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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Literatura Timorense em língua portuguesa
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Literatura Timorense em língua portuguesa

Timor-Leste foi colónia portuguesa até 1975, declarou a independência a 28 de novembro de 1975 e foi invadido pela Indonésia nove dias depois; a ocupação, que durou até 1999, fez do português uma língua de resistência e de comunicação clandestina — o que explica em boa parte a sua escolha, ao lado do tétum, como língua oficial na Constituição de 2002. O eixo das Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste tem duas metades que só juntas se entendem: « literatura e fundação da nação independente », com Francisco Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão e Luís Cardoso, e as « matrizes da oralidade, suas dimensões exemplares e morigeradoras », em que o lia-na'in, os ai-knanoik e o mito do crocodilo dão à palavra falada verdadeira força de norma. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional, pelo que cada secção traz um « foco de avaliação ».

4 secções·~28 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·111111 / 12
Perfil de exame
Situar a história de Timor-Leste, da colónia à restauração da independência, e o estatuto das suas línguasCaracterizar as matrizes da oralidade timorense — lia-na'in, ai-knanoik, uma lulik, tara bandu — e a sua função exemplar e morigeradoraExplicar o papel da palavra escrita na fundação da nação independente e o contributo da língua portuguesa para a ação e a intervenção cívicasAnalisar o romance timorense da memória em Luís Cardoso, valorizando a diversidade de vivências e de mundivisões — numa disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional
Operadores:situacaracterizaanalisainterpretarelacionacomparacomentajustifica

nível básico

Fixar a cronologia de 1975 a 2002, o estatuto das línguas e o quem-é-quem timorense — Francisco Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão e Luís Cardoso — e saber contar o mito do crocodilo.

nível avançado

Articular as duas metades do eixo das AE, mostrando em textos concretos como a matriz oral, exemplar e morigeradora, passa para dentro da palavra escrita que funda a nação independente.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

Tamanho do texto: Padrão

Conteúdo · 4 secções▾
  1. Literatura Timorense em língua portuguesa
    • 01Timor-Leste: história e línguas, da colónia à nação independente○
    • 02As matrizes da oralidade: lia-na'in, ai-knanoik e o mito do crocodilo◐
    • 03A palavra e a fundação da nação: Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão◐
    • 04Luís Cardoso e o romance da memória●
§ 01

Timor-Leste: história e línguas, da colónia à nação independente#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-timor-leste

Pontos-chave

Timor-Leste ocupa a metade oriental da ilha de Timor, no extremo oriental do arquipélago malaio, e é o único país de língua oficial portuguesa situado na Ásia — não pertence, portanto, ao conjunto dos países africanos. Foi colónia portuguesa até 1975, numa presença de séculos, longa mas administrativamente ténue, que nunca substituiu as estruturas de linhagem, a casa sagrada e o direito consuetudinário locais. Daí uma consequência decisiva para a literatura: o português chegou a Timor sem apagar a matriz oral do território, e é sobre essa matriz intacta que virá a assentar, muito mais tarde, a escrita literária.
A cronologia de 1975 a 2002 é o esqueleto de todo o tópico e deve ser sabida sem hesitação (ver Fig. 1). A independência foi declarada a 28 de novembro de 1975; nove dias depois, a 7 de dezembro de 1975, a Indonésia invadiu o território, dando início a uma ocupação que se prolongou até 1999. A 30 de agosto de 1999 realizou-se o referendo de autodeterminação; seguiu-se um período de transição sob administração internacional das Nações Unidas; e a 20 de maio de 2002 restaurou-se a independência. Repare-se no vocabulário oficial: em 1975 a independência é declarada, em 2002 é restaurada — a nação timorense lê-se como um projeto interrompido e reatado.

Timor-Leste, de 1975 a 2002

Timor-Leste, de 1975 a 2002Linha do tempo de 1970 a 2005, 1975: independência, depois invasão, 1999: referendo de autodeterminação, 2002: restauração da independência, 1970–1975: colónia portuguesa (até 1975), 1975–1999: ocupação indonésia e a resistência, 1999–2002: transição até à restauração19702005anocolónia portuguesa(até 1975)ocupação indonésiae a resistênciatransição até àrestauração1975independência,depois invasão1999referendo deautodeterminação2002restauração daindependência
Fig. 1Fig. 1 — Timor-Leste, de 1975 a 2002: os vinte e sete anos entre a independência declarada a 28 de novembro de 1975 — a invasão indonésia chega nove dias depois, a 7 de dezembro — e a independência restaurada a 20 de maio de 2002, já depois do referendo de autodeterminação de 30 de agosto de 1999. É dentro da ocupação que o português se torna a língua da resistência.
É dentro da ocupação que se resolve a questão da língua, e este é o ponto mais importante da secção. Ao impor o indonésio como língua da administração e da escola, o ocupante empurrou o português para a clandestinidade: deixou de ser língua de poder e passou a ser a língua em que a resistência escrevia, comunicava internamente e se dava a conhecer no exterior. Tornou-se assim, no sentido exato do termo, uma língua de resistência — uma língua que assinala uma identidade distinta da do ocupante e que, precisamente por estar afastada do uso oficial, ganha valor político. É esta inversão, de herança colonial a escolha combatente, que explica em boa parte a decisão constitucional de 2002.
A Constituição de 2002 fixa o tétum e o português como línguas oficiais (ver Fig. 2). A escolha é frequentemente contestada com o argumento do número de falantes, mas o argumento decisivo é histórico e político: o português é a língua em que a nação se pensou e se defendeu durante a ocupação e a que liga Timor-Leste a uma comunidade internacional de países que apoiaram a sua causa. A par das oficiais, o indonésio e o inglês servem de línguas de trabalho, e as restantes línguas nacionais — veículo vivo da tradição oral — são valorizadas pelo Estado. Daqui decorre o perfil singular desta literatura: o corpus timorense escrito em português é pequeno e recente, pelo que as AE não pedem aqui um panorama de escolas e gerações, mas o cruzamento entre as matrizes da oralidade e a palavra escrita que acompanha a fundação da nação.

O estatuto das línguas em Timor-Leste

O estatuto das línguas em Timor-LesteTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Língua · Estatuto · Função dominante; Tétum · Língua oficial (Constituição de 2002) · Língua franca entre as comunidades do território; Português · Língua oficial (Constituição de 2002) · Administração, ensino e literatura escrita; foi a língua da resistência; Indonésio · Língua de trabalho, a par das oficiais · Imposto na ocupação; usado pelas gerações então escolarizadas; Inglês · Língua de trabalho, a par das oficiais · Relações externas e cooperação internacional; Outras línguas nacionais · Valorizadas e desenvolvidas pelo Estado · Uso comunitário e veículo vivo da tradição oral, célula destacada: Administração, ensino e literatura escrita; foi a língua da resistênciaLÍNGUAESTATUTOFUNÇÃO DOMINANTETÉTUMLíngua oficial (Constituiçãode 2002)Língua franca entre ascomunidades do territórioPORTUGUÊSLíngua oficial (Constituiçãode 2002)Administração, ensino eliteratura escrita; foi alíngua da resistênciaINDONÉSIOLíngua de trabalho, a pardas oficiaisImposto na ocupação; usadopelas gerações entãoescolarizadasINGLÊSLíngua de trabalho, a pardas oficiaisRelações externas ecooperação internacionalOUTRAS LÍNGUASNACIONAISValorizadas e desenvolvidaspelo EstadoUso comunitário e veículovivo da tradição oralDuas línguas oficiais, duas línguas de trabalho e opatrimónio das línguas nacionais.
Fig. 2Fig. 2 — O estatuto das línguas em Timor-Leste segundo a Constituição de 2002.
Exemplo resolvido

Da língua proibida à língua oficial

Um texto afirma que « o português é, em Timor-Leste, uma língua de resistência ». Explica o sentido histórico desta afirmação e a consequência constitucional que dela decorre.

  1. 01Situar o período

    A afirmação reporta-se à ocupação indonésia, entre a invasão de 7 de dezembro de 1975 e o referendo de 30 de agosto de 1999.

  2. 02Observar a política de língua

    Durante a ocupação foi imposto o indonésio; o português perdeu o uso oficial e passou a circular clandestinamente.

  3. 03Interpretar o valor adquirido

    Sendo a língua em que a resistência escrevia e se dava a conhecer no exterior, o português deixou de ser mera herança colonial para se tornar marca de identidade distinta da do ocupante.

  4. 04Tirar a consequência

    É em boa parte esse percurso que explica a Constituição de 2002 ter fixado o tétum e o português como línguas oficiais.

Resultado: Chamar ao português « língua de resistência » significa que, durante a ocupação indonésia de 1975 a 1999, período em que foi imposto o indonésio, o português se manteve como língua clandestina da luta e da comunicação com o exterior, tornando-se sinal de uma identidade distinta da do ocupante. É esse percurso — e não o número de falantes — que explica, em boa medida, a sua consagração como língua oficial, ao lado do tétum, na Constituição de 2002.

Foco no Exame Nacional

  • As avaliações internas exigem a cronologia com exatidão: colónia até 1975, independência declarada a 28 de novembro de 1975, invasão a 7 de dezembro de 1975, ocupação até 1999, referendo a 30 de agosto de 1999, restauração da independência a 20 de maio de 2002.
  • Explicar — e não apenas enunciar — a escolha do português como língua oficial: a imposição do indonésio fez dele a língua da resistência e da comunicação clandestina, e é esse percurso que sustenta a sua consagração, ao lado do tétum, na Constituição de 2002.
  • Distinguir as línguas oficiais (tétum e português) das línguas de trabalho (indonésio e inglês) e das restantes línguas nacionais, que são o veículo vivo da tradição oral.

Erros frequentes

  • Confundir a declaração de independência de 28 de novembro de 1975 com a restauração da independência de 20 de maio de 2002: são dois momentos separados por vinte e sete anos e por uma ocupação inteira.
  • Apresentar 1999 como o ano da independência: 1999 é o ano do referendo de autodeterminação, a 30 de agosto.
  • Dizer que o português se manteve por inércia colonial: durante a ocupação foi justamente a língua afastada do uso oficial, e é dessa condição de língua de resistência que lhe vem, em boa parte, o estatuto constitucional.
  • Tratar Timor-Leste como país africano ou incluí-lo nos PALOP: é o único país de língua oficial portuguesa da Ásia.

Revisão ativa

Elabora uma cronologia comentada de Timor-Leste entre 1975 e 2002, com as cinco datas essenciais, e acrescenta um parágrafo fundamentado que explique por que razão a Constituição de 2002 consagrou o português como língua oficial ao lado do tétum.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE)) · Literaturas de Língua Portuguesa — página curricular da disciplina (12.º ano) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

As matrizes da oralidade: lia-na'in, ai-knanoik e o mito do crocodilo#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-timor-leste

Pontos-chave

As Aprendizagens Essenciais falam, para Timor-Leste, de « matrizes da oralidade » — e a palavra matriz é exata: não se trata de folclore acrescentado à literatura, mas do molde de onde tudo o resto sai. A figura central desse molde é o « lia-na'in », literalmente o « dono » ou « senhor da palavra » (ver Fig. 4). É o guardião da tradição oral e do direito consuetudinário: guarda as genealogias, as narrativas de origem e as normas que regem a comunidade, e cabe-lhe dizer a palavra que resolve um conflito ou fixa um pacto. Não é, pois, um contador de histórias no sentido europeu — é ao mesmo tempo arquivo, jurista e narrador, e é essa acumulação que dá à palavra falada uma autoridade que a nossa noção de « literatura oral » não capta.

As matrizes da oralidade e as suas funções

As matrizes da oralidade e as suas funçõesGrafo, A palavra oral → lia-na'in, A palavra oral → ai-knanoik, A palavra oral → uma lulik, A palavra oral → tara bandu, ai-knanoik → dimensão exemplar, uma lulik → dimensão exemplar, lia-na'in → dimensão morigeradora, tara bandu → dimensão morigeradoraA palavraorallia-na'inai-knanoikuma luliktara bandudimensãoexemplardimensãomorigeradora
Fig. 4Fig. 4 — As matrizes da oralidade timorense e as duas dimensões apontadas pelas Aprendizagens Essenciais.
As narrativas tradicionais chamam-se « ai-knanoik ». Contam origens, antepassados, animais e a fundação das linhagens e dos lugares, e transmitem-se de voz em voz, sem autor individual: quem as diz não as inventa, recebe-as e volta a entregá-las. Existem por isso em versões variáveis — cada dizer é uma execução, com o seu ritmo e a sua adaptação ao auditório presente —, e a variação não é erro, é o modo de existência do texto, tal como a fórmula e a repetição não são pobreza mas técnicas de memória. Uma cautela metodológica importa aqui: os ai-knanoik são ditos em tétum e nas outras línguas nacionais e chegam ao leitor de língua portuguesa por recolha, tradução ou reelaboração — o que se lê em português é quase sempre um segundo estado do texto, e convém dizê-lo.
Duas instituições completam o quadro e mostram até que ponto a palavra oral é vinculativa. A « uma lulik », a casa sagrada, é o centro simbólico da linhagem: o lugar onde se guardam os objetos, a memória e a palavra do grupo, e a referência a que as narrativas de origem sempre regressam. O « tara bandu » é um interdito comunitário que regula o uso dos recursos — uma proibição proclamada perante a comunidade, que passa a valer como norma. Note-se o essencial: no tara bandu, a palavra dita não descreve a regra, faz a regra. Nenhuma outra ilustração torna tão concreta a tese das AE de que a oralidade timorense tem, além de valor estético, valor normativo.
É este par que as AE designam por dimensões « exemplares e morigeradoras », e vale a pena traduzi-lo com precisão, porque quase todos os erros nascem de o traduzir mal. Exemplar diz respeito ao modelo: a narrativa põe diante do ouvinte figuras cuja conduta se deve imitar e, por contraste, condutas a evitar. Morigeradora vem de morigerar, isto é, corrigir e moderar os costumes: a palavra oral não se limita a agradar ou a ensinar, intervém no comportamento da comunidade e endireita-o. Uma narrativa é exemplar pelo que mostra e morigeradora pelo que obriga; o lia-na'in e o tara bandu são os dois nomes concretos dessa obrigação.
O mito de origem mais divulgado da tradição timorense reúne tudo isto numa só história (ver Fig. 3). Um rapaz encontra um crocodilo em apuros e salva-o; em recompensa da sua bondade, o crocodilo transporta-o pelos mares; e, ao chegar o seu fim, transforma-se na própria ilha de Timor, cujo relevo montanhoso é o seu dorso. Daí o crocodilo ser tratado como « avô », antepassado da linhagem, e a ilha ser lida como corpo mítico e não apenas como território. Lido com os conceitos da secção, o mito funciona em três planos simultâneos: etiológico, porque explica a forma da ilha; genealógico, porque inscreve o crocodilo na ascendência do povo; e ético, porque faz da gratidão e da reciprocidade o vínculo fundador — e dele decorre uma regra de conduta efetivamente observada.

O mito de origem: o crocodilo que se fez ilha

1 · um rapaz salva um crocodilo encalhado 2 · em gratidão, este leva-o pelos mares 3 · ao morrer, torna-se a ilha de Timor o dorso do crocodilo é o relevo montanhoso da ilha « avô » — o crocodilo é tratado como antepassado; a ilha lê-se como corpo mítico. a narrativa fundadora mais divulgada da tradição timorense.
Fig. 3Fig. 3 — O mito do crocodilo: a narrativa fundadora mais divulgada da tradição timorense, em que o território é lido como corpo mítico.
Exemplo resolvido

Ler o mito do crocodilo com os conceitos das Aprendizagens Essenciais

Mostra de que modo o mito do crocodilo ilustra as « matrizes da oralidade, suas dimensões exemplares e morigeradoras » inscritas nas Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste.

  1. 01Resumir o núcleo narrativo

    Um rapaz salva um crocodilo em apuros; em recompensa da sua bondade, o crocodilo transporta-o pelos mares; ao chegar o seu fim, transforma-se na ilha de Timor, cujo relevo é o seu dorso.

  2. 02Reconhecer a função etiológica

    A narrativa explica a forma da ilha e fixa a leitura do território como corpo mítico, e não como simples espaço geográfico.

  3. 03Identificar a dimensão exemplar

    O rapaz age por compaixão e o crocodilo por gratidão: ambos são modelos de conduta oferecidos a quem ouve.

  4. 04Identificar a dimensão morigeradora

    Do mito decorre uma regra observada: o crocodilo é tratado como « avô », antepassado a respeitar — a narrativa orienta e corrige o comportamento da comunidade.

  5. 05Devolver o texto à sua matriz

    Transmitida pelo lia-na'in, guardião da tradição e do direito consuetudinário, a história não é entretenimento: é fundação do território e da linhagem, e é norma.

Resultado: O mito do crocodilo é exemplar porque propõe modelos de conduta — a compaixão do rapaz, a gratidão do crocodilo — e é morigerador porque dele decorre uma regra efetivamente cumprida: tratar o crocodilo como « avô », antepassado a respeitar. Explicando ao mesmo tempo a forma da ilha e a origem da linhagem, e sendo transmitido pelo lia-na'in, que detém também o direito consuetudinário, ilustra exatamente aquilo a que as Aprendizagens Essenciais chamam matrizes da oralidade nas suas dimensões exemplares e morigeradoras.

Schritt-für-Schritt Erklärung4 Schritte
  1. 1

    Antes de haver literatura escrita, há em Timor uma palavra que já tem autoridade. Chama-se lia-na'in a quem a guarda: literalmente, o dono ou senhor da palavra.

  2. 2

    O lia-na'in não é um contador de histórias. É guardião da tradição oral e do direito consuetudinário — arquivo, jurista e narrador na mesma pessoa. As narrativas que transmite são os ai-knanoik, contadas de voz em voz e sem autor.

  3. 3

    A comunidade tem ainda a uma lulik, a casa sagrada, e o tara bandu, o interdito que regula o uso dos recursos. E aqui está o essencial: no tara bandu, a palavra dita não descreve a regra — faz a regra.

  4. 4

    É isto que as Aprendizagens Essenciais chamam dimensões exemplares e morigeradoras: exemplar porque a narrativa dá modelos a imitar, morigeradora porque corrige e modera os costumes. Guarda o mito do crocodilo como exemplo de trabalho — explica a forma da ilha, fixa uma ascendência e impõe uma regra, tudo de uma vez.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar o que é um lia-na'in e por que razão a sua palavra tem força normativa: é o « dono da palavra », guardião da tradição oral e do direito consuetudinário, e não um mero contador de histórias.
  • Traduzir com exatidão o par das AE — « exemplar » (a narrativa propõe modelos de conduta) e « morigeradora » (a palavra corrige e regula os costumes) — e demonstrá-lo num texto concreto, como o mito do crocodilo ou a prática do tara bandu.
  • Analisar o mito do crocodilo em três planos articulados: etiológico (explica a forma da ilha), genealógico (o crocodilo como « avô ») e ético (a gratidão como vínculo fundador).

Erros frequentes

  • Traduzir « morigeradora » por « moralista » ou por um vago « moralizadora »: morigerar é corrigir e moderar os costumes, e a palavra oral timorense fá-lo com verdadeira força de norma — o tara bandu demonstra-o à letra.
  • Tomar os ai-knanoik por lendas pitorescas sem função: são narrativas com autoridade, ligadas à linhagem, à casa sagrada e ao direito consuetudinário.
  • Confundir « uma lulik » — a casa sagrada, centro simbólico da linhagem — com « tara bandu », que é o interdito comunitário regulador do uso dos recursos.
  • Reduzir o mito do crocodilo a uma explicação geográfica pitoresca, esquecendo que dele decorrem uma ascendência e uma regra de conduta.

Revisão ativa

Reconta por escrito o mito do crocodilo e comenta, em texto seguido, a sua dupla dimensão exemplar e morigeradora; termina explicando o que se perde e o que se ganha quando uma narrativa oral timorense passa à escrita em língua portuguesa.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

A palavra e a fundação da nação: Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-timor-leste

Pontos-chave

A segunda metade do eixo das Aprendizagens Essenciais — « literatura e fundação da nação independente » — descreve uma situação rara: em Timor-Leste, escrever em português não foi, durante décadas, uma carreira estética, mas um ato de consequências políticas imediatas. Escrevia-se num território ocupado, numa língua afastada do uso oficial, e o simples facto de o fazer afirmava uma identidade que o ocupante negava. Três figuras dão a este princípio três formas distintas e complementares (ver Fig. 5): Francisco Borja da Costa, Fernando Sylvan e Xanana Gusmão. O corpus é pequeno, e a sua força não está no número de títulos, mas na coincidência entre a palavra e a história de um país.

Três vozes e três gestos fundadores

Três vozes e três gestos fundadoresTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Autor · Datas · Gesto fundador; Francisco Borja da Costa · 1946–1975 · Escreveu a letra do hino nacional « Pátria, Pátria »; morto a 7 de dezembro de 1975, dia da invasão; Fernando Sylvan · 1917–1993 · Poeta e ensaísta radicado em Portugal; voz da reivindicação da identidade timorense durante a ocupação; Xanana Gusmão · n. 1946 · « Mar Meu » (Granito, Porto, 1998): poemas e pinturas feitos no cativeiro entre 1994 e 1996, com prefácio de Mia Couto, célula destacada: « Mar Meu » (Granito, Porto, 1998): poemas e pinturas feitos no cativeiro entre 1994 e 1996, com prefácio de Mia CoutoAUTORDATASGESTO FUNDADORFRANCISCO BORJA DACOSTA1946–1975Escreveu a letra do hinonacional « Pátria, Pátria »;morto a 7 de dezembro de1975, dia da invasãoFERNANDO SYLVAN1917–1993Poeta e ensaísta radicado emPortugal; voz dareivindicação da identidadetimorense durante a ocupaçãoXANANA GUSMÃOn. 1946« Mar Meu » (Granito, Porto,1998): poemas e pinturasfeitos no cativeiro entre1994 e 1996, com prefácio deMia CoutoA palavra que institui, a palavra que mantém e a palavra queresiste.
Fig. 5Fig. 5 — Três vozes da palavra fundadora timorense: o hino, a reivindicação no exílio e a poesia do cárcere.
Francisco Borja da Costa (1946–1975) é o autor da letra do hino nacional « Pátria, Pátria ». O seu caso é o exemplo mais literal da relação entre literatura e fundação: um texto poético torna-se símbolo de Estado, isto é, a palavra de um autor passa a ser a voz institucional de uma comunidade inteira. A biografia sela a leitura de forma quase insuportável — Borja da Costa foi morto a 7 de dezembro de 1975, precisamente no dia da invasão indonésia. As palavras que deu à nação sobreviveram-lhe, cantadas durante décadas enquanto o país que elas nomeavam não existia como Estado: é este descompasso entre o texto e o território que dá ao caso o seu alcance.
Fernando Sylvan (1917–1993) representa uma segunda forma da palavra fundadora, a que se faz à distância. Poeta e ensaísta timorense radicado em Portugal, foi ao longo da ocupação a voz da reivindicação da identidade timorense: escrevendo de fora, em português, manteve visível o nome de um território que a ocupação procurava apagar dos mapas e das consciências. A sua obra mostra que a literatura de uma nação pode ser escrita fora dela e que o exílio não é necessariamente perda de raiz, podendo ser posto de observação e caixa de ressonância. Um dado dá gravidade a esta figura e não deve ser omitido: Sylvan morreu em 1993, seis anos antes do referendo — reivindicou uma nação que não chegou a ver restaurada.
Xanana Gusmão (n. 1946) é o exemplo maior da ligação entre a palavra e a fundação da nação, porque nele os dois termos coincidem numa só pessoa (ver Fig. 6). Comandante das FALINTIL, esteve preso entre 1992 e 1999 e viria a ser o primeiro Presidente de Timor-Leste independente, entre 2002 e 2007. No cativeiro, entre 1994 e 1996, fez os poemas e as pinturas que constituem « Mar Meu », publicado pela editora Granito, no Porto, em 1998, com prefácio de Mia Couto. Cada elemento desta ficha conta: a escrita nasce na prisão, o livro é publicado fora de Timor porque dentro não poderia sê-lo, e sai quatro anos antes da restauração da independência — a palavra escrita antecede e prepara o Estado, em vez de o comemorar depois de feito.

« Mar Meu »: do cativeiro ao livro, do livro à nação

Xanana Gusmão, preso 1992–1999 poemas e pinturas feitos no cativeiro, 1994–1996 « Mar Meu » Granito, Porto, 1998 prefácio de Mia Couto primeiro Presidente de Timor-Leste independente 2002–2007 a palavra funda a nação o livro sai no Porto quatro anos antes da restauração da independência: a palavra escrita antecede e prepara o Estado.
Fig. 6Fig. 6 — « Mar Meu »: o livro sai em 1998, quatro anos antes da restauração da independência — a palavra escrita antecede o Estado.
O prefácio de Mia Couto merece comentário próprio. Ao ser apresentado por um escritor moçambicano, o livro timorense entra na rede das literaturas de língua portuguesa e ganha por ela circulação, leitores e voz internacional: a mesma língua que ligava a resistência ao exterior liga agora um poeta preso em Timor a um romancista de Moçambique — ilustração concreta do contributo da língua portuguesa para a ação e a intervenção cívicas. Guardem-se, por fim, duas cautelas simétricas: não reduzir estes textos a documentos históricos, pois são literatura e o comentário deve atender às imagens, ao ritmo e à construção; e não os ler como se tivessem sido escritos em tempo de paz, ignorando que parte do seu sentido vem da clandestinidade, do exílio e do cárcere.
Exemplo resolvido

« Mar Meu » como palavra fundadora

Explica por que razão « Mar Meu », de Xanana Gusmão, é apontado como o exemplo maior da ligação entre a palavra e a fundação da nação timorense.

  1. 01Situar o autor

    Xanana Gusmão (n. 1946) foi comandante das FALINTIL e esteve preso entre 1992 e 1999.

  2. 02Situar a obra

    « Mar Meu » reúne poemas acompanhados de pinturas, feitos no cativeiro entre 1994 e 1996, e foi publicado pela Granito, no Porto, em 1998.

  3. 03Ler as condições de produção

    A obra nasce na prisão e é publicada fora de Timor, porque dentro não poderia sê-lo: escrever é, num território ocupado, um ato de resistência, e o livro dá-lhe existência pública.

  4. 04Interpretar o prefácio como gesto

    O prefácio é assinado por Mia Couto, escritor moçambicano: o livro timorense entra na rede das literaturas de língua portuguesa e ganha por ela circulação e voz.

  5. 05Articular palavra e Estado

    Em 2002, o autor destes poemas torna-se o primeiro Presidente de Timor-Leste independente, cargo que exerce até 2007.

Resultado: « Mar Meu » é o exemplo maior porque nele coincidem, numa só figura e num intervalo de poucos anos, os três termos da questão: a palavra (poemas e pinturas feitos no cativeiro entre 1994 e 1996), a resistência (o autor é o comandante das FALINTIL, preso de 1992 a 1999) e a fundação do Estado (Xanana Gusmão será o primeiro Presidente de Timor-Leste independente, de 2002 a 2007). Publicado no Porto em 1998, quatro anos antes da restauração da independência, e prefaciado pelo moçambicano Mia Couto, o livro mostra ainda que a palavra timorense se apoia na solidariedade das outras literaturas de língua portuguesa.

Foco no Exame Nacional

  • Relacionar cada autor com o seu gesto fundador e com as datas exatas: Francisco Borja da Costa (1946–1975) e a letra do hino « Pátria, Pátria »; Fernando Sylvan (1917–1993) e a reivindicação da identidade a partir de Portugal; Xanana Gusmão e « Mar Meu » (Granito, Porto, 1998).
  • Situar « Mar Meu » com precisão: poemas acompanhados de pinturas, feitos no cativeiro entre 1994 e 1996, publicados em 1998 no Porto, com prefácio de Mia Couto — quatro anos antes da restauração da independência.
  • Explicar em que sentido a literatura participa aqui na fundação da nação sem converter os textos em meros documentos: valoriza-se quem parte de marcas literárias concretas e delas retira o alcance cívico e político.

Erros frequentes

  • Datar « Mar Meu » pelo tempo da escrita ou colocá-lo depois da independência: os poemas e as pinturas são feitos no cativeiro entre 1994 e 1996 e o livro é publicado em 1998, quatro anos antes de 2002.
  • Trocar as biografias — atribuir a Fernando Sylvan a experiência da guerrilha ou a Xanana Gusmão o exílio em Portugal: Sylvan foi poeta e ensaísta radicado em Portugal; Xanana foi comandante das FALINTIL e escreveu na prisão, onde esteve de 1992 a 1999.
  • Tomar Mia Couto por autor timorense: é moçambicano e assina o prefácio de « Mar Meu » — e é justamente o encontro entre duas literaturas de língua portuguesa que interessa comentar.
  • Escrever que Fernando Sylvan viveu para ver a independência restaurada: morreu em 1993, seis anos antes do referendo de 1999.

Revisão ativa

Redige um texto expositivo-argumentativo de 250 a 350 palavras que responda à pergunta « em que sentido se pode dizer que, em Timor-Leste, a literatura participou na fundação da nação independente? ». Fundamenta com, pelo menos, dois dos três autores estudados e com as respetivas datas.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Luís Cardoso e o romance da memória#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-timor-leste

Pontos-chave

Luís Cardoso (n. 1958) publicou em 1997 « Crónica de uma Travessia: A Época do Ai-Dik-Funam », habitualmente apontado como o primeiro romance timorense escrito em português. A fórmula deve ser usada com esta cautela — é uma atribuição corrente da crítica, e não um facto encerrado, como sucede sempre que se procura « o primeiro romance » de uma literatura. Mais importante do que o rótulo é o que o acontecimento significa: uma literatura que dispunha de uma poderosa tradição oral e de poesia passa a dispor também de prosa narrativa longa em português — o género que permite dar a uma comunidade uma história contada de dentro, com duração, personagens e memória. E ganha-o cinco anos antes de restaurar a independência.
A obra não ficou por esse título isolado, e é essa continuidade que faz de Luís Cardoso o principal romancista timorense em língua portuguesa (ver Fig. 7). Seguiram-se « Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo » (2001), « A Última Morte do Coronel Santiago » (2003), « Requiem para o Navegador Solitário » (2007) e « O Plantador de Abóboras » (2013). Um percurso de dezasseis anos sustentado por um único autor garante a presença romanesca de toda uma literatura — o que mede ao mesmo tempo a sua vitalidade e a sua fragilidade. Convém guardar títulos e datas com exatidão e resistir à tentação de acrescentar obras ao conjunto verificado.

A obra romanesca de Luís Cardoso

A obra romanesca de Luís CardosoLinha do tempo de 1995 a 2015, 1997: Crónica de uma Travessia, 2001: Olhos de Coruja, 2003: A Última Morte, 2007: Requiem, 2013: O Plantador de Abóboras, 1997–2013: o ciclo romanesco da memória19952015anoo ciclo romanescoda memória1997Crónica de umaTravessia2001Olhos de Coruja2003A Última Morte2007Requiem2013O Plantador deAbóboras
Fig. 7Fig. 7 — A obra romanesca de Luís Cardoso, de 1997 a 2013: dezasseis anos de um ciclo romanesco da memória timorense. Os cinco títulos, por extenso: « Crónica de uma Travessia: A Época do Ai-Dik-Funam » (1997), « Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo » (2001), « A Última Morte do Coronel Santiago » (2003), « Requiem para o Navegador Solitário » (2007) e « O Plantador de Abóboras » (2013).
Os núcleos temáticos regressam de livro para livro. A travessia é o primeiro: o deslocamento entre ilhas, entre Timor e Portugal, entre um tempo e outro, de tal modo que a viagem é simultaneamente o assunto e a forma de organizar a narrativa. A figura do pai é o segundo: guia e elo com a geração anterior, seguir-lhe os passos é percorrer a história do país. O leprosário é o terceiro: lugar concreto de confinamento e de separação, que se torna também imagem de um território posto à parte. E o quarto é a memória — a História de Timor não é narrada como crónica objetiva, mas como recordação parcial, fragmentária e situada, na voz de quem se lembra.
Esse quarto núcleo tem uma consequência formal decisiva: a História de Timor é contada em registo oral. As páginas de Luís Cardoso são escritas em português, impressas e assinadas, mas narram à maneira de quem fala — digressões que abrem histórias dentro da história, fios que se largam e se retomam adiante, repetições, a presença sensível de quem ouve. Ora este é exatamente o modo de contar da matriz estudada na secção anterior: a do lia-na'in e a dos ai-knanoik (ver Fig. 8). O romance escrito não substitui a oralidade; herda-a e conserva-a dentro de si, e é aqui que as duas metades do eixo das Aprendizagens Essenciais deixam de ser dois assuntos para se tornarem um só movimento.

A matriz oral e o romance escrito

A matriz oral e o romance escritoDiagrama de Venn com 2 conjuntos, A matriz oral (lia-na'in, ai-knanoik), O romance de Luís CardosoA matriz oral (lia-na'in, ai-knanoik)O romance de Luís Cardosovoz sem autorlivro assinadoregisto oral
Fig. 8Fig. 8 — O que o romance escrito herda da matriz oral: as duas metades do eixo das AE encontram-se aqui. Só do lado oral ficam a voz anónima e a pertença à comunidade; só do lado do romance, o livro impresso e assinado, escrito em português; em comum, o registo oral, isto é, contar a origem e guardar a memória da comunidade.
Contar a História pela memória e em voz é, além de um procedimento literário, uma tomada de posição: uma ocupação impõe a sua versão dos factos e retira a palavra a quem ocupa, e devolvê-la sob a forma de memória narrada — plural, encarnada, admitindo o esquecimento e a dúvida — é restituir à comunidade a autoridade sobre o seu passado. Para comentar uma página com método, siga-se uma ordem estável: identificar a situação de enunciação (quem recorda, de onde, para quem); levantar as marcas do registo oral; reconhecer o estrato histórico convocado; e só então interpretar, articulando forma e sentido. Duas advertências finais: não ler estes romances como autobiografia, ainda que a matéria seja próxima da biografia do autor, nem como manual de História — são ficção que trabalha a memória.
Exemplo resolvido

Comentar uma página em registo oral

Num excerto de romance timorense, um narrador conta a viagem do pai, interrompe-se para contar a história de um antepassado, dirige-se a quem o ouve e retoma depois o fio da viagem. Comenta o excerto, articulando-o com o eixo das Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste.

  1. 01Identificar a situação de enunciação

    Quem fala é alguém que recorda e conta a outrem: a narração organiza-se como memória dita, e não como crónica escrita e impessoal.

  2. 02Levantar as marcas do registo oral

    A digressão, a história encaixada sobre o antepassado, a apóstrofe a quem ouve e a retoma do fio da viagem são procedimentos próprios da narração falada.

  3. 03Reconhecer a matriz timorense

    Este modo de contar reproduz o do lia-na'in e o dos ai-knanoik: narrativa transmitida pela voz, com auditório presente e com a autoridade da tradição.

  4. 04Ler o tema

    A viagem do pai concentra dois núcleos centrais de Luís Cardoso — a travessia e a figura paterna —, a par do leprosário e da memória da História de Timor.

  5. 05Interpretar o alcance

    Contar a História pela memória, e em voz, devolve a palavra a uma comunidade a quem a ocupação a retirara: a forma é, ela própria, um gesto de fundação.

Resultado: O excerto é narrado por alguém que recorda e conta em voz alta, e as suas marcas — digressão, história encaixada, apóstrofe ao ouvinte, retoma do fio — são procedimentos da narração oral, herdados da matriz do lia-na'in e dos ai-knanoik. Sobre esse molde constroem-se o motivo da travessia e a figura do pai, centrais em Luís Cardoso, e conta-se a História de Timor não como crónica objetiva mas como memória situada. Juntam-se assim as duas metades do eixo das Aprendizagens Essenciais: as matrizes da oralidade, com a sua autoridade exemplar e morigeradora, passam para dentro do romance escrito em português, e a memória narrada torna-se ela mesma uma forma de fundar a nação.

Foco no Exame Nacional

  • Apresentar « Crónica de uma Travessia: A Época do Ai-Dik-Funam » (1997) como o romance habitualmente apontado como o primeiro romance timorense escrito em português — uma atribuição corrente da crítica, e não um facto fechado.
  • Identificar num excerto as marcas do registo oral — digressão, história dentro da história, retoma do fio, presença de um ouvinte — e explicar-lhes a função: é aqui que o comentário literário se distingue do resumo.
  • Relacionar explicitamente as duas metades do eixo das AE, mostrando como a matriz da oralidade sobrevive dentro do romance escrito e como a memória narrada participa da construção da nação.

Erros frequentes

  • Afirmar sem reservas que « Crónica de uma Travessia » é « o primeiro romance timorense »: é a atribuição habitual da crítica, deve dizer-se com essa cautela e acrescentar sempre « escrito em português ».
  • Trocar as datas das obras ou acrescentar títulos inventados: o conjunto verificado tem cinco romances, de 1997 a 2013, e é o que consta da Fig. 7.
  • Confundir registo oral com falta de elaboração: a oralidade do romance é um efeito construído com meios literários, e não descuido de escrita.
  • Ler os romances como autobiografia do autor ou como manual de História de Timor: são ficção que trabalha a memória.

Revisão ativa

Comenta um excerto narrativo de Luís Cardoso: identifica a situação de enunciação (quem recorda, de onde e para quem), levanta três marcas do registo oral e explica de que modo elas põem a matriz da oralidade timorense ao serviço da memória da nação.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Timor-Leste: história e línguas, da colónia à nação independente○
    • 02As matrizes da oralidade: lia-na'in, ai-knanoik e o mito do crocodilo◐
    • 03A palavra e a fundação da nação: Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão◐
    • 04Luís Cardoso e o romance da memória●

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Dos resumos à prática

Literatura Timorense em língua portuguesa

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~28
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Competências
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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano
  • Literaturas de Língua Portuguesa — página curricular da disciplina (12.º ano)

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