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Sociologia e conhecimento da realidade social

Apresenta a Sociologia como a ciência que estuda a realidade social: o olhar sociológico e a passagem do senso comum à ciência, a sua construção histórica (Comte, Marx, Durkheim, Weber e a institucionalização em Portugal), a rutura com o senso comum e os obstáculos ao conhecimento, e a distinção entre problema social e problema sociológico. Matéria de avaliação interna — Sociologia não tem Exame Final Nacional.

4 secções·~16 min de leitura·3 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0111 / 10
Perfil de exame
Justificar a Sociologia como ciência e situar a sua construção histórica (fundadores; institucionalização em Portugal)Explicitar a rutura com o senso comum e os obstáculos ao conhecimento sociológicoDistinguir problema social de problema sociológico e explicar o papel da teoria, do método e das técnicas
Operadores:justificacontextualizaexplicitadistingueexplicarelaciona

nível básico

Compreender o que é a Sociologia, situar os seus fundadores e distinguir o olhar sociológico do senso comum.

nível avançado

Fundamentar a rutura epistemológica com o senso comum e distinguir com rigor problema social de problema sociológico, articulando teoria, método e técnica.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Sociologia e conhecimento da realidade social
    • 01O olhar sociológico e a Sociologia como ciência○
    • 02A construção histórica da Sociologia: os fundadores e a institucionalização em Portugal◐
    • 03A rutura com o senso comum e os obstáculos ao conhecimento●
    • 04Problema social e problema sociológico; teoria, método e técnica◐
§ 01

O olhar sociológico e a Sociologia como ciência#

●○○BaseLPAE-sociologia-o-que-e-a-sociologia

Pontos-chave

A Sociologia é a ciência que estuda a realidade social — os fenómenos sociais, as relações e as estruturas que ligam os seres humanos em sociedade. Dizer que é uma ciência significa que estuda o seu objeto de forma sistemática e metódica, procurando descrever, compreender e explicar, e submetendo as suas afirmações à prova dos factos e ao debate crítico. O que a define não é um assunto exclusivo — a família, a escola, o trabalho, o crime, a religião são também objeto de outros saberes — mas um olhar próprio: o olhar sociológico, que procura, por detrás dos comportamentos individuais, as regularidades, as condições e os padrões sociais que os tornam possíveis e inteligíveis.
Esse olhar consiste em ver o social no que parece meramente individual. O sociólogo norte-americano C. Wright Mills chamou-lhe «imaginação sociológica»: a capacidade de relacionar as biografias pessoais com a história e a estrutura da sociedade — de ver, num desemprego, não apenas o azar de uma pessoa, mas uma taxa e um mecanismo social; num casamento ou num divórcio, não só uma escolha íntima, mas uma tendência de época. A Fig. 1 contrasta este olhar com o do senso comum. Onde o senso comum vê indivíduos isolados e explicações imediatas, a Sociologia vê relações, contextos e regularidades, e pergunta porque é que, em determinada sociedade e momento, certos fenómenos ocorrem com determinada frequência.

O olhar do senso comum e o olhar sociológico

Senso comum vs olhar sociológicoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Olhar do senso comum · Olhar sociológico; Ponto de partida · O caso individual, a evidência imediata · As regularidades, as relações e as estruturas sociais; Explicação · Impressões, provérbios, causas naturais ou individuais · Fatores e mecanismos sociais, construídos e testados; Atitude · Familiaridade: o social parece óbvio e transparente · Distanciamento: transforma o familiar em problema; Validação · Não se testa; aceita afirmações contraditórias · Submete-se à prova dos factos e ao debate crítico, célula destacada: Submete-se à prova dos factos e ao debate críticoASPETOOLHAR DO SENSO COMUMOLHAR SOCIOLÓGICOPONTO DE PARTIDAO caso individual, aevidência imediataAs regularidades, asrelações e as estruturassociaisEXPLICAÇÃOImpressões, provérbios,causas naturais ouindividuaisFatores e mecanismossociais, construídos etestadosATITUDEFamiliaridade: o socialparece óbvio e transparenteDistanciamento: transforma ofamiliar em problemaVALIDAÇÃONão se testa; aceitaafirmações contraditóriasSubmete-se à prova dosfactos e ao debate crítico
Fig. 1Fig. 1 — Dois modos de olhar o social: o senso comum e a ciência.
A Sociologia exige, por isso, uma atitude de distanciamento e de estranhamento face àquilo que nos parece óbvio. Estudar sociologicamente a própria sociedade em que vivemos é difícil precisamente por a conhecermos «de dentro»: tudo parece natural e transparente. O trabalho científico começa quando se suspende essa evidência e se transforma o familiar em problema — quando se pergunta «porquê?» a respeito daquilo que damos por adquirido (porque é que as mulheres continuam a fazer a maior parte do trabalho doméstico? porque é que a origem social ainda pesa no percurso escolar?). É esta interrogação metódica, e não a simples curiosidade, que caracteriza a ciência.
Sendo uma ciência da realidade social, a Sociologia é também interdisciplinar: dialoga com a Economia, a Ciência Política, a História, a Antropologia, a Psicologia e a Geografia, porque os fenómenos sociais são complexos e nenhuma disciplina os esgota. Compreender a pobreza, as migrações ou a globalização exige articular dimensões económicas, políticas, culturais e históricas. Esta abertura não dilui a especificidade do olhar sociológico — antes o enriquece: a Sociologia contribui com a sua atenção às estruturas, às relações e aos processos sociais, e recebe das outras ciências sociais aquilo que ajuda a explicar melhor a complexidade do real.
Exemplo resolvido

Do individual ao social: ler uma taxa

Numa cidade, o número de suicídios mantém-se relativamente estável ano após ano, e é maior entre pessoas socialmente isoladas do que entre pessoas com fortes laços familiares e religiosos. Mostra como o olhar sociológico interpreta este facto de forma diferente do senso comum.

  1. 01Ver o padrão, não só o caso

    O senso comum explica cada suicídio por motivos pessoais (uma tragédia, um desgosto). O olhar sociológico repara na regularidade: a taxa é estável e varia sistematicamente com o grau de integração social.

  2. 02Procurar o fator social

    Se a taxa depende do isolamento e dos laços sociais, então há um fator social em jogo — o grau de integração — para além das razões individuais de cada caso.

  3. 03Formular a explicação sociológica

    Conclui-se que a coesão social protege: quanto mais integrado num grupo, menor a probabilidade. É a sociedade, e não só a biografia, que ajuda a explicar o fenómeno (foi este o raciocínio pioneiro de Durkheim, tratado adiante).

Resultado: O olhar sociológico não nega as razões individuais, mas mostra que, por detrás dos casos, há um padrão social explicável por fatores sociais (a integração). Ver a taxa e o seu mecanismo, e não apenas o caso isolado, é o cerne da imaginação sociológica.

Foco no Exame Nacional

  • Justificar a Sociologia como ciência da realidade social e caracterizar o olhar (a imaginação) sociológico.
  • Reconhecer a importância da interdisciplinaridade para compreender fenómenos sociais complexos.

Erros frequentes

  • Confundir a Sociologia com uma opinião ou um comentário sobre a atualidade, e não com um conhecimento metódico e provado.
  • Reduzir os fenómenos sociais a escolhas puramente individuais, ignorando as regularidades e os contextos sociais que o olhar sociológico procura.

Revisão ativa

Escolhe um comportamento aparentemente individual (por exemplo, o gosto musical ou a decisão de continuar a estudar) e mostra, com o olhar sociológico, como ele é também socialmente condicionado.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

A construção histórica da Sociologia: os fundadores e a institucionalização em Portugal#

●●○PadrãoLPAE-sociologia-o-que-e-a-sociologia

Pontos-chave

A Sociologia é uma ciência jovem: nasceu no século XIX, em resposta às transformações profundas trazidas pela Revolução Industrial, pela urbanização e pelas revoluções políticas. O mundo tradicional desfazia-se e impunha-se a necessidade de compreender cientificamente a nova sociedade — as suas crises, as suas classes, os seus laços. Foi Auguste Comte quem, por volta de 1838, cunhou o termo «Sociologia» (depois de lhe ter chamado «física social»), propondo uma ciência positiva da sociedade, isto é, baseada na observação dos factos e não na especulação. A Fig. 2 situa este e os outros marcos fundadores.

Marcos da construção da Sociologia

Marcos da SociologiaLinha do tempo de 1825 a 1990, 1838: Comte cunha «Sociologia», 1848: Marx: «Manifesto Comunista», 1895: Durkheim: «As Regras do Método», 1905: Weber: «A Ética Protestante», 1963: Sedas Nunes: Análise Social (PT), 1974: Institucionalização em Portugal18251990Ano1838Comte cunha«Sociologia»1848Marx: «ManifestoComunista»1895Durkheim: «AsRegras do Métod…1905Weber: «A ÉticaProtestante»1963Sedas Nunes:Análise Social …1974Institucionalizaçãoem Portugal
Fig. 2Fig. 2 — Do nascimento no século XIX à institucionalização em Portugal.
Três autores clássicos deram à Sociologia os seus grandes quadros de análise, resumidos na Fig. 3. Karl Marx explicou a sociedade a partir das relações económicas: o modo de produção, a divisão em classes com interesses opostos (a burguesia, detentora dos meios de produção, e o proletariado) e a luta de classes como motor da história — uma leitura centrada no conflito. Émile Durkheim fundou o método sociológico: defendeu que os factos sociais se explicam por outros factos sociais («o social pelo social»), estudou aquilo que garante a coesão da sociedade (a solidariedade, a consciência coletiva) e o que a ameaça (a anomia), e fez do estudo do suicídio o modelo de uma explicação verdadeiramente sociológica.

Os fundadores clássicos da Sociologia

Os fundadores da SociologiaTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Fundador · Conceito-chave · Contributo; Auguste Comte · Física social, positivismo · Cunha o termo «Sociologia»; propõe uma ciência positiva da sociedade; Karl Marx · Modo de produção, classes · Explica a sociedade pelo conflito de classes e pelas relações económicas; Émile Durkheim · Facto social, coesão · Funda o método (o social explica-se pelo social); estuda a coesão e a anomia; Max Weber · Ação social, compreensão · Estuda a ação dotada de sentido; os tipos-ideais, a burocracia e a dominaçãoFUNDADORCONCEITO-CHAVECONTRIBUTOAUGUSTE COMTEFísica social, positivismoCunha o termo «Sociologia»;propõe uma ciência positivada sociedadeKARL MARXModo de produção, classesExplica a sociedade peloconflito de classes e pelasrelações económicasÉMILE DURKHEIMFacto social, coesãoFunda o método (o socialexplica-se pelo social);estuda a coesão e a anomiaMAX WEBERAção social, compreensãoEstuda a ação dotada desentido; os tipos-ideais, aburocracia e a dominação
Fig. 3Fig. 3 — Comte, Marx, Durkheim e Weber: conceitos-chave e contributos.
Max Weber propôs uma Sociologia compreensiva: o seu objeto é a ação social, isto é, a ação humana dotada de sentido e orientada para os outros; para a estudar, construiu instrumentos como os tipos-ideais e analisou fenómenos como a burocracia, os tipos de dominação e a relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo. Marx, Durkheim e Weber não se anulam: representam três olhares complementares — o conflito e a economia (Marx), a coesão e as estruturas (Durkheim), a ação e o sentido (Weber) — que ainda hoje estruturam a disciplina. A eles se juntou, no século XX, uma pluralidade de correntes (funcionalismo, interacionismo, teorias do conflito).
Em Portugal, a Sociologia institucionalizou-se tardiamente, sobretudo a partir da década de 1960 e, plenamente, depois da Revolução de 25 de Abril de 1974, que trouxe liberdade de investigação e de ensino. Adérito Sedas Nunes é reconhecido como o principal impulsionador da Sociologia académica portuguesa: criou estruturas de investigação e, em 1963, a revista Análise Social, ainda hoje uma referência. Após 1974 surgiram as primeiras licenciaturas em Sociologia e a disciplina afirmou-se no estudo da sociedade portuguesa — as suas classes, a família, o trabalho, a educação —, acompanhando as transformações do país em democracia e, mais tarde, na integração europeia.
Exemplo resolvido

Um mesmo facto, três olhares clássicos

Para explicar as desigualdades escolares (os filhos de famílias mais favorecidas tendem a ter melhores percursos), indica como abordariam a questão Marx, Durkheim e Weber.

  1. 01Marx

    Ligaria as desigualdades escolares à estrutura de classes e à economia: a escola tende a reproduzir a posição de classe e a servir os interesses da classe dominante.

  2. 02Durkheim

    Veria a escola como instituição que transmite a consciência coletiva e assegura a coesão, perguntando que funções sociais ela cumpre e como integra os indivíduos.

  3. 03Weber

    Analisaria o sentido que os atores dão à escola, as suas expectativas e estratégias, e o papel das credenciais e da burocracia escolar na atribuição de posições.

Resultado: Cada fundador ilumina uma faceta: Marx, o conflito de classes e a economia; Durkheim, a coesão e a função; Weber, o sentido e a ação dos atores. Os três olhares são complementares e continuam a estruturar a análise sociológica.

Foco no Exame Nacional

  • Contextualizar historicamente o aparecimento da Sociologia (Comte) e caracterizar o contributo de Marx, Durkheim e Weber.
  • Situar a institucionalização da Sociologia em Portugal (Sedas Nunes; pós-1974).

Erros frequentes

  • Trocar os contributos dos fundadores (atribuir a Durkheim a luta de classes, ou a Marx o facto social), em vez de os distinguir com rigor.
  • Pensar que a Sociologia é muito antiga: nasceu apenas no século XIX, com a sociedade industrial, e em Portugal afirmou-se sobretudo depois de 1974.

Revisão ativa

Explica por que a Sociologia surgiu no século XIX e não antes, relacionando o seu aparecimento com as transformações da sociedade industrial.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

A rutura com o senso comum e os obstáculos ao conhecimento#

●●●AprofundamentoLPAE-sociologia-o-que-e-a-sociologia

Pontos-chave

O maior obstáculo à Sociologia é, paradoxalmente, a familiaridade com o seu objeto. Como todos vivemos em sociedade, julgamos conhecê-la espontaneamente: temos sobre a família, o crime ou a pobreza opiniões prontas, herdadas da educação, dos meios de comunicação e da experiência quotidiana. A este saber espontâneo chama-se senso comum, e é feito de prenoções — ideias prévias, não testadas, muitas vezes contraditórias entre si («os opostos atraem-se» e «cada qual com o seu igual»). Fazer ciência social exige, antes de mais, romper com este saber imediato. A Fig. 4 representa esta rutura como o primeiro passo do trabalho sociológico.

A rutura com o senso comum

Da prenoção ao conhecimento científicoGrafo, Senso comum / prenoções → Rutura epistemológica, Rutura epistemológica → Construção do objeto, Construção do objeto → Método e técnicas, Método e técnicas → Conhecimento sociológicoSenso comum /prenoçõesRuturaepistemológicaConstrução doobjetoMétodo etécnicasConhecimentosociológico
Fig. 4Fig. 4 — O conhecimento sociológico constrói-se por rutura com o senso comum.
A esta exigência os sociólogos Pierre Bourdieu, Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron, na obra «O Ofício de Sociólogo», chamaram rutura epistemológica (retomando o filósofo Gaston Bachelard): o conhecimento científico não prolonga o senso comum, constrói-se contra ele. Não basta observar «o que está à vista»; é preciso desconfiar das evidências, porque aquilo que parece transparente esconde frequentemente relações que só a análise revela. A Sociologia deve, pois, exercer uma vigilância epistemológica constante sobre as suas próprias prenoções — incluindo as do investigador, que também é membro da sociedade que estuda.
Vários obstáculos ameaçam o conhecimento sociológico. A ilusão da transparência do social leva a crer que basta olhar para compreender, quando o essencial (as estruturas, os mecanismos) não é diretamente observável. As explicações naturalistas atribuem à «natureza» aquilo que é social e histórico (por exemplo, dizer que as mulheres «são naturalmente» mais dadas ao cuidado, naturalizando uma construção social). As explicações individualistas reduzem os fenómenos sociais à soma de escolhas individuais, ignorando os condicionamentos coletivos. E as explicações etnocentristas julgam as outras culturas a partir dos padrões da nossa, tomando-a como medida universal.
Romper com o senso comum não significa desprezá-lo: as representações do senso comum são, elas próprias, factos sociais que a Sociologia estuda (como as pessoas veem a pobreza faz parte da realidade da pobreza). Significa, sim, não as tomar como explicação. O conhecimento sociológico distingue-se por construir os seus conceitos, por submeter as suas afirmações à prova empírica e por aceitar ser corrigido. É este esforço metódico de distanciamento — e não a posse de uma verdade definitiva — que faz da Sociologia uma ciência, e que a protege de se reduzir a uma opinião mais entre outras.
Exemplo resolvido

Desmontar uma explicação naturalista

Uma pessoa afirma: «As raparigas escolhem menos engenharia porque as mulheres são, por natureza, menos boas a matemática.» Critica esta afirmação do ponto de vista sociológico.

  1. 01Identificar o obstáculo

    A afirmação é uma explicação naturalista: transforma em «natureza» aquilo que pode ser social, e apoia-se numa prenoção do senso comum.

  2. 02Introduzir o distanciamento

    O sociólogo pergunta se a diferença é constante no tempo e no espaço. Não é: a proporção de mulheres em áreas científicas varia muito entre países e épocas — o que uma causa natural não explicaria.

  3. 03Construir a explicação social

    Procuram-se fatores sociais: a socialização de género, os estereótipos, as expectativas de pais e professores, a ausência de modelos. A «escolha» é socialmente condicionada, não ditada pela natureza.

Resultado: A explicação naturalista é um obstáculo epistemológico: naturaliza uma construção social. A rutura com o senso comum mostra que a sub-representação das mulheres em certas áreas se explica por fatores sociais (socialização, estereótipos), variáveis e transformáveis — não por uma «natureza» fixa.

Foco no Exame Nacional

  • Explicitar as dificuldades da produção do conhecimento sociológico (senso comum, familiaridade, ilusão da transparência).
  • Identificar e criticar as explicações naturalistas, individualistas e etnocentristas.

Erros frequentes

  • Confundir o conhecimento sociológico com o senso comum «organizado», quando a ciência se constrói por rutura com ele.
  • Cair em explicações naturalistas (dizer que um fenómeno social é «natural») ou etnocentristas (julgar outras culturas pelos padrões da própria).

Revisão ativa

Identifica uma prenoção comum sobre um grupo social (por exemplo, sobre os desempregados ou os jovens) e explica por que ela constitui um obstáculo ao conhecimento sociológico.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Problema social e problema sociológico; teoria, método e técnica#

●●○PadrãoLPAE-sociologia-o-que-e-a-sociologia

Pontos-chave

Uma distinção decisiva estrutura todo o trabalho sociológico: a diferença entre problema social e problema sociológico, resumida na Fig. 5. Um problema social é uma situação vivida coletivamente como negativa e que exige solução — o desemprego, a pobreza, a violência doméstica. Assenta num juízo de valor da sociedade e apela à ação política. Um problema sociológico é uma questão de conhecimento, construída pelo investigador, sobre como e porquê um fenómeno social ocorre — por exemplo: «que fatores sociais explicam as diferenças de desemprego entre regiões ou grupos?». O primeiro pede uma solução; o segundo, uma explicação.

Problema social e problema sociológico

Problema social vs sociológicoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Problema social · Problema sociológico; Natureza · Situação vivida como negativa pela sociedade · Questão de conhecimento construída pelo investigador; O que pede · Uma solução (ação política, intervenção) · Uma explicação (compreender como e porquê); Exemplo · «O desemprego é um flagelo» · «Que fatores sociais explicam as diferenças de desemprego?»; Critério · Juízo de valor, urgência social · Rigor conceptual, hipóteses, prova empírica, célula destacada: Questão de conhecimento construída pelo investigadorASPETOPROBLEMA SOCIALPROBLEMA SOCIOLÓGICONATUREZASituação vivida comonegativa pela sociedadeQuestão de conhecimentoconstruída pelo investigadorO QUE PEDEUma solução (ação política,intervenção)Uma explicação (compreendercomo e porquê)EXEMPLO«O desemprego é um flagelo»«Que fatores sociaisexplicam as diferenças dedesemprego?»CRITÉRIOJuízo de valor, urgênciasocialRigor conceptual, hipóteses,prova empírica
Fig. 5Fig. 5 — Da situação vivida (problema social) à questão de conhecimento (problema sociológico).
A mesma realidade pode dar origem a ambos, mas não se devem confundir. A partir do problema social do desemprego, o sociólogo constrói problemas sociológicos: quem é mais atingido e porquê, que efeitos tem sobre as famílias, como varia com a escolaridade ou a idade. Transformar um problema social num problema sociológico é já um ato de rutura com o senso comum: obriga a passar da indignação ou da opinião para a interrogação metódica, a definir conceitos com rigor e a procurar explicações que possam ser testadas. Sem essa construção, corre-se o risco de fazer passar por ciência aquilo que é apenas tomada de posição.
Para produzir conhecimento, a Sociologia articula três níveis: a teoria, o método e as técnicas. A teoria é o conjunto de conceitos e proposições que orientam o olhar e permitem interpretar (por exemplo, a teoria da reprodução social ajuda a formular hipóteses sobre a escola). O método é a estratégia geral de investigação, o caminho lógico que liga a pergunta à prova (a abordagem intensiva ou extensiva, tratada no tópico seguinte). As técnicas são os instrumentos concretos de recolha e tratamento de dados (o questionário, a entrevista, a observação, a análise documental). Os três articulam-se: a teoria orienta o método, que seleciona as técnicas.
É esta articulação entre teoria, método e técnica que garante que o conhecimento sociológico é científico, e não mera opinião. As técnicas sem teoria produzem dados cegos, que não se sabe interpretar; a teoria sem método e técnicas fica em especulação, sem prova. O rigor da Sociologia está precisamente em não separar estes momentos: partir de uma boa pergunta (o problema sociológico), enquadrá-la teoricamente, escolher o método adequado e recolher os dados com técnicas apropriadas e fontes fidedignas. Só assim a interrogação inicial se transforma em conhecimento fundamentado sobre a realidade social.
Exemplo resolvido

Construir o problema sociológico

Perante o problema social do abandono escolar precoce, mostra como um sociólogo o transforma num problema sociológico e articula teoria, método e técnica.

  1. 01Do social ao sociológico

    Em vez de «o abandono escolar é mau», formula-se a pergunta: «que fatores sociais (origem social, percurso, contexto familiar e escolar) se associam ao abandono escolar precoce?».

  2. 02Convocar a teoria

    Mobiliza-se a teoria da reprodução social (Bourdieu): hipótese de que a origem social e o capital cultural da família influenciam o risco de abandono.

  3. 03Escolher método e técnicas

    Opta-se por uma abordagem extensiva (para medir a associação) com um questionário a uma amostra de jovens, complementada por entrevistas (abordagem intensiva) para compreender as trajetórias.

Resultado: O problema social torna-se problema sociológico ao converter-se numa pergunta de conhecimento com hipóteses testáveis. A teoria orienta a hipótese, o método define a estratégia e as técnicas recolhem os dados — a articulação dos três é o que torna a resposta científica.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir problema social de problema sociológico e mostrar como se passa de um ao outro.
  • Explicar o papel articulado da teoria, do método e das técnicas na produção de conhecimento sociológico.

Erros frequentes

  • Confundir problema social (situação negativa a resolver) com problema sociológico (questão de conhecimento a explicar).
  • Confundir método (a estratégia geral de investigação) com técnica (o instrumento concreto de recolha de dados).

Revisão ativa

A partir do problema social da violência no namoro entre jovens, formula dois problemas sociológicos (questões de conhecimento) que uma investigação poderia procurar responder.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O olhar sociológico e a Sociologia como ciência○
    • 02A construção histórica da Sociologia: os fundadores e a institucionalização em Portugal◐
    • 03A rutura com o senso comum e os obstáculos ao conhecimento●
    • 04Problema social e problema sociológico; teoria, método e técnica◐

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Dos resumos à prática

Sociologia e conhecimento da realidade social

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano

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