EuraStudy
Resumos/Oficina de Artes/Linguagem plástica e sistemas sígnicos
Resumos · Oficina de ArtesPT · Secundário

Linguagem plástica e sistemas sígnicos

A arte visual é uma linguagem: comunica através de imagens, que são conjuntos de signos. Este tópico apresenta o circuito da comunicação visual, define o signo (significante e significado) e o referente, distingue denotação de conotação, classifica os tipos de signo (ícone, índice e símbolo) e ensina a ler a imagem nos seus dois planos. É a base teórica que atravessa toda a disciplina. Sendo Oficina de Artes avaliada por avaliação interna (sem Exame Final Nacional), estes conceitos são mobilizados na análise de obras e na fundamentação dos projetos.

5 secções·~20 min de leitura·2 competências·Nível Base 1 · Padrão 3 · Aprofundamento 1

T·0111 / 16
Perfil de exame
Interpretação e comunicação: ler e descodificar mensagens visuaisApropriação e reflexão: compreender a imagem como sistema de signos
Operadores:definedistingueexplicaidentificaanalisainterpretarelaciona

nível básico

Distinguir significante de significado, denotação de conotação, e reconhecer os três tipos de signo.

nível avançado

Analisar autonomamente uma imagem nos dois planos (expressão e conteúdo), identificando os signos e o seu funcionamento.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

Texto

Tamanho do texto: Padrão

Conteúdo · 5 secções▾
  1. Linguagem plástica e sistemas sígnicos
    • 01A arte como linguagem e a comunicação visual○
    • 02O signo visual: significante e significado◐
    • 03Denotação e conotação◐
    • 04Tipos de signo: ícone, índice e símbolo◐
    • 05A leitura da imagem: plano da expressão e plano do conteúdo●
§ 01

A arte como linguagem e a comunicação visual#

●○○BaseLPAE-oficina-artes-linguagem-plastica

Pontos-chave

Uma obra de arte não é apenas um objeto para contemplar: é também uma mensagem que alguém dirige a alguém. Por isso se diz que a arte é uma linguagem — a linguagem plástica ou visual. Como qualquer linguagem, ela serve para comunicar: transmite ideias, emoções, valores e informações, não por palavras mas por imagens, formas, cores e composições. Compreender a arte como linguagem é o primeiro passo desta disciplina, porque muda a pergunta que fazemos perante uma obra: já não «é bonita?», mas «o que comunica, e como?».
Toda a comunicação, verbal ou visual, funciona segundo um circuito, que a linguagem plástica partilha (ver Fig. 1). Há um emissor (o artista, o designer), que tem uma intenção e codifica uma mensagem; há a mensagem propriamente dita (a obra, a imagem, o cartaz); há um recetor (o observador, o público), que a recebe e descodifica; e há um código — o conjunto de convenções visuais partilhadas que permite ao recetor compreender o que o emissor quis dizer. A comunicação só se cumpre quando emissor e recetor partilham, ao menos em parte, o mesmo código.

O circuito da comunicação visual

Circuito da comunicação visualGrafo, Emissor (artista) → Mensagem (a obra), Mensagem (a obra) → Recetor (observador), Código visual → Mensagem (a obra), Referente (o mundo) → Mensagem (a obra)Emissor(artista)Mensagem (aobra)Recetor(observador)Código visualReferente (omundo)codificadescodificaconvençõesremete para
Fig. 1Fig. 1 — A obra como mensagem: o emissor codifica-a e o recetor descodifica-a, a partir de um código partilhado e de um referente.
A este circuito juntam-se ainda o canal (o suporte físico por onde a mensagem circula — o papel, o ecrã, a parede, a tela) e o contexto ou referente (aquilo a que a mensagem se refere: o mundo, uma ideia, uma situação). O contexto é decisivo: a mesma imagem lida em épocas ou culturas diferentes pode comunicar coisas diferentes, porque o código e o contexto mudaram. Uma imagem religiosa medieval «falava» a um crente da época de um modo que não coincide inteiramente com o que nos diz hoje.
Há, porém, uma diferença importante entre a linguagem verbal e a visual. A língua é um código fechado e convencional (as palavras têm significados fixados por convenção); a linguagem visual é mais aberta e polissémica — uma imagem admite várias leituras e raramente tem um único sentido garantido. Esta abertura é a riqueza da arte, mas também a sua exigência: para comunicar com eficácia, o artista e o designer têm de dominar os códigos visuais; para ler bem, o observador tem de os conhecer. Toda esta disciplina é, no fundo, um treino nesse domínio.
Exemplo resolvido

Analisar o circuito de comunicação de uma imagem

Um município encomenda um cartaz para uma campanha de reciclagem, afixado nas ruas. Identifica, nesse caso, cada elemento do circuito da comunicação visual.

  1. 01Emissor

    O emissor é o município (e o designer que executa), que tem a intenção de promover a reciclagem.

  2. 02Mensagem e código

    A mensagem é o cartaz (imagens, cores, texto); o código são as convenções visuais usadas — por exemplo, o verde associado ao ambiente, as setas circulares da reciclagem.

  3. 03Canal e recetor

    O canal é o cartaz impresso afixado na rua; o recetor é o cidadão que passa e o lê.

  4. 04Contexto/referente

    O contexto é a preocupação ambiental atual e a campanha; o referente é o comportamento real (separar o lixo) para que a mensagem remete.

Resultado: O cartaz é uma mensagem visual em que o município (emissor) codifica, num cartaz de rua (canal), com convenções visuais (código), um apelo à reciclagem dirigido ao cidadão (recetor), num contexto de preocupação ambiental. Só comunica se o cidadão partilhar o código (reconhecer os símbolos da reciclagem).

Foco no Exame Nacional

  • Explicar por que a arte é uma linguagem e o que a distingue da linguagem verbal (polissemia).
  • Identificar os elementos do circuito da comunicação visual: emissor, mensagem, recetor, código, canal, contexto.
  • Reconhecer o papel do código partilhado e do contexto na leitura de uma imagem.

Erros frequentes

  • Reduzir a obra a um objeto que só se contempla, esquecendo que comunica uma mensagem.
  • Julgar que uma imagem tem sempre um único significado fixo, como uma palavra (ignorar a polissemia).
  • Esquecer o código e o contexto, tratando a leitura da imagem como imediata e universal.

Revisão ativa

Escolhe um cartaz publicitário e identifica nele os elementos do circuito da comunicação visual (emissor, mensagem, recetor, código, canal, contexto).

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

O signo visual: significante e significado#

●●○PadrãoLPAE-oficina-artes-linguagem-plastica

Pontos-chave

Se a imagem comunica, é porque é feita de signos. Um signo é tudo aquilo que está no lugar de outra coisa, que a representa ou evoca para alguém. A palavra «árvore» é um signo; um desenho de uma árvore é um signo; a cor vermelha num semáforo é um signo. A ciência que estuda os signos e o seu funcionamento chama-se semiótica (ou semiologia), e é dela que a teoria da linguagem visual se socorre para explicar como as imagens significam.
O linguista Ferdinand de Saussure mostrou que todo o signo tem duas faces inseparáveis, como as duas faces de uma folha de papel (ver Fig. 2). O significante é a face material, percetível — a forma, o som, a mancha, a cor: aquilo que os sentidos captam. O significado é a face mental, o conceito ou a ideia que essa forma evoca. Num desenho de uma pomba, o significante é o conjunto de linhas brancas com a forma de ave; o significado é a ideia «pomba» (e, por vezes, «paz»). Não há signo sem as duas faces: uma forma sem significado é apenas uma mancha; um significado sem forma não se comunica.

A estrutura do signo visual

Estrutura do signoGrafo, Significante (a forma) → Signo visual, Significado (o conceito) → Signo visual, Signo visual → Referente (a coisa real)Significante (aforma)Significado (oconceito)Signo visualReferente (acoisa real)plano daexpressãoplano doconteúdoremete para
Fig. 2Fig. 2 — O signo une uma face material (significante) e uma face mental (significado); o referente é a coisa real, exterior ao signo.
A estas duas faces do signo junta-se um terceiro elemento, exterior a ele: o referente. O referente é a coisa real, o objeto do mundo a que o signo se refere — a pomba de carne e osso que existe, e não a sua imagem nem a sua ideia. É crucial não confundir o signo com o referente: a imagem de um cachimbo não é um cachimbo — é o que René Magritte tornou célebre ao escrever, por baixo da pintura de um cachimbo, «Isto não é um cachimbo» (Ceci n'est pas une pipe, 1929). A obra chamava a atenção, precisamente, para a diferença entre a imagem (signo) e a coisa (referente).
Nas imagens, a relação entre o significante e o significado pode ser mais ou menos direta. Numa fotografia, o significante (a mancha luminosa) parece-se muito com o referente, e o significado impõe-se quase de imediato. Já numa bandeira ou num logótipo abstrato, a relação é convencional: nada, na forma, obriga a que signifique o que significa — foi a cultura que o fixou. Distinguir com clareza o significante (a forma que vejo), o significado (a ideia que evoca) e o referente (a coisa real) é a base de toda a análise de imagens, e evita as confusões mais comuns da leitura visual.
Exemplo resolvido

Decompor um signo visual

Analisa o sinal de trânsito «STOP» (um octógono vermelho com a palavra STOP), identificando o significante, o significado e o referente, e a natureza da relação entre eles.

  1. 01Significante

    O significante é a forma percetível: o octógono vermelho com as letras brancas — a mancha de cor e forma que os olhos captam.

  2. 02Significado

    O significado é o conceito que evoca: «paragem obrigatória», a ordem de parar completamente o veículo.

  3. 03Referente

    O referente é a situação real do mundo a que se aplica: aquele cruzamento, aquela obrigação de parar ali.

  4. 04Natureza da relação

    A relação é convencional (simbólica): nada, na forma octogonal vermelha, obriga naturalmente a significar «pare» — foi o código rodoviário que o fixou; noutra convenção poderia ser outra forma.

Resultado: No sinal STOP, o significante é o octógono vermelho com letras, o significado é a ordem de parar e o referente é a paragem concreta exigida naquele local. A relação forma-sentido é convencional: só quem conhece o código rodoviário a descodifica — o que prova que o signo não se confunde nem com a ideia nem com a coisa real.

Foco no Exame Nacional

  • Definir signo e distinguir as suas duas faces: significante (forma) e significado (conceito).
  • Distinguir o signo do referente (a imagem da coisa real), com um exemplo.
  • Reconhecer que a relação significante-significado pode ser analógica (fotografia) ou convencional (bandeira).

Erros frequentes

  • Confundir o significante (a forma percetível) com o significado (a ideia que evoca).
  • Confundir o signo (a imagem) com o referente (a coisa real que existe no mundo).
  • Julgar que a relação entre a forma e o sentido é sempre natural, ignorando as relações convencionais.

Revisão ativa

Perante o desenho de um coração vermelho, identifica o significante, o significado (ou significados) e o referente, explicando por que a relação é sobretudo convencional.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

Denotação e conotação#

●●○PadrãoLPAE-oficina-artes-linguagem-plastica

Pontos-chave

Uma imagem significa quase sempre em dois níveis, e distingui-los é uma das ferramentas mais úteis da leitura visual. O primeiro nível é a denotação: o sentido literal, imediato, descritivo — o que a imagem mostra objetivamente, aquilo em que toda a gente concordaria. O segundo nível é a conotação: os sentidos culturais, simbólicos e afetivos que a imagem evoca por acréscimo — aquilo que ela sugere, para além do que mostra (ver Fig. 3). A denotação responde a «o que é?»; a conotação, a «o que evoca?».

Denotação e conotação

Denotação e conotaçãoTabela com 3 colunas e 4 linhas, Dados: Aspeto · Denotação · Conotação; O que é · O sentido literal, descritivo (o que se vê) · Os sentidos culturais, simbólicos, afetivos (o que evoca); Quantos · Um só, partilhado por todos · Vários, dependentes da cultura e do contexto; Uma rosa vermelha · Uma flor com pétalas e espinhos · O amor, a paixão, o romantismo; A cor preta · Ausência de luz/cor · O luto (no Ocidente), a elegância, o mistério, célula destacada: O luto (no Ocidente), a elegância, o mistérioASPETODENOTAÇÃOCONOTAÇÃOO QUE ÉO sentido literal,descritivo (o que se vê)Os sentidos culturais,simbólicos, afetivos (o queevoca)QUANTOSUm só, partilhado por todosVários, dependentes dacultura e do contextoUMA ROSA VERMELHAUma flor com pétalas eespinhosO amor, a paixão, oromantismoA COR PRETAAusência de luz/corO luto (no Ocidente), aelegância, o mistério
Fig. 3Fig. 3 — Os dois níveis de sentido de uma imagem: o literal (denotação) e o cultural/simbólico (conotação).
Um exemplo esclarece a distinção. Uma fotografia de uma rosa vermelha denota, simplesmente, uma flor — uma planta com pétalas e espinhos. Mas, na nossa cultura, conota o amor, a paixão, o romantismo; num contexto político, pode conotar um partido; numa campanha, o luxo ou a delicadeza. A denotação é uma só e é partilhada por todos; as conotações são várias, dependem da cultura e do contexto, e é nelas que reside grande parte da força expressiva e persuasiva das imagens. A publicidade vive, sobretudo, da conotação.
O teórico Roland Barthes estudou este mecanismo e mostrou que a conotação, parecendo natural, é sempre cultural e aprendida. Que o preto conote o luto é uma convenção ocidental — noutras culturas, o luto associa-se ao branco. Que uma coroa conote realeza, que o vermelho conote perigo ou paixão, que uma luz suave conote intimidade: tudo isto se aprende com a cultura em que se vive. A conotação não está «na coisa», está no código cultural que partilhamos — e por isso pode enganar-nos, fazendo passar por natural aquilo que é ideológico.
Para o artista e o designer, dominar os dois níveis é indispensável. Ao construir uma imagem, escolhem-se elementos não só pelo que denotam, mas sobretudo pelo que conotam: a mesma personagem fotografada de baixo para cima (conota poder) ou de cima para baixo (conota fragilidade); a mesma paisagem em cores quentes (conota acolhimento) ou frias (conota solidão). Ler uma imagem com rigor exige, pois, começar pela denotação (descrever o que se vê, sem interpretar) e só depois passar à conotação (o que evoca), fundamentando cada conotação nos elementos concretos da imagem — sob pena de a leitura se tornar arbitrária.
Exemplo resolvido

Ler uma imagem nos dois níveis

Numa campanha, aparece a fotografia de um cão sentado junto a uma mala de viagem, numa estação vazia, ao entardecer. Lê a imagem distinguindo a denotação da conotação.

  1. 01Denotação (o que se vê)

    Um cão sentado, uma mala fechada, uma estação sem pessoas, luz de fim de tarde. Descrição literal, sem interpretar.

  2. 02Conotação (o que evoca)

    O cão junto à mala numa estação vazia conota abandono, espera, solidão e fidelidade; o entardecer reforça a melancolia; a ausência de pessoas acentua o desamparo.

  3. 03Fundamentar

    Cada conotação apoia-se num elemento concreto: a solidão vem da estação vazia; a espera, da postura sentada e imóvel; a melancolia, da luz do entardecer.

  4. 04Uso comunicativo

    Se for uma campanha contra o abandono de animais, a conotação de fidelidade e desamparo é exatamente o que a torna persuasiva — comunica pela emoção, não pela descrição.

Resultado: A imagem denota um cão junto a uma mala numa estação ao entardecer; conota abandono, espera e solidão. A leitura correta parte da descrição (denotação) e fundamenta as conotações nos elementos visíveis — mostrando como a imagem persuade pelo segundo nível de sentido.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir denotação (sentido literal) de conotação (sentidos culturais e simbólicos).
  • Explicar que as conotações são culturais e aprendidas, não naturais (Barthes), com um exemplo.
  • Ler uma imagem começando pela denotação e fundamentando as conotações nos elementos visíveis.

Erros frequentes

  • Confundir denotação com conotação (misturar o que se vê com o que se evoca).
  • Apresentar as conotações como naturais e universais, esquecendo que dependem da cultura e do contexto.
  • Saltar para a conotação sem descrever primeiro o que a imagem denota, gerando leituras arbitrárias.

Revisão ativa

Escolhe uma imagem publicitária e distingue, por escrito, o que ela denota (nível literal) do que conota (sentidos culturais), justificando cada conotação com elementos concretos da imagem.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

Tipos de signo: ícone, índice e símbolo#

●●○PadrãoLPAE-oficina-artes-linguagem-plastica

Pontos-chave

Os signos não representam todos da mesma maneira. O filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce propôs uma classificação, hoje clássica, segundo a relação que o signo mantém com o seu referente: o ícone, o índice e o símbolo (ver Fig. 4). Conhecer esta tríade é indispensável para descrever com rigor como uma imagem significa, e é uma das matérias mais frequentemente mobilizadas na análise de imagens.

Os tipos de signo de Peirce

Ícone, índice e símboloTabela com 3 colunas e 3 linhas, Dados: Tipo de signo · Relação com o referente · Exemplos; Ícone · Semelhança / analogia com o objeto · Fotografia, retrato, mapa, ícone de app; Índice · Contiguidade / causa-efeito (vestígio) · Fumo (fogo), pegada, seta, termómetro; Símbolo · Convenção / arbitrariedade (código) · Letras, bandeira, pomba (paz), sinais de trânsito, célula destacada: Convenção / arbitrariedade (código)TIPO DE SIGNORELAÇÃO COM OREFERENTEEXEMPLOSÍCONESemelhança /analogia com oobjetoFotografia, retrato, mapa,ícone de appÍNDICEContiguidade /causa-efeito(vestígio)Fumo (fogo), pegada, seta,termómetroSÍMBOLOConvenção /arbitrariedade(código)Letras, bandeira, pomba(paz), sinais de trânsito
Fig. 4Fig. 4 — A tríade de Peirce: o signo representa por semelhança (ícone), por contiguidade (índice) ou por convenção (símbolo).
O ícone significa por semelhança: parece-se com aquilo que representa. Uma fotografia, um retrato, uma escultura figurativa, um mapa, o ícone de uma aplicação — todos funcionam por analogia visual com o referente. É o signo mais «transparente», o que menos exige aprendizagem, porque a semelhança guia a leitura. A maior parte das imagens figurativas são, na sua base, ícones: representam mostrando algo parecido com o que existe.
O índice significa por contiguidade física ou por relação de causa e efeito: é um vestígio, uma marca deixada pelo referente. O fumo é índice do fogo (é causado por ele); uma pegada é índice de quem passou; uma seta é índice da direção; o termómetro indicia a temperatura. O índice não se parece necessariamente com aquilo que indica — aponta para ele por ligação real. A fotografia, curiosamente, é ao mesmo tempo ícone (parece-se) e índice (foi causada pela luz que o objeto refletiu): daí a sua força de «prova».
O símbolo significa por convenção: a relação com o referente é arbitrária, fixada por um código cultural, sem semelhança nem ligação física. As letras do alfabeto, os números, a bandeira de um país, a pomba como sinal de paz, a balança como sinal de justiça, os sinais de trânsito — são símbolos. Nada, na forma, obriga ao seu sentido: é preciso conhecer o código para os descodificar. Uma nota importante: os três tipos raramente aparecem puros — uma mesma imagem combina-os. Uma fotografia de uma pomba branca é ícone (parece-se com a ave), pode ser índice (prova que a ave lá esteve) e é símbolo (evoca a paz, por convenção). Saber identificar qual a relação dominante é o que a análise exige.
Exemplo resolvido

Classificar signos pela tríade de Peirce

Classifica como ícone, índice ou símbolo, justificando: (a) uma fotografia de um rosto; (b) uma pegada na areia; (c) o símbolo do euro (€); (d) uma seta a apontar.

  1. 01(a) Fotografia de um rosto

    Ícone — significa por semelhança visual com o rosto (embora seja também índice, por ter sido causada pela luz do rosto real).

  2. 02(b) Pegada na areia

    Índice — é um vestígio deixado pelo pé; significa por contiguidade física e causa-efeito, não por semelhança.

  3. 03(c) Símbolo do euro (€)

    Símbolo — a relação com a moeda é puramente convencional; nada na forma obriga a significar «euro»; é preciso conhecer o código.

  4. 04(d) Seta a apontar

    Índice — aponta para uma direção por relação de contiguidade/orientação (indica «para ali»); é o exemplo clássico de signo indexical.

Resultado: (a) ícone (também índice); (b) índice; (c) símbolo; (d) índice. A classificação obriga a perguntar, em cada caso, por que via o signo significa — semelhança, vestígio ou convenção —, que é o cerne da tríade de Peirce.

Foco no Exame Nacional

  • Definir e distinguir ícone (semelhança), índice (contiguidade/causa) e símbolo (convenção).
  • Classificar exemplos concretos de signos segundo a tríade de Peirce.
  • Reconhecer que uma mesma imagem combina os três tipos, identificando a relação dominante.

Erros frequentes

  • Confundir índice (vestígio/causa: fumo, pegada) com símbolo (convenção: bandeira, letras).
  • Chamar «símbolo» a qualquer signo, esquecendo que o ícone significa por semelhança.
  • Julgar que um signo é só de um tipo, ignorando que a fotografia é ícone e índice ao mesmo tempo.

Revisão ativa

Classifica cada um destes signos como ícone, índice ou símbolo, justificando: (a) uma fotografia de um rosto; (b) uma pegada na areia; (c) o símbolo do euro (€); (d) uma seta a apontar.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

A leitura da imagem: plano da expressão e plano do conteúdo#

●●●AprofundamentoLPAE-oficina-artes-linguagem-plastica

Pontos-chave

Reunidos os conceitos anteriores, é possível formular um método de leitura da imagem. Toda a imagem se organiza em dois planos, que se atravessam do exterior para o interior (ver Fig. 5). O plano da expressão é a sua face material — os elementos plásticos visíveis: as formas, as cores, as linhas, a composição, a luz, a textura. O plano do conteúdo é a sua face de sentido — o tema, a mensagem, os valores, as ideias. Ler uma imagem é articular os dois: mostrar como o plano da expressão (o que se vê) produz o plano do conteúdo (o que significa).

Os dois planos da leitura da imagem

Planos da leituracírculos concêntricos, 2 anéis, Dados: A imagem, Plano da expressão: forma, cor, composição, luz, Plano do conteúdo: tema, mensagem, valoresPlano do conteúdo: tema, mensagem, valoresPlano da expressão: forma, cor, composição, luzA imagem
Fig. 5Fig. 5 — Ler é atravessar dois planos: do plano da expressão (elementos plásticos) ao plano do conteúdo (mensagem e valores).
A leitura faz-se, por isso, numa ordem de segurança, que evita o erro mais comum — o de interpretar sem descrever. Primeiro, descreve-se o plano da expressão: que elementos plásticos há, como estão organizados, que cores e que luz dominam. Este é o momento do «saber-ver», puramente descritivo, sem juízos. Só depois se passa ao plano do conteúdo: o que a imagem denota e, sobretudo, o que conota; que signos usa (ícones, índices, símbolos) e como funcionam; que mensagem constrói. A interpretação nasce, então, do cruzamento entre a forma observada e o sentido, e cada afirmação sobre o conteúdo apoia-se num elemento da expressão.
Este método aplica-se a qualquer imagem — uma pintura, uma fotografia, um cartaz, um fotograma de cinema. Mudam os elementos (numa fotografia, o enquadramento e a luz; num cartaz, a relação texto-imagem), mas a estrutura da leitura mantém-se: da expressão ao conteúdo, do que se vê ao que significa, com fundamentação. É esta competência — ler com método e vocabulário, em vez de apenas reagir («gosto», «não gosto») — que a disciplina desenvolve e que a análise crítica exige.
A leitura da imagem tem, por fim, uma dimensão crítica. Descodificar uma imagem é também perceber as suas intenções e os seus efeitos: o que quer que sintamos ou pensemos, que valores promove, que estereótipos veicula. Numa época saturada de imagens — publicidade, redes sociais, informação —, esta literacia visual é uma competência de cidadania: quem sabe ler imagens não se deixa manipular tão facilmente por elas. Aprender a linguagem plástica não serve apenas para criar melhor, mas também para ver com olhos mais livres e informados.
Exemplo resolvido

Aplicar a leitura em dois planos

Perante um cartaz em que uma figura, fotografada de baixo para cima sobre um céu limpo, ergue o punho, com cores vivas e saturadas, aplica a leitura em dois planos.

  1. 01Plano da expressão

    Ângulo baixo (contrapicado), figura recortada sobre o céu, punho erguido, cores vivas e saturadas, composição centrada e estável. Descrição, sem interpretar.

  2. 02Plano do conteúdo — denotação

    Uma pessoa a erguer o punho ao ar livre. Sentido literal.

  3. 03Plano do conteúdo — conotação

    O contrapicado conota poder e grandeza; o punho erguido é símbolo de luta e resistência; as cores saturadas conotam energia e otimismo; o céu limpo, esperança.

  4. 04Cruzar os planos

    Cada leitura do conteúdo assenta num elemento da expressão: o poder vem do ângulo, a luta do gesto simbólico, a energia da cor — a forma constrói a mensagem.

Resultado: A leitura mostra como o plano da expressão (contrapicado, punho, cor saturada) produz o plano do conteúdo (poder, luta, esperança). A interpretação é sólida porque cada sentido se fundamenta num elemento visível — a diferença entre ler e apenas reagir.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir o plano da expressão (elementos plásticos) do plano do conteúdo (tema, mensagem, valores).
  • Ler uma imagem pela ordem correta: descrever a expressão antes de interpretar o conteúdo.
  • Fundamentar cada afirmação sobre o conteúdo num elemento concreto do plano da expressão.

Erros frequentes

  • Interpretar o conteúdo antes de descrever a expressão, gerando afirmações sem prova.
  • Confundir o plano da expressão (o que se vê) com o plano do conteúdo (o que significa).
  • Reduzir a leitura a um juízo de gosto («gosto/não gosto»), sem análise fundamentada.

Revisão ativa

Escolhe uma pintura ou uma fotografia e lê-a por escrito, primeiro descrevendo o plano da expressão (elementos plásticos) e só depois interpretando o plano do conteúdo (mensagem), ligando um ao outro.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01A arte como linguagem e a comunicação visual○
    • 02O signo visual: significante e significado◐
    • 03Denotação e conotação◐
    • 04Tipos de signo: ícone, índice e símbolo◐
    • 05A leitura da imagem: plano da expressão e plano do conteúdo●

0/5 Lidos

Dos resumos à prática

Linguagem plástica e sistemas sígnicos

Consolida este tema com perguntas do banco de perguntas.

~20
min
2
Competências
Praticar

Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Oficina de Artes — Linguagem plástica e sistemas sígnicos

Tópico seguinte

Elementos estruturais da linguagem plástica

EuraStudy·Resumos T·01·MMXXVI

Continua com o tópico seguinte: o teu percurso é mantido.