EuraStudy
Timor-Leste foi colónia portuguesa até 1975, declarou a independência a 28 de novembro de 1975 e foi invadido pela Indonésia nove dias depois; a ocupação, que durou até 1999, fez do português uma língua de resistência e de comunicação clandestina — o que explica em boa parte a sua escolha, ao lado do tétum, como língua oficial na Constituição de 2002. O eixo das Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste tem duas metades que só juntas se entendem: « literatura e fundação da nação independente », com Francisco Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão e Luís Cardoso, e as « matrizes da oralidade, suas dimensões exemplares e morigeradoras », em que o lia-na'in, os ai-knanoik e o mito do crocodilo dão à palavra falada verdadeira força de norma. Literaturas de Língua Portuguesa é disciplina anual de opção do 12.º ano, avaliada exclusivamente por avaliação interna: não tem Exame Final Nacional, pelo que cada secção traz um « foco de avaliação ».
4 secções~28 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Fixar a cronologia de 1975 a 2002, o estatuto das línguas e o quem-é-quem timorense — Francisco Borja da Costa, Fernando Sylvan, Xanana Gusmão e Luís Cardoso — e saber contar o mito do crocodilo.
nível avançado
Articular as duas metades do eixo das AE, mostrando em textos concretos como a matriz oral, exemplar e morigeradora, passa para dentro da palavra escrita que funda a nação independente.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Timor-Leste, de 1975 a 2002
O estatuto das línguas em Timor-Leste
Um texto afirma que « o português é, em Timor-Leste, uma língua de resistência ». Explica o sentido histórico desta afirmação e a consequência constitucional que dela decorre.
A afirmação reporta-se à ocupação indonésia, entre a invasão de 7 de dezembro de 1975 e o referendo de 30 de agosto de 1999.
Durante a ocupação foi imposto o indonésio; o português perdeu o uso oficial e passou a circular clandestinamente.
Sendo a língua em que a resistência escrevia e se dava a conhecer no exterior, o português deixou de ser mera herança colonial para se tornar marca de identidade distinta da do ocupante.
É em boa parte esse percurso que explica a Constituição de 2002 ter fixado o tétum e o português como línguas oficiais.
Resultado: Chamar ao português « língua de resistência » significa que, durante a ocupação indonésia de 1975 a 1999, período em que foi imposto o indonésio, o português se manteve como língua clandestina da luta e da comunicação com o exterior, tornando-se sinal de uma identidade distinta da do ocupante. É esse percurso — e não o número de falantes — que explica, em boa medida, a sua consagração como língua oficial, ao lado do tétum, na Constituição de 2002.
Erros frequentes
Revisão ativa
Elabora uma cronologia comentada de Timor-Leste entre 1975 e 2002, com as cinco datas essenciais, e acrescenta um parágrafo fundamentado que explique por que razão a Constituição de 2002 consagrou o português como língua oficial ao lado do tétum.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE)) · Literaturas de Língua Portuguesa — página curricular da disciplina (12.º ano) (Direção-Geral da Educação (DGE))
As matrizes da oralidade e as suas funções
O mito de origem: o crocodilo que se fez ilha
Mostra de que modo o mito do crocodilo ilustra as « matrizes da oralidade, suas dimensões exemplares e morigeradoras » inscritas nas Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste.
Um rapaz salva um crocodilo em apuros; em recompensa da sua bondade, o crocodilo transporta-o pelos mares; ao chegar o seu fim, transforma-se na ilha de Timor, cujo relevo é o seu dorso.
A narrativa explica a forma da ilha e fixa a leitura do território como corpo mítico, e não como simples espaço geográfico.
O rapaz age por compaixão e o crocodilo por gratidão: ambos são modelos de conduta oferecidos a quem ouve.
Do mito decorre uma regra observada: o crocodilo é tratado como « avô », antepassado a respeitar — a narrativa orienta e corrige o comportamento da comunidade.
Transmitida pelo lia-na'in, guardião da tradição e do direito consuetudinário, a história não é entretenimento: é fundação do território e da linhagem, e é norma.
Resultado: O mito do crocodilo é exemplar porque propõe modelos de conduta — a compaixão do rapaz, a gratidão do crocodilo — e é morigerador porque dele decorre uma regra efetivamente cumprida: tratar o crocodilo como « avô », antepassado a respeitar. Explicando ao mesmo tempo a forma da ilha e a origem da linhagem, e sendo transmitido pelo lia-na'in, que detém também o direito consuetudinário, ilustra exatamente aquilo a que as Aprendizagens Essenciais chamam matrizes da oralidade nas suas dimensões exemplares e morigeradoras.
Antes de haver literatura escrita, há em Timor uma palavra que já tem autoridade. Chama-se lia-na'in a quem a guarda: literalmente, o dono ou senhor da palavra.
O lia-na'in não é um contador de histórias. É guardião da tradição oral e do direito consuetudinário — arquivo, jurista e narrador na mesma pessoa. As narrativas que transmite são os ai-knanoik, contadas de voz em voz e sem autor.
A comunidade tem ainda a uma lulik, a casa sagrada, e o tara bandu, o interdito que regula o uso dos recursos. E aqui está o essencial: no tara bandu, a palavra dita não descreve a regra — faz a regra.
É isto que as Aprendizagens Essenciais chamam dimensões exemplares e morigeradoras: exemplar porque a narrativa dá modelos a imitar, morigeradora porque corrige e modera os costumes. Guarda o mito do crocodilo como exemplo de trabalho — explica a forma da ilha, fixa uma ascendência e impõe uma regra, tudo de uma vez.
Erros frequentes
Revisão ativa
Reconta por escrito o mito do crocodilo e comenta, em texto seguido, a sua dupla dimensão exemplar e morigeradora; termina explicando o que se perde e o que se ganha quando uma narrativa oral timorense passa à escrita em língua portuguesa.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Três vozes e três gestos fundadores
« Mar Meu »: do cativeiro ao livro, do livro à nação
Explica por que razão « Mar Meu », de Xanana Gusmão, é apontado como o exemplo maior da ligação entre a palavra e a fundação da nação timorense.
Xanana Gusmão (n. 1946) foi comandante das FALINTIL e esteve preso entre 1992 e 1999.
« Mar Meu » reúne poemas acompanhados de pinturas, feitos no cativeiro entre 1994 e 1996, e foi publicado pela Granito, no Porto, em 1998.
A obra nasce na prisão e é publicada fora de Timor, porque dentro não poderia sê-lo: escrever é, num território ocupado, um ato de resistência, e o livro dá-lhe existência pública.
O prefácio é assinado por Mia Couto, escritor moçambicano: o livro timorense entra na rede das literaturas de língua portuguesa e ganha por ela circulação e voz.
Em 2002, o autor destes poemas torna-se o primeiro Presidente de Timor-Leste independente, cargo que exerce até 2007.
Resultado: « Mar Meu » é o exemplo maior porque nele coincidem, numa só figura e num intervalo de poucos anos, os três termos da questão: a palavra (poemas e pinturas feitos no cativeiro entre 1994 e 1996), a resistência (o autor é o comandante das FALINTIL, preso de 1992 a 1999) e a fundação do Estado (Xanana Gusmão será o primeiro Presidente de Timor-Leste independente, de 2002 a 2007). Publicado no Porto em 1998, quatro anos antes da restauração da independência, e prefaciado pelo moçambicano Mia Couto, o livro mostra ainda que a palavra timorense se apoia na solidariedade das outras literaturas de língua portuguesa.
Erros frequentes
Revisão ativa
Redige um texto expositivo-argumentativo de 250 a 350 palavras que responda à pergunta « em que sentido se pode dizer que, em Timor-Leste, a literatura participou na fundação da nação independente? ». Fundamenta com, pelo menos, dois dos três autores estudados e com as respetivas datas.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
A obra romanesca de Luís Cardoso
A matriz oral e o romance escrito
Num excerto de romance timorense, um narrador conta a viagem do pai, interrompe-se para contar a história de um antepassado, dirige-se a quem o ouve e retoma depois o fio da viagem. Comenta o excerto, articulando-o com o eixo das Aprendizagens Essenciais para Timor-Leste.
Quem fala é alguém que recorda e conta a outrem: a narração organiza-se como memória dita, e não como crónica escrita e impessoal.
A digressão, a história encaixada sobre o antepassado, a apóstrofe a quem ouve e a retoma do fio da viagem são procedimentos próprios da narração falada.
Este modo de contar reproduz o do lia-na'in e o dos ai-knanoik: narrativa transmitida pela voz, com auditório presente e com a autoridade da tradição.
A viagem do pai concentra dois núcleos centrais de Luís Cardoso — a travessia e a figura paterna —, a par do leprosário e da memória da História de Timor.
Contar a História pela memória, e em voz, devolve a palavra a uma comunidade a quem a ocupação a retirara: a forma é, ela própria, um gesto de fundação.
Resultado: O excerto é narrado por alguém que recorda e conta em voz alta, e as suas marcas — digressão, história encaixada, apóstrofe ao ouvinte, retoma do fio — são procedimentos da narração oral, herdados da matriz do lia-na'in e dos ai-knanoik. Sobre esse molde constroem-se o motivo da travessia e a figura do pai, centrais em Luís Cardoso, e conta-se a História de Timor não como crónica objetiva mas como memória situada. Juntam-se assim as duas metades do eixo das Aprendizagens Essenciais: as matrizes da oralidade, com a sua autoridade exemplar e morigeradora, passam para dentro do romance escrito em português, e a memória narrada torna-se ela mesma uma forma de fundar a nação.
Erros frequentes
Revisão ativa
Comenta um excerto narrativo de Luís Cardoso: identifica a situação de enunciação (quem recorda, de onde e para quem), levanta três marcas do registo oral e explica de que modo elas põem a matriz da oralidade timorense ao serviço da memória da nação.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes