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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Literatura Cabo-Verdiana em língua portuguesa
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Literatura Cabo-Verdiana em língua portuguesa

A literatura cabo-verdiana encontra voz própria quando a revista «Claridade» (Mindelo, 1936) manda « fincar os pés na terra », tomando por modelo libertador declarado o romance regionalista brasileiro dos anos 30. Daí saem os três eixos das Aprendizagens Essenciais — « as histórias de meninos nas ilhas; o preço da insularidade e a emigração; a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento » —, de «Chiquinho» (1947) à ironia urbana de Germano Almeida. A disciplina não tem Exame Final Nacional: é avaliada exclusivamente por avaliação interna, pelo que este dossiê fala sempre de « foco de avaliação ».

4 secções·~28 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0999 / 12
Perfil de exame
Situar a literatura cabo-verdiana antes e depois de «Claridade» (1936)Analisar o dilema do partir e do ficar — o eixo « o preço da insularidade e a emigração »Reconhecer as « histórias de meninos nas ilhas » como forma literária cabo-verdianaCaracterizar a viragem urbana e contemporânea — « a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento » (competências verificadas por avaliação interna: a disciplina não tem Exame Final Nacional)
Operadores:analisainterpretarelacionacomparacomentajustificacaracterizasitua

nível básico

Situar «Claridade» (Mindelo, 1936) e os seus três fundadores, nomear os três eixos das Aprendizagens Essenciais com uma obra para cada um e explicar o dilema do partir e do ficar.

nível avançado

Analisar «Chiquinho» (1947) como romance de formação, ler « Anti-Evasão » como resposta direta a « Vou-me embora pra Pasárgada » e sustentar com marcas textuais a comparação entre o claridosismo e a geração de «Certeza».

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

Tamanho do texto: Padrão

Conteúdo · 4 secções▾
  1. Literatura Cabo-Verdiana em língua portuguesa
    • 01Antes de «Claridade»: mornas, crioulo e hesperitismo○
    • 02«Claridade» (1936) e a descoberta da terra: Jorge Barbosa e Manuel Lopes◐
    • 03«Chiquinho» e as histórias de meninos nas ilhas◐
    • 04Da Anti-Evasão à cidade: Ovídio Martins, Corsino Fortes, Germano Almeida●
§ 01

Antes de «Claridade»: mornas, crioulo e hesperitismo#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-cabo-verde

Pontos-chave

Cabo Verde é um arquipélago vulcânico e seco no Atlântico, ao largo da costa ocidental africana, encontrado desabitado e povoado a partir do século XV: a sua sociedade nasce do encontro entre populações europeias e africanas, e desse encontro nasce também uma língua nova, o crioulo cabo-verdiano. A terra é pouca e a chuva falha; o mar está em toda a parte e é ao mesmo tempo a muralha que fecha e a estrada que leva. Destas três realidades — a ilha, a seca e o mar — sai praticamente tudo o que esta literatura virá a dizer. As Aprendizagens Essenciais organizam essa matéria em três eixos, que o tópico percorre um a um: « as histórias de meninos nas ilhas; o preço da insularidade e a emigração; a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento » (ver Fig. 1).

Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para Cabo Verde

Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para Cabo VerdeTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Eixo das Aprendizagens Essenciais · O que designa · Obras deste tópico; As histórias de meninos nas ilhas · A criança da ilha como ponto de vista e como matéria narrativa · «Chiquinho» (1947), de Baltasar Lopes da Silva; O preço da insularidade e a emigração · O dilema do partir e do ficar, a seca, a fome e a diáspora · « Poema do Mar », de Jorge Barbosa; «Chuva Braba» (1956) e «Os Flagelados do Vento Leste» (1960), de Manuel Lopes; A realidade urbana e as marcas do desenvolvimento · A cidade, o negócio e a nova sociedade insular, em registo irónico · «O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo» (1989), de Germano Almeida, célula destacada: O dilema do partir e do ficar, a seca, a fome e a diásporaEIXO DAS APRENDIZAGENSESSENCIAISO QUE DESIGNAOBRAS DESTE TÓPICOAS HISTÓRIAS DEMENINOS NAS ILHASA criança da ilha como pontode vista e como matérianarrativa«Chiquinho» (1947), deBaltasar Lopes da SilvaO PREÇO DAINSULARIDADE E AEMIGRAÇÃOO dilema do partir e doficar, a seca, a fome e adiáspora« Poema do Mar », de JorgeBarbosa; «Chuva Braba»(1956) e «Os Flagelados doVento Leste» (1960), deManuel LopesA REALIDADE URBANAE AS MARCAS DODESENVOLVIMENTOA cidade, o negócio e a novasociedade insular, emregisto irónico«O Testamento do Sr.Napumoceno da Silva Araújo»(1989), de Germano AlmeidaCada eixo com a sua definição operatória e as obras que oilustram.
Fig. 1Fig. 1 — Os três eixos das Aprendizagens Essenciais e as obras deste tópico.
Até à década de 1930, o que se escrevia nas ilhas seguia sobretudo os modelos da metrópole: verso de feição clássica, romântica ou parnasiana, dirigido ao gosto de Lisboa e de Coimbra. Havia poetas, jornais e cultura literária — o que faltava era um paradigma nacional próprio, um modo de escrever que tomasse as ilhas como assunto central e a experiência do ilhéu como medida. Existia, porém, obra de peso: Eugénio Tavares (1867–1930) escreveu mornas em crioulo — e a morna é a forma cantada por excelência das ilhas, de andamento lento e matéria feita de amor, saudade e despedida no cais —, dando dignidade literária à língua que todos falavam e pondo no centro do canto a experiência que define o arquipélago, a partida. Pedro Cardoso (1890–1942) recolheu e valorizou o folclore e a língua das ilhas.
O « hesperitismo » é a corrente de ideias que ligava as ilhas ao mito das Hespérides e da Atlântida em vez de as ligar a África (ver Fig. 2), e a ele se associa também o nome de Pedro Cardoso. Segundo essa leitura, Cabo Verde seria o que resta de um continente submerso, um pedaço da geografia mítica greco-latina emergido no Atlântico — genealogia prestigiante, europeia e clássica. O que está em jogo não é erudição, é identidade: filiar o arquipélago nas Hespérides é calar a matriz africana da sua população e da sua cultura. Guarda a ideia, porque toda a história literária seguinte se joga aí — a «Claridade» virará os olhos para a terra e para o crioulo, e a geração seguinte exigirá que Cabo Verde se reconheça, sem rodeios, africano.

As duas filiações do arquipélago antes de 1936

As duas filiações do arquipélago antes de 1936Grafo, As ilhas de Cabo Verde → Hesperitismo, Hesperitismo → Hespérides, Atlântida, As ilhas de Cabo Verde → A matriz africana, As ilhas de Cabo Verde → O crioulo e a morna, Eugénio Tavares → O crioulo e a mornaAs ilhas deCabo VerdeHesperitismoHespérides,AtlântidaA matrizafricanaO crioulo e amornaEugénioTavaresposta de lado
Fig. 2Fig. 2 — O hesperitismo procura as Hespérides; a morna em crioulo já apontava para a terra.
A questão da língua atravessa o tópico inteiro e é uma aprendizagem explícita do programa: refletir sobre o português na sua diversidade e sobre as suas relações com outras línguas. Cabo Verde oferece o caso mais claro — convivem o português, língua da escola, da administração e de quase toda a literatura escrita, e o crioulo cabo-verdiano, língua materna e língua da morna. Daí que a literatura cabo-verdiana em língua portuguesa seja sempre atravessada pelo crioulo: no nome das coisas, nos provérbios, no ritmo do diálogo. O estudo maior sobre essa língua virá de dentro do próprio grupo da «Claridade» — «O Dialecto Crioulo de Cabo Verde» (1957), de Baltasar Lopes da Silva; repara que o título usa o termo da época, ao passo que a linguística atual descreve o crioulo como língua com gramática própria.
Exemplo resolvido

Identificar uma corrente de ideias

Um poema cabo-verdiano publicado antes de 1936 apresenta as ilhas como os cumes de um continente submerso e como herdeiras de um jardim da Antiguidade, sem uma única referência a África. Identifica a corrente a que pertence esta representação e explica o que está em jogo nela.

  1. 01Observar a filiação proposta

    O « continente submerso » remete para a Atlântida e o « jardim da Antiguidade » para as Hespérides: procura-se para as ilhas uma origem mítica greco-latina.

  2. 02Nomear a corrente

    Essa ligação das ilhas às Hespérides e à Atlântida, e não a África, é o « hesperitismo ».

  3. 03Ler o silêncio do texto

    O que o poema não diz é decisivo: ao filiar o arquipélago na Europa clássica, cala a matriz africana da população e da cultura cabo-verdianas.

  4. 04Situar historicamente

    É contra esta filiação que a «Claridade» (1936) virará os olhos para a terra e para o crioulo, e que a geração de «Certeza» exigirá o reconhecimento de Cabo Verde como país africano.

Resultado: A representação é hesperitista: liga as ilhas ao mito das Hespérides e da Atlântida em vez de as ligar a África. O que está em jogo não é erudição, mas identidade — a genealogia europeia e clássica serve para calar a matriz africana do arquipélago, e é essa escolha que a «Claridade» e, sobretudo, a geração de «Certeza» virão contestar.

Foco no Exame Nacional

  • Situar o que existe antes de 1936 — as mornas em crioulo de Eugénio Tavares (1867–1930), a recolha de Pedro Cardoso (1890–1942) e o « hesperitismo » — e explicar por que se fala de uma literatura ainda sem paradigma nacional próprio: a contextualização fundamentada é o que a avaliação interna mais valoriza.
  • Explicar o « hesperitismo » sem o caricaturar: a filiação nas Hespérides e na Atlântida é uma escolha de identidade que afasta o arquipélago de África.
  • Nomear os três eixos das Aprendizagens Essenciais e associar uma obra a cada um (ver Fig. 1) — é o quadro de referência de todo o dossiê.

Erros frequentes

  • Datar de 1936 o início da literatura cabo-verdiana: «Claridade» é a viragem decisiva, não o começo absoluto — antes dela há já Eugénio Tavares e Pedro Cardoso.
  • Confundir « hesperitismo » com um movimento literário organizado, com revista e manifesto: é uma corrente de ideias sobre a identidade das ilhas.
  • Chamar « dialeto do português » ao crioulo por causa do título do estudo de 1957: o termo é o da época, e a linguística atual descreve-o como língua com gramática própria.

Revisão ativa

Explica, em cerca de 150 palavras, o que era o « hesperitismo » e que consequências teve para a forma como as ilhas se pensavam a si próprias; termina indicando o que, na obra de Eugénio Tavares, já apontava noutra direção.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

«Claridade» (1936) e a descoberta da terra: Jorge Barbosa e Manuel Lopes#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-cabo-verde

Pontos-chave

Em 1936 sai no Mindelo, na ilha de São Vicente, o primeiro número de «Claridade», revista fundada por Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa. Não é acaso que nasça ali: o Mindelo era porto de escala e de carvão nas rotas atlânticas, ponto por onde passavam navios, jornais e ideias — o lugar mais aberto ao mundo de todo o arquipélago. O programa cabe numa fórmula, « fincar os pés na terra »: deixar de escrever para o gosto da metrópole e olhar as ilhas como elas são — a seca, a fome, a emigração, o crioulo, a morna, a vida quotidiana da gente. Ao resultado desse olhar dá-se um nome: a « caboverdianidade » (ver Fig. 3).

A literatura cabo-verdiana de 1935 a 2018: as datas-marco

A literatura cabo-verdiana de 1935 a 2018: as datas-marcoLinha do tempo de 1930 a 2020, 1935: «Arquipélago», 1936: «Claridade» (Mindelo), 1944: «Certeza», 1947: «Chiquinho», 1956: «Chuva Braba», 1960: «Os Flagelados do Vento Leste», 1974: «Pão & Fonema», 1975: Independência, 1989: «Napumoceno» (Mindelo), 2018: Camões: Germano Almeida, 1936–1960: Geração da «Claridade», 1944–1974: Consciencialização africana, 1975–2020: Cabo Verde independente19302020anoGeração da«Claridade»ConsciencializaçãoafricanaCabo Verdeindependente1935«Arquipélago»1936«Claridade»(Mindelo)1944«Certeza»1947«Chiquinho»1956«Chuva Braba»1960«Os Flageladosdo Vento Leste»1974«Pão & Fonema»1975Independência1989«Napumoceno»(Mindelo)2018Camões: GermanoAlmeida
Fig. 3Fig. 3 — De «Arquipélago» (1935) ao Prémio Camões de 2018: as datas-marco do tópico.
A geração da «Claridade» declarou abertamente o seu modelo, e este é um dos dados centrais do tópico: o romance regionalista brasileiro dos anos 30 — Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos. Porquê o Brasil e não Portugal? Porque aqueles romancistas já tinham feito o que faltava fazer nas ilhas: construir literatura a partir de uma terra pobre, seca e periférica, dar direito de cidade à língua falada no país e pôr no centro do livro o camponês, o retirante, o faminto. O Brasil oferecia ainda um modelo que não era o da metrópole — um desvio emancipador: seguir o Recife e a Bahia em vez de seguir Lisboa era já um gesto de autonomia. O parentesco é temático (a seca, a fome, o êxodo), linguístico (a legitimidade da fala local) e ideológico (a literatura como diagnóstico do país próprio).
A transposição, porém, muda tudo (ver Fig. 4). No Nordeste brasileiro, o flagelado da seca anda: retira-se por terra, atravessa o continente, vai para o Sul. Na ilha, quem não tem terra não tem para onde andar — a saída é o mar, e o mar exige um barco, um passaporte, um contrato, alguém do outro lado. Por isso o tema cabo-verdiano por excelência não é a caminhada, é o embarque, e por isso o segundo eixo das Aprendizagens Essenciais se chama « o preço da insularidade e a emigração »: o isolamento, a escassez, a dependência da chuva, a espera — e a partida como única resposta possível (ver Fig. 5).

O modelo brasileiro e a resposta cabo-verdiana

O modelo brasileiro e a resposta cabo-verdianaTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Romance brasileiro de 30 · «Claridade» (1936); Matéria · A seca do Nordeste, o engenho, o êxodo rural · A seca das ilhas, a fome, a emigração por mar; Língua · A legitimidade da fala brasileira na literatura · O crioulo dentro do português literário; Método · Olhar a terra própria e diagnosticar o país · « Fincar os pés na terra » e descobrir as ilhas; A saída · Andar — a retirada por terra, para o Sul · Embarcar — o mar é a única saída; Autores · Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos · Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, célula destacada: Embarcar — o mar é a única saídaASPETOROMANCE BRASILEIRO DE30«CLARIDADE» (1936)MATÉRIAA seca do Nordeste, oengenho, o êxodo ruralA seca das ilhas, a fome, aemigração por marLÍNGUAA legitimidade da falabrasileira na literaturaO crioulo dentro doportuguês literárioMÉTODOOlhar a terra própria ediagnosticar o país« Fincar os pés na terra » edescobrir as ilhasA SAÍDAAndar — a retirada porterra, para o SulEmbarcar — o mar é a únicasaídaAUTORESJorge Amado, José Lins doRego, Graciliano RamosBaltasar Lopes da Silva,Manuel Lopes, Jorge BarbosaO método é o mesmo; a geografia insular muda a saída e, comela, o tema maior.
Fig. 4Fig. 4 — O que a «Claridade» toma ao romance brasileiro de 30 e o que transforma.

O dilema do partir e do ficar

empurrama seca e a fomeo vento lestea terra escassaretêma terra do paia famíliaa morabezapartiro mar: a única saídaficara chuva e a terraEstados Unidos · São ToméPortugal · Países Baixos«Os Flagelados do VentoLeste» (1960)o preço da insularidade e a emigração«Chuva Braba» (1956)o dilemapartir ou ficar?
Fig. 5Fig. 5 — O dilema do partir e do ficar: o que empurra, o que retém e as duas saídas.
Jorge Barbosa (1902–1971) é a voz poética desta descoberta. «Arquipélago» (1935) — publicado no ano anterior ao da revista — é habitualmente apontado pela crítica como o livro inaugural da poesia moderna de Cabo Verde, atribuição corrente e não facto fechado; seguem-se «Ambiente» (1941) e «Caderno de um Ilhéu» (1956). A sua dicção é despojada, quase prosaica, conversada: renuncia ao ornamento para que a ilha se veja, tal como o programa mandava. O « Poema do Mar » fixa em imagem a ambivalência fundadora — o mar que isola e o mar que chama, a muralha e o convite ao mesmo tempo: não há exotismo nem paisagem de postal, há uma condição, a de quem sabe que a água é fronteira e é estrada.
Manuel Lopes (1907–2005) é o romancista dos dois grandes assuntos das ilhas. «Chuva Braba» (1956) põe Mané Quim perante a escolha entre emigrar e ficar — o dilema no seu estado mais puro; e o título aponta para o que pode fazer pender a balança, a chuva que chega de repente e devolve à terra a promessa de vida. «Os Flagelados do Vento Leste» (1960) enfrenta o outro lado da mesma realidade: a seca e a fome, o vento leste seco e queimador que destrói as sementeiras, e a gente que fica a resistir. Guarda bem as duas datas, porque são trocadas com frequência: «Chuva Braba» é de 1956, «Os Flagelados do Vento Leste» é de 1960. Juntos, os dois romances dão inteiro o segundo eixo.
Exemplo resolvido

Situar um texto no seu movimento

Um romance cabo-verdiano de 1956 acompanha um jovem do campo que hesita entre embarcar para fora e continuar a trabalhar a terra do pai; a linguagem é sóbria, o crioulo ouve-se nos diálogos e o narrador não comenta. Situa o texto no seu movimento, identifica-o e explica que eixo das Aprendizagens Essenciais ilustra.

  1. 01Reconhecer o programa

    A matéria — a terra, o trabalho, a partida — e a sobriedade da linguagem, sem comentário do narrador, correspondem ao programa de « fincar os pés na terra », lançado por «Claridade» em 1936.

  2. 02Identificar a obra e o autor

    Um romance de 1956 construído sobre a escolha de Mané Quim entre emigrar e ficar é «Chuva Braba», de Manuel Lopes (1907–2005), um dos três fundadores da revista.

  3. 03Nomear o eixo

    A hesitação entre partir e ficar é o núcleo do eixo « o preço da insularidade e a emigração ».

  4. 04Reconhecer a filiação e a diferença

    A sobriedade documental e a entrada da fala local vêm do romance brasileiro dos anos 30, modelo declarado desta geração; a diferença decisiva é que aqui a saída não se faz a pé, faz-se por mar.

Resultado: O texto pertence ao movimento da «Claridade» (Mindelo, 1936) e corresponde a «Chuva Braba» (1956), de Manuel Lopes: a sobriedade da escrita e a presença do crioulo cumprem o programa de « fincar os pés na terra », herdado do romance brasileiro de 30, e o dilema entre embarcar e ficar ilustra o eixo « o preço da insularidade e a emigração » — com a diferença insular decisiva de que a única saída é o mar.

Schritt-für-Schritt Erklärung5 Schritte
  1. 1

    Em 1936, no Mindelo, na ilha de São Vicente, três escritores — Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa — lançam a revista «Claridade»: é a data com que se abre a literatura cabo-verdiana moderna.

  2. 2

    O programa cabe numa fórmula: « fincar os pés na terra ». Deixar de escrever para o gosto de Lisboa e olhar as ilhas como elas são — a seca, a fome, a emigração, o crioulo, a morna. Ao resultado chama-se « caboverdianidade ».

  3. 3

    O modelo declarado não vem da metrópole, vem do Brasil: o romance regionalista dos anos 30, de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, que já tinha feito literatura de uma terra pobre e da língua que ali se falava.

  4. 4

    Mas a transposição muda tudo. No sertão, o flagelado da seca anda; na ilha, quem sai tem de embarcar. O mar isola e chama ao mesmo tempo — é o que diz o « Poema do Mar », de Jorge Barbosa.

  5. 5

    Guarda as duas datas de Manuel Lopes, porque são as mais trocadas: «Chuva Braba», o dilema entre partir e ficar, é de 1956; «Os Flagelados do Vento Leste», a seca e a fome, é de 1960.

Foco no Exame Nacional

  • Situar «Claridade» com exatidão — Mindelo, ilha de São Vicente, 1936, e os três fundadores — e explicar « fincar os pés na terra » e a « caboverdianidade ».
  • Fundamentar a filiação brasileira: mostrar que o romance regionalista dos anos 30 (Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos) foi o modelo libertador declarado, e dizer o que Cabo Verde lhe toma e o que transforma — a comparação intercultural sustentada é dos trabalhos mais valorizados pela avaliação interna, em ensaio escrito ou em apresentação oral.
  • Associar cada obra ao seu autor e à sua data: «Arquipélago» (1935), «Ambiente» (1941) e «Caderno de um Ilhéu» (1956), de Jorge Barbosa; «Chuva Braba» (1956) e «Os Flagelados do Vento Leste» (1960), de Manuel Lopes.

Erros frequentes

  • Datar «Os Flagelados do Vento Leste» de 1956: 1956 é o ano de «Chuva Braba» (e de «Caderno de um Ilhéu»); «Os Flagelados do Vento Leste» é de 1960.
  • Dizer que «Claridade» foi fundada em Lisboa ou na cidade da Praia: a revista nasce no Mindelo, na ilha de São Vicente.
  • Tomar o modelo brasileiro por imitação: a geração da «Claridade» não copia o Nordeste — toma-lhe o método e aplica-o a uma realidade insular, onde a única saída é o mar.
  • Trocar as obras dos fundadores, atribuindo «Arquipélago» a Manuel Lopes ou «Chuva Braba» a Jorge Barbosa.

Revisão ativa

Explica, em cerca de 180 palavras, por que razão a geração da «Claridade» tomou o romance brasileiro dos anos 30 como modelo libertador e não a literatura da metrópole; indica duas semelhanças e a diferença decisiva entre o sertão nordestino e as ilhas.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

«Chiquinho» e as histórias de meninos nas ilhas#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-cabo-verde

Pontos-chave

Baltasar Lopes da Silva (1907–1989) é a figura central do grupo: cofundador da «Claridade», romancista, poeta sob o pseudónimo de Osvaldo Alcântara e autor do estudo «O Dialecto Crioulo de Cabo Verde» (1957). São três atividades ao serviço de um só projeto — dar às ilhas uma ficção, uma voz lírica e uma descrição rigorosa da sua língua —, e o pseudónimo não é jogo gratuito: separa a persona poética do prosador e do estudioso. Atenção a um engano frequentíssimo: Baltasar Lopes da Silva (1907–1989) não é Manuel Lopes (1907–2005) — dois fundadores diferentes, com apelido parecido e o mesmo ano de nascimento.
«Chiquinho» (1947) é a obra por excelência do primeiro eixo, « as histórias de meninos nas ilhas ». É um romance de formação: acompanha um menino da ilha de São Nicolau desde a infância até à idade em que tem de decidir da sua vida (ver Fig. 6). A narração faz-se na primeira pessoa, pela voz do próprio protagonista que olha para trás, e o mundo é dado a ver de dentro — a casa, a família, a escola, os vizinhos, as histórias contadas pelos mais velhos, o mar ao fundo. E a formação não é só o crescimento de uma pessoa: é a descoberta progressiva de que a ilha não chega para todos, à medida que o mundo do protagonista se alarga e o cerco material aperta — a chuva que não vem, a fome, os que partem.

As etapas da formação em «Chiquinho» (1947)

As etapas da formação em «Chiquinho» (1947)Grafo, A oralidade e o crioulo → O menino na ilha, O menino na ilha → A escola e o mundo, A escola e o mundo → A seca e a fome, A seca e a fome → A idade de decidir, A idade de decidir → A emigraçãoO menino nailhaA oralidade eo criouloA escola e omundoA seca e afomeA idade dedecidirA emigração
Fig. 6Fig. 6 — O percurso de formação: a maturidade coincide com a encruzilhada entre ficar e partir.
O que faz do eixo uma verdadeira categoria de análise é perceber que a infância, aqui, é um método e não apenas um assunto. Visto por uma criança, o real chega sem a mediação de uma tese: a seca não é uma estatística, é fome; a emigração não é um facto demográfico, é a ausência de alguém, uma carta que chega, uma despedida no cais. A criança não julga — regista; quem julga é o leitor, e a denúncia é tanto mais forte quanto menos explícita. É o procedimento dos « retratos da infância » do romance brasileiro de 30 — pense-se em «Menino de Engenho» (1932), de José Lins do Rego —, e o parentesco não é coincidência: é a filiação declarada da geração da «Claridade». Comparar o menino do engenho e o menino da ilha é a comparação intercultural que o programa convida a fazer.
Repara ainda que o romance de formação cabo-verdiano tem um desfecho estrutural distinto do modelo europeu clássico: onde este faz o jovem integrar-se na sociedade em que nasceu, aqui a maturidade coincide com a necessidade de escolher entre ficar e partir — a mesma encruzilhada de «Chuva Braba» (1956), vista agora de dentro de uma consciência que se formou diante dela. O programa pede também que se reconheça a organização externa e interna do texto nos três modos do tópico (ver Fig. 7): a arrumação visível — capítulos, versos e estrofes, a unidade breve do conto — e o princípio que ordena a matéria — a progressão da personagem, a progressão temática, a concentração num episódio. Quanto aos recursos expressivos, observa como o crioulo se faz sentir dentro do português literário: no léxico das coisas da ilha, nos provérbios, na sintaxe do diálogo — não é folclore decorativo, é uma cultura a inscrever-se na língua de escrita.

Organização externa e interna nos três modos do tópico

Organização externa e interna nos três modos do tópicoTabela com 4 colunas e 3 linhas, Dados: Modo · Organização externa · Organização interna · Obra deste tópico; Romance de formação · Capítulos em sequência · Do menino à idade de decidir · «Chiquinho» (1947); Poema · Versos e estrofes · Progressão temática e imagem que se abre · « Poema do Mar », de Jorge Barbosa; Conto · Unidade breve e fechada · Concentração num episódio e numa revelação · «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974), célula destacada: Do menino à idade de decidirMODOORGANIZAÇÃO EXTERNAORGANIZAÇÃO INTERNAOBRA DESTE TÓPICOROMANCE DEFORMAÇÃOCapítulos em sequênciaDo menino à idade de decidir«Chiquinho» (1947)POEMAVersos e estrofesProgressão temática e imagemque se abre« Poema do Mar », de JorgeBarbosaCONTOUnidade breve e fechadaConcentração num episódio enuma revelação«Cais-do-Sodré té Salamansa»(1974)A organização externa está à vista; a interna deduz-se daprogressão do sentido.
Fig. 7Fig. 7 — A arrumação visível e o princípio que ordena, nos três modos do tópico.
Exemplo resolvido

Analisar um romance de formação

Um narrador conta, na primeira pessoa e olhando para trás, a sua infância numa ilha: a casa, os velhos que contam histórias, a escola, os vizinhos que embarcam, a chuva que não vem. Que traços permitem classificá-lo como romance de formação e que eixo das Aprendizagens Essenciais ilustra?

  1. 01Observar a instância narrativa

    A primeira pessoa e o olhar retrospetivo dão o mundo de dentro: o leitor conhece a ilha ao ritmo a que a criança a conhece.

  2. 02Verificar a progressão

    O romance de formação não se define por falar da infância, mas por progredir: a personagem transforma-se até ao ponto em que tem de decidir da sua vida.

  3. 03Ler o cerco material

    A chuva que falha e os vizinhos que embarcam dão sentido ao percurso: a formação culmina na descoberta de que a ilha não chega para todos.

  4. 04Nomear o eixo e a obra

    É o eixo « as histórias de meninos nas ilhas », cuja obra por excelência é «Chiquinho» (1947), de Baltasar Lopes da Silva, romance de formação de um menino da ilha de São Nicolau.

Resultado: É um romance de formação: narração na primeira pessoa com olhar retrospetivo, ponto de vista da criança e, sobretudo, uma progressão que conduz o protagonista até à idade de decidir. Ilustra o eixo « as histórias de meninos nas ilhas », de que «Chiquinho» (1947), de Baltasar Lopes da Silva, é a obra maior — e a formação culmina, à maneira cabo-verdiana, na encruzilhada entre ficar e partir.

Foco no Exame Nacional

  • Analisar «Chiquinho» (1947) como romance de formação: primeira pessoa, olhar retrospetivo, ponto de vista da criança, progressão até à idade de decidir e a emigração como horizonte — é a leitura analítica central desta secção.
  • Distinguir organização externa e interna nos três modos do tópico (romance de formação, poema, conto) e ilustrar cada um com uma obra cabo-verdiana (ver Fig. 7).
  • Justificar com marcas textuais a presença do crioulo no português literário e relacioná-la com «O Dialecto Crioulo de Cabo Verde» (1957): é o material ideal para a reflexão sobre a diversidade da língua portuguesa que a avaliação interna valoriza.

Erros frequentes

  • Confundir Baltasar Lopes da Silva (1907–1989), autor de «Chiquinho», com Manuel Lopes (1907–2005), autor de «Chuva Braba»: dois fundadores diferentes da «Claridade», com apelidos parecidos e o mesmo ano de nascimento.
  • Tomar « Osvaldo Alcântara » por outro escritor: é o pseudónimo com que Baltasar Lopes da Silva assinou a sua poesia.
  • Reduzir o romance de formação a « um livro sobre a infância »: o que o define é a progressão — a personagem que se transforma até ao ponto em que tem de decidir da sua vida.
  • Situar «Chiquinho» noutra ilha: o protagonista é um menino da ilha de São Nicolau.

Revisão ativa

Analisa um excerto de «Chiquinho» (1947) mostrando, com marcas textuais: (a) que traços o identificam como romance de formação; (b) o que o ponto de vista da criança permite ver que um narrador adulto não veria; (c) de que modo o crioulo se faz sentir no português do texto.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Da Anti-Evasão à cidade: Ovídio Martins, Corsino Fortes, Germano Almeida#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-cabo-verde

Pontos-chave

A revista «Certeza» (1944) teve vida curta, e o «Suplemento Cultural» chegaria em 1958: são as plataformas de uma geração que acusa os claridosos de « evasionismo ». A acusação é precisa: a «Claridade» descobriu a terra, sim, mas — dizem os novos — acabou por converter a emigração num destino lírico, numa saudade bela, em vez de a ler como problema político; e exige-se agora a inscrição de Cabo Verde em África, contra o hesperitismo e contra qualquer versão de um sub-Portugal atlântico. O ensaio-manifesto desta viragem é «Consciencialização na Literatura Caboverdiana» (1963), de Onésimo Silveira; Gabriel Mariano é outro nome deste momento. Convém não caricaturar: o que separa as duas gerações é real, mas o que partilham também (ver Fig. 8).

«Claridade» e a geração de «Certeza»: o que partilham e o que as separa

«Claridade» e a geração de «Certeza»: o que partilham e o que as separaDiagrama de Venn com 2 conjuntos, «Claridade» (1936), «Certeza» e «Suplemento»«Claridade» (1936)«Certeza» e «Suplemento»Evasão esaudadeÁfrica eprotestoTerra ecrioulo
Fig. 8Fig. 8 — Duas gerações: a herança comum e a linha de fratura.
O pano de fundo é material. As grandes secas e fomes da década de 1940 marcaram a memória do arquipélago e deram à emigração o caráter de necessidade, não de aventura. Os destinos foram vários e muito desiguais: os Estados Unidos, com a comunidade de New Bedford, no Massachusetts, ligada à antiga navegação baleeira; São Tomé, para onde se ia como « contratado » trabalhar nas roças; e, mais tarde, Portugal e os Países Baixos. A independência chega a 5 de julho de 1975. Compreende-se que uma geração formada nestes anos recuse ler a partida como saudade e queira lê-la como consequência.
« Anti-Evasão », de Ovídio Martins, é o texto em que essa recusa se torna gesto literário — e é uma resposta direta a « Vou-me embora pra Pasárgada », de Manuel Bandeira. No poema do modernista brasileiro, Pasárgada é um lugar inventado para onde o sujeito anuncia que vai partir, um outro-lugar onde tudo é possível: poética da evasão e do sonho consolador. Ovídio Martins responde invertendo o movimento do modelo: « Gritarei / Berrarei / Matarei / Não vou para Pasárgada ». Os três verbos no futuro formam uma gradação ascendente de violência, em versos de uma só palavra; o quarto, mais longo, seco e declarativo, corta a gradação com a recusa. Onde Bandeira parte, o cabo-verdiano fica — e ficar passa a ser um ato, não uma resignação. Repara na ironia histórica: a literatura brasileira, que dera à «Claridade» o modelo libertador, fornece agora à geração seguinte o texto contra o qual esta se define.
Corsino Fortes publica «Pão & Fonema» em 1974, às portas da independência, e o título é já um programa: « pão » é a matéria, a fome, a terra que se trabalha; « fonema » é a língua, a palavra, o som mínimo com que se funda um povo. A sua poesia é densa, telúrica, quase ritual — o oposto da dicção conversada de Jorge Barbosa. Vale a pena marcar o contraste, porque ele mede a distância percorrida: onde Barbosa dizia a ilha numa fala transparente, para que ela se visse, Corsino Fortes forja uma linguagem própria para a fundar. Um descreve um lugar; o outro dá corpo verbal a um país que está a nascer.
Com a independência entra em cena o terceiro eixo: « a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento » (ver Fig. 9). A literatura desloca-se do campo e do cais para a cidade — o Mindelo, a Praia —, para os escritórios, os negócios, os cartórios, a nova burguesia insular, o emigrante que regressa com dinheiro. Germano Almeida (n. 1945) é o seu escritor: «O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo» apareceu primeiro no Mindelo, pela Ilhéu Editora, em 1989 — a edição portuguesa é de 1991, e é essa segunda data que muitos apontam por engano como a primeira. A leitura de um testamento vai revelando a vida escondida de um homem de negócios feito por si próprio, em tom irónico, oral e digressivo: é o avesso exato do registo trágico dos romances da seca — o mesmo arquipélago, visto da cidade e depois do desenvolvimento. Germano Almeida recebeu o Prémio Camões em 2018.

Da consciencialização à cidade: autores e obras do pós-«Claridade»

Da consciencialização à cidade: autores e obras do pós-«Claridade»Tabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Autor · Obra ou texto · O que traz de novo; Ovídio Martins · « Anti-Evasão » · A recusa da evasão, em resposta a « Vou-me embora pra Pasárgada »; Onésimo Silveira · «Consciencialização na Literatura Caboverdiana» (1963) · Formula a crítica do evasionismo claridoso; Corsino Fortes · «Pão & Fonema» (1974) · O pão e a palavra: fundar poeticamente o país; Orlanda Amarílis · «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974) · O conto da diáspora, entre Lisboa e as ilhas; Germano Almeida · «O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo» (1989) · A cidade, o negócio e a ironia — Prémio Camões 2018; Dina Salústio · «A Louca de Serrano» (1998) · Vozes femininas na ficção cabo-verdiana contemporânea, célula destacada: A cidade, o negócio e a ironia — Prémio Camões 2018AUTOROBRA OU TEXTOO QUE TRAZ DE NOVOOVÍDIO MARTINS« Anti-Evasão »A recusa da evasão, emresposta a « Vou-me emborapra Pasárgada »ONÉSIMO SILVEIRA«Consciencialização naLiteratura Caboverdiana»(1963)Formula a crítica doevasionismo claridosoCORSINO FORTES«Pão & Fonema» (1974)O pão e a palavra: fundarpoeticamente o paísORLANDA AMARÍLIS«Cais-do-Sodré té Salamansa»(1974)O conto da diáspora, entreLisboa e as ilhasGERMANO ALMEIDA«O Testamento do Sr.Napumoceno da Silva Araújo»(1989)A cidade, o negócio e aironia — Prémio Camões 2018DINA SALÚSTIO«A Louca de Serrano» (1998)Vozes femininas na ficçãocabo-verdiana contemporâneaPrimeira edição de «O Testamento do Sr. Napumoceno da SilvaAraújo»: Mindelo, Ilhéu Editora, 1989.
Fig. 9Fig. 9 — Da consciencialização africana à ironia urbana: quem traz o quê.
À sua volta há uma literatura contemporânea plural, e o programa pede que se valorize essa diversidade de vivências e de mundivisões. Orlanda Amarílis (1924–2014) escreveu os contos da diáspora em «Cais-do-Sodré té Salamansa» (1974) — e o título é já uma lição de leitura: junta um lugar de Lisboa e um lugar das ilhas, e junta o português e o crioulo no « té ». Arménio Vieira (n. 1941) recebeu o Prémio Camões em 2009; Dina Salústio publicou «A Louca de Serrano» (1998), trazendo para o centro vozes femininas. Vista do princípio ao fim, a linha do tópico é clara: das mornas de Eugénio Tavares à ironia urbana de Germano Almeida, esta literatura passou de procurar uma genealogia mítica a assumir uma terra, uma língua e uma cidade próprias.
Exemplo resolvido

Comentar uma resposta literária

Um poema cabo-verdiano recusa partir para um lugar imaginário e fecha com quatro versos: « Gritarei / Berrarei / Matarei / Não vou para Pasárgada ». Identifica o poema e o texto a que responde, analisa a construção destes versos e explica o sentido literário e político da recusa.

  1. 01Reconhecer o intertexto

    Pasárgada é o lugar inventado de « Vou-me embora pra Pasárgada », do poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira — um outro-lugar onde tudo é possível, poética da evasão.

  2. 02Identificar o poema

    O texto que responde é « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, ligado à geração de «Certeza» (1944) e do «Suplemento Cultural» (1958).

  3. 03Analisar a construção

    Os três verbos no futuro — gritarei, berrarei, matarei — formam uma gradação ascendente de violência, isolados em versos de uma só palavra; o quarto, mais longo e declarativo, corta a gradação e inverte o modelo: onde Bandeira anuncia a partida, este anuncia a permanência.

  4. 04Explicar o sentido

    Recusar Pasárgada é recusar o « evasionismo » de que a nova geração acusava a «Claridade» e reivindicar a permanência como forma de luta, no momento em que se exige o reconhecimento de Cabo Verde como país africano.

Resultado: O poema é « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, e responde diretamente a « Vou-me embora pra Pasárgada », de Manuel Bandeira. A gradação « Gritarei / Berrarei / Matarei », em três versos de uma só palavra, é cortada pelo verso final, seco e declarativo, que inverte o modelo: onde o poema brasileiro parte para um lugar imaginário, o cabo-verdiano fica. Literariamente, é a recusa da poética da evasão; politicamente, é a afirmação da permanência como ato e a exigência de que Cabo Verde se pense africano — o programa da geração de «Certeza» e do «Suplemento Cultural» contra o « evasionismo » atribuído aos claridosos.

Foco no Exame Nacional

  • Ler « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, como resposta direta a « Vou-me embora pra Pasárgada », de Manuel Bandeira, e explicar o sentido do gesto — recusar a evasão e fazer do ficar um ato: é o comentário literário fundamentado mais pedido nesta secção.
  • Distinguir «Claridade» (1936) da geração de «Certeza» (1944) e do «Suplemento Cultural» (1958) sem as opor em bloco: dizer o que partilham e o que as separa (ver Fig. 8) — matéria ideal para debate e para trabalho de projeto.
  • Caracterizar o terceiro eixo com datas corretas: «O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo» saiu no Mindelo, pela Ilhéu Editora, em 1989; a edição portuguesa é de 1991.

Erros frequentes

  • Datar «O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo» de 1991: 1991 é a edição portuguesa; a primeira edição é de 1989, no Mindelo, pela Ilhéu Editora.
  • Ler « Anti-Evasão » sem o poema a que responde: sem « Vou-me embora pra Pasárgada », de Manuel Bandeira, perdem-se o sentido do título e a força da recusa.
  • Apresentar a geração de «Certeza» como negação total da «Claridade»: herda-lhe a atenção à terra e ao crioulo e recusa-lhe o evasionismo e a filiação não africana.
  • Trocar os anos dos Prémios Camões dos escritores cabo-verdianos: Arménio Vieira em 2009 e Germano Almeida em 2018.

Revisão ativa

Comenta, em cerca de 200 palavras, a afirmação « em Cabo Verde, ficar também pode ser um ato », a partir de « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, e de «Pão & Fonema» (1974), de Corsino Fortes; termina explicando o que muda com o eixo « a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento », em Germano Almeida.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Antes de «Claridade»: mornas, crioulo e hesperitismo○
    • 02«Claridade» (1936) e a descoberta da terra: Jorge Barbosa e Manuel Lopes◐
    • 03«Chiquinho» e as histórias de meninos nas ilhas◐
    • 04Da Anti-Evasão à cidade: Ovídio Martins, Corsino Fortes, Germano Almeida●

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Dos resumos à prática

Literatura Cabo-Verdiana em língua portuguesa

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Fontes

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