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Socialização e cultura

Aprofunda o conceito sociológico de cultura e os seus elementos, a diversidade cultural (etnocentrismo e relativismo, subcultura e contracultura), o ser humano como produto e agente de cultura, a socialização e os seus agentes (primária e secundária), e as representações sociais, os estereótipos e a estigmatização. Matéria de avaliação interna — Sociologia não tem Exame Final Nacional.

4 secções·~15 min de leitura·3 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0444 / 10
Perfil de exame
Definir o conceito sociológico de cultura e os seus elementos e distinguir cultura, subcultura e contraculturaRelacionar a diversidade cultural com o etnocentrismo e o relativismo culturaisDistinguir socialização primária de secundária e problematizar representações, estereótipos e estigmatização
Operadores:definerelacionadistingueproblematizaexemplificareconhece

nível básico

Definir cultura e os seus elementos, distinguir etnocentrismo de relativismo e conhecer os agentes de socialização.

nível avançado

Problematizar a diversidade cultural, os estereótipos e a estigmatização e distinguir com rigor socialização primária de secundária.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Socialização e cultura
    • 01O conceito sociológico de cultura e os seus elementos○
    • 02Diversidade cultural: etnocentrismo, relativismo, subcultura e contracultura◐
    • 03O ser humano produto e agente de cultura: a socialização e os seus agentes◐
    • 04Representações sociais, estereótipos e estigmatização●
§ 01

O conceito sociológico de cultura e os seus elementos#

●○○BaseLPAE-sociologia-socializacao-e-cultura

Pontos-chave

No uso corrente, «cultura» significa erudição — ter cultura é saber muito, conhecer arte e literatura. Em Sociologia (e em Antropologia), o conceito é muito mais amplo e não hierárquico: cultura é o conjunto de modos de vida, saberes, valores, normas, crenças, símbolos, hábitos e objetos que os membros de uma sociedade partilham e transmitem de geração em geração. Neste sentido, todas as sociedades e todos os grupos têm cultura, e não existe cultura «superior» ou «inferior». A cultura é aquilo que se aprende (não se herda geneticamente) e que se partilha — é social, não individual.
A cultura tem vários elementos constitutivos, representados na Fig. 1. Os valores são as conceções do desejável, aquilo que uma sociedade considera bom, justo ou importante (a liberdade, a família, o sucesso). As normas são as regras de conduta que traduzem os valores em comportamentos esperados (dos simples costumes às leis). A língua e os símbolos são os meios que permitem comunicar e partilhar significados. As crenças são as ideias sobre o mundo (religiosas, morais, científicas). E os artefactos e técnicas constituem a cultura material — os objetos, ferramentas e tecnologias que uma sociedade produz e usa.

Os elementos da cultura

Elementos da culturaroda segmentada, 6 segmentos, Dados: Cultura, Valores, Normas, Língua, Símbolos, Crenças, Artefactos e técnicasValoresNormasLínguaSímbolosCrençasArtefactos e técnicasCultura
Fig. 1Fig. 1 — Os elementos constitutivos do conceito sociológico de cultura.
Distingue-se, por isso, a cultura material (os objetos e as técnicas: casas, ferramentas, tecnologias) da cultura imaterial ou não material (os valores, as normas, as crenças, a língua, os saberes). As duas estão ligadas — um smartphone (cultura material) só tem sentido dentro de práticas e valores (cultura imaterial) que o enquadram —, mas mudam a ritmos diferentes: muitas vezes a cultura material transforma-se mais depressa do que os valores e as normas, gerando desfasamentos (o chamado «atraso cultural»). A cultura é, assim, um sistema dinâmico, sempre em transformação.
A cultura cumpre funções essenciais: dá identidade a um grupo (o sentimento de um «nós»), orienta a conduta (indica o que fazer e o que evitar), permite a comunicação e assegura a coesão e a continuidade da sociedade no tempo. É também o que distingue a espécie humana: graças à sua enorme plasticidade biológica, o ser humano depende da cultura para viver — não nasce «programado», tem de aprender quase tudo. Por isso se diz que a cultura é a «segunda natureza» do homem. Compreender uma sociedade exige, antes de mais, compreender a sua cultura — o quadro partilhado de sentido dentro do qual as pessoas agem e interpretam o mundo.
Exemplo resolvido

Analisar uma prática cultural

Analisa uma festa popular portuguesa (por exemplo, os Santos Populares) identificando os seus elementos culturais e a função que cumpre.

  1. 01Elementos imateriais

    Valores (convívio, pertença à comunidade), normas (o modo de festejar), símbolos (o manjerico, as marchas), crenças (a devoção ao santo).

  2. 02Elementos materiais

    Cultura material: os arraiais, as sardinhas, os enfeites, os instrumentos — os objetos que a festa mobiliza.

  3. 03Função social

    A festa reforça a identidade e a coesão do bairro ou da cidade, transmite tradições entre gerações e cria um sentido partilhado de «nós».

Resultado: A festa é um facto cultural completo: articula elementos imateriais (valores, símbolos, crenças) e materiais (objetos, comida, espaços), e cumpre funções de identidade, transmissão e coesão. Analisá-la mostra o sentido sociológico amplo de cultura.

Foco no Exame Nacional

  • Definir o conceito sociológico de cultura, dando exemplos dos seus elementos constitutivos.
  • Distinguir cultura material de imaterial e reconhecer as funções da cultura.

Erros frequentes

  • Confundir o sentido sociológico de cultura (modos de vida partilhados) com o sentido corrente de erudição.
  • Julgar que há culturas «superiores» e «inferiores», quando o conceito sociológico é não hierárquico.

Revisão ativa

Escolhe um elemento do teu quotidiano (um objeto, um hábito, uma festa) e identifica nele elementos da cultura material e imaterial.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Diversidade cultural: etnocentrismo, relativismo, subcultura e contracultura#

●●○PadrãoLPAE-sociologia-socializacao-e-cultura

Pontos-chave

As culturas são diversas: variam no espaço (entre sociedades) e dentro de uma mesma sociedade. Perante essa diversidade, distinguem-se duas atitudes opostas, comparadas na Fig. 2. O etnocentrismo consiste em julgar as outras culturas a partir dos padrões da própria, tomada como superior e como medida universal — o que leva a ver o diferente como «errado», «atrasado» ou «bárbaro». O etnocentrismo é a raiz de muitos preconceitos e discriminações e um sério obstáculo ao conhecimento sociológico, porque impede de compreender o outro nos seus próprios termos.

Etnocentrismo e relativismo cultural

Etnocentrismo vs relativismoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Etnocentrismo · Relativismo cultural; Atitude · Julga as outras culturas pelos padrões da própria · Compreende cada cultura nos seus próprios termos; A própria cultura · Tomada como superior e medida universal · Uma entre outras, sem hierarquia a priori; Risco · Preconceito, intolerância, xenofobia · Extremo: justificar tudo em nome da cultura; Postura sociológica · A evitar: obstáculo ao conhecimento · Ferramenta de análise, sem abdicar dos direitos humanos, célula destacada: Julga as outras culturas pelos padrões da própriaASPETOETNOCENTRISMORELATIVISMO CULTURALATITUDEJulga as outras culturaspelos padrões da própriaCompreende cada cultura nosseus próprios termosA PRÓPRIA CULTURATomada como superior emedida universalUma entre outras, semhierarquia a prioriRISCOPreconceito, intolerância,xenofobiaExtremo: justificar tudo emnome da culturaPOSTURASOCIOLÓGICAA evitar: obstáculo aoconhecimentoFerramenta de análise, semabdicar dos direitos humanos
Fig. 2Fig. 2 — Duas atitudes perante a diversidade cultural.
A atitude oposta é o relativismo cultural: compreender cada cultura no seu próprio contexto, a partir da sua lógica interna, sem a julgar apressadamente pelos critérios de outra. O relativismo é uma ferramenta metodológica essencial das ciências sociais — para conhecer, é preciso suspender o juízo etnocêntrico. Mas o relativismo tem um limite: levado ao extremo, poderia justificar tudo em nome da cultura (incluindo práticas que violam os direitos humanos). A postura equilibrada compreende as culturas sem etnocentrismo, mas não abdica de princípios éticos universais, como a dignidade humana.
Dentro de uma mesma sociedade convivem várias culturas, articuladas na Fig. 3. A cultura dominante é o conjunto de referências mais partilhado e legitimado. Uma subcultura é a cultura própria de um grupo dentro da sociedade — com traços distintos, mas em geral compatíveis com a cultura dominante: culturas juvenis, regionais, profissionais, de imigrantes. As subculturas exprimem a pluralidade interna das sociedades e não implicam rutura. Reconhecer subculturas é reconhecer que uma sociedade não é culturalmente homogénea.

Cultura, subcultura e contracultura

Dominante, subcultura, contraculturaTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Conceito · Definição · Exemplo; Cultura dominante · As referências mais partilhadas e legitimadas na sociedade · A cultura nacional, a língua comum; Subcultura · Cultura de um grupo, distinta mas compatível com a dominante · Uma cultura juvenil, regional ou profissional; Contracultura · Cultura que se opõe e contesta os valores dominantes · Os movimentos de contestação dos anos 1960CONCEITODEFINIÇÃOEXEMPLOCULTURA DOMINANTEAs referências maispartilhadas e legitimadas nasociedadeA cultura nacional, a línguacomumSUBCULTURACultura de um grupo,distinta mas compatível coma dominanteUma cultura juvenil,regional ou profissionalCONTRACULTURACultura que se opõe econtesta os valoresdominantesOs movimentos de contestaçãodos anos 1960
Fig. 3Fig. 3 — A pluralidade cultural interna: dominante, subcultura e contracultura.
Já a contracultura é uma cultura que se opõe ativamente e contesta os valores e as normas dominantes, propondo alternativas — o caso dos movimentos de contestação juvenil dos anos 1960 (hippies), de certos movimentos ecologistas radicais ou de grupos que rejeitam o consumismo. A fronteira entre subcultura e contracultura nem sempre é nítida e pode mudar com o tempo: o que começa como contestação pode integrar-se e tornar-se mainstream. Distinguir cultura dominante, subcultura e contracultura permite analisar a diversidade e a tensão internas das sociedades, e compreender a mudança cultural como resultado, em parte, destes conflitos e negociações.
Exemplo resolvido

Ler a diversidade cultural

Um comentador afirma que um povo que come com as mãos «não tem educação». Um grupo de jovens adota um estilo musical e de vestuário próprio, sem rejeitar a sociedade; outro grupo recusa o consumismo e vive em comunidade alternativa. Analisa cada caso com os conceitos do tópico.

  1. 01O comentador

    É uma atitude etnocêntrica: julga uma prática de outra cultura pelos padrões da própria. A postura sociológica pede relativismo: compreender que comer com as mãos tem, nessa cultura, regras e sentido próprios.

  2. 02Os jovens com estilo próprio

    Formam uma subcultura: têm traços distintos (música, vestuário) mas compatíveis com a cultura dominante, sem a contestar.

  3. 03A comunidade alternativa

    Constitui uma contracultura: opõe-se ativamente a um valor dominante (o consumismo) e propõe um modo de vida alternativo.

Resultado: O primeiro caso ilustra o contraste etnocentrismo/relativismo; os outros dois, a diferença entre subcultura (distinta e compatível) e contracultura (opositora). Os conceitos permitem analisar com rigor a diversidade e a tensão culturais de uma sociedade.

Foco no Exame Nacional

  • Relacionar a diversidade cultural com os conceitos de etnocentrismo e de relativismo culturais.
  • Distinguir cultura dominante, subcultura e contracultura, com exemplos.

Erros frequentes

  • Confundir relativismo cultural (compreender sem julgar) com «vale tudo» (aceitar acriticamente qualquer prática).
  • Confundir subcultura (distinta mas compatível) com contracultura (que se opõe aos valores dominantes).

Revisão ativa

Dá um exemplo de uma atitude etnocêntrica e reformula-a numa perspetiva de relativismo cultural, indicando também o limite ético do relativismo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

O ser humano produto e agente de cultura: a socialização e os seus agentes#

●●○PadrãoLPAE-sociologia-socializacao-e-cultura

Pontos-chave

O ser humano é, ao mesmo tempo, produto e agente produtor de cultura. É produto porque se forma dentro de uma cultura, que interioriza pela socialização: nascemos numa sociedade que já existe, com a sua língua, valores e normas, e é ela que nos faz membros. É agente porque não se limita a receber a cultura — participa nela, recria-a e transforma-a: cada geração reinterpreta a herança que recebe e produz cultura nova (novas palavras, novas práticas, nova arte). Esta dupla condição impede tanto o determinismo (o homem como mero produto) como o individualismo ingénuo (o homem como criador a partir do nada).
A interiorização da cultura faz-se pela socialização, assegurada por vários agentes de socialização, dispostos em círculos na Fig. 4. No centro está a família, o primeiro e mais decisivo agente. À sua volta, a escola e o grupo de pares, que ganham peso na infância e na adolescência. E, num círculo mais alargado, o trabalho, os meios de comunicação e o Estado, que atuam ao longo de toda a vida. Estes agentes nem sempre transmitem mensagens coerentes entre si — a família pode valorizar o que o grupo de pares contesta, e os media difundem modelos contraditórios —, e é dessa pluralidade e tensão que resulta a socialização real de cada pessoa.

Os agentes de socialização

Agentes de socializaçãocírculos concêntricos, 3 anéis, Dados: Indivíduo, Família (socialização primária), Escola · grupo de pares, Trabalho · media · EstadoTrabalho · media · EstadoEscola · grupo de paresFamília (socialização primária)Indivíduo
Fig. 4Fig. 4 — Os agentes de socialização, do mais próximo (a família) ao mais alargado.
Distingue-se a socialização primária da secundária, comparadas na Fig. 5. A socialização primária é a da infância, realizada sobretudo pela família: transmite as bases — a língua, os valores fundamentais, os afetos, os primeiros papéis — e tem uma forte carga emocional, o que a torna profunda e difícil de reverter. A socialização secundária decorre ao longo da vida, noutros contextos (escola, trabalho, grupos), e transmite saberes e papéis mais específicos (profissionais, cívicos); é menos afetiva e mais facilmente ajustável. A primeira constrói o alicerce; a segunda edifica sobre ele.

Socialização primária e secundária

Primária vs secundáriaTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Socialização primária · Socialização secundária; Quando · Na infância · Ao longo da vida; Agente principal · A família · Escola, trabalho, pares, media; O que transmite · Língua, valores fundamentais, afetos · Saberes e papéis específicos; Carga afetiva · Forte, difícil de reverter · Menor; pode implicar ressocializaçãoASPETOSOCIALIZAÇÃO PRIMÁRIASOCIALIZAÇÃOSECUNDÁRIAQUANDONa infânciaAo longo da vidaAGENTE PRINCIPALA famíliaEscola, trabalho, pares,mediaO QUE TRANSMITELíngua, valoresfundamentais, afetosSaberes e papéis específicosCARGA AFETIVAForte, difícil de reverterMenor; pode implicarressocialização
Fig. 5Fig. 5 — A socialização primária constrói o alicerce; a secundária edifica sobre ele.
A socialização não termina na infância nem é sempre suave: por vezes exige uma ressocialização — a aprendizagem de novos papéis e valores que substituem os anteriores, como acontece ao emigrar para uma cultura muito diferente, ao entrar num internato ou numa instituição total (Goffman), ou ao mudar radicalmente de vida. Isto mostra que a identidade social não é fixa: constrói-se e reconstrói-se ao longo do percurso. Compreender a socialização como um processo contínuo, plural e por vezes conflitual é essencial para não a reduzir a uma simples «programação» da infância — e para valorizar a capacidade humana de aprender e de mudar em qualquer idade.
Exemplo resolvido

Socialização ao longo da vida

Um adulto emigra para um país de cultura muito diferente e tem de aprender uma nova língua, novos costumes e novos códigos de trabalho. Analisa o caso com os conceitos de socialização primária, secundária e ressocialização.

  1. 01A base já adquirida

    Na infância, no país de origem, houve socialização primária: língua materna, valores e afetos fundamentais, difíceis de reverter.

  2. 02A nova aprendizagem

    No país de acolhimento ocorre socialização secundária e, em parte, ressocialização: aprende novos papéis, uma nova língua e códigos que por vezes substituem os anteriores.

  3. 03Produto e agente

    O emigrante não é passivo: seleciona o que adota, mantém traços da cultura de origem e contribui com ela para a sociedade de acolhimento — é produto e agente de cultura.

Resultado: O caso mostra a socialização como processo que dura toda a vida: sobre a base da socialização primária, a secundária e a ressocialização permitem adaptar-se a um novo contexto. E o migrante, ao recriar a sua identidade, confirma-se como agente, e não só produto, de cultura.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer o ser humano como produto e agente produtor de cultura.
  • Caracterizar os agentes de socialização e distinguir socialização primária de secundária.

Erros frequentes

  • Reduzir o ser humano a produto da cultura, esquecendo que também é seu agente e transformador.
  • Confundir socialização primária (infância, família, bases afetivas) com secundária (ao longo da vida, papéis específicos).

Revisão ativa

Distingue, com exemplos da tua vida, um conteúdo aprendido na socialização primária de um aprendido na socialização secundária.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Representações sociais, estereótipos e estigmatização#

●●●AprofundamentoLPAE-sociologia-socializacao-e-cultura

Pontos-chave

As pessoas não agem sobre a realidade «em si», mas sobre a realidade tal como a representam. Chamam-se representações sociais aos conhecimentos, ideias e imagens que um grupo partilha sobre um objeto social (a saúde, a loucura, os jovens, os imigrantes) e que orientam a forma como o vê e trata. As representações sociais são elas próprias factos sociais que a Sociologia estuda: são construídas coletivamente, transmitidas pela socialização e pelos meios de comunicação, e têm efeitos reais — porque é com base nelas que os atores interpretam e agem. Estudar como uma sociedade representa a pobreza ou a velhice é estudar uma parte da realidade da pobreza e da velhice.
Uma forma simplificada e rígida de representação é o estereótipo: uma imagem generalizada e fixa atribuída a todos os membros de um grupo («os jovens são irresponsáveis», «os idosos não percebem de tecnologia»). O estereótipo ignora a diversidade interna do grupo e resiste à evidência que o contraria. Quando ao estereótipo se junta uma carga afetiva negativa, temos o preconceito: uma atitude hostil e infundada face a um grupo. E quando o preconceito se traduz em comportamento — em tratamento desigual e injusto —, temos a discriminação. A Fig. 6 mostra esta cadeia, que liga a representação à ação.

Do estereótipo à estigmatização

Estereótipo, preconceito, discriminação, estigmaGrafo, Estereótipo (crença generalizada) → Preconceito (atitude negativa), Preconceito (atitude negativa) → Discriminação (tratamento desigual), Discriminação (tratamento desigual) → Estigma (Goffman): exclusãoEstereótipo(crençageneralizada)Preconceito(atitudenegativa)Discriminação(tratamentodesigual)Estigma(Goffman):exclusão
Fig. 6Fig. 6 — A cadeia que liga a representação simplificada à exclusão social.
No termo desta cadeia pode surgir a estigmatização. O sociólogo Erving Goffman chamou estigma a um atributo profundamente desvalorizador que desqualifica socialmente quem o possui, reduzindo-o, aos olhos dos outros, a essa única marca (uma doença, uma condição, um passado, uma característica física). O estigmatizado deixa de ser visto como pessoa inteira e passa a ser identificado apenas pelo estigma, sofrendo exclusão. A estigmatização mostra bem como as representações, os estereótipos e os preconceitos não são «apenas ideias»: produzem consequências sociais graves — vergonha, isolamento, exclusão — para quem é o seu alvo.
Estes fenómenos podem alimentar-se a si próprios através da profecia que se cumpre a si mesma (Merton): quando um grupo é tratado segundo um estereótipo, pode acabar por se comportar de acordo com ele, confirmando-o aparentemente e reforçando o preconceito — um círculo vicioso. Compreender sociologicamente as representações, os estereótipos, a discriminação e a estigmatização é, por isso, uma competência cívica além de científica: permite desmontar generalizações infundadas, reconhecer os seus efeitos sobre pessoas reais e fundamentar o respeito pela diferença. É também a base para analisar, no tópico das desigualdades, como a discriminação produz e reproduz exclusão social.
Exemplo resolvido

A cadeia da estigmatização e a profecia que se cumpre

Numa escola, existe a ideia de que os alunos de um certo bairro «não querem estudar». Analisa como esta representação pode gerar discriminação e estigmatização e como se pode tornar uma profecia que se cumpre a si mesma.

  1. 01Representação e estereótipo

    A ideia é um estereótipo: generaliza a todos os alunos do bairro uma característica, ignorando a diversidade real.

  2. 02Do preconceito à discriminação

    Se gera uma atitude negativa (preconceito) e leva os professores a esperar menos desses alunos e a investir menos neles, há discriminação.

  3. 03Estigma e profecia que se cumpre

    Os alunos, tratados como incapazes, podem desmotivar-se e ter piores resultados, confirmando aparentemente o estereótipo (Merton) e sendo estigmatizados pela origem — um círculo vicioso.

Resultado: A representação negativa desencadeia a cadeia estereótipo–preconceito–discriminação–estigma e pode cumprir-se a si mesma: o tratamento desigual produz o resultado que o estereótipo previa. Desmontar estas representações é condição de igualdade de oportunidades.

Foco no Exame Nacional

  • Definir e problematizar representações sociais, estereótipos e processos de estigmatização.
  • Relacionar estereótipo, preconceito, discriminação e estigma, reconhecendo os seus efeitos sociais.

Erros frequentes

  • Confundir estereótipo (crença generalizada), preconceito (atitude negativa) e discriminação (comportamento desigual).
  • Tratar as representações e os estereótipos como «apenas ideias» sem efeitos, ignorando as suas consequências reais (exclusão, estigma).

Revisão ativa

Identifica um estereótipo sobre um grupo social e mostra como ele pode conduzir ao preconceito, à discriminação e à estigmatização.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01O conceito sociológico de cultura e os seus elementos○
    • 02Diversidade cultural: etnocentrismo, relativismo, subcultura e contracultura◐
    • 03O ser humano produto e agente de cultura: a socialização e os seus agentes◐
    • 04Representações sociais, estereótipos e estigmatização●

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Socialização e cultura

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Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Sociologia — 12.º ano

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