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Poesia trovadoresca — cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer

A lírica galego-portuguesa (finais do séc. XII a meados do séc. XIV) é a primeira grande manifestação poética em língua portuguesa, conservada em três cancioneiros. Cultivou três géneros — a cantiga de amor, a cantiga de amigo e a cantiga de escárnio e maldizer —, cada um com sujeito poético, temas, tom e recursos próprios. Integra o corpus obrigatório da Educação Literária do 10.º ano e é matéria do Grupo I do Exame Nacional 639.

5 secções·~16 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 3 · Aprofundamento 1

T·0555 / 20
Perfil de exame
Contextualizar a lírica galego-portuguesa e os seus cancioneirosDistinguir os três géneros trovadorescos pelo sujeito poético, tema e tomAnalisar recursos formais: paralelismo, refrão e leixa-prenInterpretar cantigas representativas no seu contexto
Operadores:identificadistingueanalisainterpretarelacionaexplica

nível básico

Formação geral: distinguir os três géneros e reconhecer o paralelismo e o refrão em cantigas representativas.

nível avançado

Aprofundamento: analisar a construção do sujeito poético e a simbologia (a natureza na cantiga de amigo, o equívoco no escárnio) com rigor formal.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. Poesia trovadoresca — cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer
    • 01Contexto: a lírica galego-portuguesa e os cancioneiros○
    • 02Cantiga de amigo◐
    • 03Cantiga de amor◐
    • 04Cantiga de escárnio e maldizer◐
    • 05Recursos formais: paralelismo, refrão e leixa-pren●
§ 01

Contexto: a lírica galego-portuguesa e os cancioneiros#

●○○BaseLPAE-portugues-el-10-trovadoresca

Pontos-chave

A poesia trovadoresca desenvolveu-se entre os finais do século XII e meados do século XIV, no espaço da Galiza e do norte de Portugal, numa mesma língua literária — o galego-português. Nasce no ambiente das cortes senhoriais e da corte régia, animada por trovadores (nobres que compunham), jograis (executantes profissionais, de condição social inferior) e segréis. A cantiga era, na origem, uma composição para ser cantada e acompanhada por instrumentos, unindo poesia e música.
Este corpus chegou até nós através de três grandes coletâneas manuscritas, os cancioneiros. O Cancioneiro da Ajuda é o mais antigo (finais do séc. XIII), incompleto e composto sobretudo por cantigas de amor. O Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti) e o Cancioneiro da Vaticana são cópias quinhentistas italianas que preservam os três géneros e são a principal fonte das cantigas de amigo e de escárnio. Fora deles, o Pergaminho Vindel conservou sete cantigas de amigo de Martim Codax com a respetiva notação musical.
Duas grandes correntes cruzam-se nesta lírica. A cantiga de amor tem raiz provençal (a fin'amor dos trovadores occitânicos), com o seu código de vassalagem amorosa; a cantiga de amigo, ao contrário, radica numa tradição autóctone, popular e peninsular, de voz feminina, que a arte trovadoresca refinou. As cantigas de escárnio e maldizer constituem a veia satírica. Esta convivência de influências e tradições faz da lírica galego-portuguesa um repositório riquíssimo da sensibilidade medieval.
Entre os autores destacam-se D. Dinis, rei de Portugal e o mais prolífico dos trovadores, que cultivou os três géneros; Martim Codax e João Zorro, mestres da cantiga de amigo marítima; Pero Meogo, com a sua simbologia dos cervos e das fontes; Paio Soares de Taveirós, a quem se atribui a antiga «Cantiga da Ribeirinha»; e João Garcia de Guilhade. O trovadorismo declina no século XIV, à medida que a poesia palaciana e a prosa vão ocupando o seu lugar (ver Fig. 1).

Cronologia da lírica trovadoresca

Cronologia da lírica trovadorescaLinha do tempo de 1180 a 1360, 1198: Cantiga da Ribeirinha (atrib.), 1280: D. Dinis trovador, 1290: Cancioneiro da Ajuda, 1190–1300: Apogeu trovadoresco, 1300–1354: Declínio11801360anoApogeutrovadorescoDeclínio1198Cantiga daRibeirinha (atr…1280D. Dinistrovador1290Cancioneiro daAjuda
Fig. 1Fig. 1 — Do apogeu trovadoresco à compilação nos cancioneiros.
Exemplo resolvido

Reconhecer a fonte e o género

Uma cantiga de voz feminina, com refrão e paralelismo, que evoca o mar de Vigo, atribuída a Martim Codax, chegou-nos com notação musical. De que género é e por que fonte a conhecemos com música?

  1. 01Identificar a voz e os traços

    A voz é feminina e há refrão e paralelismo — traços típicos da cantiga de amigo.

  2. 02Localizar o autor e o tema

    Martim Codax é o mestre das cantigas de amigo do mar de Vigo (barcarolas/marinhas).

  3. 03Identificar a fonte musical

    A notação musical destas cantigas conservou-se no Pergaminho Vindel.

Resultado: É uma cantiga de amigo (voz feminina, refrão, paralelismo, mar de Vigo) de Martim Codax; conhecemo-la com música graças ao Pergaminho Vindel.

Foco no Exame Nacional

  • Situar cronologicamente a lírica galego-portuguesa e identificar os três cancioneiros.
  • Reconhecer a diferença de origem entre a cantiga de amor (provençal) e a de amigo (autóctone).
  • Distinguir trovador, jogral e segrel.

Erros frequentes

  • Confundir os cancioneiros ou atribuir todos os géneros ao Cancioneiro da Ajuda (que é sobretudo de amor).
  • Pensar que as cantigas de amigo, por terem voz feminina, foram escritas por mulheres (os autores eram, em regra, homens).
  • Tratar a cantiga como texto só para ler, esquecendo a sua natureza musical e performativa.

Revisão ativa

Explica, em texto breve, a origem e as fontes manuscritas da lírica galego-portuguesa, distinguindo a proveniência da cantiga de amor e da cantiga de amigo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Cantiga de amigo#

●●○PadrãoLPAE-portugues-el-10-trovadoresca

Interlocutores e mundo da cantiga de amigo

O mundo da cantiga de amigoGrafo, A amiga (eu feminino) → A mãe, A amiga (eu feminino) → As amigas, A amiga (eu feminino) → A natureza, A amiga (eu feminino) → O amigo (ausente)A amiga (eufeminino)A mãeAs amigasA naturezaO amigo(ausente)confidênciaconfidênciaapóstrofesaudade
Fig. 2Fig. 2 — A amiga fala do amor ausente à mãe, às amigas e à natureza cúmplice.

Pontos-chave

A cantiga de amigo tem um sujeito poético feminino: é uma jovem, a «amiga», que fala do seu «amigo» (o namorado). Embora os autores fossem homens, adotavam esta voz feminina, herdeira de uma tradição lírica popular peninsular. O tema central é o amor vivido na ausência do amado — a saudade, a espera, a alegria do reencontro, o ciúme —, sempre num registo de maior naturalidade e proximidade afetiva do que o da cantiga de amor.
A donzela dirige-se frequentemente a confidentes, o que estrutura o pequeno drama lírico: a mãe (figura de autoridade e cúmplice), as amigas, e mesmo elementos da natureza — as ondas do mar, as flores, os cervos, as fontes. Esta natureza não é mero cenário: participa no sentimento e assume valor simbólico (a fonte e o cervo associam-se, por exemplo, ao encontro amoroso na poesia de Pero Meogo). O eu feminino projeta nela a sua emoção, num diálogo em que a paisagem responde à alma.
A cantiga de amigo apresenta subtipos definidos pelo espaço ou pela situação: a barcarola ou marinha (junto ao mar, como as de Martim Codax e João Zorro), a cantiga de romaria (numa peregrinação a um santuário, ocasião de encontro), a bailia (associada à dança) e a alba (o alvorecer que separa os amantes). Todos partilham, porém, a mesma voz feminina e a mesma temática do amor na ausência.
Formalmente, a cantiga de amigo distingue-se pela musicalidade repetitiva. Recorre ao paralelismo (repetição de estruturas de estrofe para estrofe, com pequena variação) e ao refrão (verso ou versos que se repetem no fim de cada estrofe), muitas vezes articulados pelo leixa-pren, que encadeia as estrofes. Esta arquitetura repetitiva, longe de ser pobreza, cria um ritmo hipnótico e encantatório, próprio de um poema-canção nascido para ser cantado e, por vezes, dançado.
Exemplo resolvido

Interpretar o simbolismo da natureza

Numa cantiga de amigo, a jovem interpela as ondas do mar, perguntando-lhes se viram o seu amigo. Que valor tem esta apóstrofe à natureza?

  1. 01Identificar o recurso

    A jovem dirige-se ao mar (apóstrofe) como se este pudesse responder — personifica a natureza.

  2. 02Relacionar com o sentimento

    O mar, que levou o amigo (marinheiro), é associado à ausência e à espera; interpelá-lo exprime a angústia e a saudade.

  3. 03Concluir o valor simbólico

    A natureza deixa de ser cenário e torna-se confidente e espelho do estado de alma da amiga.

Resultado: A apóstrofe ao mar dá voz à saudade: a natureza, personificada, torna-se confidente e símbolo da ausência e da espera, participando no drama amoroso da jovem.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer o sujeito poético feminino e a temática do amor na ausência.
  • Identificar os interlocutores (mãe, amigas, natureza) e o valor simbólico da natureza.
  • Distinguir os subtipos (barcarola, romaria, bailia, alba).

Erros frequentes

  • Atribuir a autoria a mulheres por a voz ser feminina.
  • Ver a natureza apenas como cenário, ignorando a sua função simbólica.
  • Confundir a cantiga de amigo (voz feminina, popular) com a cantiga de amor (voz masculina, cortês).

Revisão ativa

Analisa uma cantiga de amigo à tua escolha, identificando o sujeito poético, o interlocutor, o tema e dois recursos formais (paralelismo, refrão).

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Cantiga de amor#

●●○PadrãoLPAE-portugues-el-10-trovadoresca

Os três géneros trovadorescos

Os três géneros trovadorescosTabela com 4 colunas e 3 linhas, Dados: Género · Sujeito · Tema · Origem / tom; Cantiga de amor · Masculino (trovador) · Coita: amor inacessível · Provençal, cortês, grave; Cantiga de amigo · Feminino (a amiga) · Amor na ausência, saudade · Autóctone, popular, natural; Escárnio e maldizer · Satírico · Crítica de costumes · Sátira, cómico, célula destacada: Cantiga de amorGÉNEROSUJEITOTEMAORIGEM / TOMCANTIGA DE AMORMasculino (trovador)Coita: amor inacessívelProvençal, cortês, graveCANTIGA DE AMIGOFeminino (a amiga)Amor na ausência, saudadeAutóctone, popular, naturalESCÁRNIO EMALDIZERSatíricoCrítica de costumesSátira, cómicoO sujeito poético é o primeiro critério de distinção dosgéneros.
Fig. 3Fig. 3 — Sujeito, tema, tom e origem distinguem os três géneros.

Pontos-chave

A cantiga de amor tem um sujeito poético masculino: é o trovador que declara o seu amor a uma dama, a «senhor» (forma sem flexão de género, do latim senior). Herdeira da fin'amor provençal, transpõe para o plano amoroso o código feudal de vassalagem: o poeta é o vassalo que serve e venera a sua senhora, colocada num plano de superioridade quase inatingível. É uma poesia cortês, refinada e idealizante, distante da naturalidade da cantiga de amigo.
O tema dominante é a «coita de amor» — o sofrimento amoroso. O trovador ama uma senhora inacessível, que não corresponde nem sequer reconhece o seu amor; deste amor impossível nasce a dor, que o poeta cultiva e exprime com dignidade contida. A senhora é descrita pelas suas qualidades morais e pela sua superioridade («a melhor do mundo», «a de mais bon parecer»), mas de forma abstrata e convencional, sem individualidade física concreta — o retrato é ideal, não realista.
A «coita» é tão intensa que o trovador afirma, num tópico recorrente, preferir a morte ao sofrimento, ou declara que morrerá de amor («morrer» de amor). Este exagero convencional exprime a submissão total do poeta e a grandeza do seu sentimento. O código impõe também a mesura (a contenção, o comedimento) e o segredo: o trovador não nomeia a senhora, e o seu amor mantém-se discreto, o que aumenta o pathos da coita.
Formalmente, a cantiga de amor é mais elaborada e menos repetitiva do que a de amigo. Muitas são cantigas de mestria (sem refrão, mais cultas e trabalhadas na sua estrutura estrófica e rimática), embora existam também cantigas de amor de refrão. O tom é grave e melancólico, o vocabulário mais culto, e a influência provençal nota-se na terminologia amorosa e na conceção do amor como serviço e martírio. É a face mais aristocrática e livresca da lírica galego-portuguesa.
Exemplo resolvido

Reconhecer a coita e a vassalagem

Um trovador declara que serve a sua senhor desde há muito, que ela é a melhor do mundo, e que dela recebe apenas «coita» e a morte por galardão. Que traços da cantiga de amor identificas?

  1. 01A relação de vassalagem

    «Serve a sua senhor» transpõe o vínculo feudal (vassalo/senhor) para o amor cortês.

  2. 02O louvor idealizado

    «A melhor do mundo» é o elogio convencional e abstrato da superioridade da dama.

  3. 03A coita e o galardão

    Receber «coita» e a morte por «galardão» (recompensa) exprime o sofrimento amoroso e o tópico do morrer de amor.

Resultado: A cantiga mostra a vassalagem amorosa (servir a senhor), o louvor idealizado (a melhor do mundo) e a coita (sofrer e morrer de amor como único galardão) — traços nucleares da cantiga de amor.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer o sujeito masculino e a relação de vassalagem amorosa com a «senhor».
  • Identificar a «coita de amor» e os seus tópicos (amor inacessível, morrer de amor, mesura).
  • Relacionar a cantiga de amor com a fin'amor provençal.
  • Distinguir cantiga de mestria de cantiga de refrão.

Erros frequentes

  • Esperar um retrato físico e individualizado da senhora (o retrato é ideal e convencional).
  • Confundir o sujeito da cantiga de amor (masculino) com o da de amigo (feminino).
  • Ler o «morrer de amor» como facto e não como tópico hiperbólico convencional.

Revisão ativa

Analisa uma cantiga de amor, identificando a relação de vassalagem, a expressão da coita e um traço que a distinga formalmente da cantiga de amigo.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Cantiga de escárnio e maldizer#

●●○PadrãoLPAE-portugues-el-10-trovadoresca

Escárnio e maldizer: a técnica satírica

Escárnio e maldizerTabela com 3 colunas e 2 linhas, Dados: Modalidade · Técnica · Recurso dominante; Escárnio · Crítica indireta, velada · Equívoco (duplo sentido); Maldizer · Crítica direta, aberta · Injúria, nomeia o alvo, célula destacada: Equívoco (duplo sentido)MODALIDADETÉCNICARECURSO DOMINANTEESCÁRNIOCrítica indireta, veladaEquívoco (duplo sentido)MALDIZERCrítica direta, abertaInjúria, nomeia o alvo«Palavras cobertas» no escárnio; «palavras descobertas» nomaldizer.
Fig. 4Fig. 4 — A técnica (velada ou direta) distingue o escárnio do maldizer.

Pontos-chave

As cantigas de escárnio e de maldizer constituem a veia satírica da lírica galego-portuguesa. Criticam pessoas, comportamentos e costumes da sociedade medieval — nobres arruinados, damas de duvidosa reputação, clérigos, jograis rivais, cobardes na guerra —, num registo cómico que vai da ironia fina ao insulto direto. Ao contrário do idealismo da cantiga de amor, mergulham no concreto, no quotidiano e mesmo no obsceno.
A distinção entre as duas modalidades é sobretudo de técnica, estabelecida pela própria Arte de Trovar medieval. A cantiga de escárnio critica de forma indireta e velada, usando «palavras cobertas» e o equívoco (o duplo sentido): o visado não é nomeado e a crítica exige do ouvinte a descodificação do sentido oculto. A cantiga de maldizer critica de forma direta e aberta, com «palavras descobertas», podendo nomear o alvo e recorrer à injúria explícita.
O equívoco é o recurso-mestre do escárnio: uma palavra ou expressão com duplo sentido, um dos quais malicioso, que permite dizer sem dizer. A ironia, o sarcasmo, a antífrase (afirmar o contrário do que se quer, como louvar para ridicularizar) e a hipérbole cómica completam o arsenal satírico. Esta arte da alusão exigia engenho ao trovador e cumplicidade ao público, que se divertia a decifrar a maledicência.
Estas cantigas têm um valor documental precioso: são um retrato vivo e desabrido da sociedade medieval, das suas tensões, vícios e conflitos, que os géneros amorosos idealizam ou silenciam. D. Dinis, Afonso X (rei de Castela e Leão) e João Garcia de Guilhade cultivaram o género. A crítica de costumes que aqui se ensaia é um antecedente da longa tradição satírica portuguesa que chegará ao teatro de Gil Vicente e à sátira de séculos posteriores.
Exemplo resolvido

Escárnio ou maldizer?

Uma cantiga critica um cavaleiro sem o nomear, chamando-lhe repetidamente «bom cavaleiro» num contexto que revela que ele fugiu da batalha. Classifica a técnica.

  1. 01Observar se nomeia

    O visado não é nomeado; a crítica faz-se por alusão, não pela injúria direta.

  2. 02Identificar o recurso

    Chamar «bom cavaleiro» a um cobarde é dizer o contrário do que se pensa — antífrase e ironia, um equívoco cómico.

  3. 03Classificar

    Crítica velada, com palavras cobertas e equívoco: é uma cantiga de escárnio.

Resultado: É uma cantiga de escárnio: critica de forma indireta, sem nomear o alvo, através da antífrase irónica («bom cavaleiro» para um cobarde), exigindo do público a descodificação.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir escárnio (crítica indireta, equívoco) de maldizer (crítica direta, nomeia).
  • Identificar recursos satíricos: equívoco, ironia, antífrase, hipérbole.
  • Reconhecer o valor documental da sátira sobre a sociedade medieval.

Erros frequentes

  • Trocar as definições de escárnio e maldizer (o escárnio é o velado; o maldizer, o direto).
  • Não reconhecer o equívoco (duplo sentido) e ler o texto apenas no seu sentido literal.
  • Reduzir estas cantigas a mero insulto, ignorando o engenho técnico que exigem.

Revisão ativa

Analisa uma cantiga de escárnio ou de maldizer, classificando-a quanto à técnica (velada ou direta) e identificando o alvo da crítica e um recurso satírico.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

Recursos formais: paralelismo, refrão e leixa-pren#

●●●AprofundamentoLPAE-portugues-el-10-trovadoresca

Pontos-chave

A cantiga de amigo, sobretudo, assenta numa arquitetura de repetição altamente musical, cujos três pilares são o paralelismo, o refrão e o leixa-pren. Estes recursos não são ornamento acessório: são a própria forma de construção do poema, que geram o seu ritmo encantatório e organizam a progressão do sentido através da variação mínima. Reconhecê-los e explicar a sua função é uma competência central na análise da poesia trovadoresca.
O paralelismo consiste na repetição de estruturas sintáticas e semânticas de uma estrofe para a seguinte, com uma pequena variação — em geral, a substituição da palavra-rima por um sinónimo ou por um termo que faz avançar minimamente a ação. No paralelismo perfeito, os pares de estrofes repetem quase integralmente o conteúdo; a variação é subtil, de modo que o poema avança devagar, como que em espiral. Este processo dá à cantiga a sua característica insistência lírica.
O refrão é o verso (ou versos) que se repete no final de cada estrofe, funcionando como um estribilho que concentra a emoção ou a ideia dominante da cantiga. Marca o ritmo, reforça a musicalidade e sublinha o tema; a sua presença define as cantigas «de refrão», por oposição às «de mestria» (sem refrão). O refrão convida à participação e reforça o carácter de canção do poema.
O leixa-pren (do galego-português «leixar», deixar, e «prender», tomar) é o processo que encadeia as estrofes retomando na estrofe seguinte versos da anterior: os versos que uma estrofe «deixa» são «tomados» e retomados adiante, tecendo a cantiga numa cadeia contínua. Combinado com o paralelismo, o leixa-pren produz uma estrutura em que cada avanço integra e repete o anterior, garantindo a coesão e a progressão lenta e circular tão típica da cantiga de amigo (ver Fig. 5).

Paralelismo e leixa-pren

Paralelismo e leixa-prenTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Estrofe · Conteúdo (esquema) · Recurso; 1.ª · Verso A / Verso B · abre o tema; 2.ª · Verso A' / Verso B' (variação) · paralelismo; 3.ª · retoma B / novo verso · leixa-pren; 4.ª · retoma B' / novo verso · paralelismo + leixa-pren, célula destacada: leixa-prenESTROFECONTEÚDO (ESQUEMA)RECURSO1.ªVerso A / Verso Babre o tema2.ªVerso A' /Verso B'(variação)paralelismo3.ªretoma B / novo versoleixa-pren4.ªretoma B' / novo versoparalelismo + leixa-prenA variação da palavra-rima faz progredir o sentido emespiral.
Fig. 5Fig. 5 — O leixa-pren encadeia as estrofes retomando os versos anteriores.
Exemplo resolvido

Explicar a função do paralelismo e do leixa-pren

Numa cantiga de amigo, as estrofes ímpares e pares repetem-se com a única diferença de trocar «amigo» por «amado», e o segundo verso de cada estrofe reaparece a abrir a estrofe seguinte. Explica a construção.

  1. 01Identificar o paralelismo

    A repetição das estruturas com a troca de «amigo» por «amado» (sinónimos na palavra-rima) é o paralelismo, que faz avançar o poema por variação mínima.

  2. 02Identificar o leixa-pren

    O reaparecimento do segundo verso de uma estrofe a abrir a seguinte é o leixa-pren, que encadeia as estrofes.

  3. 03Explicar o efeito

    Juntos, criam um ritmo circular e insistente, de progressão lenta, que sublinha a emoção e a musicalidade da cantiga.

Resultado: A cantiga constrói-se por paralelismo (variação mínima da palavra-rima) e leixa-pren (retoma dos versos entre estrofes), gerando o ritmo encantatório e a progressão em espiral típicos da cantiga de amigo.

Foco no Exame Nacional

  • Identificar e distinguir paralelismo, refrão e leixa-pren numa cantiga.
  • Explicar a função destes recursos (musicalidade, coesão, progressão do sentido).
  • Distinguir cantiga de refrão de cantiga de mestria.

Erros frequentes

  • Confundir refrão (repetição no fim de cada estrofe) com paralelismo (repetição de estruturas entre estrofes).
  • Não reconhecer o leixa-pren como encadeamento de versos de estrofe para estrofe.
  • Tratar a repetição como pobreza expressiva, em vez de recurso estruturante e musical.

Revisão ativa

Numa cantiga de amigo com paralelismo e leixa-pren, identifica os versos retomados de estrofe para estrofe e explica a função do refrão.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01Contexto: a lírica galego-portuguesa e os cancioneiros○
    • 02Cantiga de amigo◐
    • 03Cantiga de amor◐
    • 04Cantiga de escárnio e maldizer◐
    • 05Recursos formais: paralelismo, refrão e leixa-pren●

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Dos resumos à prática

Poesia trovadoresca — cantigas de amigo, de amor e de escárnio e maldizer

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Fontes

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  • Aprendizagens Essenciais de Português — Ensino Secundário

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