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Resumos/Literaturas de Língua Portuguesa/Literatura Portuguesa contemporânea (séc. XIX–XX)
Resumos · Literaturas de Língua PortuguesaPT · Secundário

Literatura Portuguesa contemporânea (séc. XIX–XX)

Esta é a unidade que fecha o programa e a que lhe dá sentido de conjunto: a literatura portuguesa contemporânea entra aqui como termo de comparação de tudo o que foi estudado antes. Das raízes oitocentistas — a Geração de 70 e o olhar urbano de Cesário Verde — à revolução de «Orpheu» (1915) e à heteronímia de Pessoa, do Neorrealismo e do Surrealismo sob o Estado Novo às grandes vozes poéticas do século e à ficção posterior ao 25 de Abril de 1974 — Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge —, o percurso desemboca no espaço literário partilhado da língua portuguesa, com a guerra colonial por tema comum e o Prémio Camões e a CPLP por instituições comuns. Literaturas de Língua Portuguesa é uma disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional: o que se avalia é a leitura analítica do texto, o comentário literário fundamentado e a comparação intercultural sustentada.

4 secções·~31 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·121212 / 12
Perfil de exame
Situar as raízes oitocentistas e modernistas da literatura portuguesa contemporâneaCaracterizar o Neorrealismo e o Surrealismo sob o Estado NovoReconhecer as grandes vozes poéticas do século XX portuguêsRelacionar a literatura portuguesa posterior a 1974 com as literaturas dos restantes países de língua portuguesa — competência aferida apenas por avaliação interna, uma vez que a disciplina não tem Exame Final Nacional
Operadores:analisainterpretarelacionacomparacomentajustificacaracterizasitua

nível básico

Situar as grandes etapas da literatura portuguesa contemporânea — Geração de 70, «Orpheu», Neorrealismo, Surrealismo, o pós-25 de Abril — associando a cada autor uma obra e a sua data.

nível avançado

Comparar, a partir de marcas textuais concretas, a literatura portuguesa contemporânea com as restantes literaturas de língua portuguesa, sobretudo em torno da guerra colonial e das instituições que este espaço partilha.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

Tamanho do texto: Padrão

Conteúdo · 4 secções▾
  1. Literatura Portuguesa contemporânea (séc. XIX–XX)
    • 01Raízes: de Cesário e Eça a «Orpheu»○
    • 02Sob o Estado Novo: do Neorrealismo ao Surrealismo◐
    • 03As grandes vozes poéticas do século XX◐
    • 04Depois de Abril: Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge e o espaço literário da língua portuguesa●
§ 01

Raízes: de Cesário e Eça a «Orpheu»#

●○○BaseLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-portugal-contemporanea

Pontos-chave

A literatura portuguesa contemporânea não começa no século XX: começa quando uma geração decide olhar o país de frente e diagnosticá-lo. Em 1871, jovens saídos de Coimbra organizam em Lisboa as Conferências do Casino — Antero de Quental fala das causas da decadência dos povos peninsulares e Eça de Queirós defende o Realismo como nova expressão da arte —, e o ciclo é interrompido por ordem do Governo. O monumento narrativo desta geração é «Os Maias» (1888), de Eça de Queirós (1845–1900): a história de uma família que se extingue serve de radiografia à Lisboa do tempo, e a arma é a ironia — o narrador não acusa, deixa que as personagens se denunciem pela boca própria. Quando, cem anos depois, Saramago e Lobo Antunes fizerem outra vez da história de famílias a história do país, será a esta matriz que estarão a responder (ver Fig. 1).

Das raízes oitocentistas ao segundo modernismo

Das raízes oitocentistas ao segundo modernismoLinha do tempo de 1865 a 1940, 1871: Conferências do Casino, 1887: «O Livro de Cesário Verde», 1888: «Os Maias», 1915: «Orpheu», 1927: Revista «presença», 1934: «Mensagem», 1865–1900: Geração de 70: o Realismo, 1915–1927: Primeiro modernismo, 1927–1940: Segundo modernismo18651940anoGeração de 70: oRealismoPrimeiromodernismoSegundo modernismo1871Conferências doCasino1887«O Livro deCesário Verde»1888«Os Maias»1915«Orpheu»1927Revista«presença»1934«Mensagem»
Fig. 1Fig. 1 — As datas-marco das raízes: de 1871 a 1934.
A outra raiz é lírica: Cesário Verde (1855–1886), que publicou pouco em vida e morreu novo — a sua obra chegou aos leitores em «O Livro de Cesário Verde», reunido postumamente em 1887. O que aí se inaugura é um olhar: o poeta caminha pela cidade e regista o que vê — vendedeiras, calceteiros, armazéns, o cheiro do peixe, a luz crua da manhã —, substituindo o sentimento romântico pela notação concreta e pelo pormenor prosaico. Em « O Sentimento dum Ocidental », Lisboa é percorrida ao anoitecer e transformada em experiência moderna, feita de fadiga, de ruído e de mercadoria. A crítica reconhece nesta lição — ver a cidade sem a idealizar, dizer as coisas pelo nome — um antepassado direto do modo como Pessoa e os seus heterónimos olharão o mundo.
Em 1915 saem em Lisboa os dois únicos números da revista «Orpheu» — um terceiro ficou por publicar — e a literatura portuguesa muda de século. Nela escrevem Fernando Pessoa (1888–1935), Mário de Sá-Carneiro (1890–1916) e Almada Negreiros, poeta, pintor e provocador; o escândalo é imediato e a imprensa trata os autores de loucos. O programa é o do sensacionismo: a poesia não descreve o mundo, regista sensações; o verso liberta-se da métrica e do assunto, as imagens sobrepõem-se por interseção, o eu multiplica-se. Sá-Carneiro, morto em Paris aos vinte e cinco anos, levou ao extremo a despersonalização — em «Dispersão» e na novela «A Confissão de Lúcio», o sujeito perde-se de si e assiste, impotente, à sua própria dissolução.
O gesto central do Modernismo português é a heteronímia: Pessoa não usa pseudónimos — inventa poetas, com biografia, mestre, doutrina e estilo próprios, e fá-los discutir entre si (ver Fig. 2). Alberto Caeiro é o mestre, o poeta do olhar que recusa pensar e quer ver as coisas como elas são, em verso solto e vocabulário nu; Ricardo Reis escreve odes de medida clássica, herdeiro de Horácio, e aconselha o desapego perante um destino que se não domina; Álvaro de Campos é o engenheiro futurista da « Ode Marítima », que virá a acabar, em « Tabacaria », a uma janela, a declarar-se nada diante da vida que não viveu. Ao lado deles escreve o ortónimo, poeta da inteligência e do fingimento. De toda esta obra, Pessoa só publicou em livro, em português e em vida, «Mensagem» (1934): o resto saiu em revistas e ficou numa arca.

A heteronímia de Fernando Pessoa

A heteronímia de Fernando PessoaDiagrama em árvore, 4 caminhos, Dados: o mestre; discípulo; discípulo; o fingimentoo mestrediscípulodiscípuloo fingimentoFernando Pessoa (1888–1935)Alberto Caeiro — o olhar sem filosofiaRicardo Reis — a ode clássicaÁlvaro de Campos — « Ode Marítima »Ortónimo — «Mensagem» (1934)
Fig. 2Fig. 2 — A heteronímia: vários poetas num só autor. Reis e Campos são discípulos de Caeiro, o mestre; « Tabacaria » é o outro grande poema de Campos.
Doze anos depois de «Orpheu», em 1927, um grupo de Coimbra funda a revista «presença» e abre o segundo modernismo. José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca defendem a « literatura viva » — a que nasce de uma necessidade interior — contra a « literatura livresca » dos que escrevem por ofício e por imitação. Em « Cântico Negro », Régio faz desse individualismo um princípio: à voz que lhe indica o caminho já traçado, o poeta responde que segue o seu, ainda que sem saber para onde vai. À «presença» deve-se ainda um serviço decisivo — foi ela que leu, divulgou e consagrou os poetas de «Orpheu»: é em grande parte por «presença» que Pessoa deixa de ser um excêntrico e passa a ser um clássico. É contra o esteticismo desta geração que reagirá o Neorrealismo.
Exemplo resolvido

Identificar um heterónimo pelas marcas do texto

Um poema, em verso livre muito longo e em tom de desabafo, é dito por alguém que está a uma janela, olha a tabacaria do outro lado da rua e faz o balanço de tudo o que sonhou ser e não foi, oscilando entre a grandeza imaginada e a consciência de nada ser. Quem fala, e em que fase da sua poética?

  1. 01Observar a forma

    O verso livre longo, sem métrica fixa, e a sintaxe de conversa apontam para Álvaro de Campos: Caeiro é sóbrio e direto, Reis usa a estrofe curta e a medida clássica.

  2. 02Observar o cenário

    A janela, a rua, a loja em frente: é o quotidiano urbano, matéria que Caeiro (o campo, o rebanho) e Reis (o jardim, o rio, os deuses) não frequentam.

  3. 03Observar o movimento interior

    A oscilação entre a megalomania do sonho e a declaração de que nada se é corresponde ao Campos tardio, já sem o entusiasmo futurista — é o poema « Tabacaria ».

  4. 04Concluir

    Trata-se do Campos da fase do desengano: a mesma capacidade de sentir tudo de todas as maneiras, agora virada contra si própria.

Resultado: Fala Álvaro de Campos, no poema « Tabacaria », já na fase tardia e desenganada da sua poética: o verso livre longo, o cenário urbano visto da janela e a queda da grandeza sonhada na consciência do nada distinguem-no de Caeiro e de Reis e afastam-no do arrebatamento futurista da « Ode Marítima ».

Foco no Exame Nacional

  • Fixar as datas-âncora: 1871 (Conferências do Casino), 1887 («O Livro de Cesário Verde», póstumo), 1888 («Os Maias»), 1915 («Orpheu»), 1927 («presença»), 1934 («Mensagem»).
  • Distinguir os três heterónimos maiores por marcas do texto — verso, léxico, atitude perante o mundo — e não pela biografia que Pessoa lhes inventou.
  • Justificar com um traço concreto por que razão Cesário Verde é raiz da modernidade poética: o comentário literário só vale se apontar o lugar do texto que o sustenta.

Erros frequentes

  • Confundir «Orpheu» (Lisboa, 1915) com a Semana de Arte Moderna (São Paulo, 1922): são dois modernismos distintos, com sete anos e um oceano de permeio.
  • Tratar os heterónimos como pseudónimos. Um pseudónimo é um nome; um heterónimo é um poeta com obra, estilo e doutrina próprios.
  • Dizer que «Mensagem» foi o único livro que Pessoa publicou em vida: foi o único livro de poemas em português que publicou em vida.

Revisão ativa

Explica, em cerca de quinze linhas, em que sentido a literatura portuguesa contemporânea tem duas raízes oitocentistas distintas — a crítica social da Geração de 70 e o olhar urbano de Cesário Verde — e mostra, com um traço de cada uma, como ambas desembocam no Modernismo de «Orpheu».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Sob o Estado Novo: do Neorrealismo ao Surrealismo#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-portugal-contemporanea

Pontos-chave

Entre 1933 e 1974, Portugal vive sob o Estado Novo: regime autoritário, com censura prévia à imprensa e ao livro, polícia política e partido único. Escrever passa a ser uma operação de contrabando — o autor sabe que o lápis do censor lhe corta as frases explícitas e aprende a dizer pela alusão, pela paisagem, pela personagem que não conclui. Daqui vem um traço que atravessa meio século de literatura portuguesa: a densidade do implícito, a arte de fazer o leitor completar o que a página não pode enunciar. Nas décadas de 1930 e 1940, essa pressão produz duas respostas opostas e igualmente radicais — o Neorrealismo, que responde com a realidade, e o Surrealismo, que responde com o sonho (ver Fig. 3).

Duas respostas à mesma censura

Duas respostas à mesma censuraTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Aspeto · Neorrealismo (desde 1939) · Surrealismo (desde 1947); Matéria · O trabalho, a fome, a exploração · O sonho, o acaso, o desejo; Protagonista · O grupo, a classe, a região · O eu que se liberta da razão; Linguagem · Sóbria, documental, com léxico regional · Imagem insólita, colagem, escrita automática; Modelo externo · O romance brasileiro dos anos 30 · O surrealismo francês do entre-guerras; Arma contra o regime · A denúncia e o testemunho · O humor, o disparate, a provocação; Obras e marcos · «Gaibéus» (1939), «Esteiros» (1941), «Seara de Vento» (1958) · Grupo Surrealista de Lisboa (1947), célula destacada: O romance brasileiro dos anos 30ASPETONEORREALISMO (DESDE1939)SURREALISMO (DESDE1947)MATÉRIAO trabalho, a fome, aexploraçãoO sonho, o acaso, o desejoPROTAGONISTAO grupo, a classe, a regiãoO eu que se liberta da razãoLINGUAGEMSóbria, documental, comléxico regionalImagem insólita, colagem,escrita automáticaMODELO EXTERNOO romance brasileiro dosanos 30O surrealismo francês doentre-guerrasARMA CONTRA OREGIMEA denúncia e o testemunhoO humor, o disparate, aprovocaçãoOBRAS E MARCOS«Gaibéus» (1939), «Esteiros»(1941), «Seara de Vento»(1958)Grupo Surrealista de Lisboa(1947)Duas estratégias contra a mesma censura.
Fig. 3Fig. 3 — Neorrealismo e Surrealismo: o que os separa.
O Neorrealismo entra na literatura portuguesa com «Gaibéus» (1939), de Alves Redol, unanimemente tomado como marco inaugural. Gaibéus eram os trabalhadores que desciam sazonalmente à lezíria do Ribatejo para a ceifa do arroz, e é deles — e não de um herói individual — que o livro trata: o protagonista é o grupo, apanhado no trabalho, na fome e na exploração. A nota de abertura vale por um manifesto: Redol anuncia que o romance não pretende ficar na literatura como obra de arte, mas antes valer como documentário humano fixado numa região. Esta subordinação declarada da estética à função é a marca — e o limite — do primeiro Neorrealismo.
A geração seguinte alarga o mapa social do país: «Esteiros» (1941), de Soeiro Pereira Gomes, acompanha crianças que trabalham nos telheiros de barro em vez de irem à escola, e dedica o livro aos filhos dos homens que nunca foram meninos; «Retalhos da Vida de um Médico» (1949), de Fernando Namora, ele próprio médico, escolhe o ângulo de quem entra nas casas dos pobres por dever de ofício; «Seara de Vento» (1958), de Manuel da Fonseca, leva a denúncia ao Alentejo do latifúndio. Ao longo destes quase vinte anos, o documento cede terreno à construção romanesca. E nem toda a ficção do período coube no programa: Vergílio Ferreira, que começara neorrealista, rompe com o grupo e caminha para uma ficção de interrogação existencial, de que «Aparição» (1959) é o livro-charneira, e Agustina Bessa-Luís abre com «A Sibila» (1954) uma terceira via — saga de matriarcado nortenho, em prosa densa e quase oral, onde o tempo é cíclico e o saber das mulheres vale mais do que a cronologia.
Aqui está a comparação de maior alcance que esta disciplina permite. O romance regionalista brasileiro dos anos 30 — a ficção do Nordeste, da seca e do engenho — foi referência declarada da geração neorrealista portuguesa. Ora, foi esse mesmo modelo que, três anos antes de «Gaibéus», inspirou o grupo da revista «Claridade», fundada em 1936 no Mindelo, na ilha de São Vicente, por Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa. Um único modelo atravessa o Atlântico duas vezes e produz duas literaturas diferentes: em Cabo Verde, a ilha, a estiagem e o dilema de partir ou ficar; em Portugal, a lezíria, o telheiro e o latifúndio (ver Fig. 4). A conclusão é metodológica: as literaturas de língua portuguesa não se organizam por irradiação de Portugal — organizam-se por circulação, e aqui o centro emissor foi o Brasil.

O modelo brasileiro dos anos 30 atravessa o Atlântico

«Claridade» — Mindelo, 1936a ilha e a estiagem«Gaibéus» — Portugal, 1939a lezíria e o trabalhoduas literaturas diferentes do mesmo modeloCabo Verde precede Portugal em três anosRomance regionalista brasileiro(anos 30)
Fig. 4Fig. 4 — Um mesmo modelo, duas literaturas: «Claridade» (1936) e «Gaibéus» (1939).
A outra resposta ao Estado Novo é o Surrealismo, que se organiza em 1947 com o Grupo Surrealista de Lisboa, tendo entre os seus nomes Mário Cesariny e Alexandre O'Neill. A recusa é dupla: recusa a ordem, a moral e a retórica patriótica do regime, mas recusa igualmente o didatismo do Neorrealismo, em que vê uma literatura de tese, prisioneira da mensagem. Em lugar do documento, o sonho, o acaso, a escrita automática, a colagem de imagens impossíveis; em lugar da indignação séria, o humor e o disparate como instrumentos de subversão. Cesariny fez desta atitude uma vida inteira de dissidência; O'Neill cedo seguiu caminho próprio, levando o humor surrealista para uma poesia coloquial e irónica. Sob censura, rir pode ser mais eficaz do que argumentar — o riso não se deixa apreender pelo lápis azul com a facilidade da denúncia direta.
Exemplo resolvido

Atribuir um excerto a uma corrente

Um excerto de romance português publicado no fim da década de 1930 descreve um bando de ceifeiros que chega de madrugada a uma lezíria; ninguém tem estatuto de herói, o narrador conta em terceira pessoa e sem comentários, e o vocabulário é o do trabalho e da região. A que corrente pertence, com que obra se inaugura essa corrente e que modelo estrangeiro a inspirou?

  1. 01Observar o protagonista

    Não há herói individual: quem age é o bando, o grupo de trabalhadores. O protagonista coletivo é a assinatura do Neorrealismo.

  2. 02Observar o narrador e o léxico

    A terceira pessoa sóbria, sem comentário, e o vocabulário do trabalho e da região confirmam a intenção documental.

  3. 03Datar e nomear o marco

    O fim da década de 1930 e a lezíria do Ribatejo remetem para «Gaibéus» (1939), de Alves Redol, marco inaugural da corrente.

  4. 04Identificar o modelo

    A geração declarou a sua dívida ao romance regionalista brasileiro dos anos 30 — o mesmo modelo que, em 1936, tinha inspirado a «Claridade» cabo-verdiana.

Resultado: O excerto é neorrealista: o protagonista coletivo, o narrador sóbrio e o léxico do trabalho identificam a corrente, que se inaugura com «Gaibéus» (1939), de Alves Redol, e que teve por modelo declarado o romance regionalista brasileiro dos anos 30 — o mesmo que inspirara, em 1936, a revista «Claridade», no Mindelo.

Foco no Exame Nacional

  • Justificar por que razão «Gaibéus» (1939) é o marco inaugural do Neorrealismo: o protagonista coletivo, a matéria do trabalho e a nota de abertura que subordina a arte ao documento.
  • Distinguir o Neorrealismo do Surrealismo em três planos — o programa, a linguagem e a relação com o leitor — e não pela oposição fácil entre « o social » e « o sonho ».
  • Ter pronta a comparação «Claridade» (1936) / «Gaibéus» (1939) a partir do modelo brasileiro comum: é a sistematização de diferenças e semelhanças entre culturas que a avaliação interna procura na Escrita.

Erros frequentes

  • Confundir o Neorrealismo do século XX com o Realismo oitocentista de Eça: a crítica irónica dos salões burgueses não é a denúncia da exploração do trabalho.
  • Fazer do Neorrealismo português a fonte da «Claridade»: a revista cabo-verdiana é de 1936 e «Gaibéus» de 1939 — ambos bebem no romance brasileiro dos anos 30.
  • Apresentar Alexandre O'Neill como surrealista de toda a vida: participou na fundação do grupo em 1947, mas cedo seguiu uma via própria, coloquial e irónica.
  • Reduzir o Surrealismo a « poesia sem sentido », esquecendo que a sua recusa é também política e que o humor lhe serve de arma.

Revisão ativa

Lê um excerto de um romance português dos anos 40 e um poema surrealista do fim dessa década e sistematiza, num quadro comentado, as diferenças entre as duas respostas à mesma censura: que matéria escolhe cada um, que linguagem usa e que papel atribui ao leitor.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

As grandes vozes poéticas do século XX#

●●○PadrãoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-portugal-contemporanea

Pontos-chave

Depois de «Orpheu», a poesia portuguesa deixa de se deixar arrumar em escolas. Há correntes — «presença», Neorrealismo, Surrealismo —, mas os poetas maiores atravessam-nas e sobrevivem-lhes, e a história do século acaba por se escrever como uma constelação de vozes singulares (ver Fig. 5). Convém, por isso, mudar de método: em lugar de perguntar « a que corrente pertence? », pergunta-se « que faz este poeta com a língua, e a que problema responde? ». Duas destas vozes viriam a receber o Prémio Camões — Sophia em 1999 e Eugénio de Andrade em 2001.

Seis vozes da poesia portuguesa do século XX

Seis vozes da poesia portuguesa do século XXTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Poeta · Centro da poética · Palavra-chave; Sophia de Mello Breyner Andresen · O mar, a Grécia, a exatidão, a justiça · Claridade; Eugénio de Andrade · O corpo, os elementos, a subtração · Pureza; Jorge de Sena · O exílio, a história, a arte, o dever de dizer · Testemunho; Herberto Helder · A metamorfose, a imagem órfica, a reescrita · Continuidade; Ruy Belo · O quotidiano, a paisagem, o país · Desencanto; Al Berto · A noite, a cidade, a errância, a margem · Risco, célula destacada: O mar, a Grécia, a exatidão, a justiçaPOETACENTRO DA POÉTICAPALAVRA-CHAVESOPHIA DE MELLOBREYNER ANDRESENO mar, a Grécia, a exatidão,a justiçaClaridadeEUGÉNIO DE ANDRADEO corpo, os elementos, asubtraçãoPurezaJORGE DE SENAO exílio, a história, aarte, o dever de dizerTestemunhoHERBERTO HELDERA metamorfose, a imagemórfica, a reescritaContinuidadeRUY BELOO quotidiano, a paisagem, opaísDesencantoAL BERTOA noite, a cidade, aerrância, a margemRiscoDe Sophia a Al Berto: o centro de cada poética.
Fig. 5Fig. 5 — Seis vozes e o centro de cada poética.
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) escreve uma poesia de claridade e de rigor: cada palavra exata, o verso limpo, nenhum ornamento a mais. Os seus territórios são o mar — o da infância, e o mar como espaço de pureza e de absoluto —, a Grécia e o mundo clássico, com a sua luz e a sua medida, e a natureza das coisas nomeadas na sua evidência. A exigência formal é, nela, inseparável de uma exigência moral: quem procura a palavra justa procura também a justiça, e a sua poesia denunciou a opressão e cantou a liberdade em torno do 25 de Abril, causa que prolongou em intervenção cívica, tendo sido eleita deputada à Assembleia Constituinte. Em 1999 recebeu o Prémio Camões, e é aqui que importa ser exato: foi a primeira mulher portuguesa a recebê-lo — a primeira mulher galardoada tinha sido a brasileira Rachel de Queiroz, em 1993.
Eugénio de Andrade (1923–2005), Prémio Camões em 2001, é o poeta da palavra depurada e do corpo. A sua matéria são os elementos — a água, a luz, a terra, o vento —, os frutos e o desejo, ditos numa poesia de poucas palavras, exatas e musicais, em livros como «As Mãos e os Frutos», «Os Amantes sem Dinheiro» ou «As Palavras Interditas». A sensualidade é intensa, mas contida: fala-se do corpo com pudor e a emoção nunca se derrama em confissão. O erro habitual é confundir esta economia com pobreza; é o contrário — a brevidade resulta de um longo trabalho de subtração.
Jorge de Sena (1919–1978) representa o polo oposto: vasto, culto, combativo, indignado. Opositor do regime, exilou-se no Brasil e, mais tarde, nos Estados Unidos, onde foi professor universitário, e o desenraizamento tornou-se matéria central da sua obra. Concebe a poesia como testemunho — um dever de dizer o seu tempo — e, em «Metamorfoses», parte de obras de arte para meditar sobre o homem, a história e a criação; deixou ainda o romance «Sinais de Fogo», publicado postumamente. Confrontar Sena com Eugénio de Andrade é uma das comparações mais produtivas do século: a mesma língua, dois usos distintos — a subtração sensível de um, a amplitude erudita e ética do outro.
A segunda metade do século traz outras três vozes decisivas. Herberto Helder (1930–2015) leva a linguagem ao limite: a sua obra é um poema contínuo, incessantemente reescrito e reordenado de edição para edição, feito de metamorfoses, de imagens órficas e de uma violência figurativa que faz do corpo matéria mítica; recusou prémios e exposição pública, e a recusa é parte da poética. Ruy Belo, num verso longo, discursivo e quase coloquial, faz entrar na poesia portuguesa o quotidiano, a paisagem e uma meditação desencantada sobre o país. Al Berto escreve a noite urbana, a errância, os quartos e a margem — a sua poesia veio a reunir-se sob o título «O Medo», e a palavra assenta-lhe bem. Juntas, estas vozes conduzem a poesia portuguesa até ao fim do século e dialogam, de igual para igual, com os grandes poetas africanos de língua portuguesa.
Exemplo resolvido

Comparar duas poéticas a partir de um motivo comum

Dois poemas falam do mar. O primeiro, em poucos versos nítidos, nomeia a praia, a pedra e a luz e procura dizer as coisas na sua evidência, sem comentário. O segundo, longo e denso, parte de um quadro para meditar sobre a viagem, o exílio e a história dos homens. Que poéticas estão em causa e o que revela o contraste?

  1. 01Ler o primeiro poema

    A brevidade nítida, a nomeação exata e a ausência de comentário são marcas da claridade de Sophia: o mar e a luz não são símbolos decorativos, são o real dito com exatidão.

  2. 02Ler o segundo poema

    Partir de uma obra de arte para pensar o homem e a história, em verso amplo e culto, é o procedimento de Jorge de Sena em «Metamorfoses»; nele, o exílio é experiência vivida.

  3. 03Situar o contraste

    Sophia procura a coincidência entre a palavra e a coisa; Sena procura a interpretação do tempo. Uma poética da revelação e uma poética do testemunho.

  4. 04Concluir sem hierarquizar

    O contraste não estabelece superioridade: mostra duas maneiras legítimas de responder ao mesmo século, pela exatidão do olhar ou pela consciência crítica da história.

Resultado: O primeiro poema corresponde à poética de Sophia — claridade, exatidão, celebração do real —, e o segundo à de Jorge de Sena — cultura, meditação histórica, testemunho do exílio. O contraste revela dois usos opostos da mesma língua: a palavra que revela a coisa e a palavra que interpreta o tempo, uma e outra ligadas a uma exigência ética.

Foco no Exame Nacional

  • Ser rigoroso na atribuição do Prémio Camões: Sophia em 1999, primeira mulher portuguesa a recebê-lo; Eugénio de Andrade em 2001. A primeira mulher galardoada foi a brasileira Rachel de Queiroz, em 1993.
  • Caracterizar cada voz por marcas verificáveis no poema — o verso, o léxico, a imagem — e não por rótulos genéricos do género « poeta do mar » ou « poeta do amor ».
  • Montar uma comparação de duas poéticas em torno de um mesmo motivo: é o exercício de comentário que a avaliação interna mais valoriza, por escrito e em apresentação oral.

Erros frequentes

  • Escrever que Sophia foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões: foi a primeira mulher portuguesa, em 1999; a primeira mulher galardoada foi Rachel de Queiroz, do Brasil, em 1993.
  • Trocar os traços de Eugénio de Andrade e de Jorge de Sena — atribuir a Eugénio o testemunho histórico ou a Sena o despojamento sensual.
  • Tomar a claridade de Sophia por simplicidade, ou a brevidade de Eugénio por falta de matéria: em ambos os casos, a nitidez resulta de um trabalho de depuração.

Revisão ativa

Escolhe dois poemas de autores diferentes desta secção que tratem o mesmo motivo — o mar, a luz, a noite ou a cidade — e redige um comentário comparativo de cerca de trinta linhas, sustentando cada afirmação numa marca do texto; prepara depois uma apresentação oral de cinco minutos.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Depois de Abril: Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge e o espaço literário da língua portuguesa#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-de-lingua-portuguesa-12-portugal-contemporanea

Pontos-chave

A revolução de 25 de Abril de 1974 acaba com a censura e com a guerra, e a literatura portuguesa muda de assunto e de fôlego. Desaparecida a necessidade do implícito, vem à superfície o que estava contido: a memória da ditadura, a guerra colonial de 1961–1974, a descolonização e o regresso de centenas de milhares de pessoas de África. «Balada da Praia dos Cães» (1982), de José Cardoso Pires, é exemplar deste primeiro tempo — reconstitui, sob a forma de inquérito policial, um crime político da ditadura, e o dossiê judicial serve-lhe de forma para mostrar como funcionava um Estado que vigiava. Ao mesmo tempo o país abre-se: em 1986 entra na Comunidade Económica Europeia, e a pergunta sobre o seu lugar — Europa ou Atlântico — torna-se matéria de romance (ver Fig. 6).

Da guerra colonial ao Nobel de 1998

Da guerra colonial ao Nobel de 1998Linha do tempo de 1960 a 2008, 1974: 25 de Abril, 1979: «Os Cus de Judas», 1980: «Levantado do Chão», 1982: «Memorial do Convento», 1984: «O Ano da Morte de Ricardo Reis», 1988: «A Costa dos Murmúrios», 1995: «Ensaio sobre a Cegueira», 1998: Prémio Nobel a Saramago, 2004: «Jerusalém», 1961–1974: Guerra colonial, 1974–2008: Portugal democrático19602008anoGuerra colonialPortugaldemocrático197425 de Abril1979«Os Cus deJudas»1980«Levantado doChão»1982«Memorial doConvento»1984«O Ano da Mortede Ricardo Reis»1988«A Costa dosMurmúrios»1995«Ensaio sobre aCegueira»1998Prémio Nobel aSaramago2004«Jerusalém»
Fig. 6Fig. 6 — A ficção portuguesa depois de Abril. Em 1980 sai também «O Dia dos Prodígios», de Lídia Jorge; em 1988 é criado o Prémio Camões.
José Saramago (1922–2010) encontra a sua voz em «Levantado do Chão» (1980), romance do latifúndio alentejano contado a partir de várias gerações de camponeses: é aí que nasce a prosa que o tornará reconhecível — o parágrafo longo e corrido, o diálogo sem travessões nem aspas, embebido na narração, e um narrador que comenta, ironiza e toma partido. A forma não é capricho: vem da fala oral que ouviu no Alentejo e serve para dar à voz dos vencidos a dignidade da escrita. Seguem-se «Memorial do Convento» (1982), em que a construção do convento de Mafra, os amores de Baltasar e Blimunda e a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão contam a História pelo lado de quem carregou as pedras; «O Ano da Morte de Ricardo Reis» (1984), que faz regressar a Lisboa, em 1936, o heterónimo de Pessoa; e «A Jangada de Pedra» (1986), em que a Península Ibérica se solta da Europa e navega para sul — publicado no ano da adesão à Comunidade Económica Europeia.
Com «Ensaio sobre a Cegueira» (1995), Saramago passa da História portuguesa para a parábola universal: uma epidemia de cegueira branca desfaz uma cidade sem nome, e as personagens, também sem nome, revelam quanto da civilização é apenas hábito. Depois de o Governo português ter vetado a candidatura de «O Evangelho segundo Jesus Cristo» a um prémio europeu, o escritor fixou-se em Lanzarote. Recebeu o Prémio Camões em 1995 e, em 1998, o Prémio Nobel da Literatura — o único alguma vez atribuído a um escritor de língua portuguesa, facto a enunciar com esta exatidão: não « o primeiro », mas o único até hoje.
António Lobo Antunes (n. 1942) foi médico militar em Angola durante a guerra colonial, e é dessa experiência que sai a sua obra. Em 1979 publica «Memória de Elefante» e «Os Cus de Judas», este último um monólogo desabrido dirigido a uma mulher ao longo de uma noite de bar, em que a guerra regressa em vagas, misturada com a infância e o nojo de si. «Fado Alexandrino» (1983) reúne ex-combatentes num jantar e faz do país um coro desafinado; «O Esplendor de Portugal» (1997) acompanha a desagregação de uma família de colonos em Angola e o desamparo dos filhos regressados a Lisboa. A sua escrita é o avesso da de Saramago: monólogo interior, sintaxe partida, vozes que se sobrepõem sem aviso. Recebeu o Prémio Camões em 2007.
Lídia Jorge (n. 1946) estreia-se com «O Dia dos Prodígios» (1980), em que uma aldeia do sul assiste ao aparecimento de uma serpente voadora e recebe, com atraso e sem a compreender, a notícia da revolução: a voz é coletiva, a fala é oral e o maravilhoso diz aquilo que a aldeia não tem palavras para pensar. Em «A Costa dos Murmúrios» (1988) volta-se para a guerra em Moçambique através de um dispositivo notável — o livro abre com uma narrativa breve, « Os Gafanhotos », que conta um casamento de oficiais em tom sereno e oficial, e o resto do romance é a demolição paciente dessa versão pela mulher que a viveu. É a guerra vista do lado das mulheres, na retaguarda dos hotéis e das festas, e é sobretudo um romance sobre a maneira como se constroem as versões oficiais.
Aqui se fecha o círculo desta disciplina. A guerra colonial de 1961–1974 é o grande tema partilhado entre a literatura portuguesa e as literaturas africanas de língua portuguesa: a mesma guerra, o mesmo mato, a mesma língua — e dois lados. De um lado, Lobo Antunes e Lídia Jorge escrevem o trauma do combatente enviado e da metrópole que não quer saber: a culpa, o regresso impossível, a família que não entende. Do outro, «Mayombe», de Pepetela, escreve a guerrilha por dentro — a floresta, a disciplina do movimento e, sobretudo, o debate sobre o tribalismo e sobre o poder, isto é, sobre que país nascerá da vitória. Comparar estes textos é verificar que a mesma experiência histórica produz literaturas com problemas diferentes (ver Fig. 7).

A guerra colonial vista dos dois lados

A guerra colonial vista dos dois ladosDiagrama de Venn com 2 conjuntos, Portugal (Lobo Antunes, Lídia Jorge), África («Mayombe», de Pepetela)Portugal (Lobo Antunes, Lídia Jorge)África («Mayombe», de Pepetela)O trauma docombatenteA nação porconstruirA guerra de1961–1974
Fig. 7Fig. 7 — A mesma guerra, dois problemas literários diferentes. Comuns são ainda o mato, o medo e a língua em que ambos os lados escrevem.
Este espaço partilhado tem instituições. O Prémio Camões foi criado em 1988, instituído conjuntamente por Portugal e pelo Brasil, e a lista dos seus galardoados é, por si só, um mapa do território (ver Fig. 8): José Craveirinha foi, em 1991, o primeiro escritor africano a recebê-lo; Rachel de Queiroz foi, em 1993, a primeira mulher; José Luandino Vieira, anunciado vencedor em 2006, recusou o prémio. Em 1996 nasce a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, a que Timor-Leste viria a aderir depois da independência. A geração mais nova prolonga o movimento — Gonçalo M. Tavares (n. 1970) publica «Jerusalém» (2004), construção quase geométrica sobre a razão que produz o mal, e recebe por ele, em 2005, o Prémio José Saramago —, mas o horizonte alarga-se: os problemas passam a ser europeus e universais, pensados numa língua que também se escreve em São Paulo, em Luanda, em Maputo, na Praia, em Bissau e em Díli. É este o quadro em que a literatura portuguesa contemporânea deve ser lida: não como centro de que as outras derivam, mas como uma entre várias literaturas nacionais que partilham uma língua, um passado difícil e instituições comuns (ver Fig. 9).

Prémio Camões: alguns galardoados e os seus países

Prémio Camões: alguns galardoados e os seus paísesTabela com 3 colunas e 12 linhas, Dados: Ano · Autor · País; 1991 · José Craveirinha · Moçambique; 1993 · Rachel de Queiroz · Brasil; 1995 · José Saramago · Portugal; 1997 · Pepetela · Angola; 1999 · Sophia de Mello Breyner Andresen · Portugal; 2001 · Eugénio de Andrade · Portugal; 2006 · José Luandino Vieira · Angola; 2007 · António Lobo Antunes · Portugal; 2009 · Arménio Vieira · Cabo Verde; 2013 · Mia Couto · Moçambique; 2018 · Germano Almeida · Cabo Verde; 2021 · Paulina Chiziane · Moçambique, célula destacada: José SaramagoANOAUTORPAÍS1991José CraveirinhaMoçambique1993Rachel de QueirozBrasil1995José SaramagoPortugal1997PepetelaAngola1999Sophia de Mello BreynerAndresenPortugal2001Eugénio de AndradePortugal2006José Luandino VieiraAngola2007António Lobo AntunesPortugal2009Arménio VieiraCabo Verde2013Mia CoutoMoçambique2018Germano AlmeidaCabo Verde2021Paulina ChizianeMoçambiqueUma seleção de galardoados; o prémio foi criado em 1988.
Fig. 8Fig. 8 — Uma seleção de galardoados com o Prémio Camões, criado em 1988: a distinção percorre todo o espaço da língua. José Luandino Vieira, anunciado vencedor em 2006, recusou o prémio.

O espaço literário da língua portuguesa

O espaço literário da língua portuguesaGrafo, A língua portuguesa → Portugal, A língua portuguesa → Brasil, A língua portuguesa → Angola, A língua portuguesa → Moçambique, A língua portuguesa → Cabo Verde, A língua portuguesa → Guiné-Bissau, A língua portuguesa → São Tomé e Príncipe, A língua portuguesa → Timor-LesteA línguaportuguesaPortugalBrasilAngolaMoçambiqueCabo VerdeGuiné−BissauSão Tomé ePríncipeTimor-Leste
Fig. 9Fig. 9 — O espaço literário da língua portuguesa: oito literaturas ligadas por uma língua comum e por instituições partilhadas — o Prémio Camões (1988) e a CPLP (1996). O centro é a língua, não nenhum dos países.
Exemplo resolvido

A mesma guerra, dois problemas: comentário comparativo resolvido

Um excerto A, narrado em monólogo interior por um antigo capitão-médico que fala de noite a uma desconhecida, mistura a memória do mato com a infância em Lisboa e o desprezo por si próprio. Um excerto B, narrado por vários guerrilheiros que se revezam na primeira pessoa dentro de uma floresta, discute se a origem étnica de um comandante deve pesar na escolha dos chefes. Situa cada excerto, identifica o problema central de cada um e explica o que a comparação acrescenta.

  1. 01Situar o excerto A

    O capitão-médico, o monólogo noturno dirigido a uma mulher e a mistura da guerra com a infância lisboeta remetem para «Os Cus de Judas» (1979), de António Lobo Antunes, ele próprio médico militar em Angola durante a guerra colonial.

  2. 02Situar o excerto B

    A floresta, o revezamento de vozes na primeira pessoa e o debate interno sobre o tribalismo remetem para «Mayombe», de Pepetela, escrito a partir de dentro da luta de libertação angolana.

  3. 03Isolar o problema de cada texto

    Em A, o trauma e a culpa de quem foi enviado a combater uma guerra que não é sua, e o regresso a uma metrópole que não quer ouvir. Em B, um problema político e prospetivo: que nação será construída depois da vitória, e com que critérios se escolhem os chefes.

  4. 04Reconhecer o comum e concluir

    Comuns são a guerra de 1961–1974, o mato, o medo e a língua em que ambos estão escritos, o que permite lê-los lado a lado sem tradução; o mesmo acontecimento gera, porém, perguntas opostas.

Resultado: O excerto A é de «Os Cus de Judas» (1979), de António Lobo Antunes, e o excerto B de «Mayombe», de Pepetela. O problema central de A é o trauma e a culpa do combatente enviado, com o regresso impossível a uma metrópole que não quer saber; o de B é o debate político sobre o tribalismo e o poder, isto é, sobre que país nascerá da vitória. A comparação acrescenta o que nenhum dos textos daria sozinho: a mesma guerra, o mesmo mato e a mesma língua produzem duas literaturas com perguntas opostas — uma volta-se para a ferida, a outra para a nação por construir.

Schritt-für-Schritt Erklärung5 Schritte
  1. 1

    O 25 de Abril de 1974 acaba com a censura e com a guerra. A literatura portuguesa deixa de precisar do implícito e vai buscar o que estivera calado: a ditadura, a guerra colonial e o regresso de África.

  2. 2

    José Saramago encontra a sua voz em «Levantado do Chão», de 1980 — o parágrafo longo, o diálogo sem travessões, o narrador que comenta. Seguem-se «Memorial do Convento», de 1982, e «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de 1984. Prémio Camões em 1995; Prémio Nobel em 1998, o único de língua portuguesa.

  3. 3

    António Lobo Antunes, médico militar em Angola durante a guerra, escreve o avesso: monólogo interior, sintaxe partida, vozes sobrepostas. «Os Cus de Judas» é de 1979; «O Esplendor de Portugal», de 1997. Prémio Camões em 2007.

  4. 4

    Lídia Jorge dá-nos, em «A Costa dos Murmúrios», de 1988, a guerra de Moçambique vista do lado das mulheres — e a demolição paciente da versão oficial com que o livro abre.

  5. 5

    E é aqui que a disciplina se fecha: a mesma guerra está escrita do outro lado, em «Mayombe», de Pepetela. O Prémio Camões existe desde 1988 e a CPLP desde 1996. Uma língua, várias literaturas — e a portuguesa é uma delas, não a matriz de que as outras derivam.

Foco no Exame Nacional

  • Dominar a cronologia do pós-25 de Abril: «Os Cus de Judas» (1979), «Levantado do Chão» e «O Dia dos Prodígios» (1980), «Memorial do Convento» (1982), «O Ano da Morte de Ricardo Reis» (1984), «A Costa dos Murmúrios» (1988), «Ensaio sobre a Cegueira» (1995), «O Esplendor de Portugal» (1997), «Jerusalém» (2004).
  • Distinguir Saramago de Lobo Antunes pela forma, e não apenas pelo tema: parágrafo longo, diálogo sem travessões e narrador irónico num; monólogo interior, sintaxe partida e vozes sobrepostas no outro.
  • Montar, com textos na mão, a comparação da guerra colonial vista de Portugal e vista de Angola — é o exercício de comparação intercultural que melhor demonstra as aprendizagens desta disciplina, avaliada exclusivamente por avaliação interna, sem Exame Final Nacional.
  • Sustentar oralmente, em debate, um ponto de vista sobre a leitura da guerra nas duas literaturas: a Oralidade é um domínio autónomo das Aprendizagens Essenciais e conta na avaliação interna.

Erros frequentes

  • Atribuir a José Saramago o Nobel noutro ano, ou dizer que foi « o primeiro » escritor de língua portuguesa a recebê-lo: foi em 1998 e é, até hoje, o único.
  • Atribuir um ano de Prémio Camões a Lídia Jorge: é uma das vozes maiores da ficção portuguesa contemporânea, mas não se lhe deve inventar uma distinção que se não confirme.
  • Dizer que José Luandino Vieira recebeu o Prémio Camões em 2006: foi anunciado vencedor nesse ano e recusou o prémio.
  • Trocar os cenários africanos: «A Costa dos Murmúrios», de Lídia Jorge, passa-se em Moçambique; «O Esplendor de Portugal», de Lobo Antunes, em Angola e em Lisboa.
  • Ler o espaço literário da língua portuguesa como irradiação a partir de Lisboa: as outras literaturas têm percursos e cânones próprios, e a portuguesa entra aqui como termo de comparação, não como matriz.

Revisão ativa

A partir de um excerto de «Os Cus de Judas» ou de «A Costa dos Murmúrios» e de um excerto de «Mayombe», redige um ensaio expositivo-argumentativo de cerca de duas páginas sobre a guerra colonial como tema partilhado: identifica dois temas comuns e dois temas próprios de cada lado, sustentando cada afirmação numa marca dos textos.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Raízes: de Cesário e Eça a «Orpheu»○
    • 02Sob o Estado Novo: do Neorrealismo ao Surrealismo◐
    • 03As grandes vozes poéticas do século XX◐
    • 04Depois de Abril: Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge e o espaço literário da língua portuguesa●

0/4 Lidos

Dos resumos à prática

Literatura Portuguesa contemporânea (séc. XIX–XX)

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~31
min
4
Competências
Praticar

Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano

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