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Resumos/Química/A termodinâmica dos combustíveis
Resumos · QuímicaPT · Secundário

A termodinâmica dos combustíveis

Estuda-se a energia associada às reações químicas: sistema e 1.ª lei da termodinâmica, entalpia e reações exo/endotérmicas, o cálculo de ΔH por lei de Hess, por entalpias de formação e por energias de ligação, e a 2.ª lei — entropia e energia de Gibbs (ΔG = ΔH − TΔS) — aplicada ao critério de espontaneidade e à temperatura de inversão. Matéria da Unidade 2 da Química do 12.º ano (Ciências e Tecnologias), disciplina de opção sem Exame Final Nacional — avaliada por avaliação interna.

5 secções·~18 min de leitura·4 competências·Nível Padrão 2 · Aprofundamento 3

T·0555 / 7
Perfil de exame
Aplicar a 1.ª lei da termodinâmica e distinguir calor e trabalhoInterpretar perfis energéticos e classificar reações como exo/endotérmicasCalcular ΔH por lei de Hess, por entalpias de formação e por energias de ligaçãoAplicar ΔG = ΔH − TΔS à espontaneidade e determinar a temperatura de inversão
Operadores:aplicainterpretaclassificacalculajustificadeterminarelaciona

nível básico

Distinguir reações exo e endotérmicas e reconhecer o significado de ΔH.

nível avançado

Calcular ΔH por três métodos e aplicar ΔG = ΔH − TΔS ao estudo da espontaneidade e à temperatura de inversão.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. A termodinâmica dos combustíveis
    • 01Sistema, energia interna e 1.ª lei da termodinâmica◐
    • 02Entalpia e reações exo/endotérmicas◐
    • 03Lei de Hess e entalpias de formação●
    • 04Energias de ligação e estimativa de ΔH●
    • 052.ª lei, entropia e energia de Gibbs: espontaneidade●
§ 01

Sistema, energia interna e 1.ª lei da termodinâmica#

●●○PadrãoLPAE-quimica-12-u2-termodinamica-combustiveis

Pontos-chave

O estudo da energia nas reações começa por delimitar o que se observa. Chama-se sistema à porção do universo em estudo (por exemplo, os reagentes num reator) e vizinhança a tudo o resto; a superfície que os separa é a fronteira (ver Fig. 1). Conforme a fronteira permita ou não trocas, o sistema diz-se aberto (troca matéria e energia), fechado (só energia) ou isolado (nem matéria nem energia).

Sistema, vizinhança e trocas de energia

Sistema e vizinhançaEsquema com 4 elementos, sistema (U), Q (calor), W (trabalho), vizinhançasistema (U)Q (calor)W (trabalho)vizinhança
Fig. 1Fig. 1 — O sistema troca energia com a vizinhança sob a forma de calor (Q) e de trabalho (W).
A energia interna (U) de um sistema é a soma de todas as energias das suas partículas (cinéticas e potenciais). Não se mede o seu valor absoluto, mas mede-se a sua variação, ΔU, quando o sistema passa de um estado a outro. Um sistema troca energia com a vizinhança de dois modos: como calor (Q), devido a uma diferença de temperatura, e como trabalho (W), associado, por exemplo, à expansão ou compressão de gases.
A 1.ª lei da termodinâmica é o princípio da conservação da energia aplicado a estes sistemas: a variação da energia interna é igual à energia trocada como calor mais a energia trocada como trabalho, ΔU = Q + W. Adota-se a convenção de que Q e W são positivos quando entram no sistema (calor recebido, trabalho realizado sobre o sistema) e negativos quando saem. A energia não se cria nem se destrói — apenas se transfere e se transforma.
Uma consequência importante é que U é uma função de estado: o seu valor depende apenas do estado do sistema (temperatura, pressão, composição) e não do caminho percorrido para lá chegar. Já Q e W não são funções de estado — dependem do processo. Esta distinção, aparentemente técnica, é a base da lei de Hess, estudada mais adiante, e um dos pilares de toda a termodinâmica.
ΔU=Q+W\Delta U = Q + WΔU=Q+W

1.ª lei da termodinâmica

A variação da energia interna é a soma do calor e do trabalho trocados. Convenção: Q e W positivos quando entram no sistema (calor recebido, trabalho realizado sobre o sistema).

Exemplo resolvido

Aplicar a 1.ª lei da termodinâmica

Um sistema gasoso recebe 500 J de calor da vizinhança e, ao expandir-se, realiza 200 J de trabalho sobre a vizinhança. Calcula a variação da energia interna do sistema.

  1. 01Calor

    O sistema recebe calor: Q = +500 J.

  2. 02Trabalho

    O sistema realiza trabalho sobre a vizinhança (o trabalho sai): W = −200 J.

  3. 031.ª lei

    ΔU = Q + W = (+500) + (−200) = +300 J.

    ΔU=500+(−200)=+300 J\Delta U = 500 + (-200) = +300\ \text{J}ΔU=500+(−200)=+300 J

Resultado: ΔU = +300 J: a energia interna do sistema aumenta 300 J.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir sistema aberto, fechado e isolado e identificar as trocas de calor e de trabalho.
  • Aplicar a 1.ª lei, ΔU = Q + W, com a convenção de sinais correta.

Erros frequentes

  • Trocar os sinais de Q e W (esquecer a convenção: entra no sistema = positivo).
  • Tratar Q ou W como funções de estado — só a energia interna U (e a entalpia H) são funções de estado.

Revisão ativa

Um gás recebe 500 J de calor da vizinhança e, ao expandir-se, realiza 200 J de trabalho sobre a vizinhança. Aplicando a 1.ª lei (ΔU = Q + W), determina a variação da energia interna do gás.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

Entalpia e reações exo/endotérmicas#

●●○PadrãoLPAE-quimica-12-u2-termodinamica-combustiveis

Pontos-chave

A maioria das reações químicas ocorre a pressão constante (a pressão atmosférica). Nessas condições, o calor trocado com a vizinhança é igual à variação de uma grandeza chamada entalpia, H (definida por H = U + pV). A variação de entalpia de reação, ΔH, é assim o calor libertado ou absorvido a pressão constante — a grandeza energética que se mede e tabela em Química.
Quando ΔH < 0, a reação liberta calor para a vizinhança: diz-se exotérmica. Os produtos têm menos energia (entalpia) do que os reagentes, e a diferença sai como calor — é o caso de todas as combustões (ver Fig. 2). Quando ΔH > 0, a reação absorve calor: diz-se endotérmica, e os produtos ficam com mais energia do que os reagentes (ver Fig. 3), como na decomposição do carbonato de cálcio.

Perfil energético de uma reação exotérmica

Reação exotérmicadiagrama de energia, 2 estados, energia de ativação Eₐ = 40, entalpia de reação ΔH = -30EaΔHreagentesestado de transiçãoprodutosenergiaprogresso da reação
Fig. 2Fig. 2 — Reação exotérmica (ΔH < 0): os produtos têm menor energia do que os reagentes.

Perfil energético de uma reação endotérmica

Reação endotérmicadiagrama de energia, 2 estados, energia de ativação Eₐ = 65, entalpia de reação ΔH = 35EaΔHreagentesestado de transiçãoprodutosenergiaprogresso da reação
Fig. 3Fig. 3 — Reação endotérmica (ΔH > 0): os produtos têm maior energia do que os reagentes.
O perfil energético (ou diagrama de energia) representa a energia ao longo do progresso da reação. Distingue duas grandezas que não devem confundir-se: a energia de ativação (Eₐ), a barreira que os reagentes têm de vencer para reagir (topo do perfil, de natureza cinética), e a variação de entalpia (ΔH), a diferença de energia entre reagentes e produtos (de natureza termodinâmica). Um catalisador baixa Eₐ, mas não altera ΔH.
Como a entalpia é uma função de estado, ΔH de uma reação direta é simétrico do da inversa: se a combustão liberta uma dada energia, a reação inversa absorveria exatamente a mesma. Esta propriedade, tão simples quanto poderosa, permite calcular entalpias de reações difíceis de medir diretamente combinando reações conhecidas — a lei de Hess da secção seguinte.
ΔH=Hprodutos−Hreagentes\Delta H = H_{\text{produtos}} - H_{\text{reagentes}}ΔH=Hprodutos​−Hreagentes​

Variação de entalpia de reação

A pressão constante, ΔH é o calor trocado. ΔH < 0: reação exotérmica (liberta calor); ΔH > 0: endotérmica (absorve calor).

Exemplo resolvido

Classificar uma reação pelo seu ΔH

A combustão do metano tem ΔH = −890 kJ/mol e a decomposição do carbonato de cálcio tem ΔH = +178 kJ/mol. Classifica cada reação e indica o sinal do calor trocado.

  1. 01Combustão do metano

    ΔH = −890 kJ/mol < 0: é exotérmica — liberta 890 kJ por mol para a vizinhança.

  2. 02Decomposição do CaCO₃

    ΔH = +178 kJ/mol > 0: é endotérmica — absorve 178 kJ por mol da vizinhança.

  3. 03Interpretação

    Na exotérmica os produtos têm menos energia que os reagentes; na endotérmica têm mais.

Resultado: Combustão do metano: exotérmica (liberta calor). Decomposição do CaCO₃: endotérmica (absorve calor).

Foco no Exame Nacional

  • Classificar uma reação como exotérmica (ΔH < 0) ou endotérmica (ΔH > 0) e interpretar o perfil energético.
  • Distinguir energia de ativação (Eₐ, cinética) de variação de entalpia (ΔH, termodinâmica).

Erros frequentes

  • Confundir energia de ativação (barreira, topo do perfil) com ΔH (diferença reagentes–produtos).
  • Trocar o sinal: exotérmica é ΔH < 0 (liberta calor); endotérmica é ΔH > 0 (absorve calor).

Revisão ativa

Esboça e interpreta o perfil energético de uma reação exotérmica, assinalando a energia de ativação e ΔH, e explica por que a adição de um catalisador não altera ΔH.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Lei de Hess e entalpias de formação#

●●●AprofundamentoLPAE-quimica-12-u2-termodinamica-combustiveis

Pontos-chave

A lei de Hess afirma que a variação de entalpia de uma reação é a mesma quer ela ocorra num único passo, quer através de vários passos intermédios — depende apenas dos estados inicial e final, não do caminho. É uma consequência direta de a entalpia ser função de estado. Na prática, permite calcular o ΔH de reações que não se conseguem medir diretamente, combinando reações de ΔH conhecido (ver Fig. 4).

Ciclo de Hess (formação do CO₂)

Ciclo de HessGrafo, C(s) + O₂(g) → CO(g) + ½O₂(g), CO(g) + ½O₂(g) → CO₂(g), C(s) + O₂(g) → CO₂(g)C(s) + O₂(g)CO(g) + ½O₂(g)CO₂(g)ΔH = −110,5 kJΔH₂ = −283,0kJΔH₁ = −393,5kJ
Fig. 4Fig. 4 — Lei de Hess: o ΔH do caminho direto (−393,5 kJ) iguala a soma dos dois passos (−110,5 e −283,0 kJ).
Para combinar reações, aplicam-se duas regras: se uma reação for invertida, o sinal do seu ΔH inverte-se; se for multiplicada por um fator, o seu ΔH é multiplicado pelo mesmo fator. Somando as reações ajustadas de modo que as espécies intermédias se cancelem, obtém-se a reação pretendida, e a soma dos ΔH ajustados é o seu ΔH. É um verdadeiro « jogo de equações » com energias.
Um caso particularmente útil recorre às entalpias de formação padrão, ΔHf°: a variação de entalpia da formação de 1 mol de um composto a partir dos elementos nos seus estados-padrão. Por convenção, a entalpia de formação de um elemento no seu estado-padrão é zero (por exemplo, O₂(g), C(grafite)). Com valores tabelados, aplica-se diretamente ΔH = ΣΔHf°(produtos) − ΣΔHf°(reagentes), pesando cada termo pelo respetivo coeficiente estequiométrico.
Por exemplo, para a combustão do metano, CH₄(g) + 2 O₂(g) → CO₂(g) + 2 H₂O(l), com ΔHf° iguais a −74,8 (CH₄), −393,5 (CO₂) e −285,8 kJ/mol (H₂O líquida), obtém-se ΔH = [−393,5 + 2(−285,8)] − [−74,8 + 0] = −890,3 kJ/mol, um valor exotérmico coerente com o observado. Dominar estes cálculos — pela combinação de reações ou por entalpias de formação — é um dos objetivos centrais da unidade.
ΔH=∑ΔHf∘(produtos)−∑ΔHf∘(reagentes)\Delta H = \sum \Delta H_f^{\circ}(\text{produtos}) - \sum \Delta H_f^{\circ}(\text{reagentes})ΔH=∑ΔHf∘​(produtos)−∑ΔHf∘​(reagentes)

ΔH a partir de entalpias de formação

Cada termo é pesado pelo coeficiente estequiométrico. A entalpia de formação de um elemento no estado-padrão é zero.

ΔHreac¸a˜o=∑iΔHi(lei de Hess)\Delta H_{\text{reação}} = \sum_i \Delta H_i \quad (\text{lei de Hess})ΔHreac¸​a˜o​=i∑​ΔHi​(lei de Hess)

Lei de Hess

O ΔH da reação é a soma dos ΔH dos passos em que ela se possa decompor (invertendo ou multiplicando reações conforme necessário).

Exemplo resolvido

ΔH por lei de Hess (combinar reações)

Sabendo que (1) C(s) + O₂(g) → CO₂(g), ΔH₁ = −393,5 kJ/mol, e (2) CO(g) + ½ O₂(g) → CO₂(g), ΔH₂ = −283,0 kJ/mol, determina o ΔH da reação C(s) + ½ O₂(g) → CO(g).

  1. 01Objetivo

    Quer-se C + ½O₂ → CO. O CO tem de ficar nos produtos, mas na reação (2) está nos reagentes.

  2. 02Inverter a reação (2)

    CO₂ → CO + ½O₂, com o sinal trocado: −ΔH₂ = +283,0 kJ.

  3. 03Somar (1) + (2 invertida)

    C + O₂ → CO₂ (−393,5) e CO₂ → CO + ½O₂ (+283,0); o CO₂ cancela-se: C + ½O₂ → CO.

  4. 04Somar os ΔH

    ΔH = −393,5 + 283,0 = −110,5 kJ/mol.

    ΔH=−393,5+283,0=−110,5 kJ/mol\Delta H = -393{,}5 + 283{,}0 = -110{,}5\ \text{kJ/mol}ΔH=−393,5+283,0=−110,5 kJ/mol

Resultado: ΔH(C + ½O₂ → CO) = −110,5 kJ/mol (que é, precisamente, a entalpia de formação do CO).

Exemplo resolvido

ΔH da combustão do metano por entalpias de formação

Calcula ΔH da combustão CH₄(g) + 2 O₂(g) → CO₂(g) + 2 H₂O(l), com ΔHf°: CH₄ = −74,8; CO₂ = −393,5; H₂O(l) = −285,8 kJ/mol.

  1. 01Fórmula

    ΔH = ΣΔHf°(produtos) − ΣΔHf°(reagentes); ΔHf°(O₂) = 0.

  2. 02Produtos

    ΔHf°(CO₂) + 2·ΔHf°(H₂O) = −393,5 + 2(−285,8) = −965,1 kJ.

  3. 03Reagentes

    ΔHf°(CH₄) + 2·ΔHf°(O₂) = −74,8 + 0 = −74,8 kJ.

  4. 04Diferença

    ΔH = −965,1 − (−74,8) = −890,3 kJ/mol.

Resultado: ΔH = −890,3 kJ/mol: a combustão do metano é fortemente exotérmica.

Foco no Exame Nacional

  • Aplicar a lei de Hess, invertendo e multiplicando reações e somando os respetivos ΔH.
  • Calcular ΔH de reação a partir de entalpias de formação padrão com ΔH = ΣΔHf°(prod) − ΣΔHf°(reag).

Erros frequentes

  • Esquecer de inverter o sinal de ΔH ao inverter uma reação, ou de multiplicar ΔH ao multiplicar a reação.
  • Trocar a ordem na fórmula das entalpias de formação (é produtos menos reagentes) ou não usar ΔHf° = 0 para os elementos.

Revisão ativa

Usando ΔHf° = −393,5 (CO₂) e −110,5 kJ/mol (CO), calcula, por entalpias de formação, o ΔH da reação CO(g) + ½ O₂(g) → CO₂(g).

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Energias de ligação e estimativa de ΔH#

●●●AprofundamentoLPAE-quimica-12-u2-termodinamica-combustiveis

Pontos-chave

Uma reação química é, no fundo, uma reorganização de ligações: quebram-se as ligações dos reagentes e formam-se as ligações dos produtos. Quebrar uma ligação exige energia — é um processo endotérmico —, enquanto formar uma ligação liberta energia — é exotérmico. A energia de ligação é a energia média necessária para quebrar 1 mol de uma dada ligação, no estado gasoso (ver Fig. 5).

Energias de ligação médias

Energias de ligaçãoTabela com 2 colunas e 6 linhas, Dados: Ligação · Energia de ligação / kJ mol⁻¹; C–H · 413; C–C · 347; O=O · 498; O–H · 463; C=O (em CO₂) · 799; H–H · 436LIGAÇÃOENERGIA DE LIGAÇÃO /KJMOL⁻¹C–H413C–C347O=O498O–H463C=O (em CO₂)799H–H436
Fig. 5Fig. 5 — Energias de ligação médias (kJ/mol) usadas na estimativa de ΔH.
Este balanço energético permite estimar o ΔH de uma reação: ΔH ≈ Σ E(ligações quebradas) − Σ E(ligações formadas). Se a energia libertada ao formar as novas ligações (produtos) exceder a energia gasta a quebrar as antigas (reagentes), o balanço é negativo e a reação é exotérmica — é o que acontece nas combustões, em que se formam ligações muito fortes em CO₂ e H₂O.
É apenas uma estimativa, por dois motivos: as energias de ligação são valores médios (a mesma ligação varia um pouco de molécula para molécula) e referem-se ao estado gasoso. Por isso, o valor obtido difere ligeiramente do calculado por entalpias de formação. Ainda assim, o método é valioso porque relaciona diretamente a energia da reação com a estrutura das moléculas — com as ligações que se quebram e se formam.
É crucial não trocar o sentido dos processos: quebrar = absorver (contribuição positiva para ΔH); formar = libertar (contribuição negativa). O erro mais comum é inverter esta lógica. Com a convenção correta, o sinal de ΔH sai naturalmente do balanço entre a energia gasta a partir os reagentes e a energia recuperada ao construir os produtos.
ΔH≈∑Elig. quebradas−∑Elig. formadas\Delta H \approx \sum E_{\text{lig. quebradas}} - \sum E_{\text{lig. formadas}}ΔH≈∑Elig. quebradas​−∑Elig. formadas​

Estimativa de ΔH por energias de ligação

Energia absorvida a quebrar as ligações dos reagentes menos energia libertada a formar as ligações dos produtos. Estimativa (energias médias, fase gasosa).

Exemplo resolvido

ΔH da combustão do metano por energias de ligação

Estima o ΔH da combustão CH₄(g) + 2 O₂(g) → CO₂(g) + 2 H₂O(g) usando E(C–H) = 413, E(O=O) = 498, E(C=O) = 799 e E(O–H) = 463 kJ/mol.

  1. 01Ligações quebradas

    No CH₄: 4 ligações C–H = 4 × 413 = 1652 kJ. Em 2 O₂: 2 ligações O=O = 2 × 498 = 996 kJ. Total = 2648 kJ (absorvidos).

  2. 02Ligações formadas

    No CO₂: 2 ligações C=O = 2 × 799 = 1598 kJ. Em 2 H₂O: 4 ligações O–H = 4 × 463 = 1852 kJ. Total = 3450 kJ (libertados).

  3. 03Balanço

    ΔH ≈ 2648 − 3450 = −802 kJ/mol.

    ΔH≈2648−3450=−802 kJ/mol\Delta H \approx 2648 - 3450 = -802\ \text{kJ/mol}ΔH≈2648−3450=−802 kJ/mol
  4. 04Nota

    É uma estimativa (água no estado gasoso, energias médias); difere um pouco do valor por entalpias de formação (−890 kJ/mol, com água líquida), mas confirma o caráter exotérmico.

Resultado: ΔH ≈ −802 kJ/mol: a combustão do metano é exotérmica, em bom acordo com os outros métodos.

Foco no Exame Nacional

  • Estimar ΔH pelo balanço de energias de ligação (quebradas menos formadas).
  • Justificar por que quebrar ligações é endotérmico e formar ligações é exotérmico.

Erros frequentes

  • Inverter o balanço (formadas menos quebradas): a fórmula é quebradas − formadas.
  • Esquecer que o método dá uma estimativa (energias médias, fase gasosa) que difere do valor por entalpias de formação.

Revisão ativa

Estima o ΔH da reação H₂(g) + Cl₂(g) → 2 HCl(g) usando as energias de ligação E(H–H) = 436, E(Cl–Cl) = 243 e E(H–Cl) = 431 kJ/mol.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

2.ª lei, entropia e energia de Gibbs: espontaneidade#

●●●AprofundamentoLPAE-quimica-12-u2-termodinamica-combustiveis

Pontos-chave

A 1.ª lei diz que a energia se conserva, mas não diz em que sentido uma reação ocorre espontaneamente. Essa resposta vem da 2.ª lei da termodinâmica: num processo espontâneo, a entropia total do universo aumenta. A entropia (S) é uma medida da dispersão da energia e da « desordem » das partículas: aumenta quando um sólido funde ou se dissolve, e sobretudo quando se formam gases (mais graus de liberdade). ΔS > 0 favorece a espontaneidade.
Para não ter de calcular a entropia do universo inteiro, define-se uma função que só depende do sistema: a energia de Gibbs, G = H − TS. A pressão e temperatura constantes, a variação é ΔG = ΔH − TΔS, e o critério de espontaneidade é notavelmente simples: a reação é espontânea se ΔG < 0, está em equilíbrio se ΔG = 0 e é não espontânea (espontânea no sentido inverso) se ΔG > 0.
A expressão ΔG = ΔH − TΔS mostra que a espontaneidade resulta de uma competição entre o fator entálpico (ΔH) e o fator entrópico (−TΔS), cujo peso aumenta com a temperatura. Daí quatro casos (ver Fig. 6): se ΔH < 0 e ΔS > 0, ΔG < 0 a qualquer temperatura (sempre espontânea); se ΔH > 0 e ΔS < 0, nunca é espontânea; nos dois casos mistos, a temperatura decide.

Sinal de ΔG e espontaneidade (os quatro casos)

EspontaneidadeTabela com 4 colunas e 4 linhas, Dados: ΔH · ΔS · ΔG = ΔH − TΔS · Espontaneidade; < 0 (exo) · > 0 · < 0 sempre · espontânea a qualquer T; > 0 (endo) · < 0 · > 0 sempre · nunca espontânea; < 0 (exo) · < 0 · depende de T · espontânea a T baixa; > 0 (endo) · > 0 · depende de T · espontânea a T altaΔHΔSΔG = ΔH − TΔSESPONTANEIDADE< 0 (exo)> 0< 0 sempreespontânea a qualquer T> 0 (endo)< 0> 0 semprenunca espontânea< 0 (exo)< 0depende de Tespontânea a T baixa> 0 (endo)> 0depende de Tespontânea a T alta
Fig. 6Fig. 6 — A espontaneidade (sinal de ΔG) resulta da competição entre ΔH e −TΔS.
Nesses casos mistos existe uma temperatura de inversão, aquela para a qual ΔG = 0, dada por T = ΔH/ΔS. Abaixo ou acima dela, o sinal de ΔG (e portanto a espontaneidade) inverte-se. É o que explica que a decomposição do calcário, CaCO₃(s) → CaO(s) + CO₂(g) (endotérmica, mas com aumento de entropia por libertar CO₂), não ocorra à temperatura ambiente mas se torne espontânea acima de cerca de 830 °C, num forno — o princípio da produção da cal.
ΔG=ΔH−T ΔS\Delta G = \Delta H - T\,\Delta SΔG=ΔH−TΔS

Energia de Gibbs (P e T constantes)

Critério de espontaneidade: ΔG < 0 espontânea; ΔG = 0 equilíbrio; ΔG > 0 não espontânea. Atenção às unidades (ΔH em kJ, ΔS em J/K).

Tinversa˜o=ΔHΔS(ΔG=0)T_{\text{inversão}} = \dfrac{\Delta H}{\Delta S} \quad (\Delta G = 0)Tinversa˜o​=ΔSΔH​(ΔG=0)

Temperatura de inversão

Temperatura para a qual ΔG = 0; abaixo/acima dela, o sinal de ΔG (e a espontaneidade) inverte-se nos casos em que ΔH e ΔS têm o mesmo sinal.

Exemplo resolvido

ΔG, espontaneidade e temperatura de inversão do calcário

Para a decomposição CaCO₃(s) → CaO(s) + CO₂(g), tem-se ΔH = +178 kJ/mol e ΔS = +161 J K⁻¹ mol⁻¹. Calcula ΔG a 298 K, indica se é espontânea a essa temperatura e determina a temperatura de inversão.

  1. 01Uniformizar unidades

    ΔH = +178 kJ/mol = +178 000 J/mol; ΔS = +161 J K⁻¹ mol⁻¹.

  2. 02ΔG a 298 K

    ΔG = ΔH − TΔS = 178 000 − 298 × 161 = 178 000 − 47 978 = +130 022 J ≈ +130 kJ/mol.

    ΔG=178 000−298×161≈+1,30×105 J\Delta G = 178\,000 - 298\times161 \approx +1{,}30\times10^{5}\ \text{J}ΔG=178000−298×161≈+1,30×105 J
  3. 03Espontaneidade a 298 K

    ΔG > 0 ⇒ não é espontânea à temperatura ambiente (o calcário é estável).

  4. 04Temperatura de inversão

    ΔG = 0 quando T = ΔH/ΔS = 178 000 / 161 ≈ 1106 K ≈ 833 °C.

    Tinversa˜o=178 000161≈1106 KT_{\text{inversão}} = \dfrac{178\,000}{161} \approx 1106\ \text{K}Tinversa˜o​=161178000​≈1106 K
  5. 05Conclusão

    Acima de ~833 °C, TΔS supera ΔH, ΔG torna-se negativo e a decomposição passa a espontânea — como num forno de cal.

Resultado: ΔG(298 K) ≈ +130 kJ/mol (não espontânea); torna-se espontânea acima da temperatura de inversão, ≈ 1106 K (≈ 833 °C).

Foco no Exame Nacional

  • Aplicar ΔG = ΔH − TΔS e o critério de espontaneidade (ΔG < 0 espontânea; = 0 equilíbrio; > 0 não espontânea).
  • Analisar o efeito da temperatura (os quatro casos de sinal) e calcular a temperatura de inversão T = ΔH/ΔS.

Erros frequentes

  • Confundir espontaneidade com rapidez: ΔG < 0 indica que a reação é possível, não que é rápida (isso depende da cinética, de Eₐ).
  • Errar as unidades: ΔH costuma vir em kJ e ΔS em J/K — é preciso convertê-las para a mesma unidade antes de calcular TΔS.

Revisão ativa

Para a síntese do amoníaco, N₂(g) + 3 H₂(g) → 2 NH₃(g), tem-se ΔH = −92 kJ/mol e ΔS = −199 J K⁻¹ mol⁻¹. Determina ΔG a 298 K e discute a que temperaturas a reação é espontânea.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01Sistema, energia interna e 1.ª lei da termodinâmica◐
    • 02Entalpia e reações exo/endotérmicas◐
    • 03Lei de Hess e entalpias de formação●
    • 04Energias de ligação e estimativa de ΔH●
    • 052.ª lei, entropia e energia de Gibbs: espontaneidade●

0/5 Lidos

Dos resumos à prática

A termodinâmica dos combustíveis

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~18
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4
Competências
Praticar

Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Química — 12.º ano (DGE)

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