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Resumos/Latim B/Reflexão filosófica: textos de Cícero
Resumos · Latim BPT · Secundário

Reflexão filosófica: textos de Cícero

Cícero (Marcus Tullius Cicero, 106–43 a.C.), orador, político e filósofo do fim da República, foi o criador da prosa filosófica latina: adaptou o pensamento grego à língua de Roma e forjou o vocabulário abstrato que a Europa herdou. Nas obras de reflexão moral — De Amicitia, De Senectute, De Officiis — legou uma sabedoria prática que ainda hoje se lê e comenta. Latim B é disciplina de avaliação interna (sem Exame Final Nacional): este resumo visa a compreensão, a análise e o comentário, não a preparação de uma prova.

4 secções·~14 min de leitura·4 competências·Nível Base 1 · Padrão 2 · Aprofundamento 1

T·0888 / 13
Perfil de exame
Caracterizar Cícero como orador, político e filósofo do fim da RepúblicaExplicar o seu papel na criação da prosa e do vocabulário filosófico latinoIdentificar as principais obras filosóficas de Cícero e os seus temasComentar um texto ciceroniano de reflexão moral
Operadores:caracterizaexplicaidentificarelacionacomentatraduz

nível básico

Situar Cícero no fim da República e associar cada obra ao seu tema (amizade, velhice, deveres).

nível avançado

Explicar o ecletismo e a criação do vocabulário filosófico latino e comentar um texto ciceroniano na sua dimensão linguística e cultural.

Profundidade

Profundidade de leitura: Aprofundado

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Conteúdo · 4 secções▾
  1. Reflexão filosófica: textos de Cícero
    • 01Cícero: orador, político e filósofo (fim da República)○
    • 02A criação da prosa e do vocabulário filosófico latino◐
    • 03As obras de reflexão moral: De Amicitia, De Senectute, De Officiis◐
    • 04A herança de Cícero●
§ 01

Cícero: orador, político e filósofo (fim da República)#

●○○BaseLPAE-latim-b-cicero

Pontos-chave

Marcus Tullius Cicero nasceu em 106 a.C. em Arpino, pequena cidade do Lácio, e morreu em 43 a.C. Não descendia da alta nobreza senatorial: foi um homo nouus, um «homem novo» que chegou ao topo da carreira política pelo mérito e, sobretudo, pela eloquência. A sua figura é indissociável de três papéis que soube reunir como poucos: o do maior orador de Roma, o do político empenhado na defesa da República e o do filósofo que deu a Roma a sua prosa filosófica. É por isso uma das personalidades mais completas de toda a Antiguidade latina (ver Fig. 1).

Cronologia da vida de Cícero (106–43 a.C.)

A vida de Cícero (106–43 a.C.)Linha do tempo de -110 a -40, -106: Nasce (Arpino), -80: Pro Roscio, -63: Cônsul, -43: Assassinado, -58–-57: Exílio, -46–-44: Obras filosóficas−110−40anoExílioObras filosóficas−106Nasce (Arpino)−80Pro Roscio−63Cônsul−43Assassinado
Fig. 1Fig. 1 — A vida de Cícero, do nascimento (106 a.C.) à morte nas proscrições (43 a.C.): repare-se que as obras filosóficas (46–44 a.C.) precedem de perto o fim.
Como orador, Cícero é o modelo insuperado da eloquência latina. Revelou-se cedo com discursos judiciais célebres (a defesa de Sexto Róscio, em 80 a.C.) e, no ano do seu consulado (63 a.C.), pronunciou as Catilinárias, contra a conjura de Catilina, cujas primeiras palavras se tornaram universais: « Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? » = « Até quando, afinal, abusarás, Catilina, da nossa paciência? », e a exclamação « O tempora, o mores! » = « Ó tempos, ó costumes! ». Mais tarde, as Filípicas atacariam Marco António com igual veemência. A sua arte da palavra fez escola durante dois milénios.
Como político, Cícero foi cônsul em 63 a.C. — o auge do cursus honorum —, ano em que desmantelou a conjura de Catilina e recebeu o título de pater patriae, «pai da pátria». Defensor da res publica e da ordem senatorial, viu-se apanhado nas guerras civis do fim da República (entre César e Pompeio). Depois do assassínio de César, atacou Marco António nas Filípicas; a vingança foi terrível: incluído nas proscrições do 2.º triunvirato (Marco António, Octaviano e Lépido), foi assassinado em 43 a.C. É este o desfecho trágico de uma vida dedicada à palavra e ao Estado.
Como filósofo, foi nos últimos anos — sobretudo entre 46 e 44 a.C., afastado da política pela ditadura de César e abalado pela morte da filha Túlia — que Cícero, com espantosa rapidez, compôs as obras que fizeram dele o criador da prosa filosófica latina. Importa fixar um enquadramento honesto: Cícero é anterior ao Principado de Augusto. Morreu em 43 a.C., dezasseis anos antes de Octaviano receber o título de Augustus (27 a.C.). Pertence, pois, ao fim da República, e não ao Século de Augusto: colocá-lo entre os autores augustanos (como Virgílio ou Horácio) é um erro cronológico frequente.
Exemplo resolvido

Situar Cícero em relação a Augusto

Explica por que é incorreto colocar Cícero no «Século de Augusto», usando as datas da sua vida e do início do Principado.

  1. 01Reunir os dados

    Cícero viveu de 106 a 43 a.C.; Octaviano só recebeu o título de Augustus (início do Principado) em 27 a.C.

  2. 02Relacionar as datas

    Quando o Principado começou (27 a.C.), Cícero estava morto havia dezasseis anos: as duas épocas não coincidem.

  3. 03Precisar a morte

    Cícero não morreu de causas naturais: foi assassinado em 43 a.C., nas proscrições do 2.º triunvirato (Marco António, Octaviano, Lépido).

Resultado: Cícero é uma figura do fim da República: morre em 43 a.C., dezasseis anos antes de começar o Principado de Augusto (27 a.C.). Incluí-lo no Século de Augusto é um anacronismo.

Foco no Exame Nacional

  • Caracterizar as três faces de Cícero (orador, político e filósofo) e situá-lo corretamente no fim da República.
  • Reconhecer o alcance da sua oratória (Catilinárias, Filípicas) e o desfecho trágico da sua vida (proscrições de 43 a.C.).

Erros frequentes

  • Situar Cícero no Século de Augusto: é-lhe anterior, pois morre em 43 a.C., antes do início do Principado (27 a.C.).
  • Reduzi-lo a orador, esquecendo o filósofo e criador da prosa filosófica latina.
  • Julgar que teve morte natural: foi assassinado nas proscrições do 2.º triunvirato.

Revisão ativa

Explica, recorrendo às datas da vida de Cícero e do início do Principado, por que razão é historicamente incorreto incluí-lo no «Século de Augusto».

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Cultura e literatura latinas: Cícero) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 02

A criação da prosa e do vocabulário filosófico latino#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-cicero

Pontos-chave

Antes de Cícero, a filosofia fazia-se em Roma quase sempre em grego: os Romanos cultos liam e discutiam os filósofos gregos na sua língua original, e não existia praticamente literatura filosófica em latim. Cícero impôs a si mesmo uma tarefa ao mesmo tempo cultural e patriótica — dar a Roma a filosofia na sua própria língua. É, por isso, o criador da prosa filosófica latina: o primeiro a exprimir em latim, com clareza e elegância, o pensamento abstrato dos Gregos.
Para o conseguir, teve de criar vocabulário, pois o latim carecia de palavras para muitos conceitos gregos. Umas vezes cunhou termos novos — qualitas (a partir de qualis), para verter o grego poiótes, de que nasceu «qualidade»; moralis (a partir de mos, mores, «costumes»), para verter o grego ethikós, de que nasceu «moral». Outras vezes fixou o sentido filosófico de palavras já existentes: officium para o grego kathékon («dever»), uisum para phantasía («representação»), comprehensio para katálepsis. Grande parte do léxico abstrato europeu remonta a estas escolhas (ver Fig. 2).

Vocabulário filosófico latinizado por Cícero

Vocabulário filosófico de CíceroTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Conceito grego (fonte) · Termo latino de Cícero · Sentido em português; poiótes · qualitas · qualidade; ethikós · moralis · moral (relativo aos costumes); katálepsis · comprehensio, perceptio · apreensão, compreensão; phantasía · uisum · representação, imagem mental; prólepsis · anticipatio, praenotio · noção prévia, antecipação; kathékon · officium · dever; tò prépon · decorum · o conveniente, o decoro, célula destacada: moralisCONCEITO GREGO (FONTE)TERMO LATINO DE CÍCEROSENTIDO EM PORTUGUÊSPOIÓTESqualitasqualidadeETHIKÓSmoralismoral (relativo aoscostumes)KATÁLEPSIScomprehensio, perceptioapreensão, compreensãoPHANTASÍAuisumrepresentação, imagem mentalPRÓLEPSISanticipatio, praenotionoção prévia, antecipaçãoKATHÉKONofficiumdeverTÒ PRÉPONdecorumo conveniente, o decoro
Fig. 2Fig. 2 — Alguns termos com que Cícero dotou o latim (e, através dele, o português) de um vocabulário filosófico abstrato.
O pensamento de Cícero é eclético: não fundou uma escola nem seguiu um único sistema, mas escolheu, de várias correntes gregas, o que lhe parecia mais razoável e útil. Filiado na Nova Academia, adotou dela um cepticismo moderado — o hábito de argumentar in utramque partem, «a favor e contra», por reconhecer que a certeza absoluta é inatingível. Da Estoa (e de Panécio) tirou sobretudo o conteúdo ético; dos Peripatéticos, outras contribuições. Deste modo sintetizou as fontes gregas ao serviço de uma moral prática romana (ver Fig. 3): o ecletismo é síntese, não mera cópia.

O ecletismo ciceroniano: das fontes gregas à síntese latina

O ecletismo ciceronianoGrafo, Academia → Cícero, Estoicismo → Cícero, Peripatéticos → Cícero, Cícero → Moral romanaAcademiaEstoicismoPeripatéticosCíceroMoral romana
Fig. 3Fig. 3 — O ecletismo: Cícero sintetiza várias fontes gregas numa moral prática romana, expressa em latim.
A prosa ciceroniana tornou-se, ela própria, um modelo. O período — a frase ampla, equilibrada e arquitetonicamente construída, com as suas subordinadas — e o cursus (o ritmo das cláusulas finais) fizeram do latim de Cícero a referência da prosa artística, imitada durante séculos (o «ciceronianismo» do Renascimento). A forma de diálogo, herdada de Platão, permitiu-lhe apresentar as ideias em debate, e não como dogma. Dar a Roma uma língua filosófica clara e bela foi a sua grande façanha literária.
Exemplo resolvido

Como Cícero criou vocabulário filosófico

Mostra, com dois exemplos, de que modo Cícero dotou o latim de vocabulário filosófico a partir do grego.

  1. 01Identificar o problema

    O grego dispunha de termos abstratos (poiótes, ethikós) que o latim não tinha: era preciso criar palavras para os exprimir.

  2. 02qualitas

    Para verter o grego poiótes, Cícero forma qualitas a partir do adjetivo qualis («de que espécie»); daqui provém o português «qualidade».

  3. 03moralis

    Para verter o grego ethikós (relativo ao êthos, aos costumes), Cícero cunha moralis a partir de mos, mores («costumes»); daqui provém «moral».

Resultado: Cunhando termos como qualitas e moralis, Cícero dotou o latim — e, através dele, o português — de um vocabulário abstrato de que ainda hoje nos servimos: foi verdadeiramente o criador da língua filosófica latina.

Foco no Exame Nacional

  • Explicar o papel de Cícero como criador da prosa e do vocabulário filosófico latino (exemplos: qualitas, moralis, officium).
  • Caracterizar o ecletismo ciceroniano como síntese de fontes gregas (Academia, Estoicismo) ao serviço de uma moral prática romana.

Erros frequentes

  • Julgar que Cícero foi um filósofo «de sistema próprio»: foi um pensador eclético, que sintetizou fontes gregas.
  • Pensar que se limitou a traduzir os Gregos: criou vocabulário novo e adaptou o pensamento à cultura romana.
  • Confundir ecletismo com falta de originalidade — a originalidade de Cícero está justamente na síntese e na expressão latina.

Revisão ativa

Explica, com dois exemplos (por exemplo qualitas e officium), como Cícero criou ou fixou vocabulário filosófico latino a partir do grego.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Cícero e a prosa filosófica latina) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 03

As obras de reflexão moral: De Amicitia, De Senectute, De Officiis#

●●○PadrãoLPAE-latim-b-cicero

Pontos-chave

Foi entre 46 e 44 a.C., afastado da vida pública, que Cícero compôs, num ritmo notável, o essencial da sua obra filosófica e moral (ver Fig. 4). São textos dirigidos aos Romanos cultos, quase todos em forma de diálogo, que põem a filosofia grega ao serviço de uma sabedoria prática — como viver bem, como ser amigo, como envelhecer, como cumprir os deveres. Nelas, o filósofo e o moralista completam o orador e o político.

As obras filosóficas de Cícero

As obras filosóficas de CíceroTabela com 3 colunas e 6 linhas, Dados: Obra (e data) · Tema · Forma dialógica; De Amicitia — 44 a.C. · A amizade verdadeira (uera amicitia) · Diálogo: fala Lélio (Laelius); De Senectute — 44 a.C. · A velhice serena · Diálogo: fala Catão, o Velho; De Officiis — 44 a.C. · Os deveres: o honesto e o útil · Tratado dirigido ao filho Marco; Tusculanae Disputationes — 45 a.C. · A felicidade, a morte, a dor, as paixões · Diálogo escolar (disputatio); De Re Publica — 54–51 a.C. · A melhor forma de Estado · Diálogo; inclui o Somnium Scipionis; De Finibus — 45 a.C. · O sumo bem e o sumo mal · Diálogo entre as escolas, célula destacada: Tratado dirigido ao filho MarcoOBRA (E DATA)TEMAFORMA DIALÓGICADE AMICITIA — 44A.C.A amizade verdadeira (ueraamicitia)Diálogo: fala Lélio(Laelius)DE SENECTUTE — 44A.C.A velhice serenaDiálogo: fala Catão, o VelhoDE OFFICIIS — 44A.C.Os deveres: o honesto e oútilTratado dirigido ao filhoMarcoTUSCULANAEDISPUTATIONES — 45A.C.A felicidade, a morte, ador, as paixõesDiálogo escolar (disputatio)DE RE PUBLICA —54–51 A.C.A melhor forma de EstadoDiálogo; inclui o SomniumScipionisDE FINIBUS — 45A.C.O sumo bem e o sumo malDiálogo entre as escolas
Fig. 4Fig. 4 — As obras de reflexão moral e filosófica de Cícero: título, tema e forma. Note-se que o De Officiis é um tratado, não um diálogo.
O De Amicitia (Laelius de Amicitia, 44 a.C.) é um diálogo em que Caio Lélio, evocando o amigo falecido Cipião Emiliano, discorre sobre a amizade verdadeira (uera amicitia). Para Cícero, a amizade autêntica assenta na uirtus e num acordo profundo de valores, é desinteressada e faz do amigo « alter idem », «um outro eu mesmo». É a mais lida das suas obras morais e uma referência de toda a reflexão europeia sobre a amizade.
O De Senectute (Cato Maior de Senectute, 44 a.C.) é um diálogo em que Catão, o Velho, já com oitenta e quatro anos, defende a velhice das queixas habituais: longe de ser apenas perda, a velhice pode ser serena, ativa e sábia, coroamento de uma vida bem vivida. O De Officiis (44 a.C.), por seu lado, não é um diálogo, mas um tratado dirigido ao filho Marco, sobre os deveres (officia) e sobre a relação entre o honesto (honestum) e o útil (utile); inspirado no estoico Panécio, foi a mais influente das obras morais de Cícero.
A estes juntam-se as Tusculanae Disputationes (45 a.C.), cinco livros sobre como alcançar a felicidade, vencendo o medo da morte, a dor e as paixões, e o De Re Publica (54–51 a.C.), diálogo sobre a melhor forma de Estado, que encerra o célebre Somnium Scipionis (o Sonho de Cipião), sobre o destino das almas e a recompensa dos que servem a pátria. Em conjunto, estas obras transmitem uma moral serena e prática, a meio caminho entre a especulação grega e o sentido romano do dever.
Exemplo resolvido

Comentar a definição de amizade do De Amicitia

Analisa e traduz a definição « Est enim amicitia nihil aliud nisi omnium diuinarum humanarumque rerum cum beneuolentia et caritate consensio » (De Amicitia 20) e comenta-a brevemente.

  1. 01Reconhecer a estrutura

    É uma definição: sujeito amicitia; « nihil aliud nisi… » («nada mais senão…»); predicativo consensio («acordo, harmonia, consenso»).

  2. 02Analisar os termos

    « omnium diuinarum humanarumque rerum » é genitivo («de todas as coisas divinas e humanas»); « cum beneuolentia et caritate » é ablativo com cum («com benevolência e afeto»).

  3. 03Traduzir

    « A amizade não é senão o acordo em todas as coisas divinas e humanas, com benevolência e afeto. »

Resultado: A definição mostra que, para Cícero, a amizade verdadeira é um acordo total de valores, fundado na uirtus e no afeto, e não no interesse — daí a força e a permanência da fórmula ciceroniana.

Foco no Exame Nacional

  • Identificar as principais obras de reflexão moral (De Amicitia, De Senectute, De Officiis) e os respetivos temas.
  • Reconhecer a forma dialógica destas obras (e a exceção do De Officiis, tratado dirigido ao filho) e o Somnium Scipionis no De Re Publica.

Erros frequentes

  • Trocar os temas das obras (De Amicitia = amizade; De Senectute = velhice; De Officiis = deveres).
  • Tratar o De Officiis como diálogo: é um tratado dirigido ao filho Marco.
  • Esquecer que o Somnium Scipionis (Sonho de Cipião) pertence ao De Re Publica.

Revisão ativa

Associa cada obra ao seu tema e indica qual delas não tem forma dialógica: De Amicitia, De Senectute, De Officiis, De Re Publica.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (As obras de reflexão moral de Cícero) (Direção-Geral da Educação (DGE))

§ 04

A herança de Cícero#

●●●AprofundamentoLPAE-latim-b-cicero

Pontos-chave

A influência de Cícero na cultura europeia é imensa e prolongada. A sua prosa tornou-se o modelo escolar do latim: durante séculos, aprendeu-se a escrever — e, em boa medida, a pensar em períodos ordenados — imitando Cícero. O Renascimento fez dele o ídolo dos humanistas (o «ciceronianismo»), e Petrarca venerava-o; o De Officiis foi, aliás, um dos primeiros livros a serem impressos, logo nos alvores da tipografia. Poucos autores marcaram tanto a educação ocidental.
Através de Cícero, um vocabulário abstrato inteiro entrou no latim e, dele, nas línguas românicas e europeias. Palavras portuguesas de uso corrente como «qualidade», «moral», «noção» ou «compreensão» reconduzem-se, direta ou indiretamente, às escolhas com que ele verteu o pensamento grego. Deste modo, a herança de Cícero não é apenas literária: está inscrita na própria maneira como falamos das coisas do espírito.
As suas frases, enfim, sobreviveram e passaram a património comum (ver Fig. 5). « O tempora, o mores! » = « Ó tempos, ó costumes! » e « Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? » = « Até quando, afinal, abusarás, Catilina, da nossa paciência? » citam-se ainda hoje; « Summum ius, summa iniuria » lembra que o direito levado ao extremo se converte em injustiça, « Silent enim leges inter arma » que as leis se calam entre as armas, e « Historia magistra uitae » que a história é mestra da vida. São sententiae que atravessaram vinte séculos.

Expressões ciceronianas célebres

Sententiae ciceronianasTabela com 3 colunas e 7 linhas, Dados: Expressão latina · Tradução · Obra; O tempora, o mores! · Ó tempos, ó costumes! · 1.ª Catilinária; Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? · Até quando, afinal, abusarás, Catilina, da nossa paciência? · 1.ª Catilinária; Cum tacent, clamant · Ao calarem-se, gritam · 1.ª Catilinária; Summum ius, summa iniuria · O direito levado ao extremo é a extrema injustiça · De Officiis; Silent enim leges inter arma · Pois as leis calam-se entre as armas · Pro Milone; Historia magistra uitae · A história, mestra da vida · De Oratore; Salus populi suprema lex esto · A salvação do povo seja a lei suprema · De Legibus, célula destacada: Ó tempos, ó costumes!EXPRESSÃO LATINATRADUÇÃOOBRAO TEMPORA, OMORES!Ó tempos, ó costumes!1.ª CatilináriaQUO USQUE TANDEMABUTERE, CATILINA,PATIENTIA NOSTRA?Até quando, afinal,abusarás, Catilina, da nossapaciência?1.ª CatilináriaCUM TACENT,CLAMANTAo calarem-se, gritam1.ª CatilináriaSUMMUM IUS, SUMMAINIURIAO direito levado ao extremoé a extrema injustiçaDe OfficiisSILENT ENIM LEGESINTER ARMAPois as leis calam-se entreas armasPro MiloneHISTORIA MAGISTRAUITAEA história, mestra da vidaDe OratoreSALUS POPULISUPREMA LEX ESTOA salvação do povo seja alei supremaDe Legibus
Fig. 5Fig. 5 — Algumas sententiae ciceronianas que passaram ao património comum da cultura europeia.
Também para a cultura portuguesa Cícero foi decisivo: o período ciceroniano influenciou a prosa artística e a eloquência, e a sua reflexão moral alimentou a tradição humanista. Hoje, lê-se Cícero tanto como literatura — pela beleza da prosa — quanto como ética — pela sabedoria prática das obras morais. Reunir num só homem o orador, o político e o filósofo, e legar à Europa a sua língua do pensamento, é o que faz de Cícero um clássico permanente.
Exemplo resolvido

Comentar uma sententia: « O tempora, o mores! »

Analisa, traduz e comenta a exclamação « O tempora, o mores! », de Cícero.

  1. 01Analisar a forma

    « O » é uma interjeição exclamativa; tempora (acusativo plural neutro de tempus) e mores (acusativo plural de mos) estão no acusativo de exclamação.

  2. 02Traduzir

    « Ó tempos, ó costumes! » — uma exclamação de indignação e lamento.

  3. 03Situar o contexto

    Pertence à 1.ª Catilinária (63 a.C.): Cícero lamenta a decadência moral perante a conjura de Catilina, que o Estado tolera sem agir.

Resultado: A fórmula tornou-se universal para lamentar a decadência de uma época: é um exemplo perfeito de como a prosa de Cícero entrou na cultura europeia e nela permaneceu (ver Fig. 5).

Foco no Exame Nacional

  • Reconhecer a herança de Cícero — o modelo da prosa, o vocabulário filosófico e as sententiae — na cultura europeia e portuguesa.
  • Comentar uma expressão ciceroniana, traduzindo-a e explicando o seu alcance.

Erros frequentes

  • Atribuir a outros autores sententiae que são de Cícero (ou inventar-lhes a autoria).
  • Reduzir a herança de Cícero à oratória, esquecendo o vocabulário filosófico e a prosa como modelo.

Revisão ativa

Traduz « O tempora, o mores! » e « Summum ius, summa iniuria » e explica por que a prosa de Cícero se tornou um modelo de eloquência para a Europa.

Evocação ativa

Recorda os pontos-chave — depois revela.

Fontes: Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (A herança de Cícero) (Direção-Geral da Educação (DGE))

Conteúdo

Secção -- / 04

    • 01Cícero: orador, político e filósofo (fim da República)○
    • 02A criação da prosa e do vocabulário filosófico latino◐
    • 03As obras de reflexão moral: De Amicitia, De Senectute, De Officiis◐
    • 04A herança de Cícero●

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Dos resumos à prática

Reflexão filosófica: textos de Cícero

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Referências e fontes

Fontes

Direção-Geral da Educação (DGE)

  • Aprendizagens Essenciais de Latim B — 12.º ano (Cultura e literatura latinas: Cícero)

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