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Poesia e prosa medievais: a lírica e a sátira galego-portuguesas

A lírica galego-portuguesa (séculos XII–XIV) é a primeira grande manifestação literária em português. Reunida nos cancioneiros, distribui-se por três géneros maiores — a cantiga de amigo (de voz feminina), a cantiga de amor (de voz masculina e raiz provençal) e as cantigas de escárnio e de maldizer (satíricas) —, sustentadas por uma arte formal muito codificada, feita de paralelismo, refrão e leixa-pren.

5 secções·~16 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 3 · Aprofundamento 1

T·0222 / 17
Perfil de exame
Contextualizar o trovadorismo e os cancioneirosDistinguir os géneros das cantigas pelo sujeito lírico e pela temáticaAnalisar os recursos formais da poesia trovadoresca (paralelismo, refrão, leixa-pren)Interpretar a sátira das cantigas de escárnio e de maldizer
Operadores:distinguecaracterizaanalisaidentificarelacionainterpreta

nível básico

Distinguir cantiga de amigo (voz feminina) de cantiga de amor (voz masculina) e reconhecer o refrão e o paralelismo.

nível avançado

Analisar os subgéneros, o amor cortês e a sátira, explicando o efeito do leixa-pren e das palavras cubertas/descubertas.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 5 secções▾
  1. Poesia e prosa medievais: a lírica e a sátira galego-portuguesas
    • 01O trovadorismo e os cancioneiros○
    • 02As cantigas de amigo◐
    • 03As cantigas de amor◐
    • 04As cantigas de escárnio e de maldizer◐
    • 05A arte de trovar: os recursos formais●
§ 01

O trovadorismo e os cancioneiros#

●○○BaseLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo1-medieval

Pontos-chave

O trovadorismo é o movimento poético que, entre o final do século XII e meados do século XIV, produziu a lírica galego-portuguesa — a poesia cantada, em galego-português (a língua comum do noroeste peninsular), pelos trovadores das cortes de Leão, Castela e Portugal. Convencionou-se fazer começar este período por volta de 1189/1198, data tradicionalmente atribuída à «Cantiga da Ribeirinha» (ou «Cantiga da Guarvaia»), de Paio Soares de Taveirós, tida por muitos como o texto mais antigo conhecido — embora a datação seja discutida. O apogeu situa-se no reinado de D. Dinis (1261–1325), ele próprio o mais fecundo dos trovadores, dito «o rei-trovador» (ver Fig. 1).

O período trovadoresco

O período trovadorescoLinha do tempo de 1150 a 1400, 1189: «Cantiga da Ribeirinha» (data tradicional), 1290: Cancioneiro da Ajuda (cópia), 1325: Morte de D. Dinis, 1189–1350: Trovadorismo (lírica galego-portuguesa), 1279–1325: Reinado de D. Dinis11501400anoTrovadorismo(lírica galego-po…Reinado de D.Dinis1189«Cantiga daRibeirinha» (da…1290Cancioneiro daAjuda (cópia)1325Morte de D.Dinis
Fig. 1Fig. 1 — O trovadorismo: da Cantiga da Ribeirinha ao ocaso da lírica galego-portuguesa.
A poesia era feita para ser cantada, ao som de instrumentos, e circulava numa sociedade de corte. Distinguiam-se os seus agentes: o trovador (nobre que compunha, autor), o jogral (intérprete profissional, de condição inferior, que executava as composições) e o segrel (poeta-intérprete intermédio, muitas vezes cavaleiro que vivia da sua arte). A unidade poética chama-se cantiga; cada cantiga organiza-se em estrofes (cobras) e pode ter, ou não, refrão. Esta é uma poesia oral e musical na origem, o que explica muitos dos seus traços formais.
Os textos chegaram até nós porque foram copiados em três grandes coletâneas, os cancioneiros. O Cancioneiro da Ajuda é o mais antigo (finais do século XIII) e reúne sobretudo cantigas de amor. O Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antes conhecido como Colocci-Brancuti) e o Cancioneiro da Vaticana são cópias quinhentistas, feitas em Itália a partir de originais perdidos, e conservam os três géneros. Sem estes manuscritos, quase toda esta poesia se teria perdido: eles são a fonte de que depende o nosso conhecimento do trovadorismo.
A lírica galego-portuguesa reparte-se por três géneros maiores. As cantigas de amor e as cantigas de amigo formam a lírica amorosa: nas primeiras, fala um homem; nas segundas, uma mulher. As cantigas de escárnio e de maldizer constituem a lírica satírica, de crítica e troça. A distinção entre estes géneros — pelo sujeito lírico, pela temática, pelo ambiente e pela origem — é a matriz de toda a análise da poesia trovadoresca, e o ponto que o Exame Nacional mais frequentemente testa.
Exemplo resolvido

Situar uma cantiga no seu contexto

Uma cantiga foi copiada no Cancioneiro da Vaticana e atribui-se a um trovador da corte de D. Dinis. Que informações de contexto podes retirar daqui?

  1. 01Reconhecer a fonte

    O Cancioneiro da Vaticana é uma cópia quinhentista italiana que conserva os três géneros — logo, o texto sobreviveu por transmissão manuscrita.

  2. 02Situar no tempo

    A corte de D. Dinis (1279–1325) corresponde ao apogeu do trovadorismo.

  3. 03Concluir

    Trata-se de poesia galego-portuguesa do auge trovadoresco, transmitida por um dos grandes cancioneiros.

Resultado: A cantiga pertence ao apogeu do trovadorismo (corte de D. Dinis, finais do séc. XIII) e chegou-nos por cópia num dos cancioneiros — o da Vaticana —, o que ilustra a dependência desta poesia da transmissão manuscrita.

Foco no Exame Nacional

  • Situar o trovadorismo no tempo (séc. XII–XIV) e reconhecer o papel dos cancioneiros.
  • Distinguir trovador, jogral e segrel.
  • Identificar os três géneros da lírica galego-portuguesa.

Erros frequentes

  • Tomar a datação de 1189/1198 como certa, quando é tradicional e discutida.
  • Confundir os cancioneiros (fontes) com os géneros das cantigas.
  • Confundir trovador (autor, nobre) com jogral (intérprete profissional).

Revisão ativa

Explica por que motivo os cancioneiros são indispensáveis ao conhecimento da lírica galego-portuguesa e nomeia os três principais.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

As cantigas de amigo#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo1-medieval

Pontos-chave

Na cantiga de amigo, o sujeito lírico é feminino: é uma mulher — jovem, solteira, do povo — que fala, embora o autor seja sempre um homem. A donzela dirige-se ao «amigo» (o namorado, o amado) e exprime sobretudo a saudade da sua ausência, a espera, o ciúme ou a alegria do reencontro. Esta voz feminina numa poesia feita por homens é o traço mais distintivo do género e a origem do erro mais frequente na análise — confundi-la com a cantiga de amor. É uma forma tida por autóctone, de raiz peninsular e popular.
O ambiente é rural e natural, muito diferente do refinamento cortês: o campo, a fonte, o rio, o mar, a ermida, o pinhal. A jovem confidencia os seus sentimentos à mãe, às amigas ou aos elementos da natureza (as flores, as ondas do mar), que interpela e que quase participam do seu estado de alma. Este diálogo com a natureza confere ao género uma frescura e um lirismo simples, popular, que os trovadores estilizaram com grande arte.
A cantiga de amigo desdobra-se em subgéneros consoante o motivo: a bailia (ou bailada), convite à dança; a alba (ou alva), sobre a separação dos amantes ao romper do dia; a barcarola (ou marinha), ligada ao mar e à espera do amigo marinheiro; a cantiga de romaria, situada numa peregrinação a uma ermida, onde a jovem espera encontrar o amado; a pastorela, encontro com uma pastora. Reconhecer o motivo ajuda a identificar o subgénero e a orientar a leitura.
Formalmente, a cantiga de amigo assenta na repetição estruturada. O paralelismo faz repetir, de estrofe para estrofe, a mesma ideia com ligeira variação (troca de palavras rimantes ou sinónimas), criando um andamento lento e insistente, próprio do lamento. O refrão — um ou dois versos que se repetem no fim de cada estrofe — reforça o motivo central. E o leixa-pren («deixa-e-toma») encadeia as estrofes: os últimos versos de um par de estrofes reaparecem no par seguinte, tecendo a cantiga como uma cadeia. Estes três recursos dão à cantiga de amigo a sua musicalidade circular (ver Fig. 2).

A cantiga de amigo

A cantiga de amigoTabela com 2 colunas e 7 linhas, Dados: Aspeto · Cantiga de amigo; Sujeito lírico · Feminino (voz de mulher; autor homem); Tema · Saudade e espera do amigo ausente; Ambiente · Rural, natural (fonte, rio, mar, ermida); Confidentes · Mãe, amigas, elementos da natureza; Subgéneros · Bailia, alba, barcarola, romaria, pastorela; Recursos formais · Paralelismo, refrão, leixa-pren; Origem · Autóctone, popular, peninsular, célula destacada: Feminino (voz de mulher; autor homem)ASPETOCANTIGA DE AMIGOSUJEITO LÍRICOFeminino (voz de mulher;autor homem)TEMASaudade e espera do amigoausenteAMBIENTERural, natural (fonte, rio,mar, ermida)CONFIDENTESMãe, amigas, elementos danaturezaSUBGÉNEROSBailia, alba, barcarola,romaria, pastorelaRECURSOS FORMAISParalelismo, refrão, leixa-prenORIGEMAutóctone, popular,peninsularA voz feminina é a marca distintiva do género.
Fig. 2Fig. 2 — Marcas essenciais da cantiga de amigo.
Exemplo resolvido

Identificar uma cantiga de amigo

Numa cantiga, uma jovem confidencia à mãe a saudade do amigo que partiu, e cada estrofe repete a anterior com pequenas variações. Que género é e que recursos reconheces?

  1. 01Identificar a voz

    Quem fala é uma mulher, dirigindo-se à mãe — sujeito lírico feminino.

  2. 02Reconhecer o tema e o ambiente

    A saudade do amigo ausente e a confidência à mãe são típicas da cantiga de amigo.

  3. 03Reconhecer o recurso

    A repetição com variação de estrofe para estrofe é o paralelismo, próprio do género.

Resultado: É uma cantiga de amigo: sujeito lírico feminino, tema da saudade do amigo, confidência à mãe e estrutura paralelística — todas marcas do género.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer o sujeito lírico feminino como marca da cantiga de amigo.
  • Identificar o ambiente rural/natural e os confidentes (mãe, amigas, natureza).
  • Reconhecer subgéneros (bailia, alba, barcarola, romaria) e os recursos formais (paralelismo, refrão, leixa-pren).

Erros frequentes

  • Confundir o sujeito lírico feminino da cantiga de amigo com o masculino da cantiga de amor.
  • Julgar que o autor é uma mulher (o autor é sempre um trovador; a voz é que é feminina).
  • Não reconhecer o leixa-pren e o paralelismo como estruturantes do género.

Revisão ativa

Perante uma cantiga em que uma jovem interpela as ondas do mar por notícias do amado, identifica o género, o subgénero provável e um recurso formal presente.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

As cantigas de amor#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo1-medieval

Pontos-chave

Na cantiga de amor, o sujeito lírico é masculino: é o trovador que fala, exprimindo o amor por uma dama a quem chama «senhor» (a forma medieval, sem flexão de género, para «senhora»). Ao contrário da cantiga de amigo, esta é uma poesia de importação: adapta o modelo da lírica provençal (occitânica), a fin'amors ou amor cortês, que chegou à Península através das cortes. O ambiente é palaciano e refinado, e o tom é mais elaborado e culto.
O tema central é a coita de amor — o sofrimento amoroso. O trovador ama uma dama superior e inacessível, muitas vezes casada e de condição mais elevada, e desse amor não espera correspondência: basta-lhe servir e sofrer. Este ideal exige mesura (moderação, contenção no dizer e no sentir) e configura uma verdadeira vassalagem amorosa: o poeta comporta-se como um vassalo perante o seu senhor feudal, prestando à dama obediência e serviço. O amor é, assim, sofrimento aceite e enobrecedor.
A dama («senhor») é descrita de forma idealizada e abstrata: fala-se do seu valor, da sua bondade, do seu «bom parecer», mas quase nunca de traços concretos e individuais — é uma figura de perfeição, não um retrato. O trovador teme e respeita-a, e a discrição obriga-o a ocultar a sua identidade. Deste conjunto de convenções nasce um universo poético estilizado, muito diferente da espontaneidade rural da cantiga de amigo (ver Fig. 3).

O amor cortês na cantiga de amor

O amor cortês na cantiga de amorGrafo, Trovador (eu masculino) → «Senhor» idealizada, «Senhor» idealizada → Coita de amor (sofrimento), Coita de amor (sofrimento) → Trovador (eu masculino)Trovador (eumasculino)«Senhor»idealizadaCoita de amor(sofrimento)serviço evassalageminacessibilidadeenobrece
Fig. 3Fig. 3 — O modelo do amor cortês: serviço, vassalagem e coita.
Formalmente, a cantiga de amor é mais trabalhada e menos dependente do paralelismo do que a de amigo. Distinguem-se as cantigas de mestria (sem refrão, de fatura mais culta e continuada) das cantigas de refrão. O Cancioneiro da Ajuda, o mais antigo, reúne quase só cantigas de amor, o que confirma o prestígio cortesão do género. A oposição entre a cantiga de amor (masculina, cortês, importada) e a cantiga de amigo (feminina, popular, autóctone) é um dos eixos maiores do estudo da lírica trovadoresca.
Exemplo resolvido

Distinguir amor de amigo

Um trovador lamenta o sofrimento que lhe causa uma dama de condição superior, a quem serve sem esperança. Que género é e que o distingue da cantiga de amigo?

  1. 01Identificar a voz

    Quem fala é um homem (o trovador) — sujeito lírico masculino.

  2. 02Reconhecer o tema

    O serviço sem esperança e o sofrimento perante uma dama superior são a coita de amor e a vassalagem amorosa.

  3. 03Contrastar

    Ao contrário da cantiga de amigo (voz feminina, ambiente rural, origem popular), esta é masculina, cortês e de origem provençal.

Resultado: É uma cantiga de amor: sujeito lírico masculino, coita e vassalagem amorosa perante a «senhor» idealizada — em tudo oposta à cantiga de amigo, feminina e popular.

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer o sujeito lírico masculino e a «senhor» idealizada.
  • Explicar a coita de amor, a mesura e a vassalagem amorosa (amor cortês/provençal).
  • Contrastar a cantiga de amor com a cantiga de amigo (voz, ambiente, origem).

Erros frequentes

  • Confundir a cantiga de amor (voz masculina) com a de amigo (voz feminina).
  • Esperar um retrato concreto da dama, quando a «senhor» é idealizada e abstrata.
  • Ignorar a origem provençal e o modelo da vassalagem amorosa.

Revisão ativa

Explica em que consiste a «coita de amor» e como a vassalagem amorosa configura a relação entre o trovador e a «senhor».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

As cantigas de escárnio e de maldizer#

●●○PadrãoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo1-medieval

Pontos-chave

A par da lírica amorosa, o trovadorismo cultivou uma poesia satírica: as cantigas de escárnio e de maldizer. Estas cantigas criticam, troçam e atacam — pessoas, costumes, grupos sociais — com humor, malícia e, por vezes, grande crueza. Constituem um precioso documento da vida medieval, porque nelas desfilam os defeitos e os vícios da sociedade: a avareza, a hipocrisia, a falsa nobreza, os maus jograis, as intrigas da corte. A sátira medieval é, assim, a outra face — cómica e crítica — da poesia trovadoresca.
A distinção entre os dois géneros satíricos fixa-se na «Arte de Trovar», o tratado fragmentário que abre o Cancioneiro da Biblioteca Nacional, e assenta no modo de dizer. A cantiga de escárnio faz a crítica de forma indireta: usa «palavras cubertas», o equívoco, o duplo sentido, a ironia — o visado não é nomeado, e é preciso decifrar a alusão. A cantiga de maldizer faz a crítica de forma direta: usa «palavras descubertas», ataca abertamente e nomeia (ou torna reconhecível) o visado. Na prática, muitas cantigas misturam os dois processos.
O alvo da sátira é variado. Criticam-se figuras concretas da corte (nobres decaídos, damas de comportamento censurável, clérigos), tipos sociais (o cavaleiro cobarde, o mercador desonesto) e o próprio meio literário (os jograis sem talento, os trovadores rivais). Há também a sátira de costumes e a paródia dos próprios géneros amorosos — cantigas que arremedam, em tom burlesco, as convenções da cantiga de amor ou de amigo. O riso medieval é, muitas vezes, um instrumento de crítica social.
Reconhecer a diferença entre os três géneros maiores — amigo, amor, escárnio e maldizer — é a competência central do estudo da lírica trovadoresca. Distinguem-se pelo sujeito lírico (feminino, masculino, variável), pela temática (saudade, coita, sátira), pelo ambiente (rural, cortês, social) e pela origem (autóctone, provençal, autóctone). O quadro comparativo fixa estas oposições, que o Exame Nacional recorrentemente avalia (ver Fig. 4).

Os três géneros da lírica trovadoresca

Os três géneros da lírica trovadorescaTabela com 4 colunas e 5 linhas, Dados: Aspeto · Cantiga de amigo · Cantiga de amor · Escárnio e maldizer; Sujeito lírico · Feminino · Masculino · Variável (o satirista); Tema · Saudade do amigo · Coita de amor · Sátira, crítica, troça; Ambiente · Rural, natural · Cortês, palaciano · Social, da corte; Modo de dizer · Lírico, confidente · Idealizado, contido · Escárnio: indireto; maldizer: direto; Origem · Autóctone, popular · Provençal (amor cortês) · Autóctone, célula destacada: FemininoASPETOCANTIGA DE AMIGOCANTIGA DE AMORESCÁRNIO E MALDIZERSUJEITO LÍRICOFemininoMasculinoVariável (o satirista)TEMASaudade do amigoCoita de amorSátira, crítica, troçaAMBIENTERural, naturalCortês, palacianoSocial, da corteMODO DE DIZERLírico, confidenteIdealizado, contidoEscárnio: indireto;maldizer: diretoORIGEMAutóctone, popularProvençal (amor cortês)AutóctoneO sujeito lírico é o primeiro critério de distinção.
Fig. 4Fig. 4 — Amigo, amor, escárnio e maldizer: o quadro das oposições.
Exemplo resolvido

Classificar uma cantiga satírica

Uma cantiga troça de um trovador rival, sem o nomear, através de um equívoco que só se entende decifrando o duplo sentido. Que género satírico é?

  1. 01Observar o modo de dizer

    A crítica é feita de forma indireta, por equívoco e duplo sentido, sem nomear o visado — «palavras cubertas».

  2. 02Aplicar o critério

    Segundo a «Arte de Trovar», a crítica indireta e velada corresponde à cantiga de escárnio.

  3. 03Concluir

    Não é maldizer (que seria direto e nomeado), mas escárnio.

Resultado: É uma cantiga de escárnio: a sátira é indireta, feita por equívoco e «palavras cubertas», sem nomear o visado — ao contrário do maldizer, que ataca de forma direta.

Foco no Exame Nacional

  • Distinguir cantiga de escárnio (indireta, palavras cubertas) de maldizer (direta, palavras descubertas).
  • Reconhecer os alvos da sátira medieval e o seu valor documental.
  • Comparar os três géneros da lírica trovadoresca (amigo, amor, escárnio/maldizer).

Erros frequentes

  • Trocar escárnio (indireto) por maldizer (direto).
  • Reduzir a sátira a mero insulto, ignorando o seu valor crítico e documental.
  • Esquecer o critério do sujeito lírico ao comparar os géneros.

Revisão ativa

Perante duas cantigas satíricas, uma que ataca um nobre pelo nome e outra que troça de alguém por meio de um equívoco, classifica cada uma (escárnio ou maldizer) e justifica.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 05

A arte de trovar: os recursos formais#

●●●AprofundamentoLPAE-literatura-portuguesa-10-modulo1-medieval

Pontos-chave

A lírica galego-portuguesa é uma poesia de grande virtuosismo formal. Nascida para o canto, obedece a uma «arte de trovar» codificada, que exige do trovador o domínio de um conjunto de recursos de repetição e de encadeamento. Estes recursos não são meros enfeites: estruturam a cantiga, garantem a sua musicalidade e, no caso da cantiga de amigo, exprimem o próprio andamento do sentimento — lento, insistente, circular. Analisá-los é indispensável para ler estas cantigas com rigor.
O paralelismo é o recurso mais característico. Consiste em repetir, de estrofe para estrofe, a mesma ideia com uma ligeira variação — trocando as palavras finais (rimantes) por sinónimos ou por termos equivalentes. Nasce assim um par de estrofes paralelas que dizem quase o mesmo de dois modos, num movimento de espelho. O paralelismo perfeito organiza a cantiga em pares de estrofes, dando-lhe uma progressão muito lenta, quase hipnótica, adequada ao lamento amoroso.
O refrão é o verso (ou versos) que se repete no final de cada estrofe. Fixa e reforça o motivo central da cantiga, funciona como resposta ou eco, e marca o ritmo do canto. As cantigas com refrão opõem-se às cantigas de mestria (sem refrão, de fatura mais contínua e culta, frequentes na cantiga de amor). O leixa-pren («deixa-e-toma») encadeia as estrofes paralelas: os versos que fecham o primeiro par de estrofes reaparecem a abrir o par seguinte, tecendo a cantiga como uma cadeia contínua, sem soluções de continuidade.
A estes juntam-se recursos de repetição mais subtis: o dobre (repetição de uma mesma palavra em posições determinadas dentro da estrofe) e o mordobre (repetição de palavras da mesma família ou com pequena variação). Todos concorrem para o mesmo efeito: fazer da cantiga uma construção sonora, musical e memorizável. Ao analisar uma cantiga, o leitor deve, por isso, identificar estes recursos e explicar o seu efeito — como a repetição sugere a insistência da saudade, ou como o refrão fixa a ideia dominante (ver Fig. 5).

Recursos formais da cantiga

Recursos formais da cantigaTabela com 3 colunas e 5 linhas, Dados: Recurso · Definição · Efeito; Paralelismo · Repete estrofes com ligeira variação · Progressão lenta, insistente; Refrão · Verso(s) repetido(s) no fim da estrofe · Fixa o motivo; marca o ritmo; Leixa-pren · Versos finais de um par abrem o par seguinte · Encadeia a cantiga em cadeia; Dobre · Repete a mesma palavra em posições fixas · Reforço sonoro; Mordobre · Repete palavras da mesma família · Jogo de variação sonora, célula destacada: Encadeia a cantiga em cadeiaRECURSODEFINIÇÃOEFEITOPARALELISMORepete estrofes com ligeiravariaçãoProgressão lenta, insistenteREFRÃOVerso(s) repetido(s) no fimda estrofeFixa o motivo; marca o ritmoLEIXA-PRENVersos finais de um parabrem o par seguinteEncadeia a cantiga em cadeiaDOBRERepete a mesma palavra emposições fixasReforço sonoroMORDOBRERepete palavras da mesmafamíliaJogo de variação sonoraA repetição estruturada é a alma da cantiga cantada.
Fig. 5Fig. 5 — A arte de trovar: recursos de repetição e encadeamento.
Exemplo resolvido

Reconhecer o leixa-pren

Numa cantiga, os dois versos que fecham a segunda estrofe reaparecem, sem alteração, a abrir a terceira estrofe. Que recurso é este e que efeito produz?

  1. 01Observar a retoma

    Versos que encerram um par de estrofes reaparecem a iniciar o par seguinte.

  2. 02Nomear o recurso

    Este encadeamento de «deixar e tomar» versos chama-se leixa-pren.

  3. 03Explicar o efeito

    Cria uma cadeia contínua entre as estrofes, dando à cantiga uma progressão fluida e circular.

Resultado: Trata-se do leixa-pren: a retoma dos versos finais de um par de estrofes no par seguinte encadeia a cantiga, produzindo uma progressão contínua e musical típica da lírica galego-portuguesa.

Foco no Exame Nacional

  • Definir e reconhecer o paralelismo, o refrão e o leixa-pren.
  • Explicar o efeito destes recursos (musicalidade, insistência, encadeamento).
  • Distinguir cantiga de refrão de cantiga de mestria.

Erros frequentes

  • Confundir paralelismo (repetição de estrofes com variação) com refrão (verso que se repete no fim).
  • Não reconhecer o leixa-pren como encadeamento entre estrofes.
  • Identificar o recurso sem explicar o seu efeito na cantiga.

Revisão ativa

Numa cantiga de amigo com pares de estrofes paralelas e refrão, identifica o paralelismo, o refrão e o leixa-pren, explicando o efeito de cada um.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 05

    • 01O trovadorismo e os cancioneiros○
    • 02As cantigas de amigo◐
    • 03As cantigas de amor◐
    • 04As cantigas de escárnio e de maldizer◐
    • 05A arte de trovar: os recursos formais●

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Dos resumos à prática

Poesia e prosa medievais: a lírica e a sátira galego-portuguesas

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Literatura Portuguesa — 10.º e 11.º anos

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