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Resumos/Latim B/A herança da cultura latina e etimologia greco-latina
Resumos · Latim BPT · Secundário

A herança da cultura latina e etimologia greco-latina

O português é uma língua românica, filha do latim falado: da mesma raiz nasceram também o espanhol, o francês, o italiano e o romeno. Deste parentesco decorrem as leis regulares de evolução fonética (do latim ao português), a distinção entre palavras populares e cultismos — com os seus dobretes —, a etimologia greco-latina do vocabulário científico e um punhado de expressões latinas ainda vivas. Sendo Latim B uma disciplina de avaliação interna (sem Exame Final Nacional), o foco de avaliação está na relação fundamentada entre a cultura e a língua latinas e o português.

4 secções·~16 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2

T·121212 / 13
Perfil de exame
Explicar a filiação do português no latimReconhecer e explicar os principais fenómenos de evolução fonéticaDistinguir palavras populares de cultismos e identificar dobretesReconhecer radicais, prefixos e sufixos greco-latinos e o sentido de expressões latinas em uso
Operadores:explicarelacionadistingueidentificaaplicareconhece

nível básico

Reconhecer a origem latina do português, aplicar as leis de evolução fonética mais simples e identificar radicais greco-latinos e expressões latinas comuns.

nível avançado

Explicar a filiação românica e as leis de evolução fonética, distinguir palavras populares de cultismos com os seus dobretes e analisar a formação greco-latina do vocabulário.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. A herança da cultura latina e etimologia greco-latina
    • 01O latim, língua-mãe do português e das línguas românicas○
    • 02A evolução fonética: do latim ao português●
    • 03Palavras populares, cultismos e dobretes●
    • 04Etimologia greco-latina e expressões latinas em uso◐
§ 01

O latim, língua-mãe do português e das línguas românicas#

●○○BaseLPAE-latim-b-heranca-etimologia

Pontos-chave

O português é uma língua românica (ou neolatina): nasceu do latim, mais precisamente do latim falado — o latim vulgar (sermo uulgaris) — levado à Península Ibérica pelos soldados, comerciantes e colonos de Roma a partir do século III a.C. Com a fragmentação do Império, esse latim falado, já diversificado de região para região, deu origem a toda a família das línguas românicas: o português e o galego, o espanhol (castelhano), o catalão, o francês, o occitano, o italiano, o sardo, o romanche e o romeno (ver Fig. 1). O português formou-se no noroeste peninsular, a partir do galego-português. Todas estas línguas são, pois, «irmãs», filhas do mesmo latim — e não descendentes umas das outras.

A família das línguas românicas

As línguas românicasDiagrama em árvore, 6 caminhos, Dados: Ibero-românico → Português; Ibero-românico → Galego; Ibero-românico → Espanhol; Galo-românico → Francês; Ítalo-românico → Italiano; Balcano-românico → RomenoIbero-românicoGalo-românicoÍtalo-românicoBalcano-românicoLatimPortuguêsGalegoEspanholFrancêsItalianoRomeno
Fig. 1Fig. 1 — As línguas românicas, todas filhas do latim falado; o português nasce no ramo ibero-românico.
É essencial distinguir o latim clássico do latim vulgar. O latim clássico é a língua literária, escrita e cuidada de Cícero, de Virgílio e de Horácio, fixada pela gramática e pela retórica; o latim vulgar é a língua falada no dia a dia, mais simples e mutável, que variava no tempo e no espaço. Foi este latim falado — e não o dos livros — que evoluiu para as línguas românicas. Daí que a palavra portuguesa popular provenha, em regra, do acusativo latino (a forma mais usada na fala) e que muitas vezes as línguas românicas partilhem uma palavra do latim vulgar diferente da clássica: o latim falado dizia caballum onde o clássico dizia equus, e é caballum que dá o português cavalo, o espanhol caballo, o francês cheval e o italiano cavallo.
A herança de Roma não é só a língua: é toda uma civilização. Herdámos o alfabeto latino, em que escrevemos; a numeração romana (I, V, X, L, C, D, M), ainda usada em séculos, capítulos e nomes de reis; o direito romano, matriz dos sistemas jurídicos europeus e de grande parte do vocabulário jurídico; as instituições e a vida política (senado, república, magistrado, município, cidadão); e até o calendário, cujos meses conservam nomes latinos — Ianuarius deu Janeiro, e Iulius e Augustus perpetuam Júlio César e Augusto (ver Fig. 2). Estudar a herança latina é, por isso, reconhecer as raízes da própria cultura portuguesa e europeia.

A herança da cultura latina

A herança latinaTabela com 2 colunas e 6 linhas, Dados: Domínio · O que herdámos de Roma; Língua · o português e as demais línguas românicas; Alfabeto · o alfabeto latino, em que escrevemos; Numeração · os algarismos romanos (I, V, X, L, C, D, M); Direito · o direito romano, matriz do direito europeu; Instituições · senado, república, magistratura, município; Calendário · os meses (Iulius > Julho; Augustus > Agosto), célula destacada: o português e as demais línguas românicasDOMÍNIOO QUE HERDÁMOS DE ROMALÍNGUAo português e as demaislínguas românicasALFABETOo alfabeto latino, em queescrevemosNUMERAÇÃOos algarismos romanos (I, V,X, L, C, D, M)DIREITOo direito romano, matriz dodireito europeuINSTITUIÇÕESsenado, república,magistratura, municípioCALENDÁRIOos meses (Iulius > Julho;Augustus > Agosto)
Fig. 2Fig. 2 — A herança latina não é só a língua: é toda uma civilização.
O parentesco entre as línguas românicas torna-se evidente quando se comparam as mesmas palavras: o latim lunam dá o português lua, o espanhol luna, o francês lune, o italiano luna e o romeno lună; o latim noctem dá noite, noche, nuit, notte e noapte. Estas semelhanças regulares não são acaso: revelam a origem comum e as leis de evolução que, a partir do mesmo étimo latino, conduziram a cada uma das línguas irmãs. Compreender esta filiação é a porta de entrada para tudo o resto — para as leis de evolução fonética, para a distinção entre palavras populares e eruditas e para a etimologia do vocabulário português.
Exemplo resolvido

Reconhecer o parentesco românico

A partir do latim «caballum» (cavalo), compara as formas românicas e explica por que o português diz «cavalo».

  1. 01Latim clássico vs falado

    O latim clássico dizia equus; o latim falado preferiu caballum («cavalo de trabalho, de carga»). Foi o latim falado que gerou as línguas românicas.

  2. 02As formas irmãs

    De caballum vêm o português cavalo, o espanhol caballo, o francês cheval, o italiano cavallo e o romeno cal — todas do mesmo étimo vulgar.

  3. 03Concluir

    A semelhança das formas mostra a origem comum: o português, como as suas línguas irmãs, descende do latim falado, e não do latim literário de Cícero.

Resultado: As línguas românicas dizem «cavalo» a partir do vulgar caballum, e não do clássico equus: o parentesco confirma que todas descendem do mesmo latim falado.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar a filiação do português no latim falado (vulgar) e situá-lo, como língua românica, entre as suas línguas irmãs.
  • Relacionar a herança latina — língua, alfabeto, numeração, direito, instituições — com a cultura portuguesa e europeia.

Erros frequentes

  • Confundir o latim clássico (escrito, literário) com o latim vulgar (falado), quando foi este último que deu origem às línguas românicas.
  • Julgar que o português vem diretamente do latim de Cícero e de Virgílio, ignorando os séculos de evolução do latim falado.
  • Tomar o espanhol, o francês ou o italiano por antepassados do português, quando são línguas irmãs, todas filhas do mesmo latim.

Revisão ativa

Observa o latim «lunam» e as suas descendentes românicas (lua, luna, lune, luna, lună). Explica o que este parentesco revela sobre a origem comum das línguas românicas e distingue o latim clássico do latim vulgar.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A herança latina e as línguas românicas) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

A evolução fonética: do latim ao português#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-heranca-etimologia

Pontos-chave

A palavra portuguesa de formação popular não surgiu de um salto, mas de séculos de transformação regular do latim falado — as chamadas leis de evolução fonética. O traço decisivo é a regularidade: a mesma mudança de som aplica-se de modo constante, de tal forma que, partindo de uma palavra latina (em regra do acusativo), se pode prever, em boas linhas, a sua descendente portuguesa (ver Fig. 3). Convém conhecer os principais fenómenos, que a seguir se apresentam.

As leis de evolução fonética do latim ao português

Leis de evolução fonéticaTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Fenómeno · Em que consiste · Exemplos (latim > português); Sonorização das surdas · p, t, c intervocálicos > b, d, g · lupum > lobo; uitam > vida; amicam > amiga; Palatalização de cl-, pl-, fl- · os grupos iniciais dão ch- [ʃ] · clauem > chave; plenum > cheio; plorare > chorar; Palatalização de -ct- · o grupo -ct- dá -it- · noctem > noite; factum > feito; lactem > leite; octo > oito; Palatalização de -li-, -c'l- · estes grupos dão o som -lh- · filium > filho; oculum > olho; Síncope · queda de vogal átona interna · oculum > oc'lu > olho; calidum > caldo; Monotongação · os ditongos reduzem-se · aurum > ouro; causam > cousa; Queda de consoantes · -l-, -n- caem entre vogais · dolorem > dor; lunam > lua, célula destacada: lupum > lobo; uitam > vida; amicam > amigaFENÓMENOEM QUE CONSISTEEXEMPLOS (LATIM >PORTUGUÊS)SONORIZAÇÃO DASSURDASp, t, c intervocálicos > b,d, glupum > lobo; uitam > vida;amicam > amigaPALATALIZAÇÃO DECL-, PL-, FL-os grupos iniciais dão ch-[ʃ]clauem > chave; plenum >cheio; plorare > chorarPALATALIZAÇÃO DE -CT-o grupo -ct- dá -it-noctem > noite; factum >feito; lactem > leite; octo> oitoPALATALIZAÇÃO DE -LI-, -C'L-estes grupos dão o som -lh-filium > filho; oculum >olhoSÍNCOPEqueda de vogal átona internaoculum > oc'lu > olho;calidum > caldoMONOTONGAÇÃOos ditongos reduzem-seaurum > ouro; causam > cousaQUEDA DECONSOANTES-l-, -n- caem entre vogaisdolorem > dor; lunam > lua
Fig. 3Fig. 3 — Os principais fenómenos de evolução fonética; a palavra popular parte do acusativo latino.
A sonorização das oclusivas surdas intervocálicas é uma das leis mais características do português (e também do galego e do espanhol): as consoantes p, t, c, quando ficam entre vogais, sonorizam-se, tornando-se respetivamente b, d, g. Assim, lupum dá lobo (p > b), uitam dá vida (t > d) e amicam dá amiga (c > g). É um fenómeno regularíssimo, que explica por que tantas consoantes surdas do latim aparecem sonoras na palavra portuguesa correspondente.
A palatalização reúne várias mudanças que produzem sons palatais (o ch, o lh, o nh). Os grupos iniciais cl-, pl- e fl- palatalizam-se em ch- [ʃ]: clauem dá chave, plenum dá cheio e plorare dá chorar (e flammam dá chama). O grupo -ct- evolui para -it-: noctem dá noite, factum dá feito, lactem dá leite e octo dá oito. E os grupos -li- e -c'l- (este último resultante da síncope) dão o som -lh-: filium dá filho e oculum dá olho. A par destes exemplos, a Fig. 4 mostra passo a passo a evolução de noctem para noite.

Do latim ao português: noctem > noite

noctemnoctenoitecai o -m-ct- → -it-
Fig. 4Fig. 4 — A evolução de «noctem» a «noite», passo a passo: queda do -m e palatalização de -ct- em -it-.
Outros fenómenos atuam sobre as vogais e as consoantes. A síncope é a queda de uma vogal átona interna: oculum perde o u (oc'lum) antes de palatalizar em olho, e calidum dá caldo. A monotongação reduz os ditongos latinos: aurum dá ouro e causam dá cousa (depois coisa). E a queda de consoantes intervocálicas faz cair sobretudo o -l- e o -n- entre vogais: dolorem dá dor e lunam dá lua. Todas estas leis se aplicam com regularidade e atuaram sobre o vocabulário popular — as palavras do quotidiano, transmitidas oralmente e sem interrupção do latim ao português —, que são, por isso, as mais transformadas. Conhecê-las é saber ligar cada palavra portuguesa à sua origem latina.
Exemplo resolvido

Aplicar as leis de evolução fonética

Explica, pelas leis de evolução fonética, a passagem de «lupum» a «lobo», de «noctem» a «noite» e de «oculum» a «olho».

  1. 01lupum > lobo

    Do acusativo lupum cai o -m final; o p intervocálico sonoriza-se em b (sonorização das surdas: p > b) e o u breve abre em o. Resultado: lobo.

  2. 02noctem > noite

    Do acusativo noctem cai o -m; o grupo -ct- palataliza-se em -it- (noct- > noit-). Resultado: noite.

  3. 03oculum > olho

    Do acusativo oculum cai a vogal átona interna -u- (síncope: oc'lum); o grupo resultante -c'l- palataliza-se em -lh-. Resultado: olho.

Resultado: lupum > lobo (sonorização p > b), noctem > noite (palatalização -ct- > -it-) e oculum > olho (síncope + palatalização -c'l- > -lh-): cada palavra ilustra um fenómeno regular, partindo sempre do acusativo.

Foco no Exame Nacional

  • Aplicar as leis de evolução fonética (sonorização, palatalização, síncope, monotongação, queda de consoantes) para relacionar uma palavra portuguesa com o seu étimo latino.
  • Reconhecer que a palavra popular parte, em regra, do acusativo latino e resulta da transmissão oral e ininterrupta.

Erros frequentes

  • Julgar a evolução irregular ou aleatória, quando as leis se aplicam com regularidade.
  • Não reconhecer a sonorização — não ver o t de «uitam» no d de «vida», nem o c de «amicam» no g de «amiga».
  • Partir do nominativo latino em vez do acusativo, que é a forma de que descende a palavra popular.

Revisão ativa

Aplica as leis de evolução fonética para explicar a passagem de «noctem» a «noite», de «lupum» a «lobo» e de «oculum» a «olho», nomeando o fenómeno em ação em cada caso.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Evolução fonética do latim ao português) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Palavras populares, cultismos e dobretes#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-heranca-etimologia

Pontos-chave

Nem todas as palavras portuguesas de origem latina evoluíram do mesmo modo, porque não entraram na língua pela mesma via. As palavras populares (ou de formação popular, também ditas divergentes ou hereditárias) foram transmitidas oralmente e sem interrupção desde o latim, sofrendo por isso todas as leis de evolução fonética: é o caso de cheio, do latim plenum. As palavras eruditas ou cultismos foram tomadas muito mais tarde, diretamente do latim escrito — pela Igreja, pela ciência, pelos letrados, sobretudo a partir do Renascimento —, e por isso escaparam à maior parte das mudanças: é o caso de pleno, também de plenum (ver Fig. 5).

Alguns dobretes (pares divergentes)

DobretesTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Étimo latino · Palavra popular · Palavra erudita (cultismo); plenum · cheio · pleno; oculum · olho · óculo; cathedram · cadeira · cátedra; clauem · chave · clave; auscultare · escutar · auscultar; legalem · leal · legal, célula destacada: cheioÉTIMO LATINOPALAVRA POPULARPALAVRA ERUDITA(CULTISMO)PLENUMcheioplenoOCULUMolhoóculoCATHEDRAMcadeiracátedraCLAUEMchaveclaveAUSCULTAREescutarauscultarLEGALEMleallegal
Fig. 5Fig. 5 — Dobretes: de um mesmo étimo latino descendem uma palavra popular e um cultismo.
Quando de um mesmo étimo latino descendem, lado a lado, uma palavra popular e uma erudita, forma-se um dobrete (ou par divergente, ou dupla). Assim, plenum deu cheio (popular) e pleno (erudito); oculum deu olho e óculo; cathedram deu cadeira e cátedra; clauem deu chave e clave; auscultare deu escutar e auscultar; e legalem deu leal e legal. A palavra popular é mais transformada, mais antiga na língua e mais quotidiana; a erudita é mais próxima do latim, de entrada mais tardia e de registo culto ou técnico. A Fig. 6 isola o mecanismo no caso de oculum: um só étimo, duas vias, dois resultados.

Um dobrete: as duas vias de oculum

O dobrete de oculumDiagrama em árvore, 2 caminhos, Dados: olho (popular); óculo (erudito)oculum (latim)olho (popular)óculo (erudito)
Fig. 6Fig. 6 — De «oculum» vêm olho (via oral, popular) e óculo (via culta, erudita): um dobrete.
Entre os dois extremos há ainda as palavras semieruditas, de evolução apenas parcial. Um mesmo étimo pode até gerar três formas: de articulum vêm o popular artelho («dedo do pé»), o semierudito artigo e o erudito artículo — três graus de evolução a partir da mesma origem. A partir do Renascimento, o português foi buscar diretamente ao latim (e ao grego) um vasto conjunto de cultismos para nomear as realidades da ciência, do direito e da cultura; é por isso que convivem, na mesma língua, olho (popular) e ocular ou óculo (erudito), ambos de oculum.
Reconhecer os dobretes e classificar uma palavra como popular, semierudita ou erudita é uma das competências mais esclarecedoras da etimologia: explica por que um mesmo étimo latino dá duas (ou mais) palavras portuguesas de forma, registo e matiz de sentido diferentes. Além do interesse linguístico, esta análise enriquece o domínio do próprio português, ao tornar transparente a relação entre a palavra do dia a dia e o seu «duplo» culto.
Exemplo resolvido

Reconhecer e explicar um dobrete

Para o étimo «oculum», indica a palavra popular e o cultismo e explica as duas vias.

  1. 01Palavra popular

    olho: transmitida oralmente desde o latim; sofreu a síncope (oc'lum) e a palatalização -c'l- > -lh-. É a forma divergente, muito transformada e quotidiana.

  2. 02Cultismo

    óculo: tomado mais tarde, diretamente do latim escrito, quase sem alteração; de registo culto ou técnico (cf. ainda ocular, oculista).

  3. 03As duas vias

    Ambas partem de oculum, mas olho veio pela via oral (com todas as leis) e óculo pela via culta (livresca, quase sem evolução).

Resultado: De oculum vêm olho (popular, muito evoluída) e óculo (cultismo, próximo do latim): o mesmo étimo, duas vias — a oral e a livresca —, dois resultados. É um dobrete.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir a palavra popular (divergente, muito evoluída) do cultismo (erudito, próximo do latim) e reconhecer os casos semieruditos.
  • Identificar os dobretes e o seu étimo latino comum (cheio/pleno, olho/óculo, cadeira/cátedra).

Erros frequentes

  • Julgar que a cada étimo latino corresponde uma só palavra portuguesa, ignorando os dobretes.
  • Confundir o cultismo com a palavra popular — tomar «pleno» como a forma «normal» de plenum, quando a popular é «cheio».
  • Não perceber que a palavra popular parte do acusativo e sofre todas as leis, ao contrário do cultismo, tomado do latim escrito.

Revisão ativa

Para os étimos «plenum», «oculum» e «cathedram», indica a palavra popular e o cultismo e explica a diferença entre a via oral e a via culta.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Palavras populares, cultismos e dobretes) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Etimologia greco-latina e expressões latinas em uso#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-heranca-etimologia

Pontos-chave

Grande parte do vocabulário científico, técnico e culto do português forma-se a partir de radicais, prefixos e sufixos de origem grega e latina, que se combinam livremente para nomear realidades novas. Estes elementos são muito produtivos e reconhecíveis: quem os conhece decifra e forma termos com facilidade (ver Fig. 7). Por vezes juntam-se um elemento grego e um latino no mesmo termo — os chamados híbridos, como televisão (o grego tele-, «longe», com o latim uisio, «visão»).

Radicais e afixos greco-latinos

Radicais greco-latinosTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Elemento · Origem e sentido · Exemplo português; bio- · grego «vida» · biologia, biografia; geo- · grego «terra» · geografia, geologia; hidro- · grego «água» · hidrografia, hidrogénio; tele- · grego «longe, à distância» · telefone, televisão; filo- · grego «amigo de, que ama» · filosofia, filologia; -logia · grego «estudo, ciência» · biologia, geologia; -grafia · grego «escrita, descrição» · geografia, ortografia, célula destacada: biologia, biografiaELEMENTOORIGEM E SENTIDOEXEMPLO PORTUGUÊSBIO-grego «vida»biologia, biografiaGEO-grego «terra»geografia, geologiaHIDRO-grego «água»hidrografia, hidrogénioTELE-grego «longe, à distância»telefone, televisãoFILO-grego «amigo de, que ama»filosofia, filologia-LOGIAgrego «estudo, ciência»biologia, geologia-GRAFIAgrego «escrita, descrição»geografia, ortografia
Fig. 7Fig. 7 — Radicais e afixos greco-latinos, motor do vocabulário científico e técnico.
Entre os elementos gregos mais frequentes contam-se os radicais e prefixos bio- («vida»), geo- («terra»), hidro- («água»), tele- («longe, à distância») e filo- («amigo de, que ama»), e os sufixos -logia («estudo, ciência, discurso») e -grafia («escrita, descrição»). Combinando-os, obtêm-se biologia («o estudo da vida»), geografia («a descrição da terra»), hidrografia, telefone (com -fone, «som»), filosofia (com -sofia, «sabedoria») e inúmeros outros. A estes juntam-se muitos mais (auto-, foto-, crono-, -metro, -scópio…) e os prefixos e sufixos latinos já estudados, o que faz da composição greco-latina o principal motor do vocabulário científico moderno.
Além dos radicais, o português conserva vivo um conjunto de expressões e locuções latinas, usadas tal e qual na escrita corrente, no direito, na ciência e na vida académica (ver Fig. 8). Umas pertencem à linguagem comum — et cetera (etc.), a priori, grosso modo, statu quo, sui generis, in extremis, ad hoc —; outras à linguagem formal e institucional — curriculum uitae, modus operandi, honoris causa, per capita, post scriptum (P.S.), ipsis uerbis, uerbi gratia (v.g.). Escrevem-se, em regra, em itálico, por serem sentidas como citações latinas.

Expressões latinas em uso

Expressões latinasTabela com 2 colunas e 14 linhas, Dados: Locução latina · Sentido; et cetera (etc.) · e o resto, e as restantes coisas; curriculum uitae · percurso de vida (profissional e académico); in extremis · no último momento, à beira do fim; modus operandi · modo de operar, maneira de proceder; statu quo · o estado atual das coisas; sui generis · do seu próprio género; singular, muito particular; grosso modo · aproximadamente, em traços gerais; a priori · à partida, antes da experiência; ad hoc · para o caso, feito de propósito; honoris causa · a título honorífico, por honra; per capita · por pessoa, por cabeça; post scriptum (P.S.) · escrito depois, acrescento a uma carta; ipsis uerbis · pelas mesmas palavras, textualmente; uerbi gratia (v.g.) · por exemplo, célula destacada: aproximadamente, em traços geraisLOCUÇÃO LATINASENTIDOET CETERA (ETC.)e o resto, e as restantescoisasCURRICULUM UITAEpercurso de vida(profissional e académico)IN EXTREMISno último momento, à beirado fimMODUS OPERANDImodo de operar, maneira deprocederSTATU QUOo estado atual das coisasSUI GENERISdo seu próprio género;singular, muito particularGROSSO MODOaproximadamente, em traçosgeraisA PRIORIà partida, antes daexperiênciaAD HOCpara o caso, feito depropósitoHONORIS CAUSAa título honorífico, porhonraPER CAPITApor pessoa, por cabeçaPOST SCRIPTUM(P.S.)escrito depois, acrescento auma cartaIPSIS UERBISpelas mesmas palavras,textualmenteUERBI GRATIA(V.G.)por exemplo
Fig. 8Fig. 8 — Locuções latinas vivas no português corrente, jurídico, científico e académico.
Convém empregá-las com correção, tanto no sentido como na forma: diz-se grosso modo (e não «à grosso modo»); a priori («antes da experiência») opõe-se a a posteriori; sui generis significa «muito próprio, singular», e não «estranho». Estas locuções, tal como o vocabulário greco-latino, são a face mais visível da herança de Roma (e da Grécia) na cultura contemporânea: da ciência ao direito, do jornalismo ao discurso académico, continuamos a nomear o mundo com palavras antigas. Reconhecer-lhes a origem e o sentido é ler e escrever melhor o próprio português.
Exemplo resolvido

Decompor termos científicos greco-latinos

Decompõe «biologia», «geografia» e «filosofia» nos seus elementos gregos e explica o sentido de cada termo.

  1. 01biologia

    bio- («vida») + -logia («estudo, ciência») = «o estudo da vida».

  2. 02geografia

    geo- («terra») + -grafia («escrita, descrição») = «a descrição da terra».

  3. 03filosofia

    filo- («amigo de, que ama») + -sofia («sabedoria») = «o amor à sabedoria».

Resultado: biologia = estudo da vida (bio + logia), geografia = descrição da terra (geo + grafia) e filosofia = amor à sabedoria (filo + sofia): os radicais gregos revelam o sentido do termo.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer radicais, prefixos e sufixos greco-latinos (bio-, geo-, -logia, -grafia, tele-, filo-) e deles deduzir ou formar o sentido de termos científicos.
  • Empregar corretamente e explicar o sentido das expressões latinas em uso (et cetera, statu quo, a priori, grosso modo, sui generis, honoris causa).

Erros frequentes

  • Escrever ou dizer «à grosso modo» (com «à»), quando a locução correta é «grosso modo».
  • Confundir «a priori» (antes da experiência) com «a posteriori» (depois da experiência), ou trocar o sentido de «sui generis» (singular, muito próprio).
  • Não reconhecer a origem grega de radicais como bio-, geo- e tele-, tomando-os por latinos.

Revisão ativa

Decompõe e explica «biologia», «geografia» e «filosofia» pelos seus radicais gregos; depois, indica o sentido de «statu quo», «a priori» e «grosso modo».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Etimologia greco-latina e expressões latinas) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O latim, língua-mãe do português e das línguas românicas○
    • 02A evolução fonética: do latim ao português●
    • 03Palavras populares, cultismos e dobretes●
    • 04Etimologia greco-latina e expressões latinas em uso◐

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Dos resumos à prática

A herança da cultura latina e etimologia greco-latina

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A herança latina e as línguas românicas)

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