escrito na prisão. São três narrativas a que ele chama « estórias », e não « histórias »: a palavra reivindica o conto de transmissão oral, com o seu narrador que fala a um ouvinte, as suas digressões e os seus provérbios.
A novidade maior está na língua. O kimbundu entra no português sem glosa nem itálico, a sintaxe segue a fala de Luanda e o ritmo é o de quem conta em voz alta. Aquilo que a norma colonial chamava erro passa a ser língua literária.
Em 1965, «Luuanda» recebe o Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores. A consequência é imediata: a Sociedade é extinta por decisão ministerial nesse mesmo ano e a sua sede é vandalizada.
Guarda as duas datas e o desfecho: 1963, a obra; 1965, o prémio e o escândalo. E guarda ainda que, em 2006, Luandino Vieira foi anunciado vencedor do Prémio Camões e recusou o prémio.
Erros frequentes
Revisão ativa
A partir de uma das estórias de «Luuanda» (1963), mostra como o narrador constrói a ilusão de uma narrativa contada em voz alta e explica de que modo a hibridação do português com o kimbundu funciona, no contexto colonial, como forma de resistência.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
A obra de Pepetela de 1978 a 2001
Da utopia ao desencanto: quatro estações
Num romance de 1980, capítulos em primeira pessoa dão sucessivamente a palavra aos combatentes de um destacamento instalado numa floresta; entre eles há acusações de tribalismo e o comandante desconfia dos dogmas da organização. Identifica a obra e o autor e explica por que razão o romance não pode ser lido como propaganda.
O destacamento de guerrilheiros na floresta e a data de 1980 identificam «Mayombe», de Pepetela.
Os capítulos em primeira pessoa distribuem a palavra por vários combatentes: nenhuma voz se impõe como oficial, e o leitor recebe versões concorrentes dos mesmos factos.
O antagonista principal não é o inimigo exterior, quase ausente, mas o que divide o grupo: o tribalismo, o dogmatismo e a distância entre o discurso e a prática.
Um chefe lúcido e crítico das certezas fáceis encarna a tensão entre o indivíduo e a organização, tensão que a propaganda teria de resolver e que o romance mantém aberta.
A propaganda simplifica e conclui; este romance multiplica os pontos de vista e deixa o problema em aberto.
Resultado: A obra é «Mayombe» (1980), de Pepetela. Não é propaganda porque o seu dispositivo formal — a polifonia dos capítulos em primeira pessoa — recusa uma voz oficial, e porque o conflito decisivo é interno ao grupo: o tribalismo, o dogmatismo e as contradições dos combatentes. Em vez de celebrar a luta, o romance põe a utopia à prova da matéria humana que a há de realizar.
Erros frequentes
Revisão ativa
Traça, com quatro obras datadas de Pepetela, o arco que vai da utopia da luta ao desencanto e à sátira, explicando em cada caso que forma narrativa — polifonia, alegoria, fantástico ou paródia — sustenta essa posição.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
As vozes contemporâneas e a sua matéria
Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para Angola
Um poema breve, de dicção sensorial e voz feminina, diz o corpo de uma rapariga no momento em que a comunidade a reconhece como mulher, com os gestos e os interditos próprios desse momento. Identifica a autora e o livro e explica o que significa dizer que o rito tem « dimensão exemplar ».
A brevidade, a dicção sensorial, a voz feminina e a matéria da iniciação apontam para «Ritos de Passagem» (1985), de Ana Paula Tavares.
O poema segue os três tempos do rito: a separação do estado anterior, o limiar em que nada se é ainda, e a reintegração num novo lugar social.
Os gestos, os interditos e os elementos sensoriais funcionam como sinais rituais, não como ornamento descritivo.
O que acontece a um corpo enuncia a regra de toda a comunidade: o caso individual vale como norma partilhada e transmitida.
Por isso o poema pode ser mínimo e continuar a dizer muito: a forma breve carrega uma lei coletiva.
Resultado: O poema é de Ana Paula Tavares e pertence a «Ritos de Passagem» (1985). Dizer que o rito tem « dimensão exemplar » significa que a passagem de um indivíduo — aqui, a rapariga que a comunidade reconhece como mulher — enuncia ao mesmo tempo a regra de todos: o texto é simultaneamente íntimo e coletivo, e é essa dupla leitura que lhe dá densidade apesar da brevidade.
Distingue «Os Transparentes» (2012) de «Teoria Geral do Esquecimento» (2012) quanto ao autor, ao dispositivo narrativo e ao eixo das Aprendizagens Essenciais que cada um realiza.
«Os Transparentes» é de Ondjaki; «Teoria Geral do Esquecimento» é de José Eduardo Agualusa.
Ondjaki reúne os moradores de um prédio num coro de vozes e faz um homem tornar-se literalmente transparente; Agualusa fecha uma mulher no seu apartamento à data da independência e deixa a história decorrer do outro lado da parede.
A transparência figura a despossessão de quem é esvaziado pela cidade do petróleo; o emparedamento figura a memória que se recusa a acompanhar a história.
Ondjaki realiza sobretudo « as periferias urbanas, suas metamorfoses e lições de resistência »; Agualusa trabalha a memória e o esquecimento, e cruza-os com os rituais de vida e de morte da cidade.
Resultado: Ambos são de 2012 e ambos escrevem Luanda, mas divergem em tudo o resto: «Os Transparentes», de Ondjaki, usa o coro dos moradores de um prédio e a transparência literal de um homem para dizer a metamorfose de uma cidade de petróleo e a resistência de quem nela vive — o eixo das periferias urbanas; «Teoria Geral do Esquecimento», de Agualusa, usa o emparedamento de uma mulher no momento da independência para transformar a casa em câmara de memória e fazer da história um rumor vindo de fora.
Erros frequentes
Revisão ativa
Escolhe duas das quatro vozes desta secção e mostra, com obras datadas e marcas textuais concretas, como cada uma trabalha um dos três eixos das Aprendizagens Essenciais para Angola; conclui comparando as suas posições sobre a cidade ou sobre a memória.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)