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A literatura cabo-verdiana encontra voz própria quando a revista «Claridade» (Mindelo, 1936) manda « fincar os pés na terra », tomando por modelo libertador declarado o romance regionalista brasileiro dos anos 30. Daí saem os três eixos das Aprendizagens Essenciais — « as histórias de meninos nas ilhas; o preço da insularidade e a emigração; a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento » —, de «Chiquinho» (1947) à ironia urbana de Germano Almeida. A disciplina não tem Exame Final Nacional: é avaliada exclusivamente por avaliação interna, pelo que este dossiê fala sempre de « foco de avaliação ».
4 secções~28 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Situar «Claridade» (Mindelo, 1936) e os seus três fundadores, nomear os três eixos das Aprendizagens Essenciais com uma obra para cada um e explicar o dilema do partir e do ficar.
nível avançado
Analisar «Chiquinho» (1947) como romance de formação, ler « Anti-Evasão » como resposta direta a « Vou-me embora pra Pasárgada » e sustentar com marcas textuais a comparação entre o claridosismo e a geração de «Certeza».
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Os três eixos das Aprendizagens Essenciais para Cabo Verde
As duas filiações do arquipélago antes de 1936
Um poema cabo-verdiano publicado antes de 1936 apresenta as ilhas como os cumes de um continente submerso e como herdeiras de um jardim da Antiguidade, sem uma única referência a África. Identifica a corrente a que pertence esta representação e explica o que está em jogo nela.
O « continente submerso » remete para a Atlântida e o « jardim da Antiguidade » para as Hespérides: procura-se para as ilhas uma origem mítica greco-latina.
Essa ligação das ilhas às Hespérides e à Atlântida, e não a África, é o « hesperitismo ».
O que o poema não diz é decisivo: ao filiar o arquipélago na Europa clássica, cala a matriz africana da população e da cultura cabo-verdianas.
É contra esta filiação que a «Claridade» (1936) virará os olhos para a terra e para o crioulo, e que a geração de «Certeza» exigirá o reconhecimento de Cabo Verde como país africano.
Resultado: A representação é hesperitista: liga as ilhas ao mito das Hespérides e da Atlântida em vez de as ligar a África. O que está em jogo não é erudição, mas identidade — a genealogia europeia e clássica serve para calar a matriz africana do arquipélago, e é essa escolha que a «Claridade» e, sobretudo, a geração de «Certeza» virão contestar.
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica, em cerca de 150 palavras, o que era o « hesperitismo » e que consequências teve para a forma como as ilhas se pensavam a si próprias; termina indicando o que, na obra de Eugénio Tavares, já apontava noutra direção.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
A literatura cabo-verdiana de 1935 a 2018: as datas-marco
O modelo brasileiro e a resposta cabo-verdiana
O dilema do partir e do ficar
Um romance cabo-verdiano de 1956 acompanha um jovem do campo que hesita entre embarcar para fora e continuar a trabalhar a terra do pai; a linguagem é sóbria, o crioulo ouve-se nos diálogos e o narrador não comenta. Situa o texto no seu movimento, identifica-o e explica que eixo das Aprendizagens Essenciais ilustra.
A matéria — a terra, o trabalho, a partida — e a sobriedade da linguagem, sem comentário do narrador, correspondem ao programa de « fincar os pés na terra », lançado por «Claridade» em 1936.
Um romance de 1956 construído sobre a escolha de Mané Quim entre emigrar e ficar é «Chuva Braba», de Manuel Lopes (1907–2005), um dos três fundadores da revista.
A hesitação entre partir e ficar é o núcleo do eixo « o preço da insularidade e a emigração ».
A sobriedade documental e a entrada da fala local vêm do romance brasileiro dos anos 30, modelo declarado desta geração; a diferença decisiva é que aqui a saída não se faz a pé, faz-se por mar.
Resultado: O texto pertence ao movimento da «Claridade» (Mindelo, 1936) e corresponde a «Chuva Braba» (1956), de Manuel Lopes: a sobriedade da escrita e a presença do crioulo cumprem o programa de « fincar os pés na terra », herdado do romance brasileiro de 30, e o dilema entre embarcar e ficar ilustra o eixo « o preço da insularidade e a emigração » — com a diferença insular decisiva de que a única saída é o mar.
Em 1936, no Mindelo, na ilha de São Vicente, três escritores — Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa — lançam a revista «Claridade»: é a data com que se abre a literatura cabo-verdiana moderna.
O programa cabe numa fórmula: « fincar os pés na terra ». Deixar de escrever para o gosto de Lisboa e olhar as ilhas como elas são — a seca, a fome, a emigração, o crioulo, a morna. Ao resultado chama-se « caboverdianidade ».
O modelo declarado não vem da metrópole, vem do Brasil: o romance regionalista dos anos 30, de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, que já tinha feito literatura de uma terra pobre e da língua que ali se falava.
Mas a transposição muda tudo. No sertão, o flagelado da seca anda; na ilha, quem sai tem de embarcar. O mar isola e chama ao mesmo tempo — é o que diz o « Poema do Mar », de Jorge Barbosa.
Guarda as duas datas de Manuel Lopes, porque são as mais trocadas: «Chuva Braba», o dilema entre partir e ficar, é de 1956; «Os Flagelados do Vento Leste», a seca e a fome, é de 1960.
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica, em cerca de 180 palavras, por que razão a geração da «Claridade» tomou o romance brasileiro dos anos 30 como modelo libertador e não a literatura da metrópole; indica duas semelhanças e a diferença decisiva entre o sertão nordestino e as ilhas.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
As etapas da formação em «Chiquinho» (1947)
Organização externa e interna nos três modos do tópico
Um narrador conta, na primeira pessoa e olhando para trás, a sua infância numa ilha: a casa, os velhos que contam histórias, a escola, os vizinhos que embarcam, a chuva que não vem. Que traços permitem classificá-lo como romance de formação e que eixo das Aprendizagens Essenciais ilustra?
A primeira pessoa e o olhar retrospetivo dão o mundo de dentro: o leitor conhece a ilha ao ritmo a que a criança a conhece.
O romance de formação não se define por falar da infância, mas por progredir: a personagem transforma-se até ao ponto em que tem de decidir da sua vida.
A chuva que falha e os vizinhos que embarcam dão sentido ao percurso: a formação culmina na descoberta de que a ilha não chega para todos.
É o eixo « as histórias de meninos nas ilhas », cuja obra por excelência é «Chiquinho» (1947), de Baltasar Lopes da Silva, romance de formação de um menino da ilha de São Nicolau.
Resultado: É um romance de formação: narração na primeira pessoa com olhar retrospetivo, ponto de vista da criança e, sobretudo, uma progressão que conduz o protagonista até à idade de decidir. Ilustra o eixo « as histórias de meninos nas ilhas », de que «Chiquinho» (1947), de Baltasar Lopes da Silva, é a obra maior — e a formação culmina, à maneira cabo-verdiana, na encruzilhada entre ficar e partir.
Erros frequentes
Revisão ativa
Analisa um excerto de «Chiquinho» (1947) mostrando, com marcas textuais: (a) que traços o identificam como romance de formação; (b) o que o ponto de vista da criança permite ver que um narrador adulto não veria; (c) de que modo o crioulo se faz sentir no português do texto.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
«Claridade» e a geração de «Certeza»: o que partilham e o que as separa
Da consciencialização à cidade: autores e obras do pós-«Claridade»
Um poema cabo-verdiano recusa partir para um lugar imaginário e fecha com quatro versos: « Gritarei / Berrarei / Matarei / Não vou para Pasárgada ». Identifica o poema e o texto a que responde, analisa a construção destes versos e explica o sentido literário e político da recusa.
Pasárgada é o lugar inventado de « Vou-me embora pra Pasárgada », do poeta modernista brasileiro Manuel Bandeira — um outro-lugar onde tudo é possível, poética da evasão.
O texto que responde é « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, ligado à geração de «Certeza» (1944) e do «Suplemento Cultural» (1958).
Os três verbos no futuro — gritarei, berrarei, matarei — formam uma gradação ascendente de violência, isolados em versos de uma só palavra; o quarto, mais longo e declarativo, corta a gradação e inverte o modelo: onde Bandeira anuncia a partida, este anuncia a permanência.
Recusar Pasárgada é recusar o « evasionismo » de que a nova geração acusava a «Claridade» e reivindicar a permanência como forma de luta, no momento em que se exige o reconhecimento de Cabo Verde como país africano.
Resultado: O poema é « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, e responde diretamente a « Vou-me embora pra Pasárgada », de Manuel Bandeira. A gradação « Gritarei / Berrarei / Matarei », em três versos de uma só palavra, é cortada pelo verso final, seco e declarativo, que inverte o modelo: onde o poema brasileiro parte para um lugar imaginário, o cabo-verdiano fica. Literariamente, é a recusa da poética da evasão; politicamente, é a afirmação da permanência como ato e a exigência de que Cabo Verde se pense africano — o programa da geração de «Certeza» e do «Suplemento Cultural» contra o « evasionismo » atribuído aos claridosos.
Erros frequentes
Revisão ativa
Comenta, em cerca de 200 palavras, a afirmação « em Cabo Verde, ficar também pode ser um ato », a partir de « Anti-Evasão », de Ovídio Martins, e de «Pão & Fonema» (1974), de Corsino Fortes; termina explicando o que muda com o eixo « a realidade urbana e as marcas do desenvolvimento », em Germano Almeida.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)