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Esta é a unidade que fecha o programa e a que lhe dá sentido de conjunto: a literatura portuguesa contemporânea entra aqui como termo de comparação de tudo o que foi estudado antes. Das raízes oitocentistas — a Geração de 70 e o olhar urbano de Cesário Verde — à revolução de «Orpheu» (1915) e à heteronímia de Pessoa, do Neorrealismo e do Surrealismo sob o Estado Novo às grandes vozes poéticas do século e à ficção posterior ao 25 de Abril de 1974 — Saramago, Lobo Antunes, Lídia Jorge —, o percurso desemboca no espaço literário partilhado da língua portuguesa, com a guerra colonial por tema comum e o Prémio Camões e a CPLP por instituições comuns. Literaturas de Língua Portuguesa é uma disciplina de avaliação exclusivamente interna, sem Exame Final Nacional: o que se avalia é a leitura analítica do texto, o comentário literário fundamentado e a comparação intercultural sustentada.
4 secções~31 min de leitura4 competênciasNível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1
nível básico
Situar as grandes etapas da literatura portuguesa contemporânea — Geração de 70, «Orpheu», Neorrealismo, Surrealismo, o pós-25 de Abril — associando a cada autor uma obra e a sua data.
nível avançado
Comparar, a partir de marcas textuais concretas, a literatura portuguesa contemporânea com as restantes literaturas de língua portuguesa, sobretudo em torno da guerra colonial e das instituições que este espaço partilha.
Profundidade de leitura: Aprofundado
Tamanho do texto: Padrão
Das raízes oitocentistas ao segundo modernismo
A heteronímia de Fernando Pessoa
Um poema, em verso livre muito longo e em tom de desabafo, é dito por alguém que está a uma janela, olha a tabacaria do outro lado da rua e faz o balanço de tudo o que sonhou ser e não foi, oscilando entre a grandeza imaginada e a consciência de nada ser. Quem fala, e em que fase da sua poética?
O verso livre longo, sem métrica fixa, e a sintaxe de conversa apontam para Álvaro de Campos: Caeiro é sóbrio e direto, Reis usa a estrofe curta e a medida clássica.
A janela, a rua, a loja em frente: é o quotidiano urbano, matéria que Caeiro (o campo, o rebanho) e Reis (o jardim, o rio, os deuses) não frequentam.
A oscilação entre a megalomania do sonho e a declaração de que nada se é corresponde ao Campos tardio, já sem o entusiasmo futurista — é o poema « Tabacaria ».
Trata-se do Campos da fase do desengano: a mesma capacidade de sentir tudo de todas as maneiras, agora virada contra si própria.
Resultado: Fala Álvaro de Campos, no poema « Tabacaria », já na fase tardia e desenganada da sua poética: o verso livre longo, o cenário urbano visto da janela e a queda da grandeza sonhada na consciência do nada distinguem-no de Caeiro e de Reis e afastam-no do arrebatamento futurista da « Ode Marítima ».
Erros frequentes
Revisão ativa
Explica, em cerca de quinze linhas, em que sentido a literatura portuguesa contemporânea tem duas raízes oitocentistas distintas — a crítica social da Geração de 70 e o olhar urbano de Cesário Verde — e mostra, com um traço de cada uma, como ambas desembocam no Modernismo de «Orpheu».
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Duas respostas à mesma censura
O modelo brasileiro dos anos 30 atravessa o Atlântico
Um excerto de romance português publicado no fim da década de 1930 descreve um bando de ceifeiros que chega de madrugada a uma lezíria; ninguém tem estatuto de herói, o narrador conta em terceira pessoa e sem comentários, e o vocabulário é o do trabalho e da região. A que corrente pertence, com que obra se inaugura essa corrente e que modelo estrangeiro a inspirou?
Não há herói individual: quem age é o bando, o grupo de trabalhadores. O protagonista coletivo é a assinatura do Neorrealismo.
A terceira pessoa sóbria, sem comentário, e o vocabulário do trabalho e da região confirmam a intenção documental.
O fim da década de 1930 e a lezíria do Ribatejo remetem para «Gaibéus» (1939), de Alves Redol, marco inaugural da corrente.
A geração declarou a sua dívida ao romance regionalista brasileiro dos anos 30 — o mesmo modelo que, em 1936, tinha inspirado a «Claridade» cabo-verdiana.
Resultado: O excerto é neorrealista: o protagonista coletivo, o narrador sóbrio e o léxico do trabalho identificam a corrente, que se inaugura com «Gaibéus» (1939), de Alves Redol, e que teve por modelo declarado o romance regionalista brasileiro dos anos 30 — o mesmo que inspirara, em 1936, a revista «Claridade», no Mindelo.
Erros frequentes
Revisão ativa
Lê um excerto de um romance português dos anos 40 e um poema surrealista do fim dessa década e sistematiza, num quadro comentado, as diferenças entre as duas respostas à mesma censura: que matéria escolhe cada um, que linguagem usa e que papel atribui ao leitor.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Seis vozes da poesia portuguesa do século XX
Dois poemas falam do mar. O primeiro, em poucos versos nítidos, nomeia a praia, a pedra e a luz e procura dizer as coisas na sua evidência, sem comentário. O segundo, longo e denso, parte de um quadro para meditar sobre a viagem, o exílio e a história dos homens. Que poéticas estão em causa e o que revela o contraste?
A brevidade nítida, a nomeação exata e a ausência de comentário são marcas da claridade de Sophia: o mar e a luz não são símbolos decorativos, são o real dito com exatidão.
Partir de uma obra de arte para pensar o homem e a história, em verso amplo e culto, é o procedimento de Jorge de Sena em «Metamorfoses»; nele, o exílio é experiência vivida.
Sophia procura a coincidência entre a palavra e a coisa; Sena procura a interpretação do tempo. Uma poética da revelação e uma poética do testemunho.
O contraste não estabelece superioridade: mostra duas maneiras legítimas de responder ao mesmo século, pela exatidão do olhar ou pela consciência crítica da história.
Resultado: O primeiro poema corresponde à poética de Sophia — claridade, exatidão, celebração do real —, e o segundo à de Jorge de Sena — cultura, meditação histórica, testemunho do exílio. O contraste revela dois usos opostos da mesma língua: a palavra que revela a coisa e a palavra que interpreta o tempo, uma e outra ligadas a uma exigência ética.
Erros frequentes
Revisão ativa
Escolhe dois poemas de autores diferentes desta secção que tratem o mesmo motivo — o mar, a luz, a noite ou a cidade — e redige um comentário comparativo de cerca de trinta linhas, sustentando cada afirmação numa marca do texto; prepara depois uma apresentação oral de cinco minutos.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Da guerra colonial ao Nobel de 1998
A guerra colonial vista dos dois lados
Prémio Camões: alguns galardoados e os seus países
O espaço literário da língua portuguesa
Um excerto A, narrado em monólogo interior por um antigo capitão-médico que fala de noite a uma desconhecida, mistura a memória do mato com a infância em Lisboa e o desprezo por si próprio. Um excerto B, narrado por vários guerrilheiros que se revezam na primeira pessoa dentro de uma floresta, discute se a origem étnica de um comandante deve pesar na escolha dos chefes. Situa cada excerto, identifica o problema central de cada um e explica o que a comparação acrescenta.
O capitão-médico, o monólogo noturno dirigido a uma mulher e a mistura da guerra com a infância lisboeta remetem para «Os Cus de Judas» (1979), de António Lobo Antunes, ele próprio médico militar em Angola durante a guerra colonial.
A floresta, o revezamento de vozes na primeira pessoa e o debate interno sobre o tribalismo remetem para «Mayombe», de Pepetela, escrito a partir de dentro da luta de libertação angolana.
Em A, o trauma e a culpa de quem foi enviado a combater uma guerra que não é sua, e o regresso a uma metrópole que não quer ouvir. Em B, um problema político e prospetivo: que nação será construída depois da vitória, e com que critérios se escolhem os chefes.
Comuns são a guerra de 1961–1974, o mato, o medo e a língua em que ambos estão escritos, o que permite lê-los lado a lado sem tradução; o mesmo acontecimento gera, porém, perguntas opostas.
Resultado: O excerto A é de «Os Cus de Judas» (1979), de António Lobo Antunes, e o excerto B de «Mayombe», de Pepetela. O problema central de A é o trauma e a culpa do combatente enviado, com o regresso impossível a uma metrópole que não quer saber; o de B é o debate político sobre o tribalismo e o poder, isto é, sobre que país nascerá da vitória. A comparação acrescenta o que nenhum dos textos daria sozinho: a mesma guerra, o mesmo mato e a mesma língua produzem duas literaturas com perguntas opostas — uma volta-se para a ferida, a outra para a nação por construir.
O 25 de Abril de 1974 acaba com a censura e com a guerra. A literatura portuguesa deixa de precisar do implícito e vai buscar o que estivera calado: a ditadura, a guerra colonial e o regresso de África.
José Saramago encontra a sua voz em «Levantado do Chão», de 1980 — o parágrafo longo, o diálogo sem travessões, o narrador que comenta. Seguem-se «Memorial do Convento», de 1982, e «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de 1984. Prémio Camões em 1995; Prémio Nobel em 1998, o único de língua portuguesa.
António Lobo Antunes, médico militar em Angola durante a guerra, escreve o avesso: monólogo interior, sintaxe partida, vozes sobrepostas. «Os Cus de Judas» é de 1979; «O Esplendor de Portugal», de 1997. Prémio Camões em 2007.
Lídia Jorge dá-nos, em «A Costa dos Murmúrios», de 1988, a guerra de Moçambique vista do lado das mulheres — e a demolição paciente da versão oficial com que o livro abre.
E é aqui que a disciplina se fecha: a mesma guerra está escrita do outro lado, em «Mayombe», de Pepetela. O Prémio Camões existe desde 1988 e a CPLP desde 1996. Uma língua, várias literaturas — e a portuguesa é uma delas, não a matriz de que as outras derivam.
Erros frequentes
Revisão ativa
A partir de um excerto de «Os Cus de Judas» ou de «A Costa dos Murmúrios» e de um excerto de «Mayombe», redige um ensaio expositivo-argumentativo de cerca de duas páginas sobre a guerra colonial como tema partilhado: identifica dois temas comuns e dois temas próprios de cada lado, sustentando cada afirmação numa marca dos textos.
Evocação ativa
Recorda os pontos-chave — depois revela.
Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literaturas de Língua Portuguesa — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))
Referências e fontes
Direção-Geral da Educação (DGE)