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Resumos · FilosofiaPT · Secundário

A análise da atividade cognoscitiva: racionalismo e empirismo (Descartes e Hume)

Esta unidade compara duas teorias explicativas do conhecimento. O racionalismo de Descartes procura, através da dúvida metódica, um fundamento indubitável (o cogito) e um critério de verdade (a clareza e a distinção), recorrendo à existência de Deus para garantir o conhecimento do mundo. O empirismo de Hume faz derivar todas as ideias das impressões, distingue relações de ideias de questões de facto, e mostra que a causalidade assenta no hábito, levantando o problema da indução. É núcleo do 11.º ano e do Exame Nacional 714.

5 secções·~19 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 2

T·0999 / 13
Perfil de exame
Formular o problema da justificação e da origem do conhecimentoClarificar os conceitos, teses e argumentos do racionalismo de DescartesClarificar os conceitos, teses e argumentos do empirismo de HumeDiscutir criticamente as duas teorias e o problema da indução
Operadores:formulaexplicaanalisadistinguecomparadiscutecritica

nível básico

Todos os cursos: compreender a dúvida metódica e o cogito de Descartes e a distinção entre impressões e ideias em Hume.

nível avançado

Aprofundamento para o Exame 714: analisar o critério de verdade e o papel de Deus em Descartes, e o problema da causalidade e da indução em Hume, comparando criticamente as duas teorias.

Profundidade

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. A análise da atividade cognoscitiva: racionalismo e empirismo (Descartes e Hume)
    • 01O problema da justificação e as duas teorias○
    • 02Descartes: a dúvida metódica e o cogito◐
    • 03Descartes: clareza, distinção e o papel de Deus●
    • 04Hume: impressões, ideias e o garfo de Hume◐
    • 05Hume: causalidade, hábito e o problema da indução●
§ 01

O problema da justificação e as duas teorias#

●○○BaseLPAE-filosofia-atividade-cognoscitiva

Pontos-chave

O problema central desta unidade é o da justificação e da origem do conhecimento: em que se fundam as nossas crenças e de onde vêm? Descartes e Hume oferecem duas respostas paradigmáticas, e as suas estratégias são reveladoramente diferentes. Descartes, racionalista, procura um fundamento absolutamente seguro para o edifício do saber, partindo da dúvida para chegar a uma primeira certeza inabalável. Hume, empirista, faz uma análise genética das ideias — investiga de onde elas provêm — e conclui que muito do que julgamos saber assenta não na razão, mas no hábito (ver Fig. 1).

Duas estratégias face ao conhecimento

Duas estratégiasGrafo, Origem e justificação do conhecimento → Descartes: dúvida → fundamento (cogito), Origem e justificação do conhecimento → Hume: impressões → ideias, Descartes: dúvida → fundamento (cogito) → Razão (a priori), Hume: impressões → ideias → Experiência (a posteriori)Origem ejustificação…Descartes:dúvida → fun…Hume:impressões →…Razão (apriori)Experiência(a posterior…
Fig. 1Fig. 1 — Descartes parte da dúvida para um fundamento; Hume, das impressões para a análise das ideias.
A estratégia de Descartes é fundacionista: tal como um edifício precisa de alicerces firmes, o conhecimento precisa de um fundamento indubitável sobre o qual tudo o resto se apoie. Para o encontrar, Descartes usa a dúvida como método: rejeita provisoriamente tudo o que possa ser posto em dúvida, para ver se sobra algo absolutamente certo. É uma dúvida metódica (instrumento para chegar à certeza) e não cética (não duvida por duvidar). O que resistir à dúvida mais radical será o alicerce do saber.
A estratégia de Hume é analítica e genética: em vez de procurar fundamentos absolutos, examina o conteúdo e a origem das nossas ideias. O seu princípio empirista é que todas as ideias derivam de impressões (experiências sensíveis ou internas anteriores). Assim, para esclarecer ou criticar um conceito, Hume pergunta: de que impressão deriva? Se um suposto conhecimento não se puder reconduzir a impressões, é suspeito. Este «teste da impressão» conduzi-lo-á a conclusões céticas surpreendentes sobre a causalidade e a indução.
As duas teorias são, assim, respostas rivais ao mesmo problema, com métodos e resultados opostos. Descartes confia na razão para alcançar certezas necessárias e reconstruir o saber sobre bases seguras, mas terá de recorrer a Deus para sair da sua própria mente. Hume confia na experiência e é sóbrio quanto a certezas, mas o seu empirismo consequente acaba num ceticismo moderado sobre aquilo que a ciência pressupõe (a causalidade). Compará-los é ver como o ponto de partida (razão ou experiência) condiciona todo o percurso e os seus limites.
Exemplo resolvido

Aplicar o teste da impressão de Hume

Segundo o método de Hume, como se avaliaria a legitimidade da ideia de «substância» (algo que subsiste por baixo das qualidades sensíveis)?

  1. 01Enunciar o princípio

    Para Hume, toda a ideia legítima deriva de uma impressão anterior (sensível ou interna).

  2. 02Procurar a impressão da substância

    Dos objetos temos impressões de cor, forma, dureza, sabor... mas não uma impressão da «substância» em si, por baixo dessas qualidades.

  3. 03Retirar a conclusão

    Não havendo impressão correspondente, a ideia de substância é, para Hume, obscura ou ilegítima — uma ficção da mente.

Resultado: Aplicando o teste da impressão, Hume conclui que a ideia de substância não deriva de nenhuma impressão e é, por isso, suspeita. O exemplo mostra como o princípio empirista funciona como crivo crítico dos conceitos.

Foco no Exame Nacional

  • Formular o problema da origem e da justificação do conhecimento.
  • Distinguir a estratégia fundacionista de Descartes da estratégia genética/analítica de Hume.
  • Reconhecer o princípio empirista (toda a ideia deriva de uma impressão) e o método da dúvida.

Erros frequentes

  • Confundir a dúvida metódica de Descartes com ceticismo (é instrumento para a certeza).
  • Atribuir a Hume a negação de toda a razão (ele analisa a origem das ideias e reserva a razão para as relações de ideias).
  • Tratar racionalismo e empirismo como opiniões vagas, sem os conceitos de fundamento, impressão e ideia.

Revisão ativa

Explica por que Descartes começa por duvidar de tudo e Hume por perguntar «de que impressão deriva esta ideia?», e o que cada estratégia procura alcançar.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Descartes: a dúvida metódica e o cogito#

●●○PadrãoLPAE-filosofia-atividade-cognoscitiva

Pontos-chave

Descartes conduz a dúvida por graus, do menos ao mais radical, para testar a solidez das crenças. Primeiro, duvida dos sentidos: já o enganaram (ilusões, objetos que ao longe parecem outra coisa), e o que engana uma vez não merece confiança plena. Segundo, o argumento do sonho: como não há sinal seguro que distinga a vigília do sonho, poderia estar a sonhar tudo o que julgo perceber — o que põe em dúvida toda a existência do mundo exterior. Mesmo assim, algumas verdades (as da matemática) pareciam resistir: 2+3=5 mesmo em sonho (ver Fig. 2).

Os graus da dúvida até ao cogito

Da dúvida ao cogitoGrafo, Erro dos sentidos → Argumento do sonho, Argumento do sonho → Génio maligno, Génio maligno → Cogito (penso, logo existo)Erro dossentidosArgumento dosonhoGénio malignoCogito(penso, logo…+ radical+ radicalresiste
Fig. 2Fig. 2 — A dúvida cresce até ao génio maligno; só o cogito lhe resiste.
Para levar a dúvida ao extremo, Descartes introduz a hipótese do génio maligno: um ser todo-poderoso e enganador que me faria acreditar em tudo — incluindo nas verdades matemáticas — sem que nada fosse real. Esta hipótese hiperbólica (exagerada de propósito) permite duvidar até do que parecia mais certo. A dúvida cartesiana é, assim, metódica (um método para chegar à certeza), universal (estende-se a tudo o que é minimamente duvidável) e hiperbólica (leva a dúvida ao máximo). O seu objetivo não é destruir o saber, mas encontrar o que lhe resista.
No auge da dúvida surge a primeira certeza. Por mais que o génio maligno me engane, há algo de que não posso duvidar: para ser enganado, tenho de existir; para duvidar, tenho de pensar. Ainda que tudo o mais seja falso, é indubitável que, enquanto penso, existo. É o cogito, ergo sum — «penso, logo existo». A existência do eu como coisa pensante (res cogitans) é a primeira verdade, absolutamente certa, que resiste à dúvida mais radical, porque o próprio ato de duvidar a confirma.
O cogito é um conhecimento a priori, alcançado pela pura razão, e é o alicerce fundacionista que Descartes procurava: uma certeza sobre a qual reconstruir o saber. Repare-se na sua natureza especial — não é uma inferência que se possa pôr em dúvida, mas uma evidência que se apreende cada vez que se pensa. A partir daqui, Descartes tentará reconstruir o conhecimento do mundo; mas para sair da sua própria mente (o eu é a única certeza, e o mundo continua em dúvida), precisará de um critério de verdade e da garantia de Deus — os passos seguintes.
Exemplo resolvido

Explicar a indubitabilidade do cogito

Mostra por que «penso, logo existo» é uma certeza que sobrevive mesmo à hipótese de um enganador todo-poderoso.

  1. 01Supor o pior cenário

    Admita-se que um génio maligno me engana em tudo o que penso.

  2. 02Analisar o que o engano pressupõe

    Para ser enganado, tenho de estar a pensar; e para pensar, tenho de existir — o engano pressupõe um sujeito que pensa.

  3. 03Concluir

    Logo, sempre que penso (mesmo enganado), é certo que existo: quanto mais o génio me engana, mais confirma que existo enquanto coisa pensante.

Resultado: O cogito é indubitável porque a sua negação é autorrefutante: duvidar de que existo já é pensar, e pensar prova que existo. Por isso resiste à dúvida hiperbólica e serve de primeiro fundamento do conhecimento.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar os graus da dúvida metódica (sentidos, sonho, génio maligno).
  • Caracterizar a dúvida como metódica, universal e hiperbólica.
  • Explicar o cogito como primeira certeza indubitável e conhecimento a priori.

Erros frequentes

  • Apresentar a dúvida de Descartes como ceticismo definitivo (é provisória e metódica).
  • Tratar o cogito como um raciocínio dedutivo qualquer, ignorando a sua evidência imediata.
  • Concluir do cogito, sem mais, a existência do mundo exterior (só está garantida a existência do eu pensante).

Revisão ativa

Explica por que a hipótese do génio maligno não consegue pôr em dúvida o cogito, mostrando como o próprio ato de duvidar confirma a existência do sujeito pensante.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Descartes: clareza, distinção e o papel de Deus#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-atividade-cognoscitiva

Pontos-chave

A partir do cogito, Descartes extrai um critério geral de verdade. O que torna o cogito certo é o facto de ser percebido de forma clara e distinta: clara, porque está presente e evidente ao espírito atento; distinta, porque está tão separada e definida que não se confunde com nenhuma outra. Descartes generaliza: é verdadeiro tudo aquilo que concebo clara e distintamente. A clareza e a distinção tornam-se, assim, o critério da verdade — a marca pela qual reconheço uma ideia como verdadeira (ver Fig. 3).

A reconstrução cartesiana do saber

Reconstrução do saberGrafo, Cogito → Critério: clareza e distinção, Critério: clareza e distinção → Existência de Deus, Existência de Deus → Deus não-enganador, Deus não-enganador → Conhecimento do mundoCogitoCritério:clareza e di…Existência deDeusDeusnão-enganadorConhecimentodo mundo
Fig. 3Fig. 3 — Do cogito ao mundo, passando pelo critério de verdade e pela garantia divina.
Mas o critério enfrenta um obstáculo: enquanto subsistir a hipótese do génio maligno, poderia eu enganar-me mesmo naquilo que concebo clara e distintamente. Para garantir o critério, Descartes precisa de eliminar o génio maligno — e para isso demonstra a existência de Deus. Argumenta que tenho em mim a ideia de um ser perfeito e infinito, ideia que, por ser de perfeição infinita, não pode ter sido produzida por mim (ser finito e imperfeito): só um ser realmente perfeito a pode ter causado. Logo, Deus existe.
O papel de Deus é decisivo: sendo perfeito, Deus é bom e não é enganador (enganar seria uma imperfeição). Um Deus não-enganador garante que a minha faculdade de conhecer, quando bem usada, não me engana sistematicamente: aquilo que concebo clara e distintamente é verdadeiro, porque Deus não permitiria que uma faculdade que Ele me deu me enganasse no que percebo com evidência. Assim se afasta o génio maligno e se valida o critério de verdade — e, com ele, torna-se possível reconstruir o conhecimento do mundo exterior (que a matemática descreve).
Esta arquitetura foi criticada, sobretudo pelo chamado círculo cartesiano: Descartes parece usar a clareza e a distinção para provar Deus e, ao mesmo tempo, usar Deus para garantir a clareza e a distinção — um raciocínio circular. Os defensores de Descartes respondem distinguindo a evidência atual (indubitável no momento em que a concebo) da sua garantia geral (que só Deus assegura para as verdades recordadas). Independentemente da solução, o essencial a reter é a estrutura racionalista: um fundamento na razão (cogito), um critério de verdade (clareza e distinção) e uma garantia metafísica (Deus) que permitem sair da dúvida e reconstruir o saber.
Exemplo resolvido

Explicar a objeção do círculo cartesiano

Reconstrói a objeção do círculo cartesiano e explica em que sentido a argumentação de Descartes pareceria circular.

  1. 01Identificar o que garante o critério

    Descartes usa a existência de um Deus não-enganador para garantir que o que concebo clara e distintamente é verdadeiro.

  2. 02Identificar como prova Deus

    Mas a prova da existência de Deus assenta em premissas (a ideia de perfeição, o princípio de causalidade) que ele só aceita por as conceber clara e distintamente.

  3. 03Formular a circularidade

    Usa-se a clareza e a distinção para provar Deus, e Deus para garantir a clareza e a distinção: cada um depende do outro — um círculo.

Resultado: A objeção mostra uma aparente circularidade: o critério de verdade depende de Deus e a prova de Deus depende do critério. Descartes e os seus intérpretes respondem distinguindo a evidência atual (que se impõe por si) da garantia das verdades apenas recordadas — mas a objeção continua a ser um ponto crítico da sua teoria.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar o critério de verdade (clareza e distinção) e a sua origem no cogito.
  • Reconstruir o argumento da existência de Deus e o seu papel (Deus não-enganador garante o critério).
  • Apresentar a objeção do círculo cartesiano.

Erros frequentes

  • Apresentar clareza e distinção como sinónimos (clara = evidente/presente; distinta = bem separada de outras).
  • Omitir o papel de Deus, sem o qual o critério não fica garantido contra o génio maligno.
  • Ignorar a objeção do círculo cartesiano ao avaliar a teoria.

Revisão ativa

Reconstrói, passo a passo, a cadeia cartesiana que vai do cogito até ao conhecimento do mundo, indicando onde entram o critério de verdade e a existência de Deus.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Hume: impressões, ideias e o garfo de Hume#

●●○PadrãoLPAE-filosofia-atividade-cognoscitiva

Pontos-chave

Hume parte de uma análise dos conteúdos da mente, a que chama perceções, e divide-as em dois tipos, distintos pela vivacidade. As impressões são as perceções mais vivas e fortes — as sensações (ver uma cor, sentir dor) e as impressões internas (sentir uma emoção). As ideias são cópias enfraquecidas das impressões — o que ocorre quando penso ou recordo aquilo que antes senti. O princípio empirista fundamental é o princípio da cópia: toda a ideia deriva de uma impressão anterior de que é cópia. A mente compõe e combina ideias, mas não cria material novo além do que a experiência forneceu (ver Fig. 4).

O garfo de Hume

Garfo de HumeTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Relações de ideias · Questões de facto; Como se conhecem · A priori (só pela razão) · A posteriori (pela experiência); Necessidade · Necessárias · Contingentes; Negação · Contraditória (impossível) · Possível (concebível); Informam sobre o mundo? · Não (verdadeiras por análise) · Sim; Exemplos · Matemática, lógica · «O sol nasce amanhã», célula destacada: SimASPETORELAÇÕES DE IDEIASQUESTÕES DE FACTOCOMO SE CONHECEMA priori (só pela razão)A posteriori (pelaexperiência)NECESSIDADENecessáriasContingentesNEGAÇÃOContraditória (impossível)Possível (concebível)INFORMAM SOBRE OMUNDO?Não (verdadeiras poranálise)SimEXEMPLOSMatemática, lógica«O sol nasce amanhã»
Fig. 4Fig. 4 — A divisão de todo o saber humano segundo Hume: relações de ideias e questões de facto.
Deste princípio Hume extrai um método crítico: para saber se um conceito é legítimo e o que significa, procura-se a impressão de que deriva. Se se encontra, o conceito é claro; se não se encontra nenhuma impressão correspondente, o conceito é obscuro ou vazio (uma ficção). É com este crivo que Hume examinará ideias metafísicas como a de substância, a de eu e, sobretudo, a de conexão causal necessária — com resultados céticos.
Hume distingue depois dois tipos de objetos da razão humana, distinção conhecida como o «garfo de Hume». As relações de ideias são proposições cuja verdade depende apenas da relação entre os conceitos, conhecidas a priori, necessárias, e cuja negação é contraditória — é o caso da matemática e da lógica («o triângulo tem três lados», «2+2=4»). As questões de facto dizem respeito ao que existe e acontece no mundo, conhecidas a posteriori (pela experiência), contingentes, e cuja negação é sempre possível sem contradição («o sol nascerá amanhã» podia ser falso).
Esta distinção tem consequências importantes. As relações de ideias dão certeza, mas não informam sobre o mundo (são verdadeiras por análise dos conceitos). As questões de facto informam sobre o mundo, mas não dão certeza necessária (dependem da experiência, sempre limitada). Todo o conhecimento substantivo do mundo é, pois, do tipo «questão de facto» — e o problema é: como o justificamos, se ele vai sempre além do que observámos? É aqui que entra a análise humeana da causalidade e da indução, o coração do seu contributo e a sua conclusão mais cética.
Exemplo resolvido

Aplicar o garfo de Hume

Onde situa Hume a proposição «todo o acontecimento tem uma causa»: relação de ideias ou questão de facto? Que consequência tira daí?

  1. 01Testar se é relação de ideias

    Se fosse, a sua negação seria contraditória. Mas «um acontecimento sem causa» é concebível sem contradição lógica — logo, não é relação de ideias.

  2. 02Testar se é questão de facto

    Se é questão de facto, só se conheceria pela experiência; mas nunca observamos «a causalidade em geral», apenas casos particulares.

  3. 03Tirar a consequência

    O princípio de causalidade não é nem demonstrável a priori nem verificável na experiência como necessário — a sua necessidade não tem fundamento racional.

Resultado: Hume conclui que «todo o acontecimento tem uma causa» não é relação de ideias (a negação não é contraditória) nem se justifica como verdade necessária pela experiência. Prepara-se assim a sua análise cética da causalidade e da indução.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir impressões de ideias e enunciar o princípio da cópia.
  • Explicar o método humeano de procurar a impressão de origem de um conceito.
  • Distinguir relações de ideias de questões de facto (o garfo de Hume) quanto a a priori/a posteriori, necessidade e contradição.

Erros frequentes

  • Inverter a relação entre impressões e ideias (as ideias é que derivam e copiam as impressões).
  • Confundir relações de ideias (necessárias, a priori) com questões de facto (contingentes, a posteriori).
  • Pensar que, para Hume, a matemática informa sobre o mundo (é relação de ideias, verdadeira por análise).

Revisão ativa

Classifica cada proposição como relação de ideias ou questão de facto e justifica: (a) «todos os solteiros são não-casados»; (b) «a água ferve a 100 °C ao nível do mar»; (c) «5 é um número primo».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

Hume: causalidade, hábito e o problema da indução#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-atividade-cognoscitiva

Pontos-chave

A ideia de causa está no centro de todo o raciocínio sobre o mundo: é por ela que passamos do observado ao não observado (vejo fumo, infiro fogo; largo a bola, prevejo que cai). Hume aplica o seu método e pergunta: de que impressão deriva a ideia de conexão causal necessária entre causa e efeito? Ao observar dois bilhares a colidir, vejo uma bola mover-se, tocar na outra, e a segunda mover-se — vejo dois acontecimentos sucessivos e contíguos, mas não vejo nenhuma «ligação necessária» que obrigue o segundo a seguir-se ao primeiro. A necessidade causal não é dada por nenhuma impressão (ver Fig. 5).

A análise humeana da causalidade

Causalidade segundo HumeGrafo, Conjunção constante (A seguido de B) → Hábito / costume, Hábito / costume → Expectativa (ao ver A, esperar B), Hábito / costume → Ideia de conexão necessária (projetada)Conjunçãoconstante (A…Hábito /costumeExpectativa(ao ver A, e…Ideia deconexão nece…projeta
Fig. 5Fig. 5 — A necessidade causal não está no mundo: nasce do hábito e é projetada pela mente.
Que temos nós, então, na experiência? Três elementos: contiguidade (a causa e o efeito estão próximos no espaço e no tempo), sucessão temporal (a causa precede o efeito) e conjunção constante (sempre que houve causas deste tipo, seguiram-se efeitos deste tipo). Mas destes três nada de necessário se extrai: o facto de A ter sido sempre seguido de B não mostra que tenha de o ser. A ideia de conexão necessária não vem do mundo — vem de nós.
A explicação de Hume é psicológica: depois de observar muitas vezes A seguido de B, a mente cria um hábito ou costume — uma disposição para, ao ver A, esperar B. A «necessidade» que atribuímos à causa é, na verdade, essa determinação do espírito, esse sentimento de expectativa gerado pelo hábito, que projetamos sobre as coisas. Cremos na causalidade não porque a razão a demonstre, mas porque o hábito nos leva a isso. A causalidade é, assim, um facto da nossa natureza, não uma necessidade lógica descoberta pela razão.
Daqui resulta o problema da indução. Todo o raciocínio indutivo (do observado para o não observado, do passado para o futuro) pressupõe que a natureza é uniforme — que o futuro se assemelhará ao passado. Mas como justificar este princípio? Não é uma relação de ideias (a sua negação não é contraditória: é concebível que a natureza mude). E não se pode justificar pela experiência sem circularidade: dizer «a uniformidade valeu até agora, logo valerá» já pressupõe a uniformidade que se quer provar. A indução não tem, pois, fundamento racional — assenta no hábito. Este ceticismo humeano sobre a indução é o problema que Popper procurará enfrentar na filosofia da ciência (unidades seguintes).
Exemplo resolvido

Mostrar a circularidade da justificação da indução

Alguém defende: «a indução é fiável porque sempre funcionou no passado». Mostra, com Hume, por que este argumento é circular.

  1. 01Reconstruir o argumento

    Premissa: a indução funcionou até hoje. Conclusão: a indução funcionará no futuro (é fiável).

  2. 02Identificar o pressuposto

    Passar de «funcionou» para «funcionará» pressupõe que o futuro se assemelha ao passado — o princípio da uniformidade da natureza.

  3. 03Mostrar a circularidade

    Mas usar «funcionou no passado» para concluir «funcionará» é justamente aplicar a indução (do passado para o futuro) para justificar a indução — pressupõe-se o que se quer provar.

Resultado: A justificação é circular: apoia a fiabilidade da indução num raciocínio que já é indutivo (pressupõe a uniformidade da natureza). Por isso Hume conclui que a indução não tem fundamento racional necessário e assenta no hábito — o problema que a filosofia da ciência herdará.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar por que, para Hume, não há impressão da conexão causal necessária.
  • Explicar a causalidade pelo hábito (contiguidade, sucessão, conjunção constante, expectativa).
  • Formular o problema da indução (a uniformidade da natureza não se justifica sem circularidade).

Erros frequentes

  • Dizer que Hume nega a causalidade — ele nega a sua necessidade racional, não que usemos a causa (por hábito).
  • Confundir conjunção constante (observada) com conexão necessária (não observada).
  • Julgar que a indução se justifica pela experiência, sem ver a circularidade que Hume denuncia.

Revisão ativa

Explica o problema da indução a partir do exemplo «o sol nasceu todos os dias até hoje, logo nascerá amanhã», mostrando por que, segundo Hume, esta inferência não tem fundamento racional necessário.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01O problema da justificação e as duas teorias○
    • 02Descartes: a dúvida metódica e o cogito◐
    • 03Descartes: clareza, distinção e o papel de Deus●
    • 04Hume: impressões, ideias e o garfo de Hume◐
    • 05Hume: causalidade, hábito e o problema da indução●

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Dos resumos à prática

A análise da atividade cognoscitiva: racionalismo e empirismo (Descartes e Hume)

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (A atividade cognoscitiva)

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