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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Literatura Moçambicana em língua portuguesa
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Literatura Moçambicana em língua portuguesa

A literatura moçambicana em língua portuguesa nasce na imprensa do início do século XX — «O Africano» (1908) e «O Brado Africano» (1918), ligados a João Albasini —, encontra a sua primeira voz moderna na negritude de Noémia de Sousa e atinge a maturidade com José Craveirinha, o primeiro escritor africano a receber o Prémio Camões (1991), e com a prosa de Luís Bernardo Honwana. As Aprendizagens Essenciais fixam para Moçambique dois eixos de leitura — « os olhares dos escritores sobre o Índico » e « literatura e recuperação da História » —, que atravessam «Ualalapi» (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa, a obra de Mia Couto (Prémio Camões 2013), a poesia de Eduardo White e os romances de Paulina Chiziane (Prémio Camões 2021). Literaturas de Língua Portuguesa é uma disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional: o que se avalia é a leitura analítica do texto, o comentário literário fundamentado e o ensaio expositivo-argumentativo.

4 secções·~36 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0888 / 12
Perfil de exame
Situar os precursores da literatura moçambicana e a emergência da voz da negritudeAnalisar a poesia de José Craveirinha e a ficção de Luís Bernardo HonwanaExplicar como a literatura moçambicana recupera e reescreve a HistóriaCaracterizar os olhares dos escritores sobre o Índico e as vozes contemporâneas — competência aferida apenas por avaliação interna, uma vez que a disciplina não tem Exame Final Nacional
Operadores:situacaracterizaanalisainterpretarelacionacomparacomentajustifica

nível básico

Reconhecer os momentos fundadores — a imprensa de Albasini, a revista «Msaho» (1952), a negritude de Noémia de Sousa —, associar a cada autor uma obra datada e saber enunciar os dois eixos que as Aprendizagens Essenciais fixam para Moçambique.

nível avançado

Analisar marcas textuais concretas — a metáfora do carvão em Craveirinha, a ironia do narrador-criança em Honwana, a invenção lexical de Mia Couto — e discutir a ficção como reescrita crítica da História e o Índico como espaço de troca e de mestiçagem.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Literatura Moçambicana em língua portuguesa
    • 01Precursores e a voz da negritude: Albasini, Noronha, «Msaho», Noémia de Sousa○
    • 02Craveirinha e Honwana: o grito e a infância colonizada◐
    • 03Literatura e recuperação da História: Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto◐
    • 04Olhares sobre o Índico e vozes contemporâneas: Eduardo White, Paulina Chiziane●
§ 01

Precursores e a voz da negritude: Albasini, Noronha, «Msaho», Noémia de Sousa#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-mocambique

Pontos-chave

A literatura moçambicana em língua portuguesa não começa por um livro, mas por um jornal. Em Lourenço Marques — hoje Maputo —, o nome de João Albasini está ligado à fundação de «O Africano» (1908) e, dez anos depois, de «O Brado Africano» (1918), periódicos que dão pela primeira vez voz escrita a uma pequena elite africana e mestiça da cidade colonial e que abrem espaço, ao lado do português, às línguas do território. É na crónica, no artigo de opinião e na polémica que se ensaia um uso da língua do colonizador que já não serve os fins do colonizador. Guarda a lição de método (ver Fig. 1): num território sem editoras, sem escolas em número suficiente e sem público leitor constituído, é a imprensa periódica que faz as vezes de instituição literária — e assim será durante quase meio século.

Um século de literatura moçambicana (1908–2021)

Um século de literatura moçambicana (1908–2021)Linha do tempo de 1900 a 2025, 1908: «O Africano», 1918: «O Brado Africano», 1952: Revista «Msaho», 1964: Craveirinha · Honwana, 1975: Independência (25 de junho), 1987: «Ualalapi», 1992: «Terra Sonâmbula», 2002: «Niketche», 2021: Camões a Paulina Chiziane, 1900–1975: período colonial, 1977–1992: guerra civil19002025anoperíodo colonialguerra civil1908«O Africano»1918«O BradoAfricano»1952Revista «Msaho»1964Craveirinha ·Honwana1975Independência(25 de junho)1987«Ualalapi»1992«TerraSonâmbula»2002«Niketche»2021Camões a PaulinaChiziane
Fig. 1Fig. 1 — De «O Africano» (1908) ao Prémio Camões de 2021: um século de literatura moçambicana. Em 1964 estreiam-se Craveirinha, com «Xigubo», e Honwana, com «Nós Matámos o Cão Tinhoso»; 1992 é o ano de «Terra Sonâmbula» e do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma.
Rui de Noronha (1909–1943) é a figura de charneira entre o jornalismo de intervenção e a poesia. Escreveu sonetos — a forma europeia por excelência, herdada de Camões e do Parnasianismo — mas pô-los ao serviço de uma matéria nova: a terra africana, a sua gente, a memória do que fora arrasado, o apelo ao despertar. O seu soneto mais citado, « Surge et Ambula », toma de empréstimo ao Evangelho a ordem « levanta-te e anda » e dirige-a a uma África representada como adormecida. É nessa tensão que reside toda a sua importância: uma forma perfeitamente europeia a transportar um conteúdo que a contraria. Morreu sem ver um livro seu publicado — os «Sonetos» foram reunidos postumamente —, o que confirma o quadro: a primeira poesia moçambicana existe antes de existir como livro.
Em 1952 aparece, em Lourenço Marques, a revista «Msaho», que teve um único número e reuniu, entre outros, Virgílio de Lemos e Noémia de Sousa. Um só número: a censura, a falta de meios e o isolamento explicam a fragilidade material de toda esta primeira literatura, e obrigam a avaliar cada iniciativa pelo gesto e não pela duração. O que «Msaho» propõe é uma modernidade poética que não venha da imitação de Lisboa, mas do encontro entre a língua portuguesa e as culturas do território — e o próprio título, que é uma palavra africana e não portuguesa, já é esse programa em miniatura (ver Fig. 2).

Os momentos fundadores da literatura moçambicana

Os momentos fundadores da literatura moçambicanaTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Momento · Data · O que traz de novo; «O Africano» · 1908 · A imprensa como primeira instituição literária; voz escrita de uma elite africana e mestiça; «O Brado Africano» · 1918 · Ampliação do espaço de opinião; lugar para as línguas do território ao lado do português; Rui de Noronha · 1909–1943 · O soneto europeu ao serviço de matéria africana; « Surge et Ambula »; Revista «Msaho» · 1952 · Um único número; a modernidade poética procurada fora do modelo de Lisboa; Noémia de Sousa · 1948–1951 · A negritude: o orgulho da cor, os tambores, os antepassados, o cântico coletivo; «Sangue Negro» · século XXI · A obra de Noémia de Sousa finalmente reunida em livro, célula destacada: A negritude: o orgulho da cor, os tambores, os antepassados, o cântico coletivoMOMENTODATAO QUE TRAZ DE NOVO«O AFRICANO»1908A imprensa como primeirainstituição literária; vozescrita de uma eliteafricana e mestiça«O BRADO AFRICANO»1918Ampliação do espaço deopinião; lugar para aslínguas do território aolado do portuguêsRUI DE NORONHA1909–1943O soneto europeu ao serviçode matéria africana; « Surgeet Ambula »REVISTA «MSAHO»1952Um único número; amodernidade poéticaprocurada fora do modelo deLisboaNOÉMIA DE SOUSA1948–1951A negritude: o orgulho dacor, os tambores, osantepassados, o cânticocoletivo«SANGUE NEGRO»século XXIA obra de Noémia de Sousafinalmente reunida em livroCada momento, a sua data e a novidade que introduz.
Fig. 2Fig. 2 — Da imprensa (1908) à negritude: os momentos fundadores e o que cada um traz de novo.
É preciso saber o que é a negritude para poder usar a palavra. Movimento nascido em Paris nos anos 30, em torno de Aimé Césaire, Léopold Sédar Senghor e Léon-Gontran Damas, a negritude opera uma inversão do estigma: aquilo que a cultura colonial apresentava como marca de inferioridade — a cor, a África, o corpo, o ritmo, o tambor — é assumido em primeira pessoa e cantado como valor. Não é folclore nem exotismo: é um ato político feito com meios poéticos, porque muda o lugar de quem fala, que deixa de ser objeto de discurso alheio para ser sujeito do seu. Chegou a Moçambique por leituras, por revistas e por antologias, e cruzou-se aqui com os spirituals e com a poesia afro-americana.
Noémia de Sousa (1926–2002) é a voz que dá corpo a esse programa, e é chamada « a mãe dos poetas moçambicanos » — não por ter escrito muito, mas por ter escrito primeiro. Escreveu quase toda a sua poesia entre 1948 e 1951, três anos apenas, e depois praticamente não voltou a publicar poesia nova. Poemas como « Súplica », « Negra » e « Deixa passar o meu povo » circularam em jornais, em revistas e em antologias durante décadas antes de existirem em volume: a sua obra só foi reunida em livro, sob o título «Sangue Negro», já no século XXI. O título « Deixa passar o meu povo » ecoa o canto dos escravos afro-americanos e diz o essencial da sua poética: a primeira pessoa que fala é sempre plural, e o poema é um cântico coletivo, com repetições, invocações e chamamento — a forma do texto imita a forma da voz.
Exemplo resolvido

Situar um texto sem indicação de autor

Um poema, publicado num jornal de Lourenço Marques no final da década de 40, é escrito na primeira pessoa por uma voz feminina que se assume orgulhosamente negra, invoca os tambores e os antepassados, fala em nome do « meu povo » e usa a repetição como quem entoa um cântico. Situa o texto no seu momento literário e justifica a atribuição.

  1. 01Ler o suporte

    Um poema publicado em jornal, no final dos anos 40, remete para a fase em que a imprensa periódica faz as vezes de instituição literária: em Moçambique, a poesia existe em jornal muito antes de existir em livro.

  2. 02Ler as marcas temáticas

    A assunção orgulhosa da cor, os tambores, os antepassados e a fala em nome de uma coletividade são exatamente o programa da negritude — a inversão do estigma e a passagem de objeto a sujeito do discurso.

  3. 03Ler as marcas formais

    A primeira pessoa que é sempre plural, a repetição em forma de cântico e o tom de chamamento aproximam o poema do spiritual e do gesto da oratura: a forma do texto imita a forma da voz.

  4. 04Formular a hipótese

    Voz feminina, Lourenço Marques, finais dos anos 40 e negritude convergem em Noémia de Sousa, que escreveu quase toda a sua poesia entre 1948 e 1951.

Resultado: Trata-se de um poema da fase da negritude moçambicana, compatível com a poesia de Noémia de Sousa: o orgulho da cor, os tambores, os antepassados e a estrutura de cântico coletivo identificam o movimento, a primeira pessoa plural e a repetição identificam a poética, e o suporte jornalístico confirma a fase — os seus poemas foram escritos entre 1948 e 1951 e só no século XXI viriam a ser reunidos em «Sangue Negro».

Foco no Exame Nacional

  • Fixar os marcos fundadores com data: «O Africano» (1908), «O Brado Africano» (1918), a revista «Msaho» (1952) e a janela de escrita de Noémia de Sousa (1948–1951).
  • Explicar a negritude em termos operatórios — a inversão do estigma, a mudança do lugar de quem fala — e aplicá-la depois a um texto concreto: a avaliação interna valoriza a definição que serve para ler, não a que se limita a nomear.
  • Justificar, com argumentos históricos, por que razão a imprensa e a revista, e não o livro, são as instituições desta primeira literatura.

Erros frequentes

  • Trocar as datas de «O Africano» (1908) e de «O Brado Africano» (1918), ou tomá-los por um só periódico.
  • Apresentar Rui de Noronha como poeta da negritude: os seus sonetos são anteriores ao movimento e a sua forma é ainda a europeia — ele é a charneira, não o movimento.
  • Datar «Sangue Negro» dos anos 50: os poemas são de 1948–1951, mas o volume só foi reunido no século XXI.
  • Falar de «Msaho» como de uma revista de longa vida: teve um único número, em 1952.

Revisão ativa

Explica, em cerca de quinze linhas, por que razão se diz que a literatura moçambicana em língua portuguesa nasce na imprensa, referindo dois periódicos com a respetiva data, o papel da revista «Msaho» (1952) e o contributo de Noémia de Sousa para a emergência de uma voz da negritude.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Craveirinha e Honwana: o grito e a infância colonizada#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-mocambique

Pontos-chave

José Craveirinha (1922–2003) nasceu em Lourenço Marques, filho de pai português e de mãe ronga — uma dupla pertença que a sua obra não resolve em conflito, mas em fusão. É o poeta que dá à literatura moçambicana uma língua própria: um português torcido pelo ritmo, pelo léxico e pela sintaxe das línguas do sul de Moçambique, onde a palavra africana não entra como enfeite mas como matéria de construção. Em 1991 tornou-se o primeiro escritor africano a receber o Prémio Camões, dado que convém fixar com exatidão: não apenas o primeiro moçambicano — o primeiro africano.
O primeiro livro, «Xigubo» (1964), toma o nome de uma dança guerreira do sul de Moçambique, e o título é já uma declaração de poética: o poema quer ser corpo, percussão e convocação coletiva, e não confissão individual. A data também fala, porque 1964 é o ano em que teve início a luta armada de libertação. O poema « Grito Negro » condensa o programa numa metáfora de uma linha — « Eu sou carvão! ». O sujeito não se compara ao carvão: identifica-se com ele. Sendo carvão, é aquilo que se arranca à terra, se transporta e se queima para produzir a energia de outro — a imagem diz de uma só vez o trabalho forçado, a mina e a exploração colonial; mas o carvão que arde também consome o que o rodeia, e é por aí que a metáfora se vira contra quem a acendeu (ver Fig. 3).

A poética de José Craveirinha

A poética de José CraveirinhaTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Obra ou poema · Ano · O que traz à sua poética; «Xigubo» · 1964 · O primeiro livro: o nome de uma dança guerreira do sul; o poema como corpo, percussão e convocação coletiva; «Karingana ua Karingana» · 1974 · A fórmula ronga de abrir uma história — o nosso « era uma vez »: a oralidade como princípio de construção; « Grito Negro » · — · « Eu sou carvão! »: metáfora de identificação — a exploração e, no carvão que arde, a ameaça de revolta; «Cela 1» · 1980 · Poemas ligados à prisão pela polícia política do regime colonial, pela sua ligação à causa da independência; « Hino à minha terra » · — · Nomear como reapropriação: enumerar os nomes africanos da terra devolve-lhe o direito de se chamar pelo seu nome; «Maria» · 1988 · Um livro de tom elegíaco, ligado à figura que lhe dá o nome, célula destacada: « Eu sou carvão! »: metáfora de identificação — a exploração e, no carvão que arde, a ameaça de revoltaOBRA OU POEMAANOO QUE TRAZ À SUAPOÉTICA«XIGUBO»1964O primeiro livro: o nome deuma dança guerreira do sul;o poema como corpo,percussão e convocaçãocoletiva«KARINGANA UAKARINGANA»1974A fórmula ronga de abrir umahistória — o nosso « era umavez »: a oralidade comoprincípio de construção« GRITO NEGRO »—« Eu sou carvão! »: metáforade identificação — aexploração e, no carvão quearde, a ameaça de revolta«CELA 1»1980Poemas ligados à prisão pelapolícia política do regimecolonial, pela sua ligação àcausa da independência« HINO À MINHATERRA »—Nomear como reapropriação:enumerar os nomes africanosda terra devolve-lhe odireito de se chamar peloseu nome«MARIA»1988Um livro de tom elegíaco,ligado à figura que lhe dá onomeCada obra ou poema, o seu ano e o que traz à poética deCraveirinha.
Fig. 3Fig. 3 — A poética de José Craveirinha (1922–2003): a dança, a oralidade, a metáfora, a prisão, a nomeação e a elegia.
«Karingana ua Karingana» (1974) reproduz no título a fórmula ronga com que se abre uma história — o equivalente do nosso « era uma vez », dito e respondido entre quem conta e quem escuta. Publicado em 1974, o ano da revolução em Portugal, o livro faz da oralidade um verdadeiro princípio de construção: o poema imita o gesto do contador, chama o ouvinte, repete, enumera, deixa entrar o provérbio, a onomatopeia e a palavra ronga. Craveirinha esteve preso pela polícia política do regime colonial pela sua ligação à causa da independência, e «Cela 1» (1980) recolhe poemas ligados a essa experiência; «Maria» (1988) é um livro de tom elegíaco ligado à figura que lhe dá o nome. Um outro poema célebre, « Hino à minha terra », mostra o segundo grande recurso do autor: nomear — a enumeração dos nomes africanos da terra é, ela própria, um ato de reapropriação, porque devolve ao território o direito de se chamar pelo seu nome.
Luís Bernardo Honwana (n. 1942) publicou em 1964 um único livro de contos, «Nós Matámos o Cão Tinhoso», e esse livro bastou para lhe dar um lugar central na literatura moçambicana. A técnica é o inverso exato da de Craveirinha: onde o poeta grita, o contista cala-se. As histórias são vistas e narradas pelos olhos de crianças, e uma criança não tem discurso político — não interpreta, não acusa, não conclui: regista o que vê com a exatidão de quem não compreende. Cabe ao leitor preencher a distância entre o que é narrado e o que efetivamente aconteceu, e é nessa distância que a violência colonial se revela sem discurso (ver Fig. 4).

A dupla leitura em «Nós Matámos o Cão Tinhoso» (1964)

«Nós Matámos o Cão Tinhoso» (1964) — a dupla leiturao que o narrador-criança registaum cão velho e doente,de olhos azuisadultos incumbem osrapazes de o abateros rapazes disparam;o narrador descreveo texto não comenta: o leitor inferea vida sem valor soba ordem coloniala violência delegada:quem manda não disparaa cumplicidade impostaa quem não decidiuo que o leitor compreendea violência colonial revela-se sem discurso
Fig. 4Fig. 4 — A ironia estrutural em Honwana: o texto mostra e não comenta; o sentido nasce na distância entre o narrador e o leitor.
No conto que dá título ao volume, um grupo de rapazes é incumbido por adultos de abater um cão velho, doente e de olhos azuis, e o narrador é um deles. Nada no texto explica o que o episódio significa, e é justamente por isso que significa tanto: quem manda matar não dispara, quem dispara não decidiu, e a crueldade distribui-se por toda a cadeia sem que ninguém a assuma. Noutro conto célebre do mesmo livro, « As Mãos dos Pretos », um rapaz pergunta aos adultos por que razão as palmas das mãos dos negros são mais claras e recolhe uma série de explicações que se desmentem umas às outras — a pergunta inocente expõe o absurdo do racismo sem uma linha de comentário. A este dispositivo chama-se ironia estrutural: o sentido do texto não coincide com a compreensão do narrador e produz-se na distância entre um e outro.
A par de Honwana, Orlando Mendes publica «Portagem» (1966), romance centrado na condição do mestiço e do assimilado — as duas categorias em que o sistema colonial arrumava quem não era nem « indígena » nem europeu. O regime do indigenato, abolido apenas no início dos anos 60, distinguia juridicamente uns dos outros e concedia aos « assimilados » direitos que aos primeiros negava, ao preço de uma renúncia à sua própria cultura. O título é a chave de leitura: uma portagem é o preço que se paga para passar — e o romance mostra que o mestiço paga sempre, de um lado e do outro da fronteira, sem nunca chegar a passar por inteiro. Note-se, para efeitos de contextualização, a variedade de géneros já em jogo nesta década: o poema, o conto e o romance dizem o mesmo mundo por três vias diferentes.
Exemplo resolvido

A metáfora que argumenta

« Eu sou carvão! », escreve Craveirinha em « Grito Negro ». Explica o funcionamento desta metáfora e mostra o que ela permite dizer que uma denúncia direta não diria.

  1. 01Identificar o recurso

    Não há termo comparativo: o sujeito não se diz semelhante ao carvão, diz que o é. É uma metáfora de identificação, reforçada pela primeira pessoa e pela exclamação.

  2. 02Desdobrar a imagem

    O carvão é arrancado à terra, transportado, queimado e consumido para produzir a energia de outro — e cada um destes traços tem correspondência exata na condição do trabalhador colonizado.

  3. 03Ver a inversão

    Mas o carvão que arde destrói também o que o cerca: a mesma imagem que diz a exploração contém a ameaça da revolta, e vira-se contra quem a acendeu.

  4. 04Avaliar o efeito

    Uma denúncia direta afirmaria a exploração de fora; a metáfora fá-la falar de dentro e, além disso, faz nascer dela a promessa da rutura — diz duas coisas ao mesmo tempo.

Resultado: « Eu sou carvão! » é uma metáfora de identificação, e não uma comparação: ao assumir-se carvão, o sujeito reúne numa só imagem a extração, o transporte e a combustão a que o trabalho colonizado é sujeito; e porque o carvão, ardendo, consome também o que o rodeia, a imagem da exploração transforma-se em ameaça de revolta. É isso que a denúncia direta não conseguiria fazer: dizer a opressão e o seu fim na mesma palavra.

Exemplo resolvido

O que a criança vê e o que o leitor compreende

Num conto narrado por uma criança, o narrador descreve minuciosamente uma cena de humilhação de um adulto africano por um funcionário europeu, sem emitir qualquer juízo, e termina por dizer que não percebeu porque é que a mãe chorou. Identifica o dispositivo narrativo e explica o seu efeito sobre o leitor.

  1. 01Observar o ponto de vista

    O narrador é uma criança e o discurso limita-se ao registo do que é visto e ouvido: não há avaliação moral nem vocabulário político.

  2. 02Localizar o silêncio

    O texto omite exatamente aquilo que o leitor sabe — o significado da cena. A frase final assinala essa omissão em vez de a preencher.

  3. 03Nomear o dispositivo

    Trata-se de ironia estrutural: o sentido do texto não coincide com a compreensão do narrador e produz-se na distância entre um e outro.

  4. 04Explicar o efeito

    Obrigado a inferir, o leitor deixa de receber a denúncia e passa a formulá-la — torna-se responsável por ela, o que a torna mais eficaz do que a acusação explícita.

Resultado: O dispositivo é o do narrador-criança com ironia estrutural, característico de «Nós Matámos o Cão Tinhoso» (1964): a violência é integralmente mostrada e nunca comentada, e o sentido global do texto obtém-se por inferência. O efeito é uma transferência de responsabilidade — é o leitor, e não o narrador, que constrói a denúncia, e daí lhe vem a força.

Foco no Exame Nacional

  • Fixar as datas de cada obra: «Xigubo» (1964), «Karingana ua Karingana» (1974), «Cela 1» (1980) e «Maria» (1988), de Craveirinha; «Nós Matámos o Cão Tinhoso» (1964), de Honwana; «Portagem» (1966), de Orlando Mendes.
  • Referir corretamente o Prémio Camões de 1991: Craveirinha foi o primeiro escritor africano a recebê-lo.
  • Ler o recurso expressivo colado ao texto — a metáfora de « Grito Negro » como argumento e não como ornamento, a oralidade de «Karingana ua Karingana» como princípio de construção: é este tipo de leitura analítica que a avaliação interna da disciplina privilegia.
  • Descrever o efeito do narrador-criança em Honwana — ironia estrutural e sentido obtido por inferência —, competência de interpretação expressamente prevista nas Aprendizagens Essenciais.

Erros frequentes

  • Escrever que Craveirinha foi o primeiro escritor de língua portuguesa, ou apenas o primeiro moçambicano, a receber o Prémio Camões: foi o primeiro escritor africano, em 1991.
  • Tratar « Eu sou carvão! » como comparação: o verso não diz « sou como o carvão »; é uma metáfora de identificação, e é dessa identificação que vem toda a força do poema.
  • Atribuir a Honwana uma denúncia explícita: o livro não denuncia, mostra — a denúncia é produzida no leitor, por inferência.
  • Confundir «Nós Matámos o Cão Tinhoso» (contos de Honwana, 1964) com «Portagem» (romance de Orlando Mendes, 1966).

Revisão ativa

Compara, num texto de cerca de vinte linhas, o modo como Craveirinha e Honwana denunciam o sistema colonial, mostrando que o grito de «Xigubo» (1964) e a « violência sem discurso » dos contos do mesmo ano são duas estratégias opostas dirigidas ao mesmo alvo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Literatura e recuperação da História: Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-mocambique

Pontos-chave

O segundo eixo que as Aprendizagens Essenciais fixam para Moçambique chama-se « literatura e recuperação da História », e a palavra recuperação deve ser tomada à letra: trata-se de ir buscar uma História que foi escrita por outros e de a trazer de volta. Durante o período colonial, o passado moçambicano existia sobretudo nas crónicas, nos relatórios e nas memórias dos vencedores; do lado africano havia a memória oral, que a cultura escrita não reconhecia como fonte. A ficção posterior à independência, proclamada a 25 de junho de 1975, assume esse trabalho — não para trocar uma propaganda por outra, mas para restituir aos acontecimentos a espessura de vozes que a versão oficial apagara (ver Fig. 5).

O circuito da reescrita da História

O circuito da reescrita da HistóriaGrafo, o facto de 1895 → a crónica colonial, o facto de 1895 → a oratura: a memória oral, a crónica colonial → «Ualalapi» (1987), a oratura: a memória oral → «Ualalapi» (1987), «Ualalapi» (1987) → a História como discursoo facto de1895a crónicacoloniala oratura: amemória oral«Ualalapi»(1987)a Históriacomo discurso
Fig. 5Fig. 5 — Do acontecimento (1895) à ficção (1987): a reescrita põe a crónica escrita e a oratura em pé de igualdade.
O caso exemplar é o de Ngungunhane, último imperador de Gaza, derrotado e capturado em 1895. O episódio foi celebrado pela historiografia colonial portuguesa como feito de armas — a captura em Chaimite por Mouzinho de Albuquerque, a deportação do imperador vencido — e recuperado depois, em sentido inverso, pelo nacionalismo moçambicano, que fez dele um símbolo da resistência. Em ambos os casos, o resultado é uma estátua. «Ualalapi» (1987), de Ungulani Ba Ka Khosa (n. 1957), recusa ambas: o livro toma o nome não do imperador mas de um guerreiro comum, e é por olhares laterais como o dele que a narrativa se faz — o resultado é um Ngungunhane humano, violento e falível, nem herói de bronze nem selvagem vencido.
A construção de «Ualalapi» é a de um mosaico: narrativas breves e descontínuas, cada uma precedida de citações atribuídas a cronistas e a documentos do tempo. O efeito é duplo. Por um lado, o texto exibe as suas próprias fontes e obriga o leitor a ver que toda a História é um discurso produzido por alguém, com interesses e com pontos cegos. Por outro, ao pôr a par do documento escrito a fala, a profecia e o mito — isto é, a oratura —, coloca as duas em pé de igualdade como modos de saber. É esta operação que a disciplina designa por releitura literária da História: não a ilustração romanceada do manual, mas a discussão do próprio direito de contar.
Mia Couto (n. 1955), biólogo de formação, estreou-se na ficção com os contos de «Vozes Anoitecidas» (1986) e prosseguiu com «Cada Homem é uma Raça» (1990), «Estórias Abensonhadas» (1994), «A Varanda do Frangipani» (1996), «O Último Voo do Flamingo» (2000) e «Jesusalém» (2009); recebeu o Prémio Camões em 2013. O seu grande romance, «Terra Sonâmbula» (1992), é do ano em que a guerra civil — que durou de 1977 a 1992 — terminou com o Acordo Geral de Paz assinado em Roma a 4 de outubro de 1992. O livro alterna dois fios: a estrada, onde um velho e um rapaz sobrevivem dentro de um machimbombo queimado, e os cadernos encontrados junto de um cadáver, que o rapaz lê em voz alta. À medida que a leitura avança, os dois fios aproximam-se — e o ato de contar torna-se, dentro do próprio romance, aquilo que permite a um mundo destruído voltar a ter sentido.
O recurso mais reconhecível de Mia Couto é a invenção lexical: palavras compostas e neologismos que fundem dois sentidos num só corpo sonoro. Dois títulos bastam para o demonstrar. «Estórias Abensonhadas» (1994) cruza « abençoadas » e « sonhadas », e a fusão diz que abençoar e sonhar são, naquele mundo, um único gesto; «Jesusalém» (2009) sobrepõe um nome próprio e um topónimo, e nessa sobreposição está já o lugar inventado de que o livro fala. A escolha de « estórias », e não de « histórias », é igualmente deliberada: reclama para a narrativa o estatuto do que se conta e se transmite, distinto do que se documenta. Sobre este trabalho da língua assenta uma matriz animista — um mundo em que os mortos falam, a natureza decide e a fronteira entre o vivo e o não-vivo não é a que a cultura europeia traçou.
Que os dois eixos se cruzam, prova-o a trilogia «As Areias do Imperador» (2015–2017), em que Mia Couto regressa à figura de Ngungunhane quase trinta anos depois de «Ualalapi». Uma mesma personagem histórica retomada por duas gerações e em dois registos diferentes é o melhor argumento contra a ideia de que a literatura « corrige » a História: cada regresso é uma leitura nova, e nenhuma é definitiva (ver Fig. 6). Retém a consequência de método — perante um texto que reescreve o passado, a pergunta útil não é « isto é verdade? », mas « quem conta, a partir de que lugar, e o que é que essa escolha permite ver que a versão anterior não deixava ver? ».

O acontecimento e a sua reescrita (1895–2017)

O acontecimento e a sua reescrita (1895–2017)Linha do tempo de 1890 a 2020, 1895: Derrota de Ngungunhane, 1975: Independência (25 de junho), 1987: «Ualalapi», 1992: «Terra Sonâmbula», 2015: «As Areias do Imperador», 1977–1992: guerra civil, 1987–2017: a reescrita literária18902020anoguerra civila reescritaliterária1895Derrota deNgungunhane1975Independência(25 de junho)1987«Ualalapi»1992«TerraSonâmbula»2015«As Areias doImperador»
Fig. 6Fig. 6 — Quase um século separa a derrota de Ngungunhane (1895) da sua reescrita literária (1987–2017); 1992 é o ano de «Terra Sonâmbula» e do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma.
Exemplo resolvido

Ler um dispositivo de reescrita

Uma narrativa sobre a queda de um império africano abre com uma citação atribuída a um cronista europeu do século XIX e prossegue contando o mesmo episódio pela boca de um guerreiro anónimo, cuja versão contradiz a primeira. Que efeito procura o autor e a que eixo das Aprendizagens Essenciais pertence o texto?

  1. 01Identificar as fontes em presença

    Há um documento escrito, de origem colonial e com autoridade reconhecida, e uma voz oral africana, sem qualquer estatuto documental.

  2. 02Observar a montagem

    Ao colocá-las lado a lado e em contradição, o texto impede que qualquer uma delas seja lida como « a » verdade do episódio.

  3. 03Inferir a intenção

    O alvo deixa de ser o acontecimento e passa a ser o modo como o acontecimento foi fixado: mostra-se que a História é um discurso com autor e com interesses.

  4. 04Situar no currículo

    É exatamente o eixo « literatura e recuperação da História », tal como «Ualalapi» (1987) o pratica a propósito de Ngungunhane, derrotado e capturado em 1895.

Resultado: O autor procura relativizar a versão oficial, confrontando o documento colonial com a memória oral, de modo que o leitor passe a ver a História como discurso produzido por alguém e não como facto neutro. O texto pertence ao eixo « literatura e recuperação da História » das Aprendizagens Essenciais — o mesmo que «Ualalapi» (1987) desenvolve em torno de Ngungunhane.

Exemplo resolvido

Uma palavra inventada, um sentido novo

Explica o que acrescenta ao título «Estórias Abensonhadas» (1994) a palavra « abensonhadas » e por que razão Mia Couto escreveu « estórias » e não « histórias ».

  1. 01Decompor o neologismo

    « Abensonhadas » resulta da fusão de « abençoadas » e « sonhadas »: nenhuma das duas palavras se perde e nenhuma domina a outra.

  2. 02Ler o efeito de sentido

    A fusão afirma que abençoar e sonhar são, naquele mundo, um único gesto — a bênção não vem de fora do sonho, nasce dentro dele.

  3. 03Ler a escolha de « estórias »

    « Estórias » reclama para o livro o estatuto daquilo que se conta e se transmite de boca em boca, por oposição ao que se documenta e se arquiva.

  4. 04Relacionar com o conjunto da obra

    O procedimento verbal repete, à escala da palavra, o que a narrativa faz à escala do mundo: juntar dois sistemas — vivos e mortos, oral e escrito — que a cultura europeia mantinha separados.

Resultado: « Abensonhadas » funde « abençoadas » e « sonhadas » e faz da bênção e do sonho um só ato, enquanto « estórias » coloca o livro do lado do que se conta e não do que se documenta. A invenção lexical não é ornamento: reproduz na palavra a mesma fusão de mundos — vivos e mortos, oralidade e escrita — que a ficção de Mia Couto narra.

Schritt-für-Schritt Erklärung5 Schritte
  1. 1

    Em 1895, Ngungunhane, último imperador de Gaza, é derrotado e capturado. Durante décadas, o episódio existiu sobretudo numa versão: a dos vencedores, para quem era um feito de armas.

  2. 2

    Do lado moçambicano havia outra memória, transmitida oralmente, que a cultura escrita não reconhecia como fonte. Depois da independência, a 25 de junho de 1975, é essa memória que a literatura vai buscar.

  3. 3

    Em 1987, Ungulani Ba Ka Khosa publica «Ualalapi». O livro toma o nome de um guerreiro comum, e não do imperador, e conta a história por olhares laterais: nem herói de bronze, nem selvagem vencido.

  4. 4

    Em 1992 — o ano do Acordo Geral de Paz assinado em Roma —, «Terra Sonâmbula», de Mia Couto, faz o mesmo com a guerra que acabava de terminar: contar para que um mundo destruído volte a ter sentido.

  5. 5

    Guarda a ideia: recuperar a História não é trocar uma versão por outra. É mostrar que toda a versão tem autor — e devolver a palavra a quem a não teve.

Foco no Exame Nacional

  • Fixar a cadeia de datas: 1895 (derrota e captura de Ngungunhane), 25 de junho de 1975 (independência), 1977–1992 (guerra civil), 4 de outubro de 1992 (Acordo Geral de Paz, em Roma), «Ualalapi» (1987), «Terra Sonâmbula» (1992) e «As Areias do Imperador» (2015–2017).
  • Explicar o que significa « recuperação da História » a partir de um exemplo textual concreto, e não por paráfrase do conceito — a avaliação interna valoriza a demonstração.
  • Reconhecer a invenção lexical de Mia Couto com exemplos verificáveis (os próprios títulos) e relacionar o procedimento verbal com a fusão de mundos que a ficção narra.
  • Identificar tema, ideias principais e pontos de vista numa narrativa que reescreve o passado, distinguindo a voz do narrador da voz das fontes citadas.

Erros frequentes

  • Datar a independência de Moçambique de 1974, confundindo-a com a revolução em Portugal: a independência foi proclamada a 25 de junho de 1975.
  • Confundir a guerra de libertação, dirigida contra o poder colonial até 1975, com a guerra civil de 1977 a 1992, que lhe é posterior e interna.
  • Apresentar «Ualalapi» como biografia ou romance histórico tradicional: é um conjunto de narrativas fragmentárias, e o seu tema é tanto Ngungunhane como o modo de contar a História.
  • Ler as invenções verbais de Mia Couto como erro de língua ou como pitoresco « africano »: são um procedimento deliberado de construção de sentido.

Revisão ativa

A partir do caso de Ngungunhane, explica em cerca de vinte linhas o que entendem as Aprendizagens Essenciais por « literatura e recuperação da História », referindo «Ualalapi» (1987) e a trilogia «As Areias do Imperador» (2015–2017) e justificando por que razão a ficção pode dizer sobre o passado algo que o documento não diz.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Olhares sobre o Índico e vozes contemporâneas: Eduardo White, Paulina Chiziane#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-mocambique

Pontos-chave

O primeiro eixo que as Aprendizagens Essenciais fixam para Moçambique é « os olhares dos escritores sobre o Índico », e para o compreender há que começar pela geografia. Moçambique tem uma costa longuíssima voltada a oriente, e o Índico não é um mar de travessia solitária: é um mar de monções, ventos que sopram alternadamente num sentido e no outro conforme a estação e que durante séculos organizaram uma navegação regular, de ida e de volta, entre a África oriental, a Arábia, a Pérsia e a Índia. Muito antes da chegada dos portugueses, esta costa pertencia já a um mundo de trocas, com cidades portuárias, mercadores suaílis, árabes, persas e indianos, ouro, marfim, tecidos e especiarias (ver Fig. 7).

O Índico como mar de monções, comparado com o Atlântico

o Índico: um mar de monções, de ida e de voltamonção de nordeste — as embarcações vêmMoçambiquea costa orientalArábia, Pérsia,Índiao Orientemonção de sudoeste — as embarcações regressamIlha de Moçambiquena costa ficam línguas, religiões, mercadorias e nomespara comparação — o Atlântico na memória literáriaÁfrica ocidentalas Américastravessia sem regressoo Índico é ida e volta; o Atlântico, na memória, é só ida
Fig. 7Fig. 7 — O Índico é ida e volta; o Atlântico, na memória literária africana, é travessia sem regresso.
Daqui vem o contraste que o currículo convida a explorar. Na memória literária africana, o Atlântico é sobretudo o mar do tráfico — uma travessia de sentido único, sem regresso, associada à deportação e à perda. O Índico, na literatura moçambicana, aparece antes como rota de troca e de mestiçagem: um mar que traz e leva, e que deposita na costa línguas, religiões, arquiteturas, mercadorias e nomes que se misturam com os do continente. Isto não apaga a violência histórica — houve escravatura também no Índico, e a colonização foi ali tão dura como noutro lado. Significa apenas que, como imagem literária, o mar tem sinal diferente: para leste olha-se com curiosidade e com desejo, e não com luto.
O lugar onde tudo isto se lê é a Ilha de Moçambique, que foi capital da África Oriental Portuguesa até ao final do século XIX e está hoje classificada como Património Mundial pela UNESCO. Numa ilha pequena convivem a fortaleza portuguesa, a mesquita, o templo hindu, a igreja e o bairro de casas de macuti; e é a mesma ilha por onde a tradição faz passar Camões no regresso do Oriente. Para um escritor moçambicano, a Ilha é a síntese material do eixo: um sítio onde as camadas históricas não se sucederam apagando-se umas às outras, mas se depositaram umas sobre as outras — o que é, precisamente, uma definição possível de mestiçagem cultural.
Eduardo White (1963–2014) é o poeta que melhor formulou este olhar. Deu a um dos seus livros o título «Janela para Oriente» (1999), e a palavra janela é exata: o Oriente não é um destino de viagem, é um horizonte que se contempla e que entra em casa. A sua poesia é sensual, luminosa e amorosa, feita de imagens de voo, de água, de aroma e de corpo, e o outro título — «Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave» (1992) — enuncia bem o seu processo: tratar as matérias mais imponderáveis, voar e ser ave, com o vocabulário do saber técnico, e da colisão entre os dois registos tirar humor e leveza. White pertence à geração que se dá a conhecer nos anos 80 em torno da revista «Charrua», a mesma de Ungulani Ba Ka Khosa: uma geração que, já em país independente, reclama o direito de escrever sobre o desejo, o corpo e o mar, e não apenas sobre a nação.
Paulina Chiziane (n. 1955) recebeu o Prémio Camões em 2021. É-lhe correntemente atribuída a condição de primeira mulher moçambicana a publicar um romance, com «Balada de Amor ao Vento» (1990); ela própria, porém, recusa o rótulo de romancista e define-se como contadora de histórias — o que não é modéstia, mas declaração de método: reclama para a sua escrita a autoridade da narradora oral em vez da autoridade de um género literário europeu. «Ventos do Apocalipse» (1993) leva à ficção a guerra e o êxodo das populações; «O Sétimo Juramento» (2000) mostra a nova elite do pós-guerra a recorrer a práticas ocultas para conservar o poder e a riqueza.
«Niketche: Uma História de Poligamia» (2002) é a sua obra mais lida e o melhor exemplo de uma aprendizagem essencial difícil: valorizar a diversidade cultural, de vivências e de mundivisões. A narradora, casada com um alto funcionário de Maputo, descobre as outras mulheres do marido e, em vez de as combater, procura-as e acaba por reuni-las — e é dessa reunião, e não do casamento, que nasce a solidariedade do livro. O romance põe frente a frente dois Moçambiques: o sul, onde a poligamia é praticada às escondidas e com má consciência, e o norte, onde é instituição declarada, com regras e com um lugar reconhecido para cada mulher. Ao confrontá-las, Chiziane não subscreve nenhuma: a sua crítica atinge tanto a tradição como a modernidade urbana que dela se serve.
Vistos em conjunto, os dois eixos não são dois temas, mas dois modos de responder à mesma pergunta: de que é feito este país? A « recuperação da História » responde pelo tempo, indo buscar as vozes que a versão oficial calou; « os olhares sobre o Índico » respondem pelo espaço, mostrando que a identidade moçambicana se formou numa costa aberta, por acumulação de contactos, e não numa pureza a preservar (ver Fig. 8). Uma literatura que cabe em pouco mais de um século — feita de jornais, de uma revista de um só número, de livros publicados tardiamente e de escritores galardoados com o Prémio Camões: Craveirinha em 1991, Mia Couto em 2013, Paulina Chiziane em 2021 — é, também por isso, um dos capítulos mais intensos da língua portuguesa.

Os dois eixos das Aprendizagens Essenciais e o seu cruzamento

Os dois eixos das Aprendizagens Essenciais e o seu cruzamentoTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Eixo das Aprendizagens Essenciais · A pergunta que faz · Obras onde se lê; « literatura e recuperação da História » · De que passado somos feitos, e quem o contou? · «Ualalapi» (1987); «Terra Sonâmbula» (1992); «As Areias do Imperador» (2015–2017); « os olhares dos escritores sobre o Índico » · De que encontros é feita esta costa? · «Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave» (1992); «Janela para Oriente» (1999); Ponto de cruzamento · A identidade como camadas, e não como pureza · «Niketche» (2002); a Ilha de Moçambique, célula destacada: « os olhares dos escritores sobre o Índico »EIXO DAS APRENDIZAGENSESSENCIAISA PERGUNTA QUE FAZOBRAS ONDE SE LÊ« LITERATURA ERECUPERAÇÃO DAHISTÓRIA »De que passado somos feitos,e quem o contou?«Ualalapi» (1987); «TerraSonâmbula» (1992); «AsAreias do Imperador»(2015–2017)« OS OLHARES DOSESCRITORES SOBRE OÍNDICO »De que encontros é feitaesta costa?«Poemas da Ciência de Voar eda Engenharia de Ser Ave»(1992); «Janela paraOriente» (1999)PONTO DECRUZAMENTOA identidade como camadas, enão como pureza«Niketche» (2002); a Ilha deMoçambiqueCada eixo, a sua pergunta e as obras que o realizam.
Fig. 8Fig. 8 — Os dois eixos das Aprendizagens Essenciais para Moçambique, as suas perguntas e as obras que os realizam.
Exemplo resolvido

Reconhecer o olhar sobre o Índico

Um poema descreve, do alto de uma varanda voltada para o mar, a chegada de embarcações de velas triangulares que trazem aromas de especiarias, e o sujeito diz esperar por elas como quem espera uma carta. Mostra que o texto pertence ao eixo « os olhares dos escritores sobre o Índico » e explica o que o distingue de um poema do mar atlântico.

  1. 01Observar a posição do sujeito

    Está em terra, numa varanda, e olha o mar: não navega. O mar é horizonte contemplado, e não travessia — como em «Janela para Oriente», o Oriente vê-se de casa.

  2. 02Ler os elementos concretos

    As velas triangulares e as especiarias remetem para a navegação e o comércio das monções entre a costa africana, a Arábia e a Índia, e não para a rota atlântica.

  3. 03Interpretar a comparação

    Esperar as embarcações « como quem espera uma carta » faz do mar um meio de correspondência: o que vem de longe é mensagem e dádiva, e é aguardado com desejo.

  4. 04Contrastar com o Atlântico

    No Atlântico da memória literária africana, o que parte não regressa; aqui o traço estruturante é o regresso, porque a monção traz de volta o que levou.

Resultado: O texto pertence ao eixo « os olhares dos escritores sobre o Índico »: o sujeito contempla de terra um mar de monções e de comércio, cujos sinais — velas triangulares, especiarias — vêm do Oriente, e a comparação com a espera de uma carta faz desse mar um espaço de correspondência e de regresso. É isso que o distingue de um poema do mar atlântico, associado na memória literária africana à travessia sem retorno e à perda.

Exemplo resolvido

Duas ordens culturais num só romance

Explica de que modo «Niketche: Uma História de Poligamia» (2002), de Paulina Chiziane, cumpre a aprendizagem « valorizar a diversidade cultural, de vivências e de mundivisões » sem se tornar um elogio da poligamia.

  1. 01Identificar as ordens em presença

    O romance põe frente a frente o sul urbano, onde a poligamia é praticada às escondidas e com má consciência, e o norte, onde é instituição declarada, com regras e com um lugar reconhecido para cada mulher.

  2. 02Observar o tratamento

    Nenhuma das duas ordens é apresentada como modelo: a primeira é hipócrita e a segunda tem custos que o livro não esconde.

  3. 03Localizar o valor defendido

    O que o romance valoriza não é uma das ordens, mas a possibilidade de as ver por dentro — e a solidariedade que nasce entre as mulheres quando deixam de se olhar como rivais.

  4. 04Concluir sobre a aprendizagem

    « Valorizar a diversidade » significa aqui reconhecer a existência de mundivisões diferentes e discuti-las com conhecimento, e não subscrever nenhuma delas.

Resultado: «Niketche» (2002) cumpre a aprendizagem porque expõe duas mundivisões moçambicanas — a do sul, que pratica a poligamia sem a assumir, e a do norte, que a institui e regula —, dá a ver ambas por dentro e critica o uso que delas se faz. O valor que o romance defende não é a poligamia, mas a solidariedade entre as mulheres e o direito a que a diferença cultural seja discutida em vez de silenciada.

Foco no Exame Nacional

  • Enunciar o eixo tal como o currículo o formula — « os olhares dos escritores sobre o Índico » — e demonstrá-lo com um texto concreto: a avaliação interna valoriza a passagem do conceito ao exemplo.
  • Explicar o contraste entre o Índico e o Atlântico sem o simplificar: mar de troca e de regresso contra mar de travessia sem retorno, sem negar a violência histórica de um e de outro.
  • Fixar os dados dos autores: Eduardo White (1963–2014), «Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave» (1992) e «Janela para Oriente» (1999); Paulina Chiziane, «Balada de Amor ao Vento» (1990), «Ventos do Apocalipse» (1993), «O Sétimo Juramento» (2000), «Niketche» (2002) e Prémio Camões de 2021.
  • Discutir a diversidade cultural a partir de «Niketche» (2002) com argumentos retirados do texto e não de opiniões gerais — é este o tipo de comentário literário fundamentado que a disciplina avalia internamente.

Erros frequentes

  • Transportar para o Índico a memória do Atlântico e ler o mar moçambicano como mar da escravatura: na literatura moçambicana ele é, sobretudo, rota de troca e de mestiçagem.
  • Apresentar Paulina Chiziane como « a primeira mulher a receber o Prémio Camões »: recebeu-o em 2021, e a primeira mulher galardoada foi a brasileira Rachel de Queiroz, em 1993.
  • Chamar romancista a Paulina Chiziane sem notar que ela própria se define como contadora de histórias — e sem perceber que essa recusa é, em si, um argumento sobre a tradição oral.
  • Ler «Niketche» como defesa ou como condenação da poligamia: o romance confronta duas ordens culturais e critica sobretudo o uso que delas se faz.
  • Reduzir Eduardo White a poeta « do mar »: o Oriente é nele um horizonte cultural e amoroso, e a sua matéria é o corpo, o voo e o desejo.

Revisão ativa

Escreve um texto expositivo-argumentativo de cerca de vinte e cinco linhas em que expliques o que distingue o olhar da literatura moçambicana sobre o Índico do olhar tradicional sobre o Atlântico, apoiando-te em «Janela para Oriente» (1999), de Eduardo White, e na Ilha de Moçambique como espaço de camadas culturais sobrepostas.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Precursores e a voz da negritude: Albasini, Noronha, «Msaho», Noémia de Sousa○
    • 02Craveirinha e Honwana: o grito e a infância colonizada◐
    • 03Literatura e recuperação da História: Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto◐
    • 04Olhares sobre o Índico e vozes contemporâneas: Eduardo White, Paulina Chiziane●

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Dos resumos à prática

Literatura Moçambicana em língua portuguesa

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

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