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Resumos/Matemática Aplicada às Ciências Sociais/Métodos de apoio à decisão (eleições e partilha)
Resumos · Matemática Aplicada às Ciências SociaisPT · Secundário

Métodos de apoio à decisão (eleições e partilha)

Como transformar as preferências individuais numa decisão coletiva justa? Este tema estuda os modelos matemáticos das eleições — maioria, segunda volta, método de Borda e o critério de Condorcet — e da partilha — a distribuição de mandatos pelo método de Hondt e a partilha equilibrada de bens. Aprende-se não só a aplicar cada método, mas sobretudo a analisar criticamente as suas limitações e os seus paradoxos, um pilar da cidadania e da literacia matemática.

5 secções·~21 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 3 · Aprofundamento 1

T·0111 / 8
Perfil de exame
Determinar o vencedor de uma eleição por diferentes sistemas de votaçãoAplicar o método de Hondt na distribuição de mandatos e comparar métodosAnalisar criticamente as limitações e os paradoxos dos métodos de decisão coletivaAplicar métodos de partilha equilibrada nos casos discreto e contínuo
Operadores:identificaaplicadeterminacomparaanalisajustificainterpretacomenta

nível básico

Aplicar corretamente cada método (maioria, Borda, Hondt, licitadores) e determinar o vencedor ou a distribuição resultante.

nível avançado

Comparar métodos que dão resultados diferentes para a mesma votação e discutir criticamente os seus paradoxos e limitações (Condorcet, Alabama, teorema de Arrow).

Profundidade

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. Métodos de apoio à decisão (eleições e partilha)
    • 01Eleições: maioria simples, maioria absoluta e segunda volta○
    • 02Método de Borda e outros sistemas de preferência◐
    • 03O critério de Condorcet, o seu paradoxo e o teorema de Arrow●
    • 04Partilha de mandatos: o método de Hondt e o paradoxo de Alabama◐
    • 05Partilha equilibrada de bens: casos discreto e contínuo◐
§ 01

Eleições: maioria simples, maioria absoluta e segunda volta#

●○○BaseLPAE-macs-decisao-eleicoes

Pontos-chave

Uma eleição é um procedimento que transforma as preferências individuais de um grupo de eleitores numa decisão coletiva — a escolha de um vencedor. A Matemática mostra que essa transformação não é única: existem vários sistemas de votação, e sistemas diferentes podem eleger vencedores diferentes a partir dos MESMOS votos. Por isso, escolher o método eleitoral não é um detalhe técnico, mas uma decisão que afeta o resultado. Ao longo deste tema usa-se um perfil de preferências (ver Fig. 1): cada grupo de eleitores ordena todos os candidatos, da sua 1.ª à sua última preferência.

Perfil de preferências de uma eleição

Perfil de preferências (n = 15)Tabela com 4 colunas e 3 linhas, Dados: Preferência · 6 eleitores · 5 eleitores · 4 eleitores; 1.ª · A · C · B; 2.ª · B · B · C; 3.ª · C · A · APREFERÊNCIA6 ELEITORES5 ELEITORES4 ELEITORES1.ªACB2.ªBBC3.ªCAAPerfil de preferências usado ao longo do tema
Fig. 1Fig. 1 — Perfil de preferências (15 eleitores). Cada coluna é um grupo de eleitores com a mesma ordenação, da 1.ª à 3.ª preferência.
No método da maioria simples (ou pluralidade), cada eleitor vota apenas no seu candidato preferido e vence quem reunir MAIS votos — mesmo que não chegue a metade. É o método mais rápido, mas ignora toda a informação sobre as segundas e terceiras preferências e pode eleger um candidato rejeitado pela maioria. No método da maioria absoluta exige-se mais: vence quem obtiver mais de metade dos votos válidos, isto é, estritamente mais de «n/2», onde «n» é o número de votantes. Como nem sempre existe um candidato nessas condições, este método precisa de uma regra para o caso em que ninguém atinge a maioria absoluta.
A solução mais comum é a segunda volta (ou desempate por «runoff»): se nenhum candidato obtém a maioria absoluta na primeira volta, realiza-se uma segunda volta apenas entre os dois mais votados, e cada eleitor apoia, dos dois, aquele que prefere. É exatamente o método usado na eleição do Presidente da República Portuguesa — a única eleição presidencial que foi a uma segunda volta ocorreu em 1986. Para simular a segunda volta a partir de um perfil de preferências, eliminam-se todos os candidatos menos os dois primeiros e transferem-se os votos de cada eleitor para o candidato que ele prefere de entre esses dois.
No perfil da Fig. 1 (15 eleitores), as primeiras preferências dão «A: 6, C: 5, B: 4»: por maioria simples venceria «A». Nenhum candidato atinge a maioria absoluta (seriam necessários pelo menos 8 votos, mais de metade de 15). Na segunda volta disputam «A» (6) e «C» (5); os 4 eleitores de «B» (que ordenam B > C > A) preferem «C» a «A», pelo que «C» passa a ter 5 + 4 = 9 votos contra 6 de «A» — por segunda volta vence «C», e NÃO «A». O mesmo perfil já produz dois vencedores diferentes consoante o método: uma primeira lição sobre a fragilidade das regras de decisão.
Exemplo resolvido

Maioria simples, maioria absoluta e segunda volta

Considera o perfil da Fig. 1: 6 eleitores A>B>C, 5 eleitores C>B>A e 4 eleitores B>C>A. Determina o vencedor por maioria simples, verifica se algum candidato tem maioria absoluta e determina o vencedor por segunda volta.

  1. 01Primeiras preferências

    Contam-se os 1.ºs lugares: A tem 6, C tem 5 e B tem 4 (total 6+5+4 = 15).

  2. 02Maioria simples

    O mais votado é A, com 6 votos: por maioria simples vence A.

  3. 03Maioria absoluta

    A maioria absoluta exige mais de metade de 15, isto é, pelo menos 8 votos. O máximo é 6 (A), logo NENHUM candidato tem maioria absoluta.

  4. 04Segunda volta

    Vão a segunda volta os dois primeiros: A (6) e C (5). Os 4 eleitores de B ordenam B>C>A, pelo que preferem C. Assim C fica com 5+4 = 9 e A com 6.

Resultado: Maioria simples: A. Não há maioria absoluta. Segunda volta: C (9 contra 6). O método muda o vencedor de A para C.

Foco no Exame Nacional

  • Determinar o vencedor por maioria simples e verificar se há maioria absoluta a partir de um perfil de preferências.
  • Simular a segunda volta transferindo os votos dos candidatos eliminados para as preferências seguintes.

Erros frequentes

  • Confundir maioria simples (o mais votado) com maioria absoluta (mais de metade dos votos) — um vencedor por pluralidade pode não ter maioria absoluta.
  • Na segunda volta, esquecer de transferir os votos dos candidatos eliminados segundo as preferências seguintes de cada eleitor.

Revisão ativa

Num clube, 30 sócios ordenam três candidatos X, Y, Z: 13 votam X>Y>Z, 6 votam Y>Z>X e 11 votam Z>Y>X. Determina o vencedor por maioria simples, verifica se há maioria absoluta e determina o vencedor por segunda volta.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (Métodos de apoio à decisão) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Método de Borda e outros sistemas de preferência#

●●○PadrãoLPAE-macs-decisao-eleicoes

Pontos-chave

Os métodos anteriores usam apenas a 1.ª preferência de cada eleitor e deitam fora o resto da ordenação. O método de Borda foi concebido para aproveitar TODA a informação do boletim de preferência: atribui pontos segundo a posição em que cada candidato é colocado. Com «m» candidatos, o 1.º lugar de um boletim vale «m − 1» pontos, o 2.º vale «m − 2», e assim por diante até ao último, que vale «0». Somam-se os pontos de todos os boletins e vence o candidato com maior pontuação de Borda — o que recolhe o apoio global mais forte, e não apenas o maior número de primeiros lugares.
Com «m = 3» candidatos, a pontuação de Borda por boletim é «2» para o 1.º lugar, «1» para o 2.º e «0» para o 3.º. Para cada candidato multiplica-se o número de vezes que ocupa cada posição pelos respetivos pontos e soma-se. Um controlo útil garante que não há erros: como cada eleitor distribui sempre «(m−1)+(m−2)+⋯+0» pontos, o total de pontos atribuídos é fixo — com 3 candidatos, cada eleitor distribui 2+1+0 = 3 pontos, pelo que a soma das pontuações de todos os candidatos é «3 × n».
Aplicando ao perfil da Fig. 1 (ver o cálculo na Fig. 2), obtém-se «A: 12, B: 19, C: 14»: pelo método de Borda vence «B» — um candidato que não tinha nenhuma vitória por maioria simples (só 4 primeiros lugares!), mas que aparece muito bem posicionado em quase todos os boletins (é 2.ª preferência de 11 dos 15 eleitores). O total confirma-se: 12 + 19 + 14 = 45 = 3 × 15. Este é o terceiro vencedor diferente para o mesmo perfil: maioria simples elege A, segunda volta elege C, Borda elege B.

Contagem de Borda

Contagem de Borda (total 45 = 3 × 15)Tabela com 5 colunas e 3 linhas, Dados: Candidato · 1.ºs (×2) · 2.ºs (×1) · 3.ºs (×0) · Pontos Borda; A · 6 · 0 · 9 · 12; B · 4 · 11 · 0 · 19; C · 5 · 4 · 6 · 14, célula destacada: 19CANDIDATO1.ºS (×2)2.ºS (×1)3.ºS (×0)PONTOS BORDAA60912B411019C54614Pontuação de Borda por posição
Fig. 2Fig. 2 — Contagem de Borda do perfil da Fig. 1 (1.º = 2 pts, 2.º = 1 pt, 3.º = 0 pts). Vence B, com 19 pontos.
O método de Borda é amplamente usado onde interessa premiar o consenso — eleições de sociedades científicas e desportivas, votações de prémios, escolha de canções. A sua principal vulnerabilidade é o voto estratégico: um eleitor pode colocar artificialmente o rival do seu favorito em último lugar para lhe retirar pontos, distorcendo o resultado. A Aprendizagem Essencial pede que se explorem também outros sistemas — a votação por aprovação (cada eleitor aprova quantos candidatos quiser e vence o mais aprovado) e os sistemas por ordem de preferência com duas ou mais voltas — analisando, em cada caso, as suas principais consequências.
PBorda(X)=∑k=1m(m−k) vk(X)P_{\text{Borda}}(X) = \sum_{k=1}^{m} (m-k)\, v_k(X)PBorda​(X)=k=1∑m​(m−k)vk​(X)

Pontuação de Borda

Com m candidatos, v_k(X) é o número de boletins em que X ocupa a posição k; o k-ésimo lugar vale (m−k) pontos. Com m = 3: 2 pontos ao 1.º, 1 ao 2.º e 0 ao 3.º.

Exemplo resolvido

Determinar o vencedor de Borda

Para o perfil da Fig. 1 (6 A>B>C, 5 C>B>A, 4 B>C>A), calcula a pontuação de Borda de A, B e C (1.º = 2 pts, 2.º = 1 pt, 3.º = 0 pts) e indica o vencedor.

  1. 01Posições de A

    A é 1.º em 6 boletins e 3.º em 9 (5+4). Pontos: 6×2 + 0×1 + 9×0 = 12.

  2. 02Posições de B

    B é 1.º em 4, 2.º em 11 (6+5) e 3.º em 0. Pontos: 4×2 + 11×1 + 0 = 8 + 11 = 19.

  3. 03Posições de C

    C é 1.º em 5, 2.º em 4 e 3.º em 6. Pontos: 5×2 + 4×1 + 6×0 = 10 + 4 = 14.

  4. 04Controlo e vencedor

    Total 12+19+14 = 45 = 3×15 (correto). O maior é B, com 19 pontos.

Resultado: Pontuações de Borda: A = 12, B = 19, C = 14. Vence B — um candidato sem vitória por maioria, mas de forte consenso.

Foco no Exame Nacional

  • Calcular a pontuação de Borda de cada candidato a partir de um perfil de preferências e usar o controlo «3 × n».
  • Comparar o vencedor de Borda com os vencedores por maioria e por segunda volta e comentar as diferenças.

Erros frequentes

  • Aplicar a pontuação de Borda como se fosse maioria — contar apenas os primeiros lugares em vez de pontuar todas as posições.
  • Errar a escala de pontos: com m candidatos o 1.º lugar vale m−1 (não m) e o último vale 0 (não 1).

Revisão ativa

Com o perfil do exercício anterior (13 X>Y>Z, 6 Y>Z>X, 11 Z>Y>X), calcula a pontuação de Borda de cada candidato, verifica o total com a regra «3 × n» e indica o vencedor de Borda.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (Método de Borda) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

O critério de Condorcet, o seu paradoxo e o teorema de Arrow#

●●●AprofundamentoLPAE-macs-decisao-eleicoes

Pontos-chave

O critério de Condorcet propõe um teste natural de legitimidade: um candidato é vencedor de Condorcet se vencer TODOS os outros em confrontos diretos, dois a dois. Para o verificar, comparam-se os candidatos par a par; em cada duelo, cada eleitor «vota» no que ordena mais acima no seu boletim, e vence o duelo quem tiver mais eleitores a preferi-lo. Se existir um candidato que ganhe todos os seus duelos, é difícil argumentar que não deveria ser o eleito — daí o critério de Condorcet ser um padrão de qualidade dos métodos: um bom método deveria eleger o vencedor de Condorcet, quando ele existe.
No perfil da Fig. 1, os duelos dão: «B vence A» (9 contra 6), «B vence C» (10 contra 5) e «C vence A» (9 contra 6). Como «B» ganha os seus dois duelos, «B» é o vencedor de Condorcet — e, neste caso, coincide com o vencedor de Borda. Repara que a maioria simples elegia «A», que é precisamente o candidato que PERDE os dois duelos: um sinal claro de que a pluralidade pode eleger um candidato que a maioria, confrontada diretamente, rejeita.
O ponto mais profundo — e mais surpreendente — é que o vencedor de Condorcet nem sempre existe. Considera 58 eleitores: 23 ordenam «A>B>C», 19 ordenam «B>C>A» e 16 ordenam «C>A>B». Os duelos dão «A vence B» (39–19), «B vence C» (42–16) e «C vence A» (35–23). Ou seja: A é melhor que B, B é melhor que C, mas C é melhor que A! As preferências coletivas formam um ciclo (ver Fig. 3) e NÃO há vencedor de Condorcet. É o paradoxo de Condorcet: mesmo quando cada eleitor tem preferências perfeitamente transitivas e coerentes, a vontade coletiva pode ser intransitiva.

Ciclo do paradoxo de Condorcet

Preferências coletivas intransitivasGrafo, A → B, B → C, C → AABC39–1942–1635–23
Fig. 3Fig. 3 — Paradoxo de Condorcet (perfil 23/19/16): A vence B, B vence C mas C vence A. As preferências coletivas ciclam e não há vencedor de Condorcet.
O paradoxo de Condorcet mostra que a intransitividade não é um erro de contagem, mas uma propriedade genuína da agregação de preferências. Levando esta ideia ao limite, o teorema de Arrow (1951) demonstra que NENHUM método de votação com três ou mais candidatos consegue satisfazer simultaneamente um pequeno conjunto de critérios de justiça razoáveis. A Aprendizagem Essencial pede apenas uma breve referência à sua existência (é uma ampliação, não uma matéria de cálculo): a mensagem a reter é que não existe um sistema eleitoral «perfeito», e que qualquer método envolve compromissos — razão pela qual a escolha do método é, ela própria, uma decisão política e ética.
Exemplo resolvido

Vencedor de Condorcet e paradoxo

Para o perfil de 58 eleitores (23 A>B>C, 19 B>C>A, 16 C>A>B), determina os três duelos dois a dois e diz se existe vencedor de Condorcet.

  1. 01Duelo A vs B

    Preferem A: os 23 (A>B>C) e os 16 (C>A>B, pois A está acima de B) = 39. Preferem B: os 19 (B>C>A) = 19. A vence B (39–19).

  2. 02Duelo B vs C

    Preferem B: os 23 (A>B>C) e os 19 (B>C>A) = 42. Preferem C: os 16 (C>A>B) = 16. B vence C (42–16).

  3. 03Duelo A vs C

    Preferem A: os 23 (A>B>C) = 23. Preferem C: os 19 (B>C>A) e os 16 (C>A>B) = 35. C vence A (35–23).

  4. 04Conclusão

    A>B, B>C mas C>A: as preferências ciclam (Fig. 3). Nenhum candidato vence os dois duelos, logo NÃO há vencedor de Condorcet — é o paradoxo de Condorcet.

Resultado: Não existe vencedor de Condorcet: A vence B, B vence C e C vence A (ciclo intransitivo).

Foco no Exame Nacional

  • Determinar o vencedor de Condorcet por confrontos diretos dois a dois a partir de um perfil de preferências.
  • Reconhecer e explicar o paradoxo de Condorcet (ausência de vencedor por intransitividade).

Erros frequentes

  • Concluir que o vencedor de Condorcet é sempre o mais votado por maioria — pode ser precisamente o candidato que perde a pluralidade.
  • Assumir que existe sempre vencedor de Condorcet; ignorar a possibilidade de um ciclo (paradoxo de Condorcet).

Revisão ativa

Três amigos decidem um destino de férias entre Praia, Serra e Cidade: um prefere Praia>Serra>Cidade, outro Serra>Cidade>Praia e outro Cidade>Praia>Serra. Determina os três duelos dois a dois e verifica se existe vencedor de Condorcet.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (limitações dos sistemas eleitorais) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Partilha de mandatos: o método de Hondt e o paradoxo de Alabama#

●●○PadrãoLPAE-macs-decisao-partilha

Pontos-chave

Numa eleição por listas (Assembleia da República, autarquias, Parlamento Europeu), o problema não é escolher UM vencedor mas repartir vários lugares — os mandatos — pelos partidos, de forma proporcional aos votos. A dificuldade é que os mandatos são indivisíveis: não se pode atribuir «2,7 deputados». É preciso um método de contabilização, e a Aprendizagem Essencial destaca que resultados diferentes podem surgir consoante o método escolhido. Portugal usa o método de Hondt, um método dos divisores (ou das médias mais altas).
O método de Hondt funciona assim: divide-se o número de votos de cada partido sucessivamente por 1, 2, 3, 4, … obtendo uma tabela de quocientes. Os mandatos são atribuídos, um a um, aos MAIORES quocientes, até esgotar os lugares disponíveis. Na prática, ordenam-se todos os quocientes por ordem decrescente e distribuem-se tantos mandatos quantos os lugares, «riscando» os maiores. Na Fig. 4 distribuem-se 7 mandatos por três partidos com 12 000, 7 500 e 4 500 votos: os sete maiores quocientes cabem 4 ao partido A, 2 ao B e 1 ao C.

Tabela de quocientes do método de Hondt

Distribuição de 7 mandatos (método de Hondt)Tabela com 4 colunas e 5 linhas, Dados: Divisor · A (12 000) · B (7 500) · C (4 500); :1 · 12 000 · 7 500 · 4 500; :2 · 6 000 · 3 750 · 2 250; :3 · 4 000 · 2 500 · 1 500; :4 · 3 000 · 1 875 · 1 125; Mandatos · 4 · 2 · 1DIVISORA (12 000)B (7 500)C (4 500):112 0007 5004 500:26 0003 7502 250:34 0002 5001 500:43 0001 8751 125MANDATOS421Quocientes sucessivos; os 7 maiores recebem mandato
Fig. 4Fig. 4 — Método de Hondt: 7 mandatos por A (12 000 votos), B (7 500) e C (4 500). Os 7 maiores quocientes (a negrito nos cálculos) dão A: 4, B: 2, C: 1.
O método de Hondt tende a favorecer ligeiramente os partidos mais votados (os quocientes grandes concentram-se no topo), o que penaliza os partidos pequenos e ajuda a formar maiorias estáveis. É uma opção política, não uma imposição matemática: outros métodos de divisores (Sainte-Laguë, que divide por 1, 3, 5, …) são mais favoráveis aos partidos pequenos. O mesmo mapa de votos pode assim dar composições diferentes conforme o método — precisamente a razão pela qual a escolha do método de contabilização é objeto de debate democrático.
Um método alternativo é o dos maiores restos (método de Hamilton): calcula-se a quota de cada partido, «quota = votos × mandatos / total de votos», atribui-se a cada um a parte inteira da sua quota e os mandatos que sobram vão para os maiores restos (partes decimais). É intuitivo, mas sofre de um paradoxo perturbador — o paradoxo de Alabama: aumentar o número TOTAL de mandatos pode fazer um partido PERDER um mandato, mantendo-se os mesmos votos (ver Fig. 5). Este paradoxo, que os métodos dos divisores como o de Hondt NÃO têm, é a principal razão histórica para se preferirem os métodos dos divisores nas eleições reais.

Paradoxo de Alabama (método dos maiores restos)

Paradoxo de AlabamaTabela com 4 colunas e 2 linhas, Dados: Total de lugares · A (600) · B (600) · C (200); 10 lugares · 4 · 4 · 2; 11 lugares · 5 · 5 · 1, célula destacada: 1TOTAL DE LUGARESA (600)B (600)C (200)10 LUGARES44211 LUGARES551Aumentar o total faz C perder um lugar
Fig. 5Fig. 5 — Paradoxo de Alabama (método dos maiores restos): repartir 10 lugares por procuras 600/600/200 dá C = 2; passar a 11 lugares faz C descer para 1.
qi=Vi1, Vi2, Vi3, …q_i = \dfrac{V_i}{1},\ \dfrac{V_i}{2},\ \dfrac{V_i}{3},\ \ldotsqi​=1Vi​​, 2Vi​​, 3Vi​​, …

Quocientes do método de Hondt

Cada partido i, com V_i votos, gera a sucessão de quocientes obtida dividindo por 1, 2, 3, …; os mandatos vão para os maiores quocientes globais.

quotai=Vi×MVtotal\text{quota}_i = \dfrac{V_i \times M}{V_{\text{total}}}quotai​=Vtotal​Vi​×M​

Quota (método dos maiores restos)

M é o total de mandatos. Cada partido recebe a parte inteira da sua quota; os mandatos restantes vão para as maiores partes decimais (restos).

Exemplo resolvido

Distribuição de mandatos pelo método de Hondt

Distribui 7 mandatos por três partidos com 12 000 (A), 7 500 (B) e 4 500 (C) votos, usando o método de Hondt.

  1. 01Tabela de quocientes

    A: 12000, 6000, 4000, 3000; B: 7500, 3750, 2500, 1875; C: 4500, 2250, 1500, 1125.

  2. 02Ordenar os maiores

    Por ordem decrescente: 12000(A), 7500(B), 6000(A), 4500(C), 4000(A), 3750(B), 3000(A), …

  3. 03Atribuir 7 mandatos

    Riscam-se os 7 maiores: 12000, 7500, 6000, 4500, 4000, 3750, 3000. Contando por partido: A aparece 4 vezes, B 2 vezes, C 1 vez.

  4. 04Verificação

    4 + 2 + 1 = 7 mandatos. O 8.º quociente seria 2500 (B), já fora da distribuição.

Resultado: A: 4 mandatos, B: 2 mandatos, C: 1 mandato. O método de Hondt favorece ligeiramente o partido mais votado (A).

Foco no Exame Nacional

  • Distribuir mandatos pelo método de Hondt construindo e ordenando a tabela de quocientes.
  • Reconhecer e ilustrar o paradoxo de Alabama no método dos maiores restos e explicar por que o método de Hondt não o sofre.

Erros frequentes

  • No método de Hondt, dividir por 1, 2, 3, … mas depois atribuir os mandatos aos partidos e não aos maiores quocientes globais.
  • Confundir o método de Hondt (divisores, sem paradoxo de Alabama) com o método dos maiores restos (quotas, sujeito ao paradoxo).

Revisão ativa

Distribui 5 mandatos por três partidos com 10 000, 6 000 e 1 500 votos pelo método de Hondt: constrói a tabela de quocientes (dividir por 1, 2, 3, 4, 5), ordena os cinco maiores e indica quantos mandatos cabem a cada partido.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (Modelos matemáticos na partilha) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

Partilha equilibrada de bens: casos discreto e contínuo#

●●○PadrãoLPAE-macs-decisao-partilha

Pontos-chave

A partilha equilibrada trata de dividir bens entre várias pessoas de forma que cada uma sinta que recebeu uma parte justa — pense-se numa herança, na divisão de um terreno ou na atribuição de tarefas. O critério mínimo é a proporcionalidade: com «N» participantes, cada um deve receber, na sua própria avaliação, pelo menos «1/N» do valor total. Um critério mais forte é a ausência de inveja (partilha livre de inveja): nenhum participante prefere estritamente a parte de outro à sua. A Aprendizagem Essencial distingue os casos contínuo (bens divisíveis) e discreto (bens indivisíveis) porque exigem métodos diferentes.
No caso contínuo, o bem pode ser cortado em qualquer proporção (um bolo, um terreno, uma quantidade de tinta). Para dois participantes, o método «um corta, o outro escolhe» resolve o problema de forma elegante: o primeiro divide o bem em duas partes que considera equivalentes; o segundo escolhe a que prefere. Como quem corta procurou igualdade, fica satisfeito com qualquer parte; e quem escolhe leva a que mais valoriza. O resultado é proporcional E livre de inveja, sem que ninguém precise de revelar números — a justiça emerge das regras do procedimento.
No caso discreto, os bens não se podem fracionar (uma casa, um automóvel, um quadro), e o «um corta, o outro escolhe» deixa de funcionar. Usa-se então o método dos licitadores (método de Knaster, ou das licitações fechadas): cada herdeiro escreve, em segredo, quanto avalia cada bem; cada bem vai para quem mais o avaliou; e acertam-se contas em dinheiro para que todos fiquem, no final, acima da sua parte justa. A Fig. 6 mostra o acerto para dois herdeiros e um automóvel indivisível.

Método dos licitadores (Knaster)

Partilha de um bem indivisívelTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Passo · Ana · Bruno; Licitação do carro · 8 000 € · 6 000 €; Parte justa (÷2) · 4 000 € · 3 000 €; Recebe o bem? · sim · não; Movimento no monte · paga 4 000 € · levanta 3 000 €; Sobra repartida · +500 € · +500 €; Resultado final · carro − 3 500 € · +3 500 €PASSOANABRUNOLICITAÇÃO DO CARRO8 000 €6 000 €PARTE JUSTA (÷2)4 000 €3 000 €RECEBE O BEM?simnãoMOVIMENTO NO MONTEpaga 4 000 €levanta 3 000 €SOBRA REPARTIDA+500 €+500 €RESULTADO FINALcarro − 3 500 €+3 500 €Acerto de contas do método dos licitadores
Fig. 6Fig. 6 — Método dos licitadores: automóvel indivisível, licitações 8000 € (Ana) e 6000 € (Bruno). Ambos terminam com 3500 € de valor, acima da sua parte justa.
No exemplo da Fig. 6, Ana avalia o automóvel em 8000 € e Bruno em 6000 €. A parte justa de cada um é metade da sua própria avaliação: 4000 € (Ana) e 3000 € (Bruno). O carro fica para Ana (licitação mais alta); como o recebeu, Ana paga ao «monte» o excesso sobre a sua parte justa, 8000 − 4000 = 4000 €, e Bruno levanta a sua parte justa, 3000 €. Sobra no monte 4000 − 3000 = 1000 €, repartido em partes iguais: 500 € para cada. No fim, Ana fica com o carro pagando 4000 − 500 = 3500 € líquidos, e Bruno recebe 3000 + 500 = 3500 €. Ambos ficam ACIMA da sua parte justa — é a vantagem dos métodos bem construídos de partilha equilibrada.
parte justai=avaliac¸a˜o proˊpria do totalN\text{parte justa}_i = \dfrac{\text{avaliação própria do total}}{N}parte justai​=Navaliac¸​a˜o proˊpria do total​

Parte justa

Cada participante calcula a sua parte justa como a sua própria avaliação do conjunto dos bens a dividir por N (número de participantes). Cada um deve terminar com pelo menos este valor.

Exemplo resolvido

Método dos licitadores para um bem indivisível

Ana e Bruno herdam um automóvel. Ana avalia-o em 8000 € e Bruno em 6000 €. Aplica o método dos licitadores e determina o resultado final de cada um.

  1. 01Partes justas

    Cada um recebe metade da sua avaliação: Ana 8000/2 = 4000 €; Bruno 6000/2 = 3000 €.

  2. 02Atribuição do bem

    O carro fica com quem mais licitou: Ana (8000 > 6000).

  3. 03Acerto com o monte

    Ana ficou com um bem de 8000 (na sua ótica) mas só tinha direito a 4000, logo paga ao monte 8000 − 4000 = 4000 €. Bruno não recebeu bens, logo levanta a sua parte justa 3000 €.

  4. 04Sobra e resultado

    Sobra no monte 4000 − 3000 = 1000 €, dividida em partes iguais: 500 € cada. Ana paga, no total, 4000 − 500 = 3500 € pelo carro; Bruno recebe 3000 + 500 = 3500 €.

Resultado: Ana fica com o carro pagando 3500 € líquidos; Bruno recebe 3500 € em dinheiro. Ambos terminam acima da sua parte justa.

Foco no Exame Nacional

  • Aplicar o método «um corta, o outro escolhe» e justificar por que é proporcional e livre de inveja.
  • Executar o método dos licitadores (Knaster) para bens indivisíveis, calculando partes justas, excessos e a repartição da sobra.

Erros frequentes

  • Calcular a parte justa a partir da avaliação do OUTRO participante em vez da avaliação do PRÓPRIO (parte justa = avaliação própria ÷ número de herdeiros).
  • Esquecer de repartir a sobra do monte em partes iguais no fim do método dos licitadores.

Revisão ativa

Dois irmãos herdam um relógio indivisível. A licita 900 € e B licita 700 €. Determina a parte justa de cada um, quem fica com o relógio, o valor que paga ao monte, o que o outro levanta, a sobra e a repartição final.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (partilha equilibrada; casos discreto e contínuo) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01Eleições: maioria simples, maioria absoluta e segunda volta○
    • 02Método de Borda e outros sistemas de preferência◐
    • 03O critério de Condorcet, o seu paradoxo e o teorema de Arrow●
    • 04Partilha de mandatos: o método de Hondt e o paradoxo de Alabama◐
    • 05Partilha equilibrada de bens: casos discreto e contínuo◐

0/5 Lidos

Dos resumos à prática

Métodos de apoio à decisão (eleições e partilha)

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~21
min
4
Competências
Praticar

Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de MACS — 10.º ano (Métodos de apoio à decisão)

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Estatística (problema estatístico, população e amostra, dados bivariados)

EuraStudy·Resumos T·01·MMXXVI

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