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Resumos/Filosofia/A racionalidade científica e a objetividade: Popper e Kuhn
Resumos · FilosofiaPT · Secundário

A racionalidade científica e a objetividade: Popper e Kuhn

Esta unidade confronta duas conceções da evolução e da objetividade da ciência. Para Popper, a ciência progride racionalmente por eliminação do erro, selecionando as teorias mais aptas e aproximando-se da verdade. Para Kuhn, a ciência desenvolve-se por fases — ciência normal dentro de um paradigma, anomalias, crise e revolução científica que substitui o paradigma —, sendo os paradigmas incomensuráveis, o que problematiza a objetividade e o progresso. Comparar Popper e Kuhn é tema recorrente do Exame Nacional 714.

4 secções·~15 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2

T·111111 / 13
Perfil de exame
Formular os problemas da evolução e da objetividade do conhecimento científicoClarificar os conceitos, teses e argumentos de Popper sobre o progresso da ciênciaClarificar os conceitos de paradigma, ciência normal, revolução e incomensurabilidade em KuhnDiscutir criticamente e confrontar as posições de Popper e de Kuhn
Operadores:formulaexplicadistinguecomparaconfrontadiscuteavalia

nível básico

Todos os cursos: compreender o progresso da ciência em Popper (eliminação do erro) e o desenvolvimento por paradigmas e revoluções em Kuhn.

nível avançado

Aprofundamento para o Exame 714: discutir a incomensurabilidade dos paradigmas e a questão da objetividade, confrontando criticamente Popper e Kuhn.

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. A racionalidade científica e a objetividade: Popper e Kuhn
    • 01O problema da evolução e da objetividade da ciência○
    • 02Popper: progresso por eliminação do erro e aproximação à verdade◐
    • 03Kuhn: paradigmas, ciência normal e revoluções científicas●
    • 04Incomensurabilidade e objetividade: Popper vs Kuhn●
§ 01

O problema da evolução e da objetividade da ciência#

●○○BaseLPAE-filosofia-racionalidade-cientifica

Pontos-chave

Depois de perguntar o que distingue a ciência (demarcação) e como se justificam as teorias (método), a filosofia da ciência pergunta como a ciência muda ao longo do tempo e se é objetiva. O problema da evolução é: de que modo se passa de uma teoria a outra — por acumulação contínua de conhecimentos, ou por ruturas? O problema da objetividade é: são as escolhas dos cientistas determinadas por razões e evidências objetivas, ou também por fatores históricos, sociais e psicológicos? Popper e Kuhn dão respostas muito diferentes a estas perguntas (ver Fig. 1).

Duas conceções da mudança científica

Popper × KuhnGrafo, Evolução e objetividade da ciência → Popper: progresso racional contínuo, Evolução e objetividade da ciência → Kuhn: revoluções e paradigmas, Popper: progresso racional contínuo → Objetividade forte, Kuhn: revoluções e paradigmas → Racionalidade históricaEvolução eobjetividade…Popper:progresso ra…Kuhn:revoluções e…ObjetividadeforteRacionalidadehistórica
Fig. 1Fig. 1 — Popper e Kuhn respondem de modo oposto à evolução e à objetividade da ciência.
Popper prolonga a imagem racionalista da ciência: a mudança científica é um processo racional e contínuo de aproximação à verdade, guiado pela crítica e pela eliminação do erro. Há um critério objetivo — a resistência aos testes — que permite dizer que uma teoria é melhor do que outra (mais corroborada, com maior conteúdo, mais próxima da verdade). A história da ciência seria, no essencial, a história do progresso do conhecimento pela superação crítica das teorias.
Kuhn, historiador e filósofo da ciência, olha para como a ciência realmente se desenvolveu e obtém uma imagem diferente. A ciência não avançaria por refutação contínua, mas por longos períodos de estabilidade (ciência normal) interrompidos por ruturas descontínuas (revoluções científicas), em que uma visão global do mundo — um paradigma — é substituída por outra. A mudança científica teria, assim, uma dimensão não plenamente racional no sentido popperiano, aproximando-se de uma «conversão» ou mudança de perspetiva.
O confronto entre os dois é exemplar de filosofia da ciência e liga-se a questões profundas: a ciência acumula verdades ou muda de mundos? Existe progresso objetivo, ou apenas sucessão de paradigmas incomparáveis? Há um método universal, ou a racionalidade científica é histórica? Estudar Popper e Kuhn não é decorar duas listas, mas compreender duas maneiras de conceber a razão científica e avaliar criticamente os seus argumentos — exercício que o Exame 714 pede em itens de comparação e de resposta extensa.
Exemplo resolvido

Identificar a conceção subjacente

«A ciência é uma longa história de acumulação de verdades, em que cada geração acrescenta às anteriores.» Que conceção da mudança científica exprime, e como reagiriam Popper e Kuhn?

  1. 01Identificar a conceção

    É uma conceção cumulativa e contínua do progresso científico (a ciência só cresce, sem ruturas).

  2. 02Reação de Popper

    Popper aceita o progresso e a aproximação à verdade, mas não por acumulação de confirmações — sim por eliminação do erro (as teorias são substituídas por melhores).

  3. 03Reação de Kuhn

    Kuhn rejeita a imagem cumulativa: há revoluções em que o paradigma anterior é abandonado, não simplesmente somado; há descontinuidade, não pura acumulação.

Resultado: A frase exprime uma conceção cumulativa ingénua. Popper corrige-a (progresso por eliminação do erro, não por acumulação) e Kuhn rejeita-a (a ciência conhece ruturas revolucionárias). O exemplo mostra que ambos recusam o cumulativismo, mas por razões diferentes.

Foco no Exame Nacional

  • Formular o problema da evolução (continuidade vs rutura) e o problema da objetividade da ciência.
  • Contrastar a imagem popperiana (progresso racional contínuo) com a kuhniana (ruturas por revoluções).
  • Reconhecer que Popper parte da lógica/norma e Kuhn da história da ciência.

Erros frequentes

  • Confundir o problema da evolução (como muda a ciência) com o problema da demarcação (o que é ciência).
  • Apresentar Popper e Kuhn como iguais por ambos criticarem o indutivismo (divergem quanto à mudança e à objetividade).
  • Reduzir a questão a «quem tem razão», sem reconstruir os argumentos de cada um.

Revisão ativa

Explica a diferença entre conceber a mudança científica como acumulação contínua e concebê-la como sucessão de ruturas, e associa cada conceção a Popper e a Kuhn.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Racionalidade científica e objetividade) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Popper: progresso por eliminação do erro e aproximação à verdade#

●●○PadrãoLPAE-filosofia-racionalidade-cientifica

Pontos-chave

Para Popper, a ciência progride e esse progresso é racional. O motor é a crítica: propomos teorias ousadas e submetemo-las a testes severos que procuram refutá-las; as que falham são eliminadas, as que resistem são conservadas (provisoriamente) e melhoradas. A ciência é, assim, um processo de eliminação do erro por seleção crítica — Popper compara-o à seleção natural: como na natureza sobrevivem os organismos mais aptos, na ciência «sobrevivem» as teorias mais aptas, as que melhor resistem à crítica e aos testes (ver Fig. 2).

O esquema do progresso segundo Popper

P1 → TT → EE → P2Grafo, P1 (problema) → TT (teoria-tentativa), TT (teoria-tentativa) → EE (eliminação do erro), EE (eliminação do erro) → P2 (novo problema)P1 (problema)TT(teoria-tent…EE(eliminação …P2 (novoproblema)
Fig. 2Fig. 2 — P1 → TT → EE → P2: a ciência progride resolvendo problemas e gerando novos problemas mais profundos.
Popper esquematiza o progresso numa sequência: parte-se de um problema (P1); propõe-se uma teoria-tentativa ou conjetura (TT); submete-se essa teoria a um processo de eliminação do erro pela crítica e pelos testes (EE); daí resulta um novo problema (P2), mais profundo do que o inicial. O esquema P1 → TT → EE → P2 repete-se indefinidamente: a ciência nunca chega a um ponto final, mas cada ciclo aprofunda os problemas e melhora as teorias. Errar e corrigir é o modo como se aprende.
A teoria que resiste diz-se corroborada e considera-se, provisoriamente, mais próxima da verdade — Popper fala de verosimilhança ou verisimilitude: uma teoria tem maior verosimilhança quando tem mais consequências verdadeiras e menos falsas do que a sua rival. Assim, embora nenhuma teoria seja provada nem definitiva, é possível dizer que a ciência progride objetivamente, porque as teorias que a substituem resolvem mais problemas, têm maior conteúdo e estão mais próximas da verdade. O realismo de Popper mantém a ideia de verdade como meta.
A posição de Popper chama-se racionalismo crítico: a racionalidade não consiste em ter certezas nem em justificar por indução, mas na disposição para submeter as próprias ideias à crítica e aprender com os erros. A objetividade da ciência não vem de os cientistas serem imparciais (são falíveis e parciais como todos), mas do método público de crítica mútua: as teorias são testadas e criticadas por toda a comunidade, e é esse crivo social e crítico que garante a objetividade. A ciência é objetiva apesar da subjetividade dos cientistas, graças à sua estrutura crítica.
Exemplo resolvido

Aplicar o esquema de Popper

Descreve, com o esquema P1 → TT → EE → P2, como a deteção de uma anomalia leva à substituição de uma teoria por outra melhor.

  1. 01P1 e TT

    Parte-se de um problema (P1: explicar um fenómeno) e propõe-se uma teoria-tentativa (TT) que o pretende resolver.

  2. 02EE

    Submete-se TT a testes severos; um teste revela uma previsão falhada (anomalia) que refuta ou limita TT — é a eliminação do erro (EE).

  3. 03P2

    A refutação levanta um novo problema (P2), mais profundo, que exige uma nova teoria com maior conteúdo e verosimilhança, reiniciando o ciclo.

Resultado: O progresso dá-se porque a crítica elimina o que é falso e gera problemas mais ricos: a teoria seguinte resolve o problema da anterior e mais alguns, aproximando-se da verdade. Não há prova final, mas há progresso objetivo por eliminação do erro.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar o progresso científico como eliminação do erro e seleção das teorias mais aptas.
  • Descrever o esquema P1 → TT → EE → P2 e a noção de verosimilhança.
  • Explicar o racionalismo crítico e a objetividade como resultado da crítica pública.

Erros frequentes

  • Apresentar o progresso popperiano como acumulação de verdades provadas (é eliminação do erro, sem provas definitivas).
  • Confundir corroboração com prova ou com maior probabilidade indutiva.
  • Localizar a objetividade na imparcialidade dos cientistas, e não na estrutura crítica pública.

Revisão ativa

Explica o esquema P1 → TT → EE → P2 aplicando-o a um exemplo (por exemplo, a substituição de uma teoria científica por outra que resolve as suas dificuldades).

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Racionalidade científica e objetividade) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Kuhn: paradigmas, ciência normal e revoluções científicas#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-racionalidade-cientifica

Pontos-chave

O conceito central de Kuhn (A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962) é o de paradigma: uma realização científica exemplar, reconhecida por uma comunidade, que fornece durante certo tempo problemas e soluções modelares — um conjunto de teorias, métodos, valores e exemplos partilhados que definem o que é fazer ciência num dado domínio. A física de Newton ou a química de Lavoisier foram paradigmas: orientaram gerações de cientistas sobre que perguntas fazer, que métodos usar e o que conta como solução aceitável (ver Fig. 3).

O ciclo do desenvolvimento científico de Kuhn

Ciclo de KuhnGrafo, Ciência normal (paradigma) → Anomalias, Anomalias → Crise, Crise → Revolução científica, Revolução científica → Novo paradigma, Novo paradigma → Ciência normal (paradigma)Ciêncianormal (para…AnomaliasCriseRevoluçãocientíficaNovoparadigmanova ciêncianormal
Fig. 3Fig. 3 — Para Kuhn, a ciência desenvolve-se por um ciclo de ciência normal e revoluções.
Dentro de um paradigma, faz-se ciência normal: os cientistas não questionam os fundamentos, dedicam-se a resolver «quebra-cabeças» (puzzles) — problemas cuja solução se espera possível dentro do paradigma — e a articular e alargar o paradigma. É um trabalho cumulativo e conservador, de grande produtividade, mas não crítico no sentido de Popper: o paradigma não está em teste; o que está em teste é a habilidade do cientista para resolver os problemas com ele. A ciência normal ocupa a maior parte da atividade científica.
Com o tempo, acumulam-se anomalias: problemas que o paradigma não consegue resolver, resultados que resistem. Enquanto poucas, as anomalias são toleradas ou postas de lado. Mas quando se multiplicam e atingem o núcleo do paradigma, instala-se uma crise: a confiança abala-se, surgem propostas alternativas, discutem-se os fundamentos. A crise pode resolver-se com o paradigma a absorver a anomalia, mas, por vezes, conduz a uma revolução científica: um novo paradigma emerge e substitui o antigo (como a relatividade e a mecânica quântica sucederam à física clássica).
A revolução científica não é uma simples correção: é uma mudança global de visão do mundo, uma «mudança de gestalt» em que os mesmos factos passam a ser vistos de outro modo, com novos conceitos, problemas e critérios. Depois da revolução, retoma-se a ciência normal sob o novo paradigma, até nova crise. A ciência desenvolve-se, assim, por um ciclo: ciência normal → anomalias → crise → revolução → novo paradigma → nova ciência normal. Esta imagem — descontínua e histórica — contrasta fortemente com a de Popper e levanta a questão de saber se há um progresso objetivo através das revoluções.
Exemplo resolvido

Analisar uma anomalia e uma revolução

A física clássica não explicava certos fenómenos (radiação do corpo negro, órbita de Mercúrio). Descreve o processo segundo Kuhn até à mudança de paradigma.

  1. 01Ciência normal

    Sob o paradigma da física clássica, os cientistas resolviam problemas assumindo os seus princípios como não problemáticos.

  2. 02Anomalias e crise

    Certos resultados resistiram persistentemente (corpo negro, Mercúrio); a acumulação de anomalias no núcleo gerou crise e busca de alternativas.

  3. 03Revolução e novo paradigma

    Emergiram a mecânica quântica e a relatividade, novos paradigmas que reorganizaram conceitos fundamentais (espaço, tempo, energia) e substituíram o anterior.

Resultado: O caso ilustra o ciclo de Kuhn: ciência normal clássica → anomalias persistentes → crise → revolução (relatividade e quântica) → novo paradigma e nova ciência normal. A mudança não foi mera adição, mas reorganização da visão do mundo físico.

Foco no Exame Nacional

  • Definir paradigma e ciência normal (resolução de quebra-cabeças, não crítica dos fundamentos).
  • Explicar o papel das anomalias e da crise.
  • Descrever a revolução científica como mudança de paradigma e o ciclo do desenvolvimento científico.

Erros frequentes

  • Usar «paradigma» vagamente, sem o sentido kuhniano de realização exemplar partilhada por uma comunidade.
  • Confundir ciência normal (conservadora, resolve puzzles) com a atitude crítica popperiana.
  • Apresentar a revolução como mera correção cumulativa, e não como rutura de visão do mundo.

Revisão ativa

Descreve o ciclo do desenvolvimento científico segundo Kuhn (ciência normal, anomalias, crise, revolução, novo paradigma) aplicando-o a uma mudança científica que conheças.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Racionalidade científica e objetividade) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Incomensurabilidade e objetividade: Popper vs Kuhn#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-racionalidade-cientifica

Pontos-chave

A tese mais polémica de Kuhn é a da incomensurabilidade dos paradigmas: paradigmas sucessivos não são plenamente comparáveis, porque cada um define os seus próprios conceitos, problemas, métodos e critérios de avaliação. Os termos mudam de sentido de um paradigma para outro («massa» não significa o mesmo em Newton e em Einstein), e não há uma linguagem neutra nem um conjunto de observações independentes de paradigma que permita decidir objetivamente entre eles. Como se os cientistas de paradigmas diferentes «vivessem em mundos diferentes» (ver Fig. 4).

Popper vs Kuhn

Popper × KuhnTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Popper · Kuhn; Ponto de partida · Lógica e norma (como deve ser) · História da ciência (como foi); Mudança científica · Crítica contínua, eliminação do erro · Ciência normal + revoluções (rutura); Atitude na fase estável · Crítica permanente das teorias · Ciência normal não critica o paradigma; Comparação de teorias · Critério objetivo (testes, verosimilhança) · Incomensurabilidade; também valores; Objetividade e progresso · Progresso objetivo rumo à verdade · Progresso na resolução de problemas; sem verdade única, célula destacada: Incomensurabilidade; também valoresASPETOPOPPERKUHNPONTO DE PARTIDALógica e norma (como deveser)História da ciência (comofoi)MUDANÇA CIENTÍFICACrítica contínua, eliminaçãodo erroCiência normal + revoluções(rutura)ATITUDE NA FASEESTÁVELCrítica permanente dasteoriasCiência normal não critica oparadigmaCOMPARAÇÃO DETEORIASCritério objetivo (testes,verosimilhança)Incomensurabilidade; tambémvaloresOBJETIVIDADE EPROGRESSOProgresso objetivo rumo àverdadeProgresso na resolução deproblemas; sem verdade única
Fig. 4Fig. 4 — Quadro comparativo das conceções de Popper e de Kuhn.
Se os paradigmas são incomensuráveis, a escolha entre eles não pode ser inteiramente determinada por regras lógicas e evidências neutras — envolve também valores partilhados pela comunidade (precisão, alcance, simplicidade, fecundidade), juízo, persuasão e fatores sociológicos. Kuhn compara por vezes a mudança de paradigma a uma conversão. Daqui alguns leram um relativismo: se não há critério neutro, em que sentido um paradigma é objetivamente melhor do que outro, ou a ciência progride para a verdade? O próprio Kuhn resistiu à leitura relativista extrema, mantendo que há progresso na capacidade de resolver problemas, mas negou o progresso como aproximação a uma verdade única e independente.
O contraste com Popper é nítido. Popper vê a ciência como crítica permanente e racional, com um critério objetivo (a resistência aos testes) que permite comparar teorias e afirmar progresso rumo à verdade; a objetividade está garantida pelo método crítico. Kuhn descreve a ciência real como conservadora na fase normal (não se critica o paradigma) e descontínua nas revoluções, onde a comparação objetiva é problemática pela incomensurabilidade. Onde Popper vê norma e lógica, Kuhn vê história e comunidade; onde Popper vê progresso objetivo, Kuhn vê mudança de paradigma difícil de avaliar por critérios neutros.
Como avaliar este confronto? A favor de Popper: salva a racionalidade e a objetividade da ciência e a ideia de progresso, e a incomensurabilidade radical parece exagerada (paradigmas sucessivos comunicam e o novo costuma explicar os êxitos do antigo). A favor de Kuhn: descreve com mais fidelidade a prática científica real, o peso das comunidades e das revoluções, e mostra que o falsificacionismo simples não capta o modo como os cientistas mantêm teorias apesar de anomalias. Uma posição ponderada reconhece que a ciência é crítica e progride (Popper) mas também histórica, comunitária e sujeita a ruturas (Kuhn) — e é esta discussão equilibrada, não a adesão cega a um lado, que o Exame 714 valoriza.
Exemplo resolvido

Avaliar a incomensurabilidade

Um crítico de Kuhn diz: «Se os paradigmas fossem realmente incomensuráveis, nem sequer poderíamos dizer que discordam.» Reconstrói a objeção e uma resposta kuhniana.

  1. 01Reconstruir a objeção

    Se dois paradigmas não têm nada em comum (nem conceitos, nem observações), não haveria sequer base para dizer que se contradizem — mas dizemos que a relatividade contraria a física clássica, logo há comparação.

  2. 02Identificar o alvo

    A objeção visa a versão radical da incomensurabilidade, que tornaria impossível qualquer comparação e comunicação entre paradigmas.

  3. 03Formular a resposta

    Kuhn pode responder que a incomensurabilidade é parcial, não total: há dificuldades de tradução e ausência de critério plenamente neutro, mas não ausência absoluta de comunicação — cientistas de paradigmas diferentes entendem-se com esforço.

Resultado: A objeção mostra que a incomensurabilidade total é insustentável (impediria até o desacordo). A resposta kuhniana matiza a tese: a incomensurabilidade é parcial — dificulta, mas não impossibilita, a comparação. Isto aproxima Kuhn de uma posição menos relativista e permite salvar algum progresso objetivo.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar a tese da incomensurabilidade dos paradigmas e a sua consequência para a escolha de teorias.
  • Explicar por que a incomensurabilidade problematiza a objetividade e o progresso da ciência.
  • Confrontar criticamente Popper e Kuhn, avaliando a favor e contra de cada um.

Erros frequentes

  • Confundir incomensurabilidade (falta de medida comum entre paradigmas) com mera incompatibilidade.
  • Atribuir a Kuhn um relativismo total (ele admite progresso na resolução de problemas).
  • Apresentar a comparação Popper/Kuhn como escolha de «equipa», sem ponderar argumentos de ambos.

Revisão ativa

Escreve o plano de um ensaio que responda «A escolha entre teorias científicas é totalmente objetiva?», mobilizando Popper e Kuhn e tomando uma posição fundamentada.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Racionalidade científica e objetividade) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O problema da evolução e da objetividade da ciência○
    • 02Popper: progresso por eliminação do erro e aproximação à verdade◐
    • 03Kuhn: paradigmas, ciência normal e revoluções científicas●
    • 04Incomensurabilidade e objetividade: Popper vs Kuhn●

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Dos resumos à prática

A racionalidade científica e a objetividade: Popper e Kuhn

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Racionalidade científica e objetividade)

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