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Resumos/Filosofia/O estatuto do conhecimento científico
Resumos · FilosofiaPT · Secundário

O estatuto do conhecimento científico

Esta unidade de filosofia da ciência investiga o que distingue o conhecimento científico. Aborda a diferença entre ciência e senso comum e o problema da demarcação; expõe o indutivismo e o problema da indução herdado de Hume; e apresenta a resposta de Popper — o falsificacionismo, com a falsificabilidade como critério de demarcação, o método de conjeturas e refutações e a noção de corroboração. É tema central do 11.º ano e do Exame Nacional 714.

4 secções·~14 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 2

T·101010 / 13
Perfil de exame
Formular o problema da demarcação e enunciar critérios de cientificidadeExpor criticamente o papel da indução no método científicoClarificar os conceitos, tese e argumentos de Popper (falsificacionismo)Distinguir verificacionismo de falsificacionismo e discutir criticamente Popper
Operadores:formulaexplicadistingueexpõeanalisadiscutecritica

nível básico

Todos os cursos: compreender o problema da demarcação e a ideia de Popper de que uma teoria científica tem de ser falsificável.

nível avançado

Aprofundamento para o Exame 714: expor o problema da indução, o método de conjeturas e refutações e a noção de corroboração, e discutir criticamente o falsificacionismo.

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. O estatuto do conhecimento científico
    • 01Ciência e senso comum; o problema da demarcação○
    • 02O indutivismo e o problema da indução◐
    • 03Popper: falsificacionismo e conjeturas e refutações●
    • 04Verificacionismo vs falsificacionismo; a corroboração●
§ 01

Ciência e senso comum; o problema da demarcação#

●○○BaseLPAE-filosofia-estatuto-ciencia

Pontos-chave

O conhecimento científico goza de um prestígio especial: dizer que algo é «científico» é, para muitos, dizer que é fiável e verdadeiro. Mas o que confere esse estatuto? O senso comum também produz crenças verdadeiras e úteis sobre o mundo. A diferença não está tanto nos objetos, mas na atitude e no método: a ciência procura explicações gerais e sistemáticas, formula-as com rigor e precisão, submete-as a testes controlados e está disposta a revê-las perante a evidência, sob o controlo crítico de uma comunidade. O senso comum, pelo contrário, contenta-se com crenças pouco examinadas, aceites por tradição ou utilidade imediata (ver Fig. 1).

Ciência e senso comum

Senso comum × ciênciaTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Senso comum · Ciência; Origem das crenças · Experiência quotidiana, tradição · Investigação metódica; Formulação · Vaga, prática · Precisa, geral, sistemática; Teste · Pouco ou nenhum · Testes controlados e públicos; Atitude perante o erro · Conservadora · Revisão perante a evidência, célula destacada: Revisão perante a evidênciaASPETOSENSO COMUMCIÊNCIAORIGEM DAS CRENÇASExperiência quotidiana,tradiçãoInvestigação metódicaFORMULAÇÃOVaga, práticaPrecisa, geral, sistemáticaTESTEPouco ou nenhumTestes controlados epúblicosATITUDE PERANTE OERROConservadoraRevisão perante a evidência
Fig. 1Fig. 1 — A ciência distingue-se do senso comum pelo método sistemático, testável e revisável.
O problema da demarcação é o problema de traçar a fronteira entre o que é ciência e o que não é (senso comum, metafísica, pseudociência). Não é uma questão académica: dela depende sabermos em que alegações confiar. Por que consideramos a física uma ciência e a astrologia uma pseudociência, embora esta também faça «previsões» e invoque «observações»? Precisamos de um critério — uma propriedade que as teorias científicas tenham e as não científicas não tenham.
A pseudociência imita a ciência mas falha nos aspetos decisivos. Costuma usar linguagem técnica e invocar evidências, mas as suas alegações são formuladas de modo tão vago ou flexível que se ajustam a qualquer resultado; perante casos desfavoráveis, não se corrige, antes inventa desculpas ad hoc (hipóteses acrescentadas só para salvar a teoria); e evita o controlo crítico. A astrologia «explica» qualquer comportamento à luz dos astros e reinterpreta os fracassos, nunca correndo o risco de ser desmentida — e é precisamente essa imunidade ao desmentido que Popper identificará como o problema.
Antes de Popper, a resposta dominante ao problema da demarcação era o indutivismo: a ciência distinguir-se-ia por partir da observação e generalizar indutivamente, e uma teoria seria científica se pudesse ser verificada ou confirmada pela experiência. Este critério parece intuitivo, mas herda o problema da indução de Hume e enfrenta dificuldades sérias, que motivam a alternativa falsificacionista. Compreender primeiro o indutivismo e as suas fragilidades é o passo necessário para compreender a solução de Popper.
Exemplo resolvido

Aplicar a atitude científica

Duas pessoas creem que «beber água morna de manhã faz bem». Uma repete-o porque a avó dizia; outra desenha um estudo controlado para o testar. Distingue as duas atitudes.

  1. 01Analisar a primeira

    Aceita a crença por tradição, sem a testar nem a formular de modo preciso — é a atitude do senso comum.

  2. 02Analisar a segunda

    Formula uma hipótese precisa e submete-a a um teste controlado, disposta a abandoná-la se os dados a contrariarem — é a atitude científica.

  3. 03Extrair a diferença

    A diferença não está no conteúdo (a mesma crença), mas no método e na disposição para rever à luz da evidência.

Resultado: A distinção ciência/senso comum reside na atitude metódica e crítica: formular hipóteses precisas, testá-las de forma controlada e estar disposto a corrigir. O mesmo conteúdo pode ser mantido de modo pré-científico ou científico consoante essa atitude.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir conhecimento científico de senso comum pela atitude e pelo método.
  • Formular o problema da demarcação (fronteira entre ciência e não-ciência).
  • Caracterizar a pseudociência (vaguidade, imunidade ao desmentido, hipóteses ad hoc).

Erros frequentes

  • Distinguir ciência de senso comum pelos objetos, e não pelo método e atitude.
  • Confundir demarcação (ciência vs não-ciência) com verdade (uma teoria científica pode ser falsa).
  • Considerar científica uma teoria só por usar linguagem técnica e invocar «provas».

Revisão ativa

Explica por que uma teoria que «explica tudo» e nunca pode ser desmentida é suspeita do ponto de vista da demarcação, usando um exemplo de pseudociência.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Estatuto do conhecimento científico) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

O indutivismo e o problema da indução#

●●○PadrãoLPAE-filosofia-estatuto-ciencia

Pontos-chave

A conceção indutivista (ou empirista-indutivista) descreve a ciência assim: o cientista observa cuidadosamente os factos, sem preconceitos, recolhe muitas observações e, a partir delas, generaliza indutivamente leis universais; estas leis são depois verificadas ou confirmadas por novas observações que as corroboram. A ciência progrediria acumulando factos e generalizações confirmadas. É uma imagem intuitiva — parece que a ciência «parte dos factos» — e liga-se ao verificacionismo: uma teoria é científica e aceitável se pode ser verificada pela experiência (ver Fig. 2).

Indução vs refutação

Verificar × refutarGrafo, Lei universal (todos os A são B) → Muitos casos favoráveis, Muitos casos favoráveis → Não prova (indução), Lei universal (todos os A são B) → Um contraexemplo (um A não-B), Um contraexemplo (um A não-B) → Refuta (dedução)Lei universal(todos os A …Muitos casosfavoráveisNão prova(indução)Umcontraexempl…Refuta(dedução)
Fig. 2Fig. 2 — Assimetria lógica: a lei universal não se verifica por casos, mas refuta-se por um contraexemplo.
O indutivismo enfrenta, porém, dificuldades graves. A primeira é o problema da indução, herdado de Hume: nenhuma quantidade finita de observações justifica logicamente uma lei universal, porque a lei fala de todos os casos (incluindo os não observados e os futuros) e a inferência do observado para o não observado pressupõe, sem prova, a uniformidade da natureza. Por muitos corvos pretos que veja, não fica provado que todos os corvos são pretos — basta um contraexemplo para refutar a lei.
A segunda dificuldade é que não há observação «pura», sem teoria. Observar é sempre observar algo, sob certos interesses e conceitos: o cientista não recolhe factos ao acaso, seleciona os relevantes à luz de hipóteses e expectativas. A ideia de começar por observar sem qualquer teoria prévia é psicologicamente irrealista e logicamente confusa. A observação é «carregada de teoria»: a teoria vem, em boa parte, antes e orienta a observação, ao contrário do que o indutivismo supõe.
A terceira dificuldade é a assimetria lógica entre verificar e refutar. Uma lei universal («todos os A são B») nunca pode ser conclusivamente verificada por casos particulares (haveria sempre casos por observar), mas pode ser conclusivamente refutada por um único contraexemplo («este A não é B»). Logicamente, um enunciado universal é infalsificável pela verificação e falsificável pela refutação. É esta assimetria que Popper aproveitará para propor uma alternativa radical ao indutivismo: em vez de procurar verificar teorias, a ciência deve procurar refutá-las.
Exemplo resolvido

Mostrar a fragilidade do indutivismo

Um indutivista afirma que a lei «todos os metais dilatam com o calor» está provada porque foi confirmada milhares de vezes. Avalia a afirmação.

  1. 01Analisar a estrutura

    A lei é universal (todos os metais, sempre); as confirmações são casos particulares finitos.

  2. 02Aplicar o problema da indução

    Nenhum número finito de confirmações esgota os casos possíveis (metais futuros, condições não testadas); a inferência pressupõe a uniformidade da natureza, que não está provada.

  3. 03Concluir

    A lei não está «provada»; está, no máximo, bem apoiada e não refutada. Bastaria um caso de metal que não dilatasse para a falsificar.

Resultado: A afirmação é indefensável em rigor: as confirmações não provam uma lei universal (problema da indução). A lei permanece uma conjetura bem sucedida mas falsificável — ideia que Popper tornará central.

Foco no Exame Nacional

  • Descrever a conceção indutivista da ciência e a sua ligação ao verificacionismo.
  • Expor o problema da indução aplicado à ciência (as leis universais não se verificam conclusivamente).
  • Explicar que a observação é carregada de teoria e a assimetria entre verificar e refutar.

Erros frequentes

  • Aceitar acriticamente que a ciência «parte de observações puras» e generaliza.
  • Julgar que muitas observações favoráveis «provam» uma lei universal.
  • Ignorar a assimetria: uma lei universal não se prova por casos, mas refuta-se por um contraexemplo.

Revisão ativa

Explica por que a observação de milhares de cisnes brancos não prova «todos os cisnes são brancos», mas a observação de um único cisne negro a refuta, e o que isso mostra sobre a indução.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Estatuto do conhecimento científico) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Popper: falsificacionismo e conjeturas e refutações#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-estatuto-ciencia

Pontos-chave

Karl Popper resolve o problema da demarcação e o problema da indução com uma inversão radical. Propõe que o critério de demarcação não é a verificabilidade, mas a falsificabilidade (ou refutabilidade): uma teoria é científica se e só se for falsificável, isto é, se existirem observações possíveis que, a ocorrerem, a refutariam. Uma teoria que nada pode desmentir, que é compatível com todos os resultados possíveis, não é científica — é justamente esse o caso das pseudociências, que se imunizam contra a refutação (ver Fig. 3).

O método de conjeturas e refutações

Conjeturas e refutaçõesGrafo, Problema → Conjetura ousada, Conjetura ousada → Previsões (dedução), Previsões (dedução) → Teste severo, Teste severo → Falsificada → nova conjetura, Teste severo → Corroborada (provisória), Falsificada → nova conjetura → ProblemaProblemaConjeturaousadaPrevisões(dedução)Teste severoFalsificada →nova conjetu…Corroborada(provisória)falharesistenovo problema
Fig. 3Fig. 3 — A ciência avança por conjeturas ousadas submetidas a testes que as podem refutar.
Note-se o ponto contraintuitivo: para Popper, uma boa teoria científica não é a que é irrefutável, mas a que se expõe ao risco de ser refutada e o resiste. Quanto mais uma teoria proíbe (quanto mais coisas exclui), mais é falsificável e mais informativa — e melhor é como teoria científica. «Amanhã vai chover ou não vai» é irrefutável e vazio; «amanhã vai chover às 15h no Porto» arrisca-se e é informativo. A cientificidade mede-se pela coragem de arriscar previsões que poderiam falhar.
Popper substitui o método indutivo pelo método de conjeturas e refutações (hipotético-dedutivo). A ciência não parte de observações para generalizar: parte de problemas, para os quais o cientista propõe conjeturas ousadas (hipóteses); dessas conjeturas deduzem-se previsões testáveis; procuram-se então testes severos que possam refutá-las. Se a previsão falha, a teoria é falsificada e abandonada ou modificada; se resiste, diz-se corroborada — mas nunca provada. A ciência avança tentando refutar as suas melhores teorias, não confirmando-as.
Esta conceção dissolve o problema da indução: a ciência não precisa de justificar indutivamente as leis, porque não as infere da observação — propõe-nas como conjeturas e testa-as dedutivamente (por Modus Tollens: se a teoria implica a previsão P e observamos não-P, a teoria é falsa). A racionalidade científica não está em provar, mas em aprender com os erros: eliminam-se as teorias falsas por refutação e conservam-se provisoriamente as que resistem. A atitude científica é crítica — procura ativamente os próprios erros —, ao contrário da dogmática, que procura confirmações.
Exemplo resolvido

Aplicar o critério da falsificabilidade

Compara, quanto à cientificidade, «a luz encurva-se ao passar perto de uma grande massa» (relatividade) e «tudo acontece como Deus quer, de modo insondável». Usa o critério de Popper.

  1. 01Testar a primeira

    A previsão da relatividade é arriscada: prevê um desvio observável da luz das estrelas junto ao Sol; se não se observasse, a teoria seria refutada. É falsificável.

  2. 02Testar a segunda

    «Tudo acontece como Deus quer de modo insondável» é compatível com qualquer resultado; nada a poderia desmentir. Não é falsificável.

  3. 03Aplicar a demarcação

    Pelo critério de Popper, a primeira é científica (arrisca-se à refutação e resistiu), a segunda não é científica (imune ao desmentido).

Resultado: A afirmação da relatividade é científica por ser falsificável (fez uma previsão arriscada, testável e corroborada em 1919); a afirmação teológica insondável não é científica por não excluir nenhum resultado. O critério é a falsificabilidade, não a verdade nem o uso de linguagem técnica.

Foco no Exame Nacional

  • Enunciar a falsificabilidade como critério de demarcação de Popper.
  • Explicar por que uma boa teoria arrisca previsões refutáveis (quanto mais proíbe, melhor).
  • Descrever o método de conjeturas e refutações e como dissolve o problema da indução.

Erros frequentes

  • Confundir falsificável (pode em princípio ser refutada) com falsa ou já refutada.
  • Julgar que, para Popper, resistir aos testes «prova» a teoria (só a corrobora provisoriamente).
  • Apresentar Popper como indutivista (ele rejeita a indução; a ciência procede por conjeturas e refutações).

Revisão ativa

Explica por que, para Popper, a afirmação «todos os cisnes são brancos» é científica e a afirmação «os astros influenciam o destino de forma que se ajusta a qualquer acontecimento» não é, recorrendo ao critério da falsificabilidade.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Estatuto do conhecimento científico) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Verificacionismo vs falsificacionismo; a corroboração#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-estatuto-ciencia

Pontos-chave

O contraste entre verificacionismo e falsificacionismo resume o essencial. O verificacionismo (indutivista) diz: uma teoria é científica se pode ser verificada/confirmada por observações, e a ciência progride acumulando confirmações. O falsificacionismo (Popper) diz: uma teoria é científica se pode ser falsificada por observações, e a ciência progride eliminando teorias falsas por refutação. Onde o primeiro procura casos favoráveis, o segundo procura casos que possam desmentir; onde o primeiro «prova», o segundo «testa» (ver Fig. 4).

Verificacionismo vs falsificacionismo

Verificacionismo × falsificacionismoTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Verificacionismo (indutivista) · Falsificacionismo (Popper); Critério de demarcação · Verificabilidade · Falsificabilidade; Método · Observar e generalizar (indução) · Conjeturar e refutar (hipotético-dedutivo); Objetivo dos testes · Confirmar a teoria · Tentar refutar a teoria; Teoria bem sucedida · Confirmada / provada · Corroborada (provisória); Progresso · Acumular confirmações · Eliminar o erro; aproximar-se da verdade, célula destacada: Corroborada (provisória)ASPETOVERIFICACIONISMO(INDUTIVISTA)FALSIFICACIONISMO(POPPER)CRITÉRIO DEDEMARCAÇÃOVerificabilidadeFalsificabilidadeMÉTODOObservar e generalizar(indução)Conjeturar e refutar(hipotético-dedutivo)OBJETIVO DOSTESTESConfirmar a teoriaTentar refutar a teoriaTEORIA BEMSUCEDIDAConfirmada / provadaCorroborada (provisória)PROGRESSOAcumular confirmaçõesEliminar o erro; aproximar-se da verdade
Fig. 4Fig. 4 — As duas conceções da ciência: confirmar teorias ou tentar refutá-las.
A noção de corroboração é central e distingue-se cuidadosamente de «confirmação» ou «prova». Quando uma teoria passa um teste severo (que poderia tê-la refutado e não refutou), diz-se corroborada — resistiu, mostrou-se até agora bem sucedida, merece ser mantida provisoriamente. Mas a corroboração não prova a teoria nem a torna mais provável no sentido indutivo: apenas atesta que ainda não foi refutada apesar de exposta ao risco. Uma teoria muito corroborada continua a ser uma conjetura que a próxima experiência pode falsificar. O conhecimento científico é, por natureza, conjetural e falível.
Daqui decorre uma imagem do progresso científico como aproximação à verdade por eliminação do erro. As teorias sucedem-se: uma teoria é substituída por outra que resolve os seus problemas, resiste a mais testes e tem maior conteúdo (proíbe mais, arrisca mais). Popper fala de verosimilhança (verisimilitude): teorias melhores estão «mais próximas da verdade», mesmo sendo todas conjeturais. Não há certezas finais, mas há progresso, porque aprendemos com os erros e cada refutação nos aproxima de teorias mais robustas.
O falsificacionismo tem méritos reconhecidos — capta a atitude crítica da ciência, distingue-a bem da pseudociência, e enfrenta o problema da indução — mas também recebe críticas. A principal (que prepara Kuhn) é que, na prática, os cientistas não abandonam uma teoria à primeira refutação: uma previsão falhada pode dever-se a erros de medição, a hipóteses auxiliares ou a condições mal controladas, e não à teoria central (é o problema de Duhem-Quine). Além disso, teorias muito valiosas foram mantidas apesar de anomalias. Kuhn descreverá a ciência real de modo muito diferente — não como refutação permanente, mas como trabalho dentro de paradigmas —, no confronto que se estuda a seguir.
Exemplo resolvido

Discutir a objeção de Duhem-Quine

Uma experiência parece refutar a teoria T. Mostra por que, na prática, isso não obriga logicamente a abandonar T, e que crítica isto levanta ao falsificacionismo estrito.

  1. 01Explicitar o que se testa

    Ao testar T, usam-se sempre hipóteses auxiliares (sobre os instrumentos, as condições iniciais, teorias de fundo). Testa-se T + hipóteses auxiliares, não T isolada.

  2. 02Analisar a refutação

    Se a previsão falha, a lógica só diz que algo no conjunto está errado — pode ser uma hipótese auxiliar (um erro de medição), não a teoria central T.

  3. 03Tirar a consequência

    Logo, é sempre possível salvar T culpando uma hipótese auxiliar; a refutação nunca é tão inequívoca como o falsificacionismo estrito sugere.

Resultado: Pela tese de Duhem-Quine, uma refutação atinge o conjunto teoria + hipóteses auxiliares, não a teoria isolada, pelo que é sempre possível (dentro de limites) preservar a teoria central. Isto mostra que a falsificação real é mais complexa do que o modelo simples de Popper — crítica que Kuhn desenvolverá.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir verificacionismo de falsificacionismo (procurar confirmar vs procurar refutar).
  • Explicar a noção de corroboração e por que não equivale a prova.
  • Caracterizar o progresso científico como eliminação do erro e apresentar uma crítica ao falsificacionismo.

Erros frequentes

  • Confundir corroboração (resistiu aos testes) com verificação/prova (nunca há prova conclusiva).
  • Pensar que uma teoria corroborada é «mais provável» no sentido indutivo (Popper rejeita-o).
  • Ignorar que, na prática, uma refutação pode ser atribuída a hipóteses auxiliares (Duhem-Quine).

Revisão ativa

Explica a diferença entre dizer que uma teoria está «confirmada» e dizer que está «corroborada», e por que Popper prefere o segundo termo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Estatuto do conhecimento científico) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Ciência e senso comum; o problema da demarcação○
    • 02O indutivismo e o problema da indução◐
    • 03Popper: falsificacionismo e conjeturas e refutações●
    • 04Verificacionismo vs falsificacionismo; a corroboração●

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Dos resumos à prática

O estatuto do conhecimento científico

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Estatuto do conhecimento científico)

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