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Resumos/Latim B/Historiografia latina: Tito Lívio e a glorificação de Roma
Resumos · Latim BPT · Secundário

Historiografia latina: Tito Lívio e a glorificação de Roma

A historiografia latina não era um registo neutro do passado, mas uma escola de virtude cívica: a história como «mestra da vida». Tito Lívio (59 a.C.–17 d.C.), contemporâneo de Augusto, deu-lhe a sua obra-prima, a Ab Urbe Condita — uma história de Roma das origens lendárias ao seu tempo, feita de exempla que exaltam as antigas virtudes romanas e glorificam a grandeza da cidade. Latim B é uma disciplina de avaliação interna (sem Exame Final Nacional): este resumo prepara a análise e o comentário, não uma prova nacional.

4 secções·~16 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2

T·111111 / 13
Perfil de exame
Caracterizar a historiografia latina e a sua função.Caracterizar Tito Lívio e a obra Ab Urbe Condita.Explicar o método analístico e a intenção moralizante (exempla).Relacionar a obra com a ideologia augustana de glorificação de Roma.
Operadores:caracterizaexplicarelacionaidentificacomenta

nível básico

Reconhecer a função moral da historiografia latina e caracterizar Tito Lívio e a Ab Urbe Condita nas suas linhas essenciais.

nível avançado

Comentar a praefatio e os exempla e relacionar, de forma equilibrada, a obra de Tito Lívio com o programa augustano de glorificação de Roma.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Historiografia latina: Tito Lívio e a glorificação de Roma
    • 01A historiografia latina e a sua função moral○
    • 02Tito Lívio e a Ab Urbe Condita◐
    • 03Método analístico, praefatio e exempla●
    • 04A glorificação de Roma e o clima augustano●
§ 01

A historiografia latina e a sua função moral#

●○○BaseLPAE-latim-b-tito-livio

Pontos-chave

A historiografia — a escrita da história — foi, em Roma, um dos géneros mais prestigiados da prosa, mas obedecia a uma conceção muito diferente da história científica moderna. O historiador antigo não procurava apenas o registo objetivo e documentado dos factos: escrevia uma obra de arte literária, de forte pendor retórico e, sobretudo, moral. A sua finalidade era instruir e formar o cidadão, oferecendo-lhe, através dos feitos do passado, modelos de conduta. A história era, antes de mais, mestra de vida e de virtude cívica (ver Fig. 1 e Fig. 2).

A tradição historiográfica romana

A tradição historiográfica romanaTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Historiador · Obra principal · Traço; Fábio Pictor · Annales (em grego) · O primeiro analista de Roma (séc. III a.C.); Catão, o Censor · Origines · A primeira história de Roma em latim (séc. II a.C.); Júlio César · Commentarii (De Bello Gallico) · Memórias militares, de prosa límpida; Salústio · Catilina; Iugurtha · Monografias morais, de estilo conciso; Tito Lívio · Ab Urbe Condita · A grande história de Roma (142 livros); Tácito · Annales; Historiae · O historiador do Império (séc. I–II d.C.), célula destacada: Tito LívioHISTORIADOROBRA PRINCIPALTRAÇOFÁBIO PICTORAnnales (em grego)O primeiro analista de Roma(séc. III a.C.)CATÃO, O CENSOROriginesA primeira história de Romaem latim (séc. II a.C.)JÚLIO CÉSARCommentarii (De BelloGallico)Memórias militares, de prosalímpidaSALÚSTIOCatilina; IugurthaMonografias morais, deestilo concisoTITO LÍVIOAb Urbe ConditaA grande história de Roma(142 livros)TÁCITOAnnales; HistoriaeO historiador do Império(séc. I–II d.C.)
Fig. 1Fig. 1 — Tito Lívio no ponto mais alto da tradição historiográfica romana.

A história como mestra da vida

Res gestae o passado Exempla modelos Imitar / evitar uirtus, fides, pietas Conduta o presente «historia magistra uitae» a história, mestra da vida
Fig. 2Fig. 2 — «Historia magistra uitae»: o passado oferece exempla que formam a conduta do presente.
O género tem em Roma uma longa tradição, que caminha da crónica seca para a grande história literária (ver Fig. 1). Começa com os analistas, que registavam os acontecimentos ano a ano à maneira dos antigos annales (os registos anuais dos pontífices): Quinto Fábio Pictor, o primeiro, escreveu ainda em grego (séc. III a.C.). Catão, o Censor, deu à história a sua primeira obra em latim, as Origines. No século I a.C., o género atinge a maturidade com Júlio César (os Commentarii, memórias militares de prosa límpida) e com Salústio (as monografias morais sobre Catilina e Jugurta). É neste percurso que se inscreve, como seu ponto mais alto, Tito Lívio.
A função que os Romanos atribuíam à história resume-se numa fórmula célebre: «historia magistra uitae» — «a história [é] mestra da vida». A expressão é de origem ciceroniana: no De Oratore, Cícero define a história como «testis temporum, lux ueritatis, uita memoriae, magistra uitae, nuntia uetustatis» («testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira da antiguidade»). Conhecer o passado não é, nesta perspetiva, um exercício de erudição, mas uma escola de vida: os erros e os êxitos dos antepassados ensinam o presente (ver Fig. 2).
Esta função moral concretiza-se na doutrina dos exempla — os «exemplos». A história oferece ao leitor uma galeria de casos concretos: figuras e episódios do passado que funcionam como modelos a imitar (quando encarnam a virtude) ou a evitar (quando ilustram o vício e a desgraça). Ao contemplar esses exempla, o cidadão aprende o que deve fazer e o que deve recusar. É esta conceção — a história como repositório de modelos morais ao serviço da comunidade — que preside a toda a obra de Tito Lívio e que a distingue de uma simples cronologia (ver Fig. 2).
Exemplo resolvido

Comentar a expressão «historia magistra uitae»

Explica a origem e o sentido da expressão «historia magistra uitae» e relaciona-a com a função da historiografia latina.

  1. 01Traduzir a expressão

    «historia magistra uitae» traduz-se «a história [é] mestra da vida»: uitae é o genitivo de uita («vida»), complemento de magistra («mestra»).

  2. 02Identificar a origem

    A fórmula é de origem ciceroniana (De Oratore), onde Cícero enumera as funções da história: testemunha dos tempos, luz da verdade, mestra da vida.

  3. 03Explicar a função

    Afirma que o conhecimento do passado forma moral e civicamente o presente: os feitos dos antepassados são lições de conduta.

  4. 04Relacionar com os exempla

    Essa função realiza-se pela doutrina dos exempla: modelos a imitar (a virtude) ou a evitar (o vício), que a história põe diante dos olhos do leitor.

Resultado: «Historia magistra uitae» («a história, mestra da vida»), fórmula ciceroniana, exprime a função moral da historiografia latina: através dos exempla, o passado ensina o presente a distinguir a virtude do vício — é esta conceção que anima a obra de Tito Lívio.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar a historiografia latina e a sua função moral e cívica, distinguindo-a da história científica moderna.
  • Explicar o sentido de «historia magistra uitae» e a doutrina dos exempla (modelos a imitar ou a evitar).

Erros frequentes

  • Julgar a historiografia antiga pelos critérios da história moderna, esperando dela objetividade documental em vez de intenção moral e arte retórica.
  • Atribuir a expressão «historia magistra uitae» a Tito Lívio: a fórmula é de Cícero (De Oratore); Tito Lívio encarna-a, mas não a cunhou.

Revisão ativa

Explica, por palavras tuas, o sentido da expressão «historia magistra uitae» e mostra como a doutrina dos exempla concretiza essa função da história.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Cultura e literatura: a historiografia latina) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Tito Lívio e a Ab Urbe Condita#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-tito-livio

Pontos-chave

Tito Lívio (em latim, Titus Liuius) nasceu em 59 a.C. em Patauium — a atual Pádua, no norte da Itália — e morreu em 17 d.C. (ver Fig. 3). Foi, assim, contemporâneo de Augusto, cujo longo principado (27 a.C.–14 d.C.) coincide com quase toda a sua vida adulta e com a composição da obra. Ao contrário de César ou de Salústio, não foi homem de ação política nem militar: dedicou-se por inteiro ao estudo e à escrita da história, num labor que lhe ocupou cerca de quarenta anos.

De 753 a.C. a Tito Lívio e Augusto

De 753 a.C. a Tito Lívio e AugustoLinha do tempo de -760 a 30, -753: Fundação, -509: República, -218: Aníbal, -27: Principado, -63–14: Augusto, -59–17: Tito Lívio−76030anoAugustoTito Lívio−753Fundação−509República−218Aníbal−27Principado
Fig. 3Fig. 3 — Tito Lívio (59 a.C.–17 d.C.), contemporâneo de Augusto, escreve a história de Roma desde a fundação lendária (753 a.C.).
A sua obra intitula-se Ab Urbe Condita («Desde a Fundação da Cidade») e é uma história monumental de Roma, desde as origens lendárias até à época do próprio autor. Tinha 142 livros, dos quais se conservam apenas 35 (ver Fig. 4): os livros I a X e os livros XXI a XLV. Os restantes perderam-se, mas conhecemos-lhes o conteúdo por resumos antigos, as Periochae, que sobreviveram para quase todos. Por comodidade, os leitores antigos dividiram a obra em «décadas» (grupos de dez livros): conservam-se a primeira década (I–X) e da terceira à primeira metade da quinta (XXI–XLV).

A estrutura da Ab Urbe Condita

A estrutura da Ab Urbe ConditaTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Livros · Estado · Conteúdo; I–X · Conservados · Das origens (Eneias, Rómulo) à conquista da Itália (até 293 a.C.); XI–XX · Perdidos · Guerra contra Pirro e 1.ª Guerra Púnica (conhecidos pelas Periochae); XXI–XXX · Conservados · A 2.ª Guerra Púnica e Aníbal (218–201 a.C.); XXXI–XLV · Conservados · As guerras no Oriente (Macedónia e Síria), até 167 a.C.; XLVI–CXLII · Perdidos · Da hegemonia mediterrânica às guerras civis, até 9 a.C. (Periochae), célula destacada: A 2.ª Guerra Púnica e Aníbal (218–201 a.C.)LIVROSESTADOCONTEÚDOI–XConservadosDas origens (Eneias, Rómulo)à conquista da Itália (até293 a.C.)XI–XXPerdidosGuerra contra Pirro e 1.ªGuerra Púnica (conhecidospelas Periochae)XXI–XXXConservadosA 2.ª Guerra Púnica e Aníbal(218–201 a.C.)XXXI–XLVConservadosAs guerras no Oriente(Macedónia e Síria), até 167a.C.XLVI–CXLIIPerdidosDa hegemonia mediterrânicaàs guerras civis, até 9 a.C.(Periochae)
Fig. 4Fig. 4 — Dos 142 livros conservam-se 35 (I–X e XXI–XLV); os restantes conhecem-se pelas Periochae.
Os livros conservados cobrem dois grandes momentos (ver Fig. 4). A primeira década (I–X) narra as origens — a chegada de Eneias, Rómulo e a fundação, a monarquia dos sete reis, o nascimento da República — até à conquista da Itália. Os livros XXI–XXX, a terceira década, relatam a 2.ª Guerra Púnica (218–201 a.C.) e o duelo de Roma com Aníbal, o seu maior inimigo — talvez a parte mais admirada da obra. Os livros XXXI–XLV seguem as guerras no Oriente até 167 a.C. Perdeu-se toda a parte final, que chegava até 9 a.C. e narrava a crise da República e as guerras civis.
O prestígio de Tito Lívio foi imenso já na Antiguidade. Quintiliano louvou-lhe a «lactea ubertas» (a «abundância láctea» do seu estilo, fluente e ondulante), por oposição à concisão de Salústio. A sua independência de espírito é iluminada por uma anedota transmitida por Tácito: Augusto chamava-lhe, a brincar, «pompeiano» (Pompeianus), por simpatizar com os vencidos da República, e nem por isso deixou de ser seu amigo. O historiador celebrava a grandeza de Roma sem ser um mero propagandista do poder — um traço a ter presente ao situá-lo no clima augustano (ver Fig. 3).
Exemplo resolvido

Determinar o que se conserva da Ab Urbe Condita

Sabendo que a Ab Urbe Condita tinha 142 livros, dos quais se conservam os livros I–X e XXI–XLV, calcula quantos se conservam e quantos se perderam, e diz como conhecemos os perdidos.

  1. 01Contar os livros conservados

    Livros I–X: 10 livros. Livros XXI–XLV: de 21 a 45, ou seja, 25 livros. Total conservado: 10 + 25 = 35 livros.

  2. 02Calcular os perdidos

    Do total de 142 subtraem-se os 35 conservados: 142 − 35 = 107 livros perdidos.

  3. 03Identificar as fontes indiretas

    Do conteúdo dos livros perdidos temos notícia pelas Periochae, resumos antigos que sobreviveram para quase todos os livros.

Resultado: Conservam-se 35 livros (10 + 25) e perderam-se 107 dos 142; o conteúdo destes últimos conhece-se sobretudo pelas Periochae, os resumos antigos da obra.

Foco no Exame Nacional

  • Situar Tito Lívio no seu tempo (contemporâneo de Augusto) e caracterizar a Ab Urbe Condita quanto à dimensão, ao âmbito e à conservação.
  • Distinguir os livros conservados (I–X, XXI–XLV) dos perdidos e indicar o conteúdo de cada bloco.

Erros frequentes

  • Confundir os 142 livros escritos com os 35 conservados: a maior parte da obra perdeu-se, e conhecemo-la sobretudo pelas Periochae.
  • Supor que a parte final da obra (a República tardia e as guerras civis, até 9 a.C.) se conservou — é justamente essa que se perdeu.
  • Grafar ou traduzir mal o título: Ab Urbe Condita significa «Desde a Fundação da Cidade».

Revisão ativa

A partir do dado «142 livros, dos quais 35 conservados (I–X e XXI–XLV)», indica quantos livros se perderam e explica como conhecemos hoje o conteúdo dos livros perdidos.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Tito Lívio e a Ab Urbe Condita) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Método analístico, praefatio e exempla#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-tito-livio

Pontos-chave

Tito Lívio organiza a narrativa segundo o método analístico, herdado dos antigos analistas: relata os acontecimentos ano a ano, seguindo a sucessão dos anos e dos magistrados (os cônsules). Mas eleva de longe esse esquema cronológico: onde o analista alinhava notícias secas, Lívio compõe cenas dramáticas, discursos elaborados e retratos vivos, fazendo da história uma obra de arte literária. O fio dos anos é o esqueleto; a carne é a narração patética e moral.
A intenção que anima toda a obra está declarada na praefatio, o célebre prefácio. Aí, Tito Lívio afirma que o maior proveito do estudo da história é ter diante dos olhos, como num monumento, exemplos de toda a espécie: «inde tibi tuaeque rei publicae quod imitere capias, inde foedum inceptu foedum exitu quod uites» — «daí podes colher, para ti e para o teu Estado, o que hás de imitar; daí [também] o que hás de evitar, vergonhoso no início e vergonhoso no fim». A história é, pois, uma galeria de exempla, modelos positivos e negativos (ver Fig. 5).

Exempla e virtudes romanas

Exempla e virtudes romanas em Tito LívioTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Exemplum (episódio) · Virtude exaltada · Sentido; Rómulo, Remo e a loba · pietas, fauor divino · A origem divina e providencial de Roma; O rapto das Sabinas · concordia · A união dos povos e o crescimento da cidade; Lucrécia · pudicitia, fides · A queda dos reis e o nascimento da República; Os Horácios e os Curiácios · uirtus, amor patriae · A pátria acima do sentimento privado; Múcio Cévola · uirtus, fortitudo · O desprezo da dor pela liberdade de Roma; Cincinato · frugalitas, moderatio · Servir o Estado e devolver o poder, célula destacada: uirtus, amor patriaeEXEMPLUM (EPISÓDIO)VIRTUDE EXALTADASENTIDORÓMULO, REMO E ALOBApietas, fauor divinoA origem divina eprovidencial de RomaO RAPTO DASSABINASconcordiaA união dos povos e ocrescimento da cidadeLUCRÉCIApudicitia, fidesA queda dos reis e onascimento da RepúblicaOS HORÁCIOS E OSCURIÁCIOSuirtus, amor patriaeA pátria acima do sentimentoprivadoMÚCIO CÉVOLAuirtus, fortitudoO desprezo da dor pelaliberdade de RomaCINCINATOfrugalitas, moderatioServir o Estado e devolver opoder
Fig. 5Fig. 5 — A galeria de exempla: cada episódio exalta uma virtude romana e propõe uma lição.
Na mesma praefatio, o historiador lamenta a decadência dos costumes do seu tempo, por contraste com a antiga têmpera moral que fizera a grandeza de Roma: chegámos, diz, a uma época «[in] quibus nec uitia nostra nec remedia pati possumus» — «em que não podemos suportar nem os nossos vícios nem os seus remédios». Voltar ao passado é, assim, reencontrar as virtudes perdidas. Lívio é, porém, criticamente consciente: quanto às origens fabulosas (a ascendência divina de Roma), declara não querer nem afirmá-las nem refutá-las, deixando-as ao seu «encanto poético».
A galeria de exempla enche sobretudo os primeiros livros e exalta as grandes virtudes romanas — a uirtus (o valor, a coragem viril), a fides (a lealdade e a palavra dada), a pietas (a devoção aos deuses, à pátria e à família) —, a par da pudicitia, da fortitudo e da frugalitas (ver Fig. 5). Rómulo, Remo e a loba encarnam a origem divina de Roma; o rapto das Sabinas, a concórdia que faz crescer a cidade; Lucrécia, a pudicícia que funda a liberdade republicana; os Horácios e os Curiácios, o amor da pátria acima do sangue; Múcio Cévola, o desprezo da dor perante o inimigo; Cincinato, o cidadão que serve o Estado e devolve o poder. Cada episódio é uma lição.
Exemplo resolvido

Comentar a doutrina dos exempla na praefatio

Comenta a passagem «inde tibi tuaeque rei publicae quod imitere capias, inde foedum inceptu foedum exitu quod uites», explicando a intenção moralizante de Tito Lívio.

  1. 01Traduzir a passagem

    «Daí podes colher, para ti e para o teu Estado, o que hás de imitar; daí [também] o que hás de evitar, vergonhoso no início e vergonhoso no fim.» (uites, com u = «evites».)

  2. 02Identificar os dois tipos de exempla

    A frase opõe dois modelos: os que se devem imitar (a virtude) e os que se devem evitar (o vício, «vergonhoso no início e no fim»).

  3. 03Reconhecer o destinatário duplo

    «tibi tuaeque rei publicae»: a lição vale para o indivíduo e para o Estado — a história forma o cidadão e a comunidade.

  4. 04Concluir sobre a intenção

    A história é, para Lívio, uma escola moral: oferece exempla que ensinam a distinguir e a escolher — é a função de «magistra uitae».

Resultado: A passagem exprime a doutrina dos exempla: a história põe diante do leitor modelos a imitar e a evitar, formando moralmente o indivíduo e o Estado — eis a intenção moralizante que estrutura toda a Ab Urbe Condita.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar o método analístico e a intenção moralizante da obra, a partir da praefatio e da doutrina dos exempla.
  • Comentar um exemplum liviano, identificando a virtude romana (uirtus, fides, pietas…) que exalta.

Erros frequentes

  • Reduzir o método analístico a uma cronologia seca: Tito Lívio narra ano a ano, mas com forte elaboração dramática e retórica.
  • Tomar os episódios lendários (Rómulo, a loba) como factos históricos comprovados — o próprio Lívio suspende o juízo sobre as origens fabulosas.
  • Traduzir uirtus por «virtude» (moral cristã): em Lívio, uirtus é o valor, a coragem e o mérito viril do cidadão-soldado.

Revisão ativa

Lê a passagem da praefatio sobre os exempla («… quod imitere capias … quod uites») e explica os dois tipos de modelos que Tito Lívio propõe ao leitor, ilustrando cada um com um episódio da obra.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Método analístico e intenção moralizante) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

A glorificação de Roma e o clima augustano#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-tito-livio

Pontos-chave

A obra de Tito Lívio é, de uma ponta à outra, um grande hino à grandeza de Roma. A praefatio anuncia-o: nenhum povo foi maior, mais santo nem mais rico de bons exemplos; Roma cresceu do mais humilde começo até se tornar tão imensa que «trabalha sob o próprio peso». Narrar a ascensão de Roma, das origens divinas ao domínio do mundo, é celebrar um destino providencial — e propor esse passado glorioso como norma do presente (ver Fig. 6).

A obra e o programa augustano

A Ab Urbe Condita e o programa augustanoTabela com 2 colunas e 5 linhas, Dados: Ideal augustano · Presença na Ab Urbe Condita; Roma eterna e providencial · As origens divinas (Eneias, Rómulo, a loba) e a ascensão de Roma; Restauração do mos maiorum · A galeria de exempla das antigas virtudes (uirtus, fides, pietas); Crítica da decadência moral · A praefatio lamenta os vícios do presente e evoca a antiga têmpera; Religião e pietas restauradas · A piedade dos antigos, os deuses e o respeito pelos auspícios; Continuidade Roma–Augusto · Da fundação (753 a.C.) ao Principado; a gens Iulia remonta a Eneias, célula destacada: Da fundação (753 a.C.) ao Principado; a gens Iulia remonta a EneiasIDEAL AUGUSTANOPRESENÇA NA AB URBECONDITAROMA ETERNA EPROVIDENCIALAs origens divinas (Eneias,Rómulo, a loba) e a ascensãode RomaRESTAURAÇÃO DO MOSMAIORUMA galeria de exempla dasantigas virtudes (uirtus,fides, pietas)CRÍTICA DADECADÊNCIA MORALA praefatio lamenta osvícios do presente e evoca aantiga têmperaRELIGIÃO E PIETASRESTAURADASA piedade dos antigos, osdeuses e o respeito pelosauspíciosCONTINUIDADEROMA–AUGUSTODa fundação (753 a.C.) aoPrincipado; a gens Iuliaremonta a Eneias
Fig. 6Fig. 6 — A obra converge com o programa augustano de glorificação de Roma e de restauração dos costumes.
Este propósito converge com o programa ideológico de Augusto (ver Fig. 6). Depois de um século de guerras civis, Augusto apresenta-se como restaurador: da paz (a Pax Romana), da religião e, sobretudo, dos antigos costumes, o mos maiorum. Ora, é exatamente essa antiga têmpera moral — a uirtus, a fides, a pietas dos maiores — que a Ab Urbe Condita exalta na sua galeria de exempla. Sem ser encomendada pelo poder, a obra respira o mesmo ar e serve o mesmo ideal: o regresso às virtudes que fizeram Roma.
A ligação torna-se particularmente estreita no relato das origens. Augusto pertencia à gens Iulia, que fazia remontar a sua ascendência a Iulo (Ascânio), filho de Eneias, e assim à deusa Vénus. Ao narrar Eneias, Rómulo e a fundação, Tito Lívio dava dignidade histórica ao mito de que a própria casa de Augusto se reclamava — o mesmo mito que Virgílio, ao mesmo tempo, cantava na Eneida. A história de Roma e a origem do príncipe entrelaçavam-se numa só narrativa de fundação.
É preciso, ainda assim, uma leitura honesta e equilibrada. Tito Lívio não foi um poeta do círculo de Mecenas nem um funcionário da propaganda imperial: foi um historiador de relativa independência (recorde-se a anedota do «pompeiano»), movido por uma genuína convicção moral e patriótica. A sua obra glorifica Roma porque acredita nas suas virtudes, e não por encomenda. Reduzi-la a mera propaganda seria tão falso como ignorar a sua evidente sintonia com o tempo de Augusto: a Ab Urbe Condita é, ao mesmo tempo, grande literatura, lição moral e monumento à glória de Roma (ver Fig. 6).
Exemplo resolvido

Relacionar a obra com o programa augustano

Explica, num breve comentário, por que a Ab Urbe Condita se integra no clima augustano de glorificação de Roma, partindo do relato das origens.

  1. 01Identificar o programa de Augusto

    Augusto apresenta-se como restaurador da paz, da religião e do mos maiorum (os antigos costumes), depois das guerras civis.

  2. 02Reconhecer a convergência na obra

    A galeria de exempla de Lívio exalta precisamente as antigas virtudes — uirtus, fides, pietas —, propondo o passado como norma do presente.

  3. 03Ligar as origens ao príncipe

    Ao narrar Eneias e Rómulo, Lívio dá dignidade histórica ao mito de que a gens Iulia de Augusto se reclamava (descendência de Eneias e de Vénus).

  4. 04Ponderar com equilíbrio

    Contudo, Lívio não era do círculo de Mecenas nem propagandista: celebra Roma por convicção moral própria (a anedota do «pompeiano»).

Resultado: A Ab Urbe Condita integra-se no clima augustano — exalta as virtudes que Augusto dizia restaurar e enobrece as origens de que a sua casa se reclamava —, mas fá-lo por convicção moral e patriótica, e não como simples propaganda: é literatura, lição e monumento a Roma.

Foco no Exame Nacional

  • Relacionar a Ab Urbe Condita com o programa augustano de glorificação de Roma e de restauração dos costumes.
  • Comentar, de forma equilibrada, a sintonia entre a obra e a ideologia augustana, sem a reduzir a propaganda.

Erros frequentes

  • Incluir Tito Lívio no círculo de Mecenas, a par de Virgílio e Horácio: era historiador, não poeta, e relativamente independente do poder.
  • Reduzir a Ab Urbe Condita a propaganda augustana, esquecendo a sua dimensão moral, literária e crítica própria.
  • Ignorar, no extremo oposto, a evidente convergência da obra com o ideal augustano de regresso ao mos maiorum.

Revisão ativa

Relaciona a narração das origens de Roma (Eneias, Rómulo) com o programa ideológico de Augusto, explicando por que a Ab Urbe Condita servia a glorificação de Roma — e por que não deve, ainda assim, ser lida como simples propaganda.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A glorificação de Roma e o clima augustano) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01A historiografia latina e a sua função moral○
    • 02Tito Lívio e a Ab Urbe Condita◐
    • 03Método analístico, praefatio e exempla●
    • 04A glorificação de Roma e o clima augustano●

0/4 Lidos

Dos resumos à prática

Historiografia latina: Tito Lívio e a glorificação de Roma

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Cultura e literatura: a historiografia latina)

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