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Resumos · FilosofiaPT · Secundário

A dimensão religiosa: religião, razão e fé

Esta unidade de filosofia da religião analisa racionalmente o problema da existência de Deus. Esclarece o conceito teísta de Deus e a relação entre razão e fé; apresenta e discute os argumentos a favor da existência de Deus — cosmológico e teleológico (Tomás de Aquino) e ontológico (Anselmo) —, o argumento do mal contra a existência de Deus e a teodiceia de Leibniz, e o fideísmo de Pascal (a aposta). Pode integrar o Exame Nacional 714.

5 secções·~20 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 1 · Aprofundamento 3

T·131313 / 13
Perfil de exame
Explicitar o conceito teísta de Deus e formular o problema da sua existênciaEnunciar e discutir os argumentos cosmológico, teleológico e ontológicoClarificar e analisar o argumento do mal (Leibniz e a teodiceia)Caracterizar e analisar a posição fideísta de Pascal
Operadores:explicaenunciaanalisadiscuteavaliacriticarelaciona

nível básico

Todos os cursos: compreender o conceito teísta de Deus e os principais argumentos a favor e contra a sua existência.

nível avançado

Aprofundamento para o Exame 714: reconstruir e avaliar criticamente cada argumento, e discutir o problema do mal e o fideísmo de Pascal.

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. A dimensão religiosa: religião, razão e fé
    • 01Religião, razão e fé; o conceito teísta de Deus○
    • 02Argumentos a posteriori: cosmológico e teleológico (Tomás de Aquino)◐
    • 03O argumento ontológico a priori (Anselmo)●
    • 04O problema do mal (Leibniz e a teodiceia)●
    • 05O fideísmo de Pascal e a aposta●
§ 01

Religião, razão e fé; o conceito teísta de Deus#

●○○BaseLPAE-filosofia-dimensao-religiosa

Pontos-chave

A dimensão religiosa é uma dimensão fundamental da experiência humana, presente em todas as culturas. A filosofia da religião não é teologia (que parte da fé numa revelação) nem sociologia da religião (que descreve os factos religiosos): é a análise racional e crítica das crenças religiosas, em especial da mais central — a existência de Deus. Não pressupõe a fé nem a descrença; examina, com os instrumentos da razão e da argumentação, se e como se pode justificar a crença em Deus (ver Fig. 1).

Razão, fé e o problema de Deus

Razão e féGrafo, Existe Deus (teísta)? → Via da razão (argumentos), Existe Deus (teísta)? → Via da fé (fideísmo), Via da razão (argumentos) → A favor: cosmológico, teleológico, ontológico, Via da razão (argumentos) → Contra: problema do mal, Via da fé (fideísmo) → Pascal: a apostaExiste Deus(teísta)?Via da razão(argumentos)Via da fé(fideísmo)A favor:cosmológico,…Contra:problema do …Pascal: aaposta
Fig. 1Fig. 1 — O problema da existência de Deus pode ser abordado pela via da razão ou pela via da fé.
Para discutir a existência de Deus, é preciso primeiro esclarecer de que Deus se fala. O conceito teísta de Deus — comum às grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islão) — concebe Deus como um ser pessoal, único, criador do mundo e dele distinto, e dotado de atributos máximos: omnipotência (todo-poderoso), omnisciência (que tudo sabe), sumamente bom (omnibenevolente) e eterno/infinito. É este conceito preciso que está em causa nos argumentos: prova-se ou refuta-se a existência de um ser com estes atributos, não de uma vaga «força superior».
O problema da existência de Deus é: é racional crer que Deus (assim entendido) existe? Distinguem-se posições: o teísmo afirma que Deus existe; o ateísmo nega-o; o agnosticismo suspende o juízo, por considerar que não temos meios de decidir. E quanto ao modo de justificar a crença, opõem-se duas grandes atitudes: o racionalismo religioso (ou teologia natural), que procura provar ou tornar razoável a existência de Deus por argumentos acessíveis à razão; e o fideísmo, que sustenta que a crença em Deus é matéria de fé, não de prova racional, podendo mesmo estar para além ou contra a razão.
A relação entre razão e fé é, assim, o pano de fundo da unidade. Alguns pensadores (Tomás de Aquino, Anselmo) confiam na razão para fundamentar ou apoiar a fé, propondo argumentos racionais; outros (Pascal) desconfiam do alcance da razão nestas matérias e valorizam a fé e o coração. A filosofia não decide pela fé de ninguém, mas pode examinar a solidez dos argumentos apresentados de ambos os lados — e é isso que faremos: reconstruir e avaliar criticamente os principais argumentos a favor e contra a existência de Deus.
Exemplo resolvido

Clarificar o objeto do problema

Por que razão é filosoficamente importante distinguir «acreditar numa força superior» de «acreditar no Deus teísta» ao discutir a existência de Deus?

  1. 01Notar a vaguidade

    «Uma força superior» é uma expressão vaga, compatível com panteísmos, energias, o universo, etc. — não fixa atributos.

  2. 02Fixar o conceito teísta

    O Deus teísta tem atributos precisos (pessoal, criador, omnipotente, omnisciente, omnibenevolente), sobre os quais se pode argumentar rigorosamente.

  3. 03Ver a consequência

    Os argumentos (cosmológico, ontológico, do mal) só funcionam sobre um conceito determinado: o problema do mal, por exemplo, ataca precisamente a conjunção omnipotência + omnisciência + bondade.

Resultado: Sem clarificar o conceito, a discussão seria confusa: os argumentos a favor e contra dirigem-se ao Deus teísta com atributos precisos. Fixar o conceito é condição de rigor — um exemplo da importância da conceptualização em filosofia.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir filosofia da religião de teologia e caracterizar a sua abordagem racional.
  • Explicitar o conceito teísta de Deus (pessoal, criador, omnipotente, omnisciente, omnibenevolente).
  • Distinguir teísmo, ateísmo e agnosticismo, e racionalismo religioso de fideísmo.

Erros frequentes

  • Confundir filosofia da religião (análise racional) com teologia (parte da fé/revelação).
  • Discutir a existência de «algo superior» em geral, em vez do conceito teísta preciso de Deus.
  • Confundir ateísmo (nega Deus) com agnosticismo (suspende o juízo).

Revisão ativa

Explicita os atributos do conceito teísta de Deus e mostra por que é importante fixá-los antes de discutir se Deus existe.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Argumentos a posteriori: cosmológico e teleológico (Tomás de Aquino)#

●●○PadrãoLPAE-filosofia-dimensao-religiosa

Pontos-chave

Os argumentos a posteriori partem de factos da experiência (o mundo existe, tem ordem) para concluir a existência de Deus como sua causa ou explicação. São o coração das «cinco vias» de Tomás de Aquino (séc. XIII). O argumento cosmológico parte da existência e da causalidade do mundo. Numa das suas formas: tudo o que existe e começa a existir tem uma causa; mas não pode haver uma cadeia infinita de causas (nada se explicaria); logo, tem de existir uma primeira causa não causada, que dá o ser a tudo o mais — e a essa causa primeira chamamos Deus (ver Fig. 2).

Os argumentos a posteriori de Tomás de Aquino

Vias de Tomás de AquinoDiagrama em árvore, 3 caminhos, Dados: existência/causa → Causa primeira não causada; movimento/contingência; ordem e fins → Inteligência ordenadoraexistência/causamovimento/conti…ordem e finsCosmológicoTeleológicoFactos do mun…Causa primeir…Motor imóvel …Inteligência …
Fig. 2Fig. 2 — Os argumentos a posteriori partem de factos do mundo para concluir a existência de Deus.
Outras vias de Tomás seguem a mesma estrutura com pontos de partida diferentes: a via do movimento (tudo o que se move é movido por outro; não há regresso infinito; logo, há um primeiro motor imóvel); a via da contingência (os seres do mundo podem existir ou não existir — são contingentes; se tudo fosse contingente, poderia nada ter existido; logo, tem de haver um ser necessário, que existe por si). Em todas, o núcleo é o mesmo: a impossibilidade de um regresso infinito na explicação exige um fundamento último — Deus.
O argumento teleológico (ou do desígnio) parte não da existência, mas da ordem e finalidade do mundo. O universo exibe ordem, regularidade e adaptação de meios a fins (os olhos para ver, as leis da natureza que tornam a vida possível). Ora, a ordem e a adaptação de meios a fins costumam ser sinal de inteligência que os planeou (como um relógio revela um relojoeiro — analogia depois célebre em Paley). Logo, a ordem do mundo aponta para uma inteligência ordenadora, que dirige as coisas para os seus fins — e a essa inteligência chamamos Deus.
Estes argumentos são poderosos mas foram criticados. Ao cosmológico objeta-se: por que não poderia haver uma cadeia causal infinita, ou o próprio universo ser o facto último? E, mesmo admitindo uma primeira causa, por que teria ela os atributos do Deus teísta (pessoal, bom, omnisciente)? Ao teleológico, Hume objetou que a analogia com artefactos humanos é fraca (o universo não é claramente um artefacto), que ordem pode surgir sem desígnio inteligente, e que, mesmo havendo um «arquiteto», nada garante que seja único, perfeito ou o Deus teísta. Mais tarde, a teoria da evolução ofereceu uma explicação natural para a adaptação dos seres vivos, enfraquecendo o argumento do desígnio biológico. Avaliar a força e os limites destes argumentos é a tarefa filosófica.
Exemplo resolvido

Avaliar a objeção de Hume ao argumento do desígnio

O argumento teleológico compara o universo a um relógio, que revela um relojoeiro. Reconstrói a objeção de Hume a esta analogia.

  1. 01Reconstruir o argumento

    Como um relógio ordenado revela um relojoeiro inteligente, a ordem do universo revelaria um projetista inteligente (Deus).

  2. 02Atacar a analogia

    Hume observa que o universo não é claramente semelhante a um artefacto humano; a analogia é fraca, e de uma semelhança fraca só se tira uma conclusão fraca.

  3. 03Multiplicar as hipóteses

    Mesmo admitindo um «projetista», a analogia não garante que seja único (os artefactos costumam ser feitos por muitos), perfeito, incorpóreo, nem o Deus teísta; e a ordem pode surgir por processos naturais.

Resultado: A objeção de Hume mostra que a analogia do desígnio é frágil: não estabelece a existência de um projetista único e perfeito, nem o Deus teísta, e ignora que a ordem pode ter origem natural (como a evolução viria a mostrar para os seres vivos). O argumento, embora sugestivo, não é conclusivo.

Foco no Exame Nacional

  • Reconstruir o argumento cosmológico (causa primeira / motor imóvel / ser necessário).
  • Reconstruir o argumento teleológico (ordem e finalidade → inteligência ordenadora).
  • Apresentar as objeções (regresso infinito; a analogia do desígnio; do «arquiteto» ao Deus teísta).

Erros frequentes

  • Confundir o argumento cosmológico (existência/causa) com o teleológico (ordem/finalidade).
  • Apresentar as vias como partindo de conceitos (são a posteriori: partem da experiência do mundo).
  • Concluir sem mais que a «primeira causa» tem todos os atributos do Deus teísta (é um salto que a objeção denuncia).

Revisão ativa

Reconstrói o argumento cosmológico na forma de premissas e conclusão e apresenta uma objeção que ponha em causa a passagem da «primeira causa» ao Deus teísta.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

O argumento ontológico a priori (Anselmo)#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-dimensao-religiosa

Pontos-chave

O argumento ontológico de Santo Anselmo (séc. XI) é radicalmente diferente dos anteriores: é a priori — não parte da experiência do mundo, mas apenas do conceito de Deus. Anselmo define Deus como «aquilo de que nada maior se pode pensar» (o ser máximo, o mais perfeito concebível). A partir só desta definição, pretende demonstrar que Deus tem necessariamente de existir — não como uma hipótese sobre o mundo, mas como uma verdade que a razão apreende ao analisar o próprio conceito de Deus (ver Fig. 3).

O argumento ontológico de Anselmo

Argumento ontológicoGrafo, Deus = aquilo de que nada maior se pode pensar → Existir na realidade > existir só na mente, Existir na realidade > existir só na mente → Logo, Deus existe, Deus = aquilo de que nada maior se pode pensar → Objeção de Gaunilo (a ilha perfeita), Logo, Deus existe → Objeção de Kant (a existência não é predicado)Deus = aquilode que nada …Existir narealidade > …Logo, DeusexisteObjeção deGaunilo (a i…Objeção deKant (a exis…
Fig. 3Fig. 3 — O argumento a priori de Anselmo e as objeções de Gaunilo e de Kant.
O argumento pode reconstruir-se assim: (1) Deus é, por definição, aquilo de que nada maior se pode pensar. (2) Mesmo quem nega Deus tem este conceito na mente (compreende do que se fala). (3) Ora, existir na realidade é maior (mais perfeito) do que existir apenas na mente. (4) Se Deus existisse apenas na mente, então poderíamos pensar um ser maior — um que existisse também na realidade —, o que contradiz a definição de Deus como aquilo de que nada maior se pode pensar. (5) Logo, Deus tem de existir também na realidade. Negar a existência de Deus seria, para Anselmo, contradizer o próprio conceito de Deus.
A força do argumento está na sua pretensão de necessidade: se válido, mostraria que a existência de Deus é uma verdade necessária, como as da matemática, contra a qual não valeria nenhuma objeção empírica. A sua fraqueza tem sido apontada desde logo. O monge Gaunilo, contemporâneo de Anselmo, objetou com a ilha perfeita: pelo mesmo raciocínio, poder-se-ia «provar» a existência da ilha mais perfeita concebível (se não existisse, poderíamos pensar uma maior, a que existisse) — o que é absurdo. Logo, algo está errado na forma do argumento, que «faz existir» coisas a partir de conceitos.
A objeção clássica mais profunda é de Kant: a existência não é um predicado ou perfeição real que se acrescente a um conceito. Dizer «Deus existe» não acrescenta nada ao conceito de Deus (como «cem táleres reais» não contêm mais moedas do que «cem táleres imaginados» — têm o mesmo conceito, diferem só em haver ou não haver o objeto). Da análise de um conceito nunca se pode extrair a existência do objeto correspondente: a existência tem de ser dada pela experiência, não deduzida de definições. Por isso o argumento ontológico é hoje geralmente considerado falho — embora continue a fascinar pela sua audácia puramente racional.
Exemplo resolvido

Aplicar a objeção de Gaunilo

Mostra como a objeção da «ilha perfeita» de Gaunilo procura expor uma falha no argumento ontológico.

  1. 01Copiar a forma do argumento

    Define-se «a ilha de que nenhuma mais perfeita se pode pensar». Existir na realidade é mais perfeito do que existir só na mente.

  2. 02Aplicar o raciocínio de Anselmo

    Se essa ilha existisse apenas na mente, poderíamos pensar uma maior (a que existisse); logo, a ilha perfeita teria de existir na realidade.

  3. 03Extrair a redução ao absurdo

    Mas é absurdo «provar» assim a existência de uma ilha real. Como a forma do argumento produz conclusões absurdas, a forma é inválida — e, se o é para a ilha, também o é para Deus.

Resultado: Gaunilo mostra, por analogia (reductio ad absurdum), que a forma do argumento ontológico provaria a existência de qualquer «coisa perfeita» que se defina, o que é absurdo. Isto indica que há um erro na passagem do conceito à existência — erro que Kant diagnosticará precisando que a existência não é um predicado.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar que o argumento ontológico é a priori e parte só do conceito de Deus.
  • Reconstruir o argumento de Anselmo (existir na realidade é maior que existir só na mente).
  • Apresentar as objeções de Gaunilo (a ilha perfeita) e de Kant (a existência não é um predicado).

Erros frequentes

  • Tratar o argumento ontológico como a posteriori (ele não parte da experiência, mas do conceito).
  • Não perceber que a objeção de Gaunilo visa a forma do argumento (aplicável a qualquer «coisa perfeita»).
  • Ignorar a objeção kantiana de que a existência não é um predicado que enriqueça um conceito.

Revisão ativa

Reconstrói o argumento ontológico de Anselmo em premissas e conclusão e explica como a objeção de Kant («a existência não é um predicado») o ataca.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

O problema do mal (Leibniz e a teodiceia)#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-dimensao-religiosa

Pontos-chave

O problema do mal é o mais forte argumento contra a existência do Deus teísta. Formula-se como uma incompatibilidade: se Deus é omnipotente (pode impedir todo o mal), omnisciente (conhece todo o mal) e omnibenevolente (quer impedir todo o mal), então não deveria existir mal no mundo. Ora, há mal (sofrimento, doença, catástrofes, crueldade). Logo, ou Deus não pode, ou não sabe, ou não quer impedir o mal — e então não é o Deus teísta, ou não existe. O mal parece incompatível com a existência de um Deus todo-poderoso e sumamente bom (ver Fig. 4).

O problema do mal

Problema do malGrafo, Deus: omnipotente, omnisciente, bom → Aparente incompatibilidade, Existe mal no mundo → Aparente incompatibilidade, Aparente incompatibilidade → Teodiceia de Leibniz (melhor dos mundos possíveis), Aparente incompatibilidade → Defesa do livre-arbítrioDeus:omnipotente,…Existe mal nomundoAparenteincompatibil…Teodiceia deLeibniz (mel…Defesa dolivre-arbítr…respostaresposta
Fig. 4Fig. 4 — O problema do mal confronta os atributos de Deus com a existência do mal; a teodiceia procura conciliá-los.
Distingue-se o mal moral (o que resulta de ações livres humanas: a crueldade, a injustiça) do mal natural ou físico (o sofrimento causado por doenças, terramotos, sem intervenção humana). O problema tem uma versão lógica (o mal é logicamente incompatível com o Deus teísta — as três premissas não podem ser todas verdadeiras) e uma versão evidencial (a quantidade e a gratuitidade do mal tornam improvável a existência de Deus, mesmo que não estritamente impossível). É o desafio a que qualquer defesa do teísmo tem de responder.
Uma teodiceia (do grego theos, Deus, e diké, justiça) é a tentativa de justificar a bondade e a justiça de Deus perante o mal — de mostrar que a existência do mal é compatível com a existência do Deus teísta. Leibniz, que cunhou o termo, propôs a mais célebre: como Deus é omnisciente, omnipotente e bom, criou, de entre todos os mundos possíveis, o melhor dos mundos possíveis. O mal que existe não é gratuito: é o mínimo necessário para o maior bem do conjunto — um mundo sem qualquer mal seria impossível ou globalmente pior. O mal seria, assim, o preço de bens maiores (a ordem geral, a harmonia do todo).
Outras respostas complementam a de Leibniz. A defesa do livre-arbítrio (clássica, retomada por muitos) argumenta que o mal moral é o preço da liberdade: um Deus bom quis criaturas livres, capazes de amar e agir bem, mas a liberdade genuína inclui a possibilidade de escolher o mal; o mal moral resulta do mau uso da liberdade, não de Deus. Estas teodiceias são, porém, muito discutidas: a de Leibniz foi satirizada por Voltaire (o terramoto de Lisboa de 1755 dificilmente parece o «melhor dos mundos»), e a defesa do livre-arbítrio não explica bem o mal natural (as doenças, os sismos), que não decorre de escolhas livres. O problema do mal continua a ser o mais sério desafio ao teísmo, e a sua discussão um exemplo maior de argumentação filosófica rigorosa.
Exemplo resolvido

Formular o problema lógico do mal

Constrói o problema do mal como um conjunto de proposições que não podem ser todas verdadeiras.

  1. 01Enunciar os atributos

    (1) Deus é omnipotente (pode impedir todo o mal). (2) Deus é omnisciente (conhece todo o mal). (3) Deus é omnibenevolente (quer impedir todo o mal).

  2. 02Acrescentar o facto

    (4) Existe mal no mundo.

  3. 03Mostrar a tensão

    De (1), (2) e (3) parece seguir-se que não existiria mal (um ser que pode, sabe e quer impedir o mal impediria-o). Mas (4) afirma que existe mal — as quatro proposições não podem ser todas verdadeiras.

Resultado: O problema lógico do mal mostra que os três atributos do Deus teísta e a existência do mal formam um conjunto aparentemente inconsistente. A teodiceia (Leibniz) e a defesa do livre-arbítrio tentam remover a inconsistência, argumentando que o mal existente é compatível com um Deus bom (o mínimo necessário ao maior bem, ou o preço da liberdade) — respostas fortes mas contestadas.

Foco no Exame Nacional

  • Formular o problema do mal como incompatibilidade entre o mal e os atributos do Deus teísta.
  • Distinguir mal moral de mal natural e a versão lógica da evidencial.
  • Explicar a teodiceia de Leibniz (o melhor dos mundos possíveis) e a defesa do livre-arbítrio, com as suas críticas.

Erros frequentes

  • Formular o problema do mal sem ligar o mal aos três atributos (omnipotência, omnisciência, bondade).
  • Confundir mal moral (das ações livres) com mal natural (doenças, catástrofes).
  • Apresentar a defesa do livre-arbítrio como resolvendo também o mal natural (não o faz diretamente).

Revisão ativa

Reconstrói o problema do mal na forma de um argumento com três premissas sobre os atributos de Deus e discute em que medida a teodiceia de Leibniz lhe responde.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

O fideísmo de Pascal e a aposta#

●●●AprofundamentoLPAE-filosofia-dimensao-religiosa

Pontos-chave

Blaise Pascal (séc. XVII), matemático e filósofo, representa uma atitude distinta das anteriores: o fideísmo — a posição segundo a qual a crença em Deus é assunto de fé e do «coração», não de demonstração racional. Para Pascal, a razão é limitada nestas matérias: «o coração tem razões que a própria razão desconhece». Os argumentos racionais (cosmológico, ontológico) não conseguem provar a existência de Deus, que ultrapassa o alcance da razão finita. Mas isso não torna a crença irracional ou arbitrária: Pascal propõe uma via não demonstrativa, mas prudencial, para justificar a aposta na fé.
A aposta de Pascal (le pari) é um argumento de decisão sob incerteza, pioneiro na teoria da decisão. Parte do princípio de que a razão não pode decidir se Deus existe ou não — é como um jogo cujo resultado desconhecemos. Mas temos de «apostar»: viver como se Deus existisse ou como se não existisse. Pascal analisa então os ganhos e perdas de cada aposta, combinando duas hipóteses (Deus existe / não existe) com duas condutas (crer / não crer), como numa matriz de decisão (ver Fig. 5).

A aposta de Pascal

Aposta de PascalTabela com 3 colunas e 2 linhas, Dados: Decisão · Deus existe · Deus não existe; Apostar em Deus (crer) · Ganho infinito (felicidade eterna) · Perda finita (alguns prazeres); Não apostar (não crer) · Perda infinita (felicidade eterna) · Ganho finito (alguns prazeres), célula destacada: Ganho infinito (felicidade eterna)DECISÃODEUS EXISTEDEUS NÃO EXISTEAPOSTAR EM DEUS(CRER)Ganho infinito(felicidadeeterna)Perda finita(alguns prazeres)NÃO APOSTAR (NÃOCRER)Perda infinita(felicidadeeterna)Ganho finito(alguns prazeres)
Fig. 5Fig. 5 — A matriz da aposta de Pascal: o ganho infinito possível ao crer torna a fé a decisão prudencial racional.
O raciocínio é o seguinte. Se apostar em Deus (crer) e Deus existir, ganho uma felicidade eterna e infinita; se apostar em Deus e Deus não existir, perco pouco (alguns prazeres finitos desta vida). Se não apostar em Deus (não crer) e Deus existir, perco a felicidade eterna (perda infinita); se não apostar e Deus não existir, ganho pouco (alguns prazeres finitos). Como um ganho infinito possível supera qualquer ganho ou perda finitos, a decisão racional (prudencial) é apostar em Deus: o valor esperado da fé é infinitamente superior ao da descrença.
A aposta foi muito discutida. A favor: mostra que crer pode ser prudencialmente racional mesmo sem prova, e antecipa a teoria matemática da decisão. Contra: objeta-se que não se pode «escolher acreditar» por interesse (a crença não se produz por decisão da vontade — embora Pascal responda que agir como crente pode gerar a fé); que há muitos deuses possíveis e a aposta não diz em qual apostar (objeção dos «muitos deuses»); e que um Deus omnisciente talvez não premiasse uma fé interesseira, calculada. Independentemente da avaliação, a aposta ilustra bem a via fideísta: em vez de provar Deus pela razão teórica, apela à razão prática e à decisão — uma abordagem original ao problema da existência de Deus.
Exemplo resolvido

Avaliar a objeção dos «muitos deuses»

Um crítico diz: «A aposta de Pascal não me diz em que Deus apostar — e apostar no Deus errado pode ser tão mau como não apostar.» Analisa a objeção.

  1. 01Recordar o argumento

    Pascal conclui que se deve apostar em Deus porque o ganho possível (felicidade eterna) é infinito e supera qualquer perda finita.

  2. 02Introduzir a pluralidade

    Mas há muitas conceções de Deus, algumas incompatíveis; apostar numa pode significar «não apostar» noutra, e algumas prometem/ameaçam recompensas e castigos opostos.

  3. 03Avaliar o efeito

    Se há vários deuses possíveis com exigências incompatíveis, a aposta deixa de indicar uma escolha única e racional: o cálculo do ganho infinito reparte-se e complica-se.

Resultado: A objeção dos «muitos deuses» enfraquece a aposta: esta pressupõe uma alternativa simples (este Deus ou nenhum), mas há muitas conceções rivais de divindade, pelo que o argumento não indica claramente em qual apostar. Mostra os limites de reduzir a fé a um cálculo de decisão — embora o interesse da aposta, como via fideísta e prudencial, permaneça.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar o fideísmo de Pascal e a sua tese sobre os limites da razão (o coração).
  • Reconstruir a aposta de Pascal como decisão sob incerteza (a matriz ganhos/perdas).
  • Apresentar as objeções à aposta (não se escolhe crer; os muitos deuses; a fé interesseira).

Erros frequentes

  • Apresentar a aposta como uma prova da existência de Deus (é um argumento prudencial de decisão, não uma prova teórica).
  • Confundir fideísmo (a fé acima/à margem da razão) com o racionalismo religioso (provar Deus pela razão).
  • Ignorar a objeção dos «muitos deuses» e a de que não se pode decidir crer por interesse.

Revisão ativa

Reconstrói a aposta de Pascal recorrendo à matriz de ganhos e perdas e discute a objeção segundo a qual «não se pode escolher acreditar por conveniência».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01Religião, razão e fé; o conceito teísta de Deus○
    • 02Argumentos a posteriori: cosmológico e teleológico (Tomás de Aquino)◐
    • 03O argumento ontológico a priori (Anselmo)●
    • 04O problema do mal (Leibniz e a teodiceia)●
    • 05O fideísmo de Pascal e a aposta●

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Dos resumos à prática

A dimensão religiosa: religião, razão e fé

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Filosofia — 11.º ano (Dimensão religiosa)

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