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Resumos/Latim B/Texto narrativo: Petrónio e Apuleio
Resumos · Latim BPT · Secundário

Texto narrativo: Petrónio e Apuleio

O «romance» nasceu tarde na literatura antiga, já em época imperial, e Roma legou-nos dois exemplares maiores: o Satyricon de Petrónio, realista e satírico, e as Metamorphoses (o Asno de Ouro) de Apuleio, fantásticas e iniciáticas. Estudar estes dois textos narrativos é ver como a prosa latina soube ao mesmo tempo retratar a sociedade e encantar com o maravilhoso. Sendo Latim B uma disciplina de avaliação interna (sem Exame Final Nacional), o que aqui se valoriza é a caracterização das obras, o comentário literário e a relação da cultura latina com a nossa.

4 secções·~15 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·101010 / 13
Perfil de exame
Caracterizar o texto narrativo latino e o «romance» antigoCaracterizar o Satyricon de Petrónio e a Cena TrimalchionisCaracterizar as Metamorfoses de Apuleio e o conto de Cupido e PsiqueComparar o realismo satírico de Petrónio com o fantástico de Apuleio
Operadores:caracterizacomparaexplicaidentificacomentarelacionatraduzsitua

nível básico

Caracterizar o Satyricon de Petrónio e o Asno de Ouro de Apuleio e situá-los, honestamente, no Império (séc. I e II d.C.).

nível avançado

Comparar em pormenor o realismo satírico de Petrónio e o fantástico iniciático de Apuleio e comentar o valor de cada obra na história da narrativa.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Texto narrativo: Petrónio e Apuleio
    • 01O texto narrativo latino e o romance antigo○
    • 02Petrónio: o Satyricon e a Cena Trimalchionis◐
    • 03Apuleio: as Metamorfoses e Cupido e Psique◐
    • 04Petrónio e Apuleio: dois modos de narrar●
§ 01

O texto narrativo latino e o romance antigo#

●○○BaseLPAE-latim-b-petronio-apuleio

Pontos-chave

O «romance» é o género narrativo mais tardio da literatura antiga: nasce já em época imperial e nunca foi teorizado pelos antigos (Aristóteles não o classifica), ao contrário da epopeia. É uma longa narrativa de ficção em prosa — e é justamente a prosa que o separa da epopeia, que é em verso. O termo «romance» é, aliás, moderno: os antigos não tinham sequer um nome fixo para estas obras. Convém, por isso, tratá-lo como um género fértil mas «menor» e marginal, que só o Império desenvolveu (ver Fig. 1).

De Nero aos Antoninos

De Nero aos Antoninos: fora do Século de AugustoLinha do tempo de -30 a 185, 14: Morte de Augusto, 66: Petrónio m. 66, 125: Apuleio c. 125, -27–14: Século de Augusto, 54–68: Nero (54–68), 138–180: Antoninos−30185anoSéculo de AugustoNero (54–68)Antoninos14Morte de Augusto66Petrónio m. 66125Apuleio c. 125
Fig. 1Fig. 1 — Petrónio (Nero, séc. I d.C.) e Apuleio (Antoninos, séc. II d.C.) situam-se depois do Século de Augusto.
Distinguem-se duas grandes vertentes. A vertente grega, idealizante, conta amores de jovens separados e reencontrados após mil aventuras (o «romance de amor e aventura»). A vertente latina, cómica e realista, descende antes da fabula Milesia — os contos milésios de Aristides de Mileto, breves narrativas cómicas e picantes — e da sátira menipeia, que misturava prosa e verso. Não por acaso, Apuleio abre a sua obra apresentando-a como um sermo Milesius («discurso à maneira de Mileto»), e o Satyricon adota a forma mista da menipeia.
Roma legou-nos dois exemplares maiores deste género, e ambos são imperiais, posteriores ao Século de Augusto — este é o enquadramento honesto a reter (ver Fig. 1). Petrónio escreve no século I d.C., na corte de Nero (a dinastia júlio-cláudia); Apuleio, ainda mais tarde, no século II d.C., sob os Antoninos. Nenhum deles pertence, pois, à Idade de Ouro augustana de Virgílio e Horácio: o romance latino floresce quando essa idade já passou.
Que traços definem estas narrativas? São longas ficções em prosa, com um protagonista que viaja e sofre peripécias (Encólpio no Satyricon, Lúcio nas Metamorfoses); recorrem à narração na primeira pessoa; encaixam histórias dentro da história (as narrativas inseridas); e pintam ora o mundo quotidiano, ora o mundo do maravilhoso. Acima de tudo, são ficção destinada a agradar — Apuleio promete ao leitor «laetaberis» («hás de te deleitar») —, muitas vezes com intenção satírica ou simbólica. É esta dupla possibilidade, rir da sociedade ou encantar com o prodígio, que Petrónio e Apuleio vão encarnar de modos opostos.
Exemplo resolvido

Situar Petrónio e Apuleio na história de Roma

A partir das datas, mostra que Petrónio e Apuleio não pertencem ao Século de Augusto e indica a época de cada um.

  1. 01Fixar o Século de Augusto

    O Principado de Augusto e a Idade de Ouro vão de c. 27 a.C. a 14 d.C. (ano da morte de Augusto): é a época de Virgílio e de Horácio.

  2. 02Situar Petrónio

    Petrónio morre em 66 d.C., na corte de Nero: pertence, portanto, ao século I d.C., já depois de Augusto.

  3. 03Situar Apuleio

    Apuleio nasce c. 125 d.C. e vive até depois de 170, sob os Antoninos: pertence ao século II d.C., ainda mais tarde.

Resultado: Ambos são autores imperiais, posteriores ao Século de Augusto: Petrónio no séc. I (Nero) e Apuleio no séc. II (Antoninos) — o romance latino é um género tardio.

Foco no Exame Nacional

  • Situar o «romance» antigo como género tardio, em prosa, distinto da epopeia e nascido no Império.
  • Reconhecer que Petrónio e Apuleio são autores posteriores ao Século de Augusto (séc. I e II d.C.).

Erros frequentes

  • Julgar que o «romance» é um género tão antigo e canónico como a epopeia — é tardio, imperial e nunca foi teorizado pelos antigos.
  • Situar Petrónio ou Apuleio no Século de Augusto — são posteriores (séc. I e II d.C.), já em pleno Império.
  • Confundir o romance grego, idealizante e amoroso, com o romance latino, cómico e realista.

Revisão ativa

Explica, em poucas linhas, por que o Satyricon e o Asno de Ouro são obras do Império, e não do Século de Augusto, indicando o século e o enquadramento de cada autor.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (O texto narrativo e o romance latino) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Petrónio: o Satyricon e a Cena Trimalchionis#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-petronio-apuleio

Pontos-chave

Petrónio (Titus Petronius Arbiter, m. 66 d.C.) foi um aristocrata refinado da corte de Nero, a quem Tácito chama o «arbiter elegantiae» — o árbitro do bom gosto, aquele cuja aprovação ditava o que era elegante. Caído em desgraça por intriga, foi obrigado por Nero a suicidar-se, em 66 d.C. A ele se atribui o Satyricon, a mais antiga narrativa de tipo romanesco que chegou até nós em latim.
O Satyricon é um prosimetrum — uma narrativa em prosa entremeada de passos em verso — conservada apenas fragmentariamente. Segue, à maneira picaresca, as desventuras de um jovem errante, Encólpio, que narra na primeira pessoa, na companhia do rapaz Gitão e do seu rival Ascilto (ver Fig. 2). O tom é realista, cómico e satírico: Petrónio observa a sociedade do seu tempo com um olhar mordaz e divertido, sem a idealizar.

As personagens do Satyricon

As personagens do SatyriconTabela com 2 colunas e 6 linhas, Dados: Personagem · Quem é / papel na narrativa; Encólpio · narrador e protagonista; jovem errante; Gitão · jovem companheiro de Encólpio; Ascilto · companheiro e rival de Encólpio; Trimalquião · liberto enriquecido; anfitrião da Cena; Fortunata · mulher de Trimalquião; antiga escrava; Eumolpo · poeta idoso que se junta ao grupo, célula destacada: TrimalquiãoPERSONAGEMQUEM É /PAPEL NANARRATIVAENCÓLPIOnarrador e protagonista;jovem erranteGITÃOjovem companheiro deEncólpioASCILTOcompanheiro e rival deEncólpioTRIMALQUIÃOliberto enriquecido;anfitrião da CenaFORTUNATAmulher de Trimalquião;antiga escravaEUMOLPOpoeta idoso que se junta aogrupo
Fig. 2Fig. 2 — As principais personagens do Satyricon e da Cena Trimalchionis.
O episódio mais bem conservado e célebre é a Cena Trimalchionis (o «Banquete de Trimalquião»). Trimalquião é um liberto — um antigo escravo alforriado — que enriqueceu desmesuradamente e oferece um jantar de ostentação grotesca, exibindo a riqueza com mau gosto e uma ignorância pretensiosa; ao seu lado está a mulher, Fortunata, também de origem servil. A Cena é uma sátira impiedosa do novo-rico e um retrato vivíssimo da sociedade romana vista pelos seus escalões mais baixos e recentes.
Um traço torna a Cena um documento único: o latim vulgar das personagens. Enquanto o narrador usa a língua culta, os libertos falam o sermo plebeius — o latim popular e coloquial, com os seus erros, provérbios e expressões do dia a dia. Petrónio reproduz essa fala com um realismo linguístico extraordinário, o que faz do Satyricon uma fonte preciosa para o conhecimento do latim falado — aquele que, e não o clássico, está na origem das línguas românicas. O realismo de Petrónio é, pois, também um realismo da língua.
Exemplo resolvido

Traduzir e comentar uma frase da Cena

Traduz «Trimalchio, libertus diues, in cena diuitias suas ostentat» e mostra como reflete o realismo social do Satyricon.

  1. 01Localizar o verbo e o sujeito

    ostentat é o verbo principal (3.ª pes. sing. de ostentare, «exibe, ostenta»); o sujeito é Trimalchio (nominativo), «Trimalquião».

  2. 02Analisar o aposto

    libertus diues está no nominativo, em aposição ao sujeito: «um liberto rico» (libertus = liberto; diues = rico).

  3. 03Analisar os complementos

    diuitias suas é acusativo plural (diuitiae, pluralia tantum), complemento direto, «as suas riquezas»; in cena é in + ablativo, circunstância de lugar, «no banquete».

  4. 04Comentar

    A frase condensa o tema da Cena: o liberto que, tendo enriquecido, exibe a riqueza sem medida — a matéria da sátira social de Petrónio.

Resultado: Tradução: «Trimalquião, um liberto rico, ostenta as suas riquezas no banquete». A frase reflete o realismo satírico da Cena: o retrato crítico do novo-rico que ostenta o que tem.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar o Satyricon como prosimetrum realista e satírico e situar a Cena Trimalchionis.
  • Reconhecer o valor do latim vulgar das personagens como recurso realista e documento do latim falado.

Erros frequentes

  • Confundir o narrador Encólpio com o autor Petrónio.
  • Tratar o Satyricon como obra completa — conserva-se apenas fragmentariamente, sendo a Cena Trimalchionis o trecho maior.
  • Ver no latim vulgar da Cena um simples «erro» de Petrónio, e não um recurso realista deliberado.

Revisão ativa

Traduz e comenta a frase «Trimalchio, libertus diues, in cena diuitias suas ostentat», mostrando como ela reflete o realismo social da Cena Trimalchionis.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Petrónio: o Satyricon) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Apuleio: as Metamorfoses e Cupido e Psique#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-petronio-apuleio

Pontos-chave

Apuleio (Lucius Apuleius, c. 125–depois de 170 d.C.) nasceu em Madauros, na província romana de África, e foi filósofo platónico e orador de grande cultura. Além do romance, deixou a Apologia (ou De Magia), o discurso com que se defendeu de uma acusação de ter usado magia para casar com uma viúva rica, e outras obras filosóficas e retóricas. A sua obra-prima são as Metamorphoses, também chamadas Asinus aureus (O Asno de Ouro), em onze livros — o único romance latino que se conservou por inteiro.
O enredo é o de uma metamorfose (ver Fig. 3): Lúcio, um jovem ávido de conhecer a magia, viaja pela Tessália, terra de feiticeiras; ao experimentar um unguento mágico, transforma-se, por engano, num asno, conservando embora a mente humana. Sob a forma de asno, passa por inúmeras peripécias e maus-tratos, servindo sucessivos donos. Só no livro XI a deusa Ísis se lhe revela e, comendo rosas, ele recupera a forma humana e é iniciado nos mistérios da deusa. A obra fecha, assim, numa salvação religiosa.

O enredo do Asno de Ouro

O enredo do Asno de Ouro e o conto inseridoDiagrama em árvore, 6 caminhos, Dados: Moldura: Lúcio-asno → Curioso da magia; Moldura: Lúcio-asno → Transformado em asno; Moldura: Lúcio-asno → Peripécias como asno; Moldura: Lúcio-asno → Ísis: forma humana; Conto inserido (IV–VI) → Cupido e Psique; Conto inserido (IV–VI) → Provas; união finalMoldura: Lúcio-asnoConto inserido (IV–VI)O Asno de OuroCurioso da magiaTransformado em asnoPeripécias como asnoÍsis: forma humanaCupido e PsiqueProvas; união final
Fig. 3Fig. 3 — A moldura (Lúcio-asno) e a narrativa inserida de Cupido e Psique.
As Metamorfoses são uma narrativa-moldura cheia de histórias inseridas, e a mais extensa e famosa é o conto de Cupido e Psique (livros IV–VI), contado por uma velha para consolar uma jovem raptada por salteadores. Psique, uma princesa de beleza tão extraordinária que os homens a adoram em lugar de Vénus, atrai o ciúme da deusa; casada com um esposo invisível — o próprio Cupido —, é proibida de o contemplar. Instigada pelas irmãs invejosas, acende uma lâmpada e vê-o, mas uma gota de azeite a ferver desperta-o e ele foge. Psique vagueia então pelo mundo, cumpre as provas cruéis que Vénus lhe impõe e, no fim, reencontra Cupido e recebe a imortalidade; da união nasce uma filha, Volúpia.
O tom de Apuleio é o oposto do de Petrónio: o fantástico, o maravilhoso, o simbólico. O próprio nome de Psique significa «alma», e o conto lê-se tradicionalmente como uma alegoria do percurso da alma humana, que só através do sofrimento e das provas alcança o amor divino — uma leitura iniciática, a par da iniciação de Lúcio nos mistérios de Ísis. A língua de Apuleio é rica, retórica e arcaizante, muito distante do latim vulgar da Cena. A mesma matéria milésia que servira o riso torna-se, em Apuleio, veículo de um sentido espiritual.
Exemplo resolvido

Traduzir e comentar a abertura das Metamorfoses

Traduz «Lector, intende: laetaberis» (abertura das Metamorfoses, 1.1) e comenta o que ela revela sobre o género.

  1. 01Lector

    Vocativo: «ó leitor». Apuleio dirige-se diretamente ao leitor, num apelo à sua atenção.

  2. 02intende

    Imperativo de intendere: «presta atenção, aplica o teu espírito».

  3. 03laetaberis

    Futuro de laetari (verbo depoente): «hás de te alegrar, deleitar-te-ás».

  4. 04Comentar

    Apuleio promete prazer ao leitor: assume o romance como ficção de entretenimento e maravilha, na tradição do sermo Milesius (o conto milésio).

Resultado: Tradução: «Leitor, presta atenção: hás de te deleitar». A frase de abertura assume o romance como narrativa de prazer e de maravilha, e não como obra grave ou didática.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar as Metamorfoses (Asno de Ouro) e resumir o enredo (Lúcio-asno; a salvação por Ísis).
  • Reconhecer o conto de Cupido e Psique como narrativa inserida e a sua leitura simbólica (Psique = alma).

Erros frequentes

  • Confundir o autor Apuleio com o protagonista Lúcio (o narrador «eu» da obra).
  • Julgar que Cupido e Psique é uma obra autónoma — é um conto inserido nas Metamorfoses (livros IV–VI).
  • Esquecer o desfecho religioso: a iniciação de Lúcio nos mistérios de Ísis, no livro XI.

Revisão ativa

Resume, em cinco momentos, o enredo do Asno de Ouro e explica o lugar do conto de Cupido e Psique dentro da obra.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Apuleio: as Metamorfoses) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Petrónio e Apuleio: dois modos de narrar#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-petronio-apuleio

Pontos-chave

Postos lado a lado, Petrónio e Apuleio revelam quanto o romance antigo podia ser diverso (ver Fig. 4). Têm em comum muito: são ambos romances latinos do Império, ambos narrados na primeira pessoa, ambos cheios de histórias inseridas e ambos herdeiros da veia cómica e milésia. E, no entanto, representam dois modos quase opostos de narrar — duas direções que a arte narrativa haveria de seguir para sempre.

Petrónio e Apuleio: quadro comparativo

Petrónio e Apuleio: quadro comparativoTabela com 5 colunas e 2 linhas, Dados: Autor · Obra · Época · Forma · Tom; Petrónio · Satyricon · séc. I d.C. (Nero) · prosimetrum; fragmentário · realista e satírico; Apuleio · Metamorfoses (Asno de Ouro) · séc. II d.C. (Antoninos) · prosa; 11 livros; completa · fantástico e iniciático, célula destacada: realista e satíricoAUTOROBRAÉPOCAFORMATOMPETRÓNIOSatyriconséc. I d.C. (Nero)prosimetrum; fragmentáriorealista e satíricoAPULEIOMetamorfoses (Asno de Ouro)séc. II d.C. (Antoninos)prosa; 11 livros; completafantástico e iniciático
Fig. 4Fig. 4 — Petrónio e Apuleio: obra, época, forma e tom.
Petrónio é o polo do realismo e da sátira. O seu mundo é o mundo real e reconhecível — libertos, tabernas, o banquete, a cidade —, observado com humor e espírito crítico. A sua intenção é fazer rir e censurar os costumes, sobretudo a vulgaridade do novo-rico; e o seu latim desce ao registo popular das personagens. É uma narrativa voltada para este mundo, para a sociedade e os seus tipos.
Apuleio é o polo do fantástico e do maravilhoso (ver Fig. 5). O seu mundo é o da magia e do prodígio — feiticeiras, metamorfoses, deuses que intervêm —, e a sua obra tende para o símbolo e para a religião: termina na salvação e na iniciação nos mistérios. A sua intenção não é criticar a sociedade, mas encantar e sugerir um sentido oculto; e o seu latim é elaborado e arcaizante. É uma narrativa voltada para o outro mundo, para o mistério e a alma.

Realismo satírico e fantástico maravilhoso

Realismo satírico e fantástico maravilhosoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Petrónio — realismo satírico · Apuleio — fantástico maravilhoso; Mundo representado · sociedade real: libertos, banquete, taberna · mundo mágico: bruxas, metamorfoses, deuses; Registo da língua · latim vulgar das personagens (sermo plebeius) · latim rico, retórico e arcaizante; Intenção · sátira dos costumes e da ostentação · maravilha e sentido simbólico ou iniciático; Desfecho · crítica social e riso · salvação religiosa e iniciação (Ísis), célula destacada: latim vulgar das personagens (sermo plebeius)ASPETOPETRÓNIO — REALISMOSATÍRICOAPULEIO — FANTÁSTICOMARAVILHOSOMUNDO REPRESENTADOsociedade real: libertos,banquete, tabernamundo mágico: bruxas,metamorfoses, deusesREGISTO DA LÍNGUAlatim vulgar das personagens(sermo plebeius)latim rico, retórico earcaizanteINTENÇÃOsátira dos costumes e daostentaçãomaravilha e sentidosimbólico ou iniciáticoDESFECHOcrítica social e risosalvação religiosa einiciação (Ísis)
Fig. 5Fig. 5 — Dois modos de narrar: realismo satírico (Petrónio) e fantástico maravilhoso (Apuleio).
Estes dois modos — o realista-satírico e o fantástico-simbólico — são, no fundo, duas grandes vias que o romance europeu viria a herdar: a linha realista que retrata a sociedade (de que a novela picaresca é descendente) e a linha do maravilhoso e do alegórico. Comentar Petrónio e Apuleio é, por isso, não só caracterizar duas obras latinas, mas reconhecer nas suas diferenças a raiz de duas maneiras de contar que ainda hoje reconhecemos. É esta relação entre a cultura latina e a nossa que a análise literária aqui procura.
Exemplo resolvido

Distinguir o realismo de Petrónio do fantástico de Apuleio

Para cada traço, indica se é próprio de Petrónio ou de Apuleio e justifica: (a) um liberto ostenta a riqueza num banquete; (b) um jovem transforma-se em asno pela magia; (c) as personagens falam latim vulgar; (d) uma deusa salva o protagonista e inicia-o nos seus mistérios.

  1. 01(a) O banquete do liberto

    Petrónio: a Cena Trimalchionis retrata a sociedade real e satiriza o novo-rico — realismo social.

  2. 02(b) A metamorfose em asno

    Apuleio: a transformação de Lúcio pela magia pertence ao mundo do fantástico e do maravilhoso.

  3. 03(c) O latim vulgar

    Petrónio: os libertos falam o sermo plebeius — realismo linguístico, um documento do latim falado.

  4. 04(d) A salvação pela deusa

    Apuleio: a intervenção de Ísis e a iniciação nos mistérios dão à obra a sua dimensão religiosa e iniciática.

Resultado: (a) e (c) são de Petrónio (realismo satírico); (b) e (d) são de Apuleio (fantástico e iniciático) — os dois modos opostos de narrar.

Foco no Exame Nacional

  • Comparar o realismo satírico de Petrónio com o fantástico e iniciático de Apuleio (obra, forma, tom).
  • Comentar cada texto na sua dimensão literária e cultural, relacionando-o com a tradição narrativa posterior.

Erros frequentes

  • Reduzir os dois autores a um único «tipo» de romance — representam dois modos opostos, o realista e o fantástico.
  • Trocar as características: atribuir a Petrónio o maravilhoso, ou a Apuleio o latim vulgar.
  • Esquecer que ambos são imperiais e posteriores a Augusto ao compará-los com os autores da Idade de Ouro.

Revisão ativa

Elabora um quadro comparativo de Petrónio e Apuleio (obra, época, forma, tom) e escreve um parágrafo que comente o contraste entre o realismo satírico e o fantástico.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (O texto narrativo latino) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O texto narrativo latino e o romance antigo○
    • 02Petrónio: o Satyricon e a Cena Trimalchionis◐
    • 03Apuleio: as Metamorfoses e Cupido e Psique◐
    • 04Petrónio e Apuleio: dois modos de narrar●

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Dos resumos à prática

Texto narrativo: Petrónio e Apuleio

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (O texto narrativo e o romance latino)

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