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Dois arquipélagos de história diferente e um mesmo problema literário: como fixar, em língua portuguesa, memórias que a comunidade guardou por outros meios. Na Guiné-Bissau, país de muitas línguas onde o português é oficial mas minoritário, a matriz é oral — o djidiu, o conto, o provérbio — e a escrita nasce com a poesia da luta de libertação, só dando o romance nos anos 90; em São Tomé e Príncipe, Francisco José Tenreiro inaugura com «Ilha de Nome Santo» (1942) a negritude em língua portuguesa e propõe a África como exemplo para o Mundo, enquanto o tchiloli, o Auto de Floripes e o Danço Congo mantêm vivo um teatro coletivo e de rua que é literatura em performance. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional, pelo que cada secção traz um « foco de avaliação ».
4 secções~35 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Distinguir os dois paradigmas nacionais — a matriz oral e multilingue guineense, a negritude e o teatro coletivo são-tomenses — e situar os autores e as obras principais de cada um.
nível avançado
Comentar textos e performances fundamentando a leitura em marcas textuais e culturais, e comparar as modalidades de preservação da memória coletiva nos dois arquipélagos, incluindo a apropriação africana de um texto europeu no tchiloli.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe: dois paradigmas nacionais
As modalidades de preservação da memória coletiva
Um conto guineense publicado em livro abre com uma fórmula que convoca o auditório, repete três vezes a mesma sequência de ações com pequenas variações, intercala um provérbio que resume a lição e conserva, sem tradução, duas palavras em crioulo. Identifica as marcas da matriz oral presentes no texto e explica que função desempenha cada uma.
Um conto guineense impresso é, quase sempre, a fixação escrita de uma narrativa que existiu primeiro em performance: as marcas seguintes são vestígios desse regime oral.
A convocação do auditório estabelece o contrato de escuta e marca a entrada no tempo da narrativa; na página, sobrevive como sinal do contexto perdido.
Repetir três vezes a sequência com variações é recurso mnemónico e rítmico: ajuda o contador a sustentar de memória a narrativa e cria no ouvinte a expectativa da terceira vez, onde a variação decide o desfecho.
O provérbio condensa a norma social e transfere a autoridade da história para o património comum: não é o narrador que julga, é o saber coletivo.
As palavras deixadas em kriol inscrevem no português a situação multilingue do país e assinalam que o texto vem de outra língua — é marca de fidelidade à origem, não descuido.
Resultado: As marcas são quatro: a fórmula de abertura (contrato de escuta, resto do contexto performativo), a repetição ternária com variação (recurso mnemónico e rítmico que constrói a expectativa do desfecho), o provérbio embutido (transferência da autoridade moral para o saber coletivo) e o léxico crioulo não traduzido (inscrição do multilinguismo guineense na página portuguesa). Todas apontam no mesmo sentido: o conto impresso é a segunda vida de uma narrativa oral, e ler bem é reconhecer, na escrita, o sistema que a precede e a sustenta.
Erros frequentes
Revisão ativa
Constrói um quadro das modalidades de preservação da memória coletiva na Guiné-Bissau (oratura, música e canção, rito e festa, artes plásticas, escrita), indicando para cada uma o que preserva melhor e a que se expõe; redige depois um parágrafo de cerca de 180 palavras que justifique por que razão a escrita literária não substitui as restantes.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Da luta armada ao romance: a Guiné-Bissau entre 1963 e 1997
Duas vozes da literatura guineense
Um texto guineense fala no plural, dirige-se por vocativo aos combatentes, usa o imperativo e o futuro e opõe a noite que acaba à manhã que vem. Um segundo texto acompanha, no passado, o desengano de uma personagem que regressou da luta e não reconhece o país. Situa cada um no seu momento da literatura guineense e justifica a atribuição.
O sujeito plural, o vocativo, o imperativo e o futuro são marcas de um texto feito para ser dito em voz alta perante um auditório e para mobilizar quem escuta.
A oposição entre a noite que acaba e a manhã que vem é a alegoria corrente do fim do domínio colonial e do nascimento do país — imagem central da poesia de luta.
Trata-se de poesia de luta, o corpus dos anos 70 e 80, de que são exemplos «Mantenhas para quem luta!» (1977), «A Luta é a Minha Primavera» (1981) e «Não Posso Adiar a Palavra» (1982).
O singular, o passado e o desengano de quem regressa deslocam o foco do adversário externo para a sociedade que a vitória produziu.
Trata-se da prosa dos anos 90 — o momento de «Eterna Paixão» (1994), «A Última Tragédia» (1995), «Mistida» (1997) e «Kikia Matcho» (1997) —, que interroga a independência em vez de a anunciar.
Resultado: O primeiro texto pertence à poesia de luta dos anos 70 e 80: o plural, o vocativo, o imperativo, o futuro e a alegoria da noite que dá lugar à manhã definem uma escrita de mobilização, feita para ser dita em voz alta. O segundo pertence ao romance dos anos 90: o singular, o passado e o desengano de quem regressa deslocam o objeto do colonizador para a sociedade saída da independência. A diferença entre os dois não é de qualidade, é de função — uma voz mobiliza, a outra pede contas.
Erros frequentes
Revisão ativa
Seleciona um poema do período da luta e um excerto de um romance guineense dos anos 90 e redige um ensaio de cerca de 250 palavras que compare os dois textos quanto ao sujeito da enunciação, ao tempo verbal dominante e à imagem que dão da independência; conclui indicando qual dos dois te parece cumprir melhor a função de preservar a memória coletiva, e justifica.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
São Tomé e Príncipe: de «Ilha de Nome Santo» a «A Dolorosa Raiz do Micondó»
A rede da negritude em língua portuguesa
Um livro de poesia de 1942, escrito por um autor nascido em São Tomé, toma o nome da ilha como ponto de partida, evoca a roça e o trabalhador contratado e cruza essas imagens com ecos do blues e do mundo negro das Américas. Identifica a obra, o autor e a corrente, e explica a primazia que a crítica lhe reconhece.
1942 e um autor nascido em São Tomé apontam para Francisco José Tenreiro (1921–1963) e para «Ilha de Nome Santo».
O nome da ilha, a roça e o contratado são o núcleo temático imposto pela história do arquipélago: povoamento por deslocação, economia de plantação, trabalho forçado.
Os ecos do blues e do mundo negro americano tiram a ilha do isolamento e inscrevem-na numa geografia negra transatlântica — gesto característico da negritude.
A negritude nasce em Paris, nos anos 30, com Césaire, Senghor e Damas, e assume como orgulho aquilo que era estigma; é a esta posição que o livro adere.
«Ilha de Nome Santo» (1942) é tida como a primeira obra de negritude em língua portuguesa, anterior em onze anos à antologia «Poesia Negra de Expressão Portuguesa» (1953), que Tenreiro co-organizaria com Mário Pinto de Andrade.
Resultado: A obra é «Ilha de Nome Santo» (1942), de Francisco José Tenreiro, e a corrente é a negritude. O livro filia-se nela porque parte da condição concreta da ilha — a roça, o contratado, o povoamento por deslocação — e a liga a um mundo negro mais vasto, assumindo como valor aquilo que o discurso colonial tratava como inferioridade. A primazia que a crítica lhe reconhece é a de ser a primeira obra de negritude em língua portuguesa, anterior em onze anos à antologia «Poesia Negra de Expressão Portuguesa» (1953). É por esta obra que São Tomé e Príncipe se torna o ponto de partida da corrente e o lugar por excelência da ideia de África como exemplo para o Mundo.
Erros frequentes
Revisão ativa
Redige um texto expositivo-argumentativo de cerca de 250 palavras que explique em que sentido se pode dizer que «Ilha de Nome Santo» (1942) inaugura a negritude em língua portuguesa; mobiliza o contexto das roças e do trabalho contratado, a relação com a negritude nascida em Paris e o eixo da ideia de África como exemplo para o Mundo, e termina discutindo, com honestidade, um limite dessa posição.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
A estrutura performativa do tchiloli
Três formas de teatro coletivo e de rua
Numa ilha marcada pela plantação, pelo trabalho forçado e pela impunidade dos senhores, uma comunidade escolhe representar, ano após ano, um drama europeu do século XVI em que um imperador é obrigado a condenar à morte o próprio filho. Explica o sentido desta escolha e o papel que nela desempenham as máscaras.
Trata-se do tchiloli, da ilha de São Tomé, que representa a «Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno», texto quinhentista do madeirense Baltasar Dias.
O centro da representação não é o crime de D. Carloto, é o processo que se lhe segue: o tchiloli é essencialmente um tribunal, e a sua questão é a de saber se o poder se submete à sua própria lei.
Numa sociedade de roças, onde o castigo era arbitrário e o senhor escapava à lei, encenar o julgamento e a condenação do filho do imperador é representar publicamente aquilo que a vida negava.
Atores negros representam, atrás de máscaras ovais pintadas de branco, personagens brancas: a máscara não esconde o rosto, assinala a distância entre quem representa e quem é representado, tornando visível a relação colonial.
Chama-se a isto apropriação: um texto vindo do colonizador é recebido, recriado e voltado para a questão da comunidade que o representa, tornando-se seu sem deixar de ser dele.
A data em que o tchiloli se implantou na ilha é discutida — quinhentista para uns, oitocentista para outros —, mas nenhuma das hipóteses altera o sentido da apropriação.
Resultado: A escolha significa que a comunidade encontrou, num texto europeu, a figuração exata daquilo que a sua história lhe negava: um poder obrigado a julgar-se pela sua própria lei. Ao repetir todos os anos a condenação do filho do imperador, o tchiloli transforma um drama de corte num tribunal simbólico da impunidade da roça. As máscaras brancas, mais pequenas do que o rosto, completam o sentido: não disfarçam os atores, exibem a diferença entre quem representa e quem é representado, e fazem da própria representação um comentário à relação colonial. É neste duplo movimento — receber o texto do colonizador e voltá-lo contra a sua própria injustiça — que consiste a apropriação.
Começa pelo que é mais estranho: numa ilha do Golfo da Guiné representa-se, há gerações, um drama do século XVI passado na corte de Carlos Magno. O texto é português, do madeirense Baltasar Dias; a representação é são-tomense.
O enredo é simples. D. Carloto, filho do imperador, mata Valdevinos, sobrinho do Marquês de Mântua, por lhe cobiçar a mulher. O Marquês exige justiça. O imperador tem de julgar o próprio filho — e o centro do espetáculo é o processo, não o crime.
Olha para o espaço, porque o espaço é a interpretação. Num extremo do terreiro, a corte alta, o palácio imperial sobre estacas e coberto de palmeira; no outro, ao nível do chão, a corte baixa, a palhota da família enlutada. Ao centro, o tribunal. Em redor, de pé, a comunidade.
Repara nas máscaras: ovais, mais pequenas do que o rosto, de rede de mosquiteiro pintada de branco. Atores negros, personagens brancas. A máscara não esconde — mostra a distância entre quem representa e quem é representado.
Junta agora as peças. Numa ilha de roças e de impunidade, representar todos os anos a condenação do filho do imperador é encenar a justiça que a vida negava. A isto se chama apropriação: o texto é do colonizador, a pergunta é da comunidade.
Erros frequentes
Revisão ativa
Prepara uma apresentação oral de cinco minutos que explique, a quem nunca ouviu falar do tchiloli, por que razão uma comunidade são-tomense representa há gerações um drama de justiça passado na corte de Carlos Magno; apoia-te num esquema do espaço da representação e termina com uma tese pessoal, fundamentada, sobre o que a comunidade preserva ao repetir todos os anos esse julgamento.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)