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Resumos/Latim B/Influência da literatura latina na literatura portuguesa
Resumos · Latim BPT · Secundário

Influência da literatura latina na literatura portuguesa

A literatura portuguesa nasce e cresce em diálogo permanente com a herança latina: Camões constrói Os Lusíadas «à maneira de Virgílio», e os tópicos de Horácio e de Ovídio atravessam a nossa poesia, do Renascimento à Arcádia. Este resumo percorre a tradição clássica em Portugal, o modelo virgiliano da epopeia camoniana, os ecos horacianos e ovidianos e a herança latina do Classicismo ao Neoclassicismo. Sendo o Latim B uma disciplina de avaliação interna (sem Exame Final Nacional), o foco vai para a análise e o comentário da relação entre as duas literaturas.

4 secções·~17 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·131313 / 13
Perfil de exame
Reconhecer a presença da tradição clássica latina na literatura portuguesa.Explicar a influência de Virgílio em Os Lusíadas de Camões.Identificar ecos de Horácio e de Ovídio na poesia portuguesa.Relacionar as convenções épicas latinas com as camonianas.
Operadores:identificaexplicarelacionacomentaanalisa

nível básico

Reconhecer a presença da tradição clássica latina na literatura portuguesa e o modelo virgiliano de Os Lusíadas.

nível avançado

Explicar em pormenor as convenções épicas e os tópicos horacianos e ovidianos e comentar a sua reelaboração pelos autores portugueses.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Influência da literatura latina na literatura portuguesa
    • 01A tradição clássica na literatura portuguesa○
    • 02Camões e Os Lusíadas: a epopeia à maneira de Virgílio◐
    • 03Ecos de Horácio e de Ovídio na poesia portuguesa◐
    • 04Do Classicismo ao Neoclassicismo: a herança latina●
§ 01

A tradição clássica na literatura portuguesa#

●○○BaseLPAE-latim-b-influencia-portuguesa

Pontos-chave

A literatura portuguesa nasce e desenvolve-se em diálogo permanente com a herança da Antiguidade latina. Sobretudo a partir do Renascimento e do Humanismo (séculos XV e XVI), os autores redescobrem e imitam os clássicos, tomando-os por modelo de perfeição. O princípio estético que rege esta relação é a imitatio: imitar os antigos não era plágio nem falta de originalidade, mas o caminho reconhecido para a excelência — e, no seu grau mais alto, a aemulatio, o desejo de rivalizar com eles e de os superar. Ver a tradição clássica na nossa literatura é, pois, reconhecer um repertório partilhado, e não meras citações avulsas (ver Fig. 1).

A tradição clássica na literatura portuguesa

A herança clássica em PortugalDiagrama em árvore, 4 caminhos, Dados: Virgílio (epopeia) → Camões; Horácio (lírica) → Sá de Miranda; Horácio (lírica) → António Ferreira; Ovídio (mito, elegia) → BocageVirgílio (epopeia)Horácio (lírica)Ovídio (mito, elegia)Herança clássicaCamõesSá de MirandaAntónio FerreiraBocage
Fig. 1Fig. 1 — Os grandes modelos latinos e os seus principais herdeiros em Portugal; Camões sintetiza, de facto, os três.
Essa herança não se resume a nomes ou a alusões: é todo um repertório de géneros, de tópicos e de formas. Da literatura latina vêm os grandes géneros — a epopeia, a ode, a elegia, a écloga (ou bucólica), a sátira, a epístola e a tragédia — e os grandes tópicos, ou lugares-comuns, como o carpe diem («colhe o dia»), o locus amoenus (o lugar aprazível), o beatus ille (a felicidade da vida retirada) e a aurea mediocritas (o justo meio). Vêm também a mitologia, os metros e os modelos retóricos. Três poetas latinos destacam-se como modelos maiores: Virgílio, para a épica e a poesia pastoril; Horácio, para a lírica e a poesia moral; e Ovídio, para o mito e a elegia amorosa.
A transmissão fez-se por várias vias. A escola humanista tinha o latim por língua de cultura e de ensino, e muitos autores portugueses eram, eles próprios, latinistas que escreviam também em latim (os chamados poetas neolatinos). A Universidade de Coimbra e o Colégio das Artes difundiram os autores antigos; e o modelo chegava ainda, filtrado, pelos humanistas italianos (Petrarca, Sannazaro), que já haviam recuperado os clássicos. Por este triplo caminho — leitura direta dos latinos, prática do latim e mediação italiana — a Antiguidade tornou-se o alicerce da nossa literatura culta.
A presença clássica atravessa vários períodos. Culmina, primeiro, no Classicismo renascentista do século XVI — Sá de Miranda, António Ferreira e, acima de todos, Camões —, mantém-se no Barroco e regressa, deliberada e programaticamente, no Neoclassicismo do século XVIII, com o Arcadismo e com Bocage. É, por isso, uma linha contínua, que dá unidade a séculos de poesia portuguesa e faz da herança latina um dos seus fios condutores essenciais (ver Fig. 1).
Exemplo resolvido

Associar cada modelo latino ao seu herdeiro português

Associa cada um dos três grandes poetas latinos ao género que legou e a um autor português que o cultivou, justificando.

  1. 01Virgílio

    Modelo da epopeia (a Eneida) e da poesia pastoral. Em Portugal, o seu herdeiro maior é Camões, que compõe Os Lusíadas à maneira da Eneida.

  2. 02Horácio

    Modelo da lírica e da poesia moral (as Odes, com o carpe diem e a aurea mediocritas). Ecoa em Sá de Miranda e em António Ferreira, «o Horácio português».

  3. 03Ovídio

    Fonte da mitologia (as Metamorfoses) e da elegia amorosa. Marca Camões (o mito) e, sobretudo, Bocage, que traduziu as Metamorfoses.

Resultado: A tradição clássica organiza-se em torno de três modelos: Virgílio (épica) e Camões; Horácio (lírica moral) e Sá de Miranda e Ferreira; Ovídio (mito) e Bocage. Reconhecer estas filiações é reconhecer a herança latina da nossa literatura.

Foco no Exame Nacional

  • Foco de avaliação: reconhecer os géneros e os tópicos de origem latina (epopeia, ode, écloga; carpe diem, locus amoenus) na literatura portuguesa.
  • Foco de avaliação: explicar o princípio da imitatio/aemulatio e o papel do Humanismo na transmissão dos modelos clássicos.

Erros frequentes

  • Confundir «influência clássica» com a simples citação de nomes antigos, esquecendo os géneros, os tópicos e as convenções herdados.
  • Reduzir a tradição clássica ao grego, ignorando que o modelo imediato dos autores portugueses é sobretudo o latino (Virgílio, Horácio, Ovídio).
  • Situar mal a cronologia — por exemplo, julgar Bocage (século XVIII) contemporâneo de Camões (século XVI).

Revisão ativa

Explica, em poucas linhas, o que significa dizer que Os Lusíadas foram escritos «à maneira de Virgílio» e indica dois outros autores latinos cuja herança marca a literatura portuguesa.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A tradição clássica na literatura portuguesa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Camões e Os Lusíadas: a epopeia à maneira de Virgílio#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-influencia-portuguesa

Pontos-chave

Luís Vaz de Camões (c. 1524–1580) publicou Os Lusíadas em 1572: a epopeia nacional portuguesa, composta em dez cantos e em oitava-rima — a estrofe de oito versos decassílabos com o esquema de rimas ABABABCC. O pretexto narrativo é a viagem de Vasco da Gama à Índia (1497–1499), mas o verdadeiro assunto é a glória de todo o povo português, «os barões assinalados» que se distinguiram na história e na expansão. Para cantar este tema, Camões toma por modelo declarado a Eneida de Virgílio, a epopeia de Roma: Os Lusíadas são construídos «à maneira de Virgílio».
A imitação anuncia-se logo no primeiro verso. A proposição de Os Lusíadas — «As armas e os barões assinalados» (Lus. I,1) — ecoa diretamente a proposição da Eneida — «Arma uirumque cano» («As armas e o varão canto», Eneida 1.1). O paralelo é evidente: ambas anunciam o tema pela mesma fórmula — «as armas» (a guerra, o feito heroico) e o «varão» ou os «barões» (o herói). A diferença é reveladora: onde Virgílio canta um só herói (uirum, Eneias), Camões canta um povo inteiro (os barões, no plural) — a epopeia deixa de ser individual para se tornar coletiva (ver Fig. 2).

Eneida e Os Lusíadas: um paralelo

Eneida e Os LusíadasTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Convenção / elemento · Eneida (Virgílio) · Os Lusíadas (Camões); Proposição · «Arma uirumque cano» (En. 1.1) · «As armas e os barões assinalados» (I,1); Invocação · à Musa («Musa, mihi causas memora») · às Tágides, as ninfas do Tejo (I,4); Herói · Eneias, o pius Aeneas · Vasco da Gama e os portugueses; Deuses · o panteão olímpico (Juno, Vénus) · os mesmos deuses (Júpiter, Vénus, Baco); Início · in medias res (a tempestade, Livro I) · in medias res (a armada já no Índico); Verso / estrofe · hexâmetro dactílico · oitava-rima (decassílabo), célula destacada: «As armas e os barões assinalados» (I,1)CONVENÇÃO / ELEMENTOENEIDA (VIRGÍLIO)OS LUSÍADAS (CAMÕES)PROPOSIÇÃO«Arma uirumque cano» (En.1.1)«As armas e os barõesassinalados» (I,1)INVOCAÇÃOà Musa («Musa, mihi causasmemora»)às Tágides, as ninfas doTejo (I,4)HERÓIEneias, o pius AeneasVasco da Gama e osportuguesesDEUSESo panteão olímpico (Juno,Vénus)os mesmos deuses (Júpiter,Vénus, Baco)INÍCIOin medias res (a tempestade,Livro I)in medias res (a armada jáno Índico)VERSO / ESTROFEhexâmetro dactílicooitava-rima (decassílabo)
Fig. 2Fig. 2 — O paralelo entre a Eneida e Os Lusíadas: a epopeia camoniana segue, ponto por ponto, o modelo virgiliano.
Como toda a epopeia clássica, Os Lusíadas obedecem às convenções do género (ver Fig. 3): a proposição (o anúncio do assunto, I,1–3), a invocação (o pedido de inspiração — Camões invoca as Tágides, as ninfas do rio Tejo, e não as Musas do Olimpo, I,4–5), a dedicatória (o oferecimento da obra a D. Sebastião, I,6–18) e a narração. Esta começa, à maneira clássica, in medias res («no meio das coisas»): o poema abre com a armada já em pleno oceano Índico, e só mais tarde, pela boca de Vasco da Gama ao rei de Melinde, se conta a história anterior de Portugal (cantos III–V). É exatamente a técnica de Virgílio e de Homero.

As convenções da epopeia

As convenções épicasGrafo, Proposição → Invocação, Invocação → Dedicatória, Dedicatória → NarraçãoProposiçãoInvocaçãoDedicatóriaNarração
Fig. 3Fig. 3 — As convenções da epopeia clássica, que Camões respeita em Os Lusíadas; a narração começa in medias res.
O maravilhoso pagão é outra herança clássica decisiva. Logo no Canto I (est. 20 e seguintes) reúne-se o Consílio dos Deuses: Júpiter convoca os deuses do Olimpo para decidir o destino da viagem, com Vénus e Marte a favorecer os portugueses e Baco a opor-se-lhes — um modelo diretamente virgiliano e homérico (o concilium deorum da Eneida). Do mesmo repertório clássico nascem os grandes episódios: o de Inês de Castro (Canto III, «Estavas, linda Inês, posta em sossego»), cuja força trágica lembra a Dido virgiliana, e o do Adamastor (Canto V), o gigante do Cabo das Tormentas, personificação mitológica das forças da natureza. Camões, poeta cristão, usa os deuses pagãos como alegoria — e chega mesmo a justificar-se por isso.
Exemplo resolvido

Comentar o eco da proposição virgiliana

Compara a proposição de Os Lusíadas com a da Eneida e explica em que consiste a imitação e a amplificação camonianas.

  1. 01A fonte latina

    «Arma uirumque cano, Troiae qui primus ab oris» = «As armas e o varão canto, que primeiro das plagas de Troia…» (Eneida 1.1). Virgílio anuncia o tema: as armas (a guerra) e o varão (uir, o herói Eneias).

  2. 02O eco camoniano

    «As armas e os barões assinalados / Que da ocidental praia Lusitana…» (Lus. I,1). Camões retoma a mesma fórmula de abertura: «as armas» e «os barões» (os heróis).

  3. 03A imitação (imitatio)

    A estrutura é a mesma — armas + herói — e até a ordem das palavras é decalcada do latim: o complemento vem à frente, à maneira do hipérbato clássico.

  4. 04A amplificação (aemulatio)

    Virgílio canta um só herói (uirum, no singular); Camões canta um povo inteiro (os barões, no plural). A epopeia individual torna-se coletiva: é a superação, e não a mera cópia.

Resultado: A proposição de Os Lusíadas imita a da Eneida na fórmula e na sintaxe, mas amplifica-a: do herói único de Virgílio passa-se ao povo inteiro de Camões. É o modelo virgiliano recriado e superado.

Foco no Exame Nacional

  • Foco de avaliação: reconhecer e comentar o eco da proposição virgiliana («Arma uirumque cano») na proposição de Os Lusíadas.
  • Foco de avaliação: identificar as convenções épicas (proposição, invocação, dedicatória, narração in medias res) e o Consílio dos Deuses como herança clássica.

Erros frequentes

  • Traduzir «Arma uirumque cano» de forma vaga: uir é o «varão», o herói (Eneias), e cano é «canto» (1.ª pessoa do singular de canere).
  • Confundir a invocação camoniana: Camões invoca as Tágides (ninfas do Tejo), e não as Musas do Olimpo, embora o gesto seja o mesmo.
  • Julgar que a narração de Os Lusíadas começa pelo princípio da história; começa in medias res, com a armada já no Índico.

Revisão ativa

Coloca lado a lado «Arma uirumque cano» (Eneida 1.1) e «As armas e os barões assinalados» (Lus. I,1) e explica em que consiste a imitação e em que consiste a amplificação camoniana.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A influência de Virgílio; Os Lusíadas de Camões) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Ecos de Horácio e de Ovídio na poesia portuguesa#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-influencia-portuguesa

Pontos-chave

Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65–8 a.C.) é o grande modelo da lírica e da poesia moral, e os seus tópicos atravessam toda a poesia portuguesa (ver Fig. 4). O mais célebre é o carpe diem — «carpe diem, quam minimum credula postero» («colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã», Odes 1.11): perante a fugacidade do tempo, o convite a aproveitar o presente. A ele juntam-se a aurea mediocritas («a dourada moderação», o elogio do justo meio e da vida modesta, Odes 2.10) e o beatus ille (a felicidade de quem vive retirado dos negócios, no campo, Épodo 2).

Tópicos horacianos e os seus ecos em Portugal

Tópicos horacianos em PortugalTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Tópico horaciano · Fonte (citação latina) · Eco na poesia portuguesa; carpe diem · «carpe diem» (Odes 1.11) · Sá de Miranda, a Arcádia, Bocage; aurea mediocritas · «aurea mediocritas» (Odes 2.10) · o elogio do justo meio e da vida modesta; beatus ille · «Beatus ille qui procul negotiis» (Épodo 2) · o «louvor da aldeia» (Sá de Miranda, Rodrigues Lobo); fugacidade do tempo · «Eheu fugaces labuntur anni» (Odes 2.14) · a lírica do tempo que foge (Camões, Bocage); a obra imortal · «Exegi monumentum aere perennius» (Odes 3.30) · o tópico da imortalidade pela poesia, célula destacada: Sá de Miranda, a Arcádia, BocageTÓPICO HORACIANOFONTE (CITAÇÃO LATINA)ECO NA POESIAPORTUGUESACARPE DIEM«carpe diem» (Odes 1.11)Sá de Miranda, a Arcádia,BocageAUREA MEDIOCRITAS«aurea mediocritas» (Odes2.10)o elogio do justo meio e davida modestaBEATUS ILLE«Beatus ille qui proculnegotiis» (Épodo 2)o «louvor da aldeia» (Sá deMiranda, Rodrigues Lobo)FUGACIDADE DOTEMPO«Eheu fugaces labuntur anni»(Odes 2.14)a lírica do tempo que foge(Camões, Bocage)A OBRA IMORTAL«Exegi monumentum aereperennius» (Odes 3.30)o tópico da imortalidadepela poesia
Fig. 4Fig. 4 — Os grandes tópicos horacianos e a sua ressonância na poesia portuguesa, do Renascimento à Arcádia.
Estes tópicos reaparecem, recriados, em autores de várias épocas. O elogio da vida simples e o «menosprezo da corte e louvor da aldeia» marcam a poesia moral de Sá de Miranda e, mais tarde, de Rodrigues Lobo; o carpe diem e a consciência da fugacidade do tempo atravessam a lírica renascentista — incluindo a de Camões — e alcançam a plenitude na Arcádia e em Bocage. Não se trata de cópia, mas de imitação criativa: o poeta português toma um tópico latino e recria-o na sua língua e no seu tempo.
Ovídio (Publius Ouidius Naso, 43 a.C.–17/18 d.C.) é, sobretudo, a grande fonte da mitologia. As suas Metamorfoses (Metamorphoses), em quinze livros, reúnem centenas de mitos de transformação e constituíram, para toda a Europa, o repositório mitológico por excelência. É de Ovídio que a poesia portuguesa colhe boa parte das suas fábulas dos deuses: Camões recorre-lhe para o tecido mitológico de Os Lusíadas (o maravilhoso, a Ilha dos Amores) e da sua lírica. O Ovídio elegíaco e amoroso (dos Amores e das Heroides) alimenta ainda a veia elegíaca e sentimental da poesia.
Um caso exemplar é o de Bocage, que não só imitou Ovídio como o traduziu — verteu para português as Metamorfoses —, sendo por isso um dos poetas portugueses mais profundamente ovidianos. Em suma, Horácio e Ovídio funcionam como dois grandes veios da tradição: o primeiro dá os tópicos morais e a arte lírica do meio-termo; o segundo, o mito e a matéria amorosa. Reconhecê-los na poesia portuguesa é seguir o princípio da imitatio/aemulatio, que faz da nossa literatura uma continuação viva da latina, e não a sua repetição.
Exemplo resolvido

Comentar um tópico horaciano e o seu eco

Comenta o tópico do carpe diem a partir da fonte horaciana e da sua presença na tradição portuguesa.

  1. 01A fonte

    «carpe diem, quam minimum credula postero» = «colhe o dia, confiando o menos possível no amanhã» (Horácio, Odes 1.11). carpe é o imperativo de carpere («colher»); diem é o acusativo de dies («o dia»).

  2. 02O sentido

    Perante a fugacidade do tempo e a incerteza do futuro, o poeta convida a aproveitar o presente — não por hedonismo grosseiro, mas com a serenidade do justo meio (a aurea mediocritas).

  3. 03O eco português

    O convite a «colher a flor» da juventude, o gozo sereno do presente e a consciência do tempo que foge percorrem a lírica renascentista, a Arcádia e Bocage.

Resultado: O carpe diem de Horácio (Odes 1.11) é um dos tópicos que a poesia portuguesa herda e recria: da fonte latina ao eco árcade, é a mesma meditação sobre o tempo que foge e o presente que se deve colher.

Foco no Exame Nacional

  • Foco de avaliação: identificar os tópicos horacianos (carpe diem, aurea mediocritas, beatus ille) e a fonte ovidiana (as Metamorfoses) na poesia portuguesa.
  • Foco de avaliação: explicar a imitatio/aemulatio, isto é, como um tópico ou um mito latino é recriado em português.

Erros frequentes

  • Atribuir o carpe diem a Ovídio ou a Virgílio: é de Horácio (Odes 1.11).
  • Confundir a aurea mediocritas («a dourada moderação», o justo meio) com «mediocridade» no sentido pejorativo.
  • Tomar a imitação dos antigos por falta de originalidade, quando é um princípio estético consciente (imitatio/aemulatio).

Revisão ativa

Explica o tópico do carpe diem — cita e traduz a fonte horaciana — e indica um contexto da poesia portuguesa em que ele ressurja.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Ecos de Horácio e de Ovídio na poesia portuguesa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Do Classicismo ao Neoclassicismo: a herança latina#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-influencia-portuguesa

Pontos-chave

O Classicismo renascentista introduz em Portugal as formas e o gosto dos antigos. O passo decisivo deve-se a Sá de Miranda (c. 1481–1558): regressado de uma viagem a Itália (por volta de 1526), introduz a chamada «medida nova» — o verso decassílabo e as formas italianas e clássicas (o soneto, a canção, o terceto, a oitava, a écloga, a epístola) —, em contraste com a «medida velha», a redondilha da tradição peninsular. Com as novas formas entrou também o repertório clássico: o tom moral horaciano e o cenário pastoril de raiz virgiliana (ver Fig. 5).

Do Classicismo à Arcádia: autores e modelos

Do Classicismo à ArcádiaTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Autor português · Contributo / obra · Modelo clássico; Sá de Miranda (c. 1481–1558) · introduz a «medida nova» (soneto, ode, écloga) · Horácio, Virgílio (via Itália); António Ferreira (1528–1569) · tragédia Castro; Poemas Lusitanos · tragédia clássica (Séneca); Horácio; Camões (c. 1524–1580) · Os Lusíadas; a lírica · Virgílio, Ovídio, Horácio; Bocage (1765–1805) · sonetos e elegias; a Arcádia · Ovídio (traduziu-o), Horácio, célula destacada: introduz a «medida nova» (soneto, ode, écloga)AUTOR PORTUGUÊSCONTRIBUTO / OBRAMODELO CLÁSSICOSÁ DE MIRANDA (C.1481–1558)introduz a «medida nova»(soneto, ode, écloga)Horácio, Virgílio (viaItália)ANTÓNIO FERREIRA(1528–1569)tragédia Castro; PoemasLusitanostragédia clássica (Séneca);HorácioCAMÕES (C.1524–1580)Os Lusíadas; a líricaVirgílio, Ovídio, HorácioBOCAGE (1765–1805)sonetos e elegias; a ArcádiaOvídio (traduziu-o), Horácio
Fig. 5Fig. 5 — Do Classicismo ao Neoclassicismo: cada autor português e o modelo clássico que reelabora.
António Ferreira (1528–1569) é o mais coerente dos classicistas portugueses, a ponto de ser chamado «o Horácio português». Defendeu que se escrevesse só em português (os seus Poemas Lusitanos, publicados em 1598) e cultivou os géneros clássicos — odes, sonetos, elegias, epístolas. A sua obra maior é a tragédia Castro (a Tragédia de Dona Inês de Castro), construída à maneira da tragédia clássica greco-latina: dividida em atos, com coro e respeito pelas unidades, sobre o tema da morte de Inês de Castro — o mesmo assunto que Camões trata liricamente no Canto III de Os Lusíadas.
No século XVIII, o Neoclassicismo e o Arcadismo promovem um regresso deliberado aos ideais clássicos: a clareza, a regra, a simplicidade e a imitação dos antigos. A Arcádia Lusitana (fundada em 1756) retoma dos clássicos a ficção pastoril e a mitologia; os seus poetas adotam pseudónimos árcades e cultivam os tópicos horacianos (a aurea mediocritas, o beatus ille) e os cenários bucólicos de Virgílio. É neste ambiente que se destaca Bocage (1765–1805) — o árcade «Elmano Sadino» —, mestre do soneto, elegíaco e satírico, profundamente marcado por Ovídio e por Horácio.
A herança latina não está só nos géneros e nos tópicos: está também na própria língua literária, sob a forma de latinismos. Há latinismos lexicais — os cultismos, palavras tomadas diretamente do latim clássico — e latinismos sintáticos — construções decalcadas da sintaxe latina, como o hipérbato (a inversão da ordem das palavras), a colocação do verbo mais para o fim, o uso de particípios e de orações reduzidas. Os Lusíadas são um exemplo célebre desta latinização da sintaxe poética. Assim, a influência latina imprime-se em três níveis: nos géneros, nos tópicos e na própria estrutura da língua (ver Fig. 5).
Exemplo resolvido

Reconhecer um latinismo sintático em Camões

Explica o latinismo sintático do verso inicial de Os Lusíadas, «As armas e os barões assinalados», relacionando-o com a sintaxe latina.

  1. 01A sintaxe latina

    Em latim, a ordem das palavras é livre (é o caso que marca a função), e o verbo tende a surgir no fim; o complemento precede-o com frequência — como em «Arma uirumque cano», onde o complemento (Arma uirumque) antecede o verbo (cano).

  2. 02A imitação camoniana

    Camões coloca o complemento direto — «As armas e os barões assinalados» — logo no início, e o verbo principal («Cantando espalharei») só surge vários versos depois. É uma inversão (hipérbato) à maneira latina.

  3. 03O latinismo

    Esta ordem, natural em latim mas forçada em português, é um latinismo sintático: a sintaxe portuguesa é modelada sobre a latina, dando ao verso a gravidade e a amplitude da epopeia clássica.

Resultado: O arranque de Os Lusíadas — complemento à cabeça, verbo protelado — decalca a ordem livre e o hipérbato do latim (compare-se «Arma uirumque cano»): é um latinismo sintático ao serviço do tom épico.

Foco no Exame Nacional

  • Foco de avaliação: explicar o contributo de Sá de Miranda (a «medida nova») e de António Ferreira (a tragédia Castro à maneira clássica).
  • Foco de avaliação: reconhecer os latinismos lexicais e sintáticos como herança latina na língua literária portuguesa.

Erros frequentes

  • Atribuir a introdução das formas clássicas/italianas a Camões, quando o introdutor é Sá de Miranda (a «medida nova»).
  • Confundir a Castro de António Ferreira (tragédia) com o episódio lírico de Inês de Castro em Os Lusíadas (Canto III): tratam o mesmo tema em géneros diferentes.
  • Esquecer que a Arcádia e Bocage (século XVIII) retomam conscientemente os modelos clássicos — o Neoclassicismo não é medieval nem barroco.

Revisão ativa

Explica por que se diz que Sá de Miranda introduziu a «medida nova» e caracteriza a tragédia Castro de António Ferreira como obra à maneira clássica.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Do Classicismo ao Neoclassicismo; os latinismos) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01A tradição clássica na literatura portuguesa○
    • 02Camões e Os Lusíadas: a epopeia à maneira de Virgílio◐
    • 03Ecos de Horácio e de Ovídio na poesia portuguesa◐
    • 04Do Classicismo ao Neoclassicismo: a herança latina●

0/4 Lidos

Dos resumos à prática

Influência da literatura latina na literatura portuguesa

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~17
min
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Competências
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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A tradição clássica na literatura portuguesa)

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A herança da cultura latina e etimologia greco-latina

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